Anotações acerca
da Especialização Flexível
e o Caso Brasileiro

Adelia Maria Miglievich Ribeiro*

Sumário - Com base na bibliografia internacional e nacional contemporânea, o artigo aponta para as principais características do modelo de especialização flexível derivadas da falência do modelo fordista e conseqüente reestruturação produtiva; leia-se, introdução de novas tecnologias, novos padrões organizacionais da empresa, novas competências do trabalhador e uma inédita relação entre as empresas. Aborda-se, também, a ambivalência da especialização flexível em termos de reais benefícios para a classe trabalhadora, com foco especial no contexto brasileiro.


*Adelia Maria Miglievich Ribeiro é mestre em Sociologia pelo IUPERJ.


Um breve retrospecto acerca do histórico do mundo do trabalho, no atual século, evidencia, já em meados dos anos 60, problemas incontornáveis no modelo fordista de produção. A rigidez dos investimentos de capital fixo de larga escala e de longo prazo em sistemas de produção em massa bem como o crescimento estável em mercados de consumo invariantes constituíam um cenário cada vez mais longínquo.

A profunda recessão de 1973, exacerbada pelo choque do petróleo, retirou o capitalista do sufocante torpor e pôs em movimento um conjunto de processos que solaparam os compromissos fordistas, como o pleno emprego, a produção em massa, a não exigência de qualificação de mão-de-obra, a economia de escala. A acumulação flexível surge, portanto, marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, inéditas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, reestruturação dos mercados, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional.

A redução dos mercados e o conseqüente acirramento da concorrência entre as empresas tornaram-se os principais fatores da obsolescência da automação rígida com base técnica eletromecânica, a qual se desenvolvera sob a égide do fordismo. Baseada na fabricação em grandes quantidades, a automação rígida implica a incorporação orgânica da memória que estabelece a seqüência das operações na máquina. Não há como comportar modificações no tipo ou seqüência das operações. Mudar significaria adquirir outra máquina.

Hoje, o mercado de trabalho passa por radical reestruturação. Diante da volatidade do mercado, do aumento da competição e do estreitamento das margens de lucro, os patrões tiram proveito do "enfraquecimento" do poder sindical e da grande quantidade de mão-de-obra excedente para impor regimes e contratos de trabalho mais flexíveis, distintos de empresa para empresa.

Esses arranjos de emprego flexíveis não criam, por si mesmos, uma insatisfação trabalhista forte. Entretanto, os efeitos agregados, quando considerada a perda da cobertura de seguro, dos direitos de previdência, dos níveis salariais e da segurança no emprego, explicitam o prejuízo para a classe trabalhadora.

A transformação da estrutura do mercado de trabalho teve como paralelo mudanças na organização industrial. Na Europa, a "subcontratação organizada", por exemplo, abre oportunidades para a formação de pequenos negócios e, em alguns casos, permite que sistemas mais antigos de trabalho doméstico, artesanal, familiar e paternalista revivam e floresçam como peças centrais e não apêndices do sistema produtivo.1

A produção em pequenos lotes e a subcontratação tiveram o mérito de superar a rigidez do sistema fordista e de atender a uma gama bem mais ampla de necessidades do mercado, inclusive aquelas rapidamente cambiáveis. Tais modelos de especialização flexível propiciaram uma aceleração do ritmo da inovação ao lado da penetração em nichos de mercado altamente especializados e de pequena escala. Atenta para as modas fugazes e a mobilização de todos os artifícios de indução de necessidades e de transformação cultural, a especialização flexível nasceu e conseguiu conviver com todo o fermento, instabilidade e qualidades fugidias de uma estética pós-moderna que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercantilização de formas culturais. 2

Resta saber se narramos uma dolorosa crise na configuração do capitalismo do fim do século ou se assinalamos um novo regime de acumulação capaz de conter as contradições do capitalismo para as próximas gerações. Aqui vale a pena registrar o modelo de produção existente na Itália, nos distritos da região do Norte cunhada Emiglia Romana, onde se evidenciou uma produção têxtil marcadamente flexível bem como a junção competitividade/cooperação:

Esses distritos foram definidos por três características mutuamente dependentes. A primeira, mais óbvia característica, era a relação dos distritos com o mercado. Os distritos produziam uma ampla cadeia de produtos para mercados regionais altamente diferenciados /.../ eles ­p;distritos - constantemente alteravam os produtos, em parte devido à mudança de gostos, em parte, para mudar os gostos, a fim de criar novos mercados. Essa relação era motivada e dependia, por sua vez, da segunda e terceira características dos distritos industriais: seu uso flexível da produção crescente, larga utilização de tecnologia e sua criação de instituições regionais que equilibrassem cooperação e competição entre as firmas, a fim de estimular uma permanente inovação. 3

Do ponto de vista da integração externa ­p; com clientes e fornecedores, o novo padrão de organização da produção apóia-se na "estratégia de negócios" ­p; definição dos produtos e mercados de competição da empresa ­p; e na "estratégia de produção" ­p; definição do número e características das tecnologias de processo, determinação do grau de verticalização da produção, recursos humanos, organização do trabalho, qualidade, planejamento e controle da produção.

Michael Piore e Charles Sabel, 4 otimistas, consideram que o novo modelo da especialização flexível tem na descentralização da produção e em novos usos do trabalho ­p;ancorados na reintegração do trabalho de execução e concepção ­p;seus principais atributos de forma a constituir-se, como característica central do paradigma, a polivalência dos trabalhadores ­p; flexibilização horizontal e, sobretudo, vertical.

Crêem os autores que as novas tecnologias abrem a possibilidade de uma reelaboração das relações de trabalho e dos sistemas de produção em bases sociais, econômicas e geográficas inteiramente distintas, representadas por uma organização industrial sustentada em linhas descentralizadas e democraticamente controladas.

Horst Kern e Michael Schumann 5 apontam para a relevância da qualificação profissional que, junto à introdução de novas tecnologias, permitiriam o alcance de melhores taxas de produtividade.

Os principais contornos da "especialização flexível" centram-se em dois eixos que, não necessariamente, respaldam o otimismo dos autores citados em relação aos benefícios para o trabalhador:

a. Processo de produção


b. Trabalho
Seria ingenuidade supor qualquer espécie de "determinismo tecnológico". O emprego de novas tecnologias depende, crescentemente, da inovação nas formas de organização do trabalho adotadas pela empresa, das exigências do mercado, da política industrial vigente, dos fatores culturais e da adaptação a padrões de qualidade concorrentes. Segundo Fleury, 7 da organização do trabalho e das mudanças na concepção gerencial dependerá a maior ou menor rentabilidade econômica de uma dada inovação tecnológica. Necessário se faz inverter a reestruturação da empresa: primeiramente, redefinição dos padrões organizacionais; em seguida, incorporação da microeletrônica.

Benjamin Coriat 8 atenta para o fato de que os custos de produção nos processos automatizados passam a se basear cada vez mais na taxa de utilização das máquinas e equipamentos e cada vez menos na intensificação do "trabalho vivo". Ora, a intensificação cada vez menor do "trabalho vivo" cede lugar a manipulações simbólicas e a funções mais abstratas. Tal fato implica, paradoxalmente, a relevância deste mesmo "trabalho vivo". Transferi-lo para a máquina significa supô-la mais autônoma do que ela é.

Segue que Benjamin Coriat e Afonso Fleury apontam para a exigência de uma maior qualificação do trabalhador. Pede-se a ele habilidades múltiplas, certa dose de autonomia e o desenvolvimento do chamado "conhecimento tácito". Trata-se da "intelectualização da produção", que inclui um forte aumento de aspectos como participação e formação, da qual depende a própria eficiência técnica e estratégica das empresas. O novo paradigma exigiria que o trabalhador tomasse cotidianamente microdecisões dada a maior complexidade da manutenção que implicaria a progressiva fusão, num mesmo cargo, das tarefas de fabricação e manutenção; assim como a informatização necessitaria de uma contínua interação do pessoal de produção com a parte do comando das instalações e com os sistemas de planejamento e controle da produção.

De fato, todas as monografias existentes acerca dos novos ofícios ligados à automatização/informatização convergem na ênfase sobre a "polifuncionalidade" dos operadores. Verdade é que a polivalência é desigual segundo as empresas, mas está sempre presente, associando as tarefas de vigilância e de operacionalização às de regulação, programação, controle e, em alguns casos, manutenção, gestão de produção e gestão de todo o sistema. Isto equivaleria ao ápice da polivalência em seu sentido não deturpado.

A variável qualificação, contudo, pode derivar em distintas e mesmo contraditórias tendências: 1. desqualificação em termos absolutos e relativos (perda do ofício com a fragmentação das atividades de trabalho); 2. requalificação (elevação da qualificação média do trabalhador); 3. polarização (pequeno número de funcionários altamente qualificados, grande massa desqualificada); 4. qualificação absoluta e desqualificação relativa (qualificação média elevada, redução do entendimento dos processos tecnológicos e do avanço da ciência).9

Hubert Schmitz 10 alerta para o fato de que, nas empresas americanas e inglesas, a tendência foi oposta à polivalência. Incrementou-se a divisão do trabalho entre operadores e programadores das máquinas, isto significa que a concepção e o planejamento não saiu da "administração" para o "chão de fábrica". Já nas empresas escandinavas, efetuou-se tal ligação: co-participação operadores/programadores.

Não são poucas as modalidades de participação dos trabalhadores na empresa, quer por iniciativas patronais ­p; CCQ, Kanban, Just-in-time ­p; quer por iniciativa da classe trabalhadora ­p; comissões de fábrica, conselhos de empresa, grupos de expressão direta, etc.

O presente estudo não pretende inserir-se na polêmica acerca das vantagens e desvantagens dos modelos organizacionais citados ­p; esta discussão merece outro artigo. Há quem diga que tais modalidades são, nada mais, nada menos, que uma estratégia para maior produtividade e eficiência do capital; por outro lado, há quem defenda que se trata de formas de atendimento às reivindicações dos trabalhadores.

A título de exemplo, passemos a caracterizar duas "modalidades de participação":
A especialização flexível, conforme já mencionamos, supõe novas formas de gestão que não se reduzem ao determinismo tecnológico. É certo que os instrumentos de trabalho passam a assumir funções as quais, em princípio, converte-os em complexos de produção autônomos. Os objetos trabalhados já não são simples matérias-primas naturais, mas sofrem significativas transformações químicas, o trabalhador já não é mais o único fator subjetivo de produção, os computadores o liberam, em parte, desse aspecto. A ciência converte-se definitivamente em força produtiva.

Coriat 13 esclarece que, apesar do princípio em que se apóia a integração propiciada pela automação microeletrônica ser o mesmo da "organização científica do trabalho", ou seja, a eliminação de tempos mortos, na especialização flexível, a eliminação de tempos mortos baseia-se numa lógica distinta daquela do taylorismo: ao invés de assentar-se na intensificação do trabalho, busca-se garantir a produtividade através da racionalização dos tempos das máquinas.

Não se trata do desaparecimento da ênfase no ritmo de trabalho da fábrica automatizada, ao contrário, por mais que o trabalho esteja se tornando uma tarefa de controle e supervisão das máquinas ­p; nas indústrias de ponta ­p; as cadências e os ritmos permanecem.

Se, por um lado, abrem-se ofícios que pedem ao trabalhador competências relacionais, por outro, parece dar-se marcha-à-ré no processo ao se verificar a parcelarização do ofício, a precarização das condições de trabalho, a marginalização da mão-de-obra desqualificada. Tal ambivalência manifesta-se também em nível do conteúdo e da organização do trabalho : "eliminação do trabalho vivo"; intensificação do trabalho; reduções maciças de pessoal. Tais fatores bloqueiam as capacidades inovadoras e paralisam os esforços de aprimoramento da circulação da informação e das permutas de saberes e experiências.

Tendo em vista as inúmeras transformações nos conceitos de produção, torna-se claro seus efeitos drásticos sobre as condições de trabalho, o que suscitou uma série de reações por parte dos estudiosos, sindicalistas, trabalhadores em geral.

Kern & Shumann, 14 fundamentados em extensa pesquisa desenvolvida nos setores da indústria química, automobilística e de máquinas-ferramentas, concluem que a racionalização trazida pelo modelo da especialização flexível leva, inelutavelmente, à diminuição das taxas de emprego, conseqüência perversa do enriquecimento do conteúdo do trabalho. Ambivalência de uma "integração informacional" que só envolve uma elite super-selecionada, que, não necessariamente ascende de cargos e tem seu rendimento acrescido, apesar do domínio das competências técnicas, cognitivas e sócio-comunicativas, em suma, competências relacionais.

Já Piore & Sabel 15 enxergam o declínio da verticalização da produção ­p; isto é, a combinação concepção/execução ­p; a proliferação de pequenas e médias empresas, o sistema de oficina, a emergência de novos padrões de uso do trabalho, negando, pois, a inexorabilidade do desemprego.

Não restam dúvidas de que a organização do processo de trabalho depende do contexto político-econômico, dos padrões culturais regionais e, sobretudo, da relação de força entre capital e trabalho, isto é, da capacidade de luta dos trabalhadores no sentido de adquirirem maior controle sobre o processo produtivo.

O caso brasileiro merece atenção especial. Apesar do processo de industrialização aqui ter se dado com velocidade e vigor notáveis, sua marca é o baixo dinamismo tecnológico, fragilidade crucial no momento de reestruturação com base na aceleração da mudança tecnológica pela qual passamos:

A baixa prioridade atribuída historicamente à capacitação tecnológica no Brasil, aliada aos efeitos da crise sobre o investimento, que terminaram por retardar o processo de modernização e difusão de novas tecnologias e técnicas organizacionais, são os determinantes mais diretos da relativa permanência de processos de trabalho convencionais, assentados sobre o princípio taylorista da separação entre o saber e o fazer. 16

Em que pese os setores de ponta, prevalece, no Brasil, processos de trabalho industriais com mínimo grau de automação, organizados com base na fragmentação do trabalho evidenciada nos postos de trabalho com tarefas simplificadas. A maior parte da força de trabalho industrial compõe-se de trabalhadores semiqualificados ou não-qualificados, com baixo grau de escolarização formal e experiências de treinamento de curta duração. As políticas de pessoal aprisionam-se numa mesma e ultrapassada visão estreita: inexistência de carreiras, baixos salários, demissão como instrumento disciplinador, pouco interesse na fixação da força de trabalho.

Investimentos em pesquisas e desenvolvimento são ainda raros, predominando a mera aquisição de tecnologia externa. A possibilidade de aprendizagem através da cooperação com outras empresas, institutos de pesquisa, universidades, clientes, etc. constitui algo pouco explorado na tradição das empresas brasileiras, as quais preferem contratar consultorias caríssimas na ilusão de terem acesso a métodos desconhecidos pelos concorrentes. 17

Não se nega a modernização de alguns setores produtivos no Brasil orientados pela melhoria drástica de suas capacidades concorrenciais no mercado externo ­p; os denominados "setores de ponta". A crescente onda pelo aumento da eficiência conduz a uma espécie de efeito em "bola de neve". Inicialmente, a pressão concorrencial é exercida apenas sobre as firmas e empresas exportadoras de setores específicos, progressivamente, a pressão é repassada aos fornecedores que assimilam os métodos de garantia da qualidade.

Junto à incorporação da microeletrônica, introduzem-se novos conceitos organizacionais. Em geral, as empresas tendem à utilização de um determinado instrumento ­p; círculo de qualidade, por exemplo ­p; ou perseguem um objetivo concreto ­p; a certificação, por exemplo, de acordo com as normas da ISO 9000. São tentativas de adaptação às receitas oferecidas pela literatura afim e pelos consultores.

A verdade, contudo, é que o sucesso na introdução dos novos conceitos organizacionais liga-se estreitamente a modificações estruturais externas à organização do trabalho: estabilidade no emprego e investimento em formação para os trabalhadores. Redução dos planos hierárquicos sem questionar as prerrogativas dos dirigentes, polivalência ­p; no sentido real do termo ­p; apenas para um número reduzidíssimo de trabalhadores, rotatividade entre postos de trabalho como intensificação do trabalho e não enquanto criação de um verdadeiro espírito de equipe nada têm de conquista para o trabalhador pós-fordista.

Uma das fortes barreiras a serem enfrentadas é, indubitavelmente, a cultura empresarial. Os países periféricos possuem uma longa tradição de autoritarismo e centralização da administração alicerçada numa sólida separação social vinculada à desconfiança mútua entre dirigentes e empregados.

Em suma, qualquer aumento de competitividade deve envolver a modernização das unidades de produção nos aspectos tecnológico, estratégico e cultural. Não há modernização que se complete com soluções de ordem meramente econômica. Ao contrário, exige-se uma ampla transformação na percepção do trabalho, que inclui a educação profissional.

Em geral, os operários possuem notáveis conhecimentos devido à experiência e capacidade prática, entretanto, grandes lacunas em sua qualificação geral. Trata-se de combater o "analfabetismo funcional" a fim de se implementar novos conceitos organizacionais. Não se nega que os custos de uma flexibilização na gestão da empresa podem vir a ser altos, caso se despreze uma boa administração do processo de mudança e os custos bem calculados.

Entre os novos empresários ou aqueles "reciclados" está claro que a fim de se garantir que os mecanismos de capacitação tecnológica possam produzir frutos reais é necessária uma "massa" inicial mínima de conhecimentos tecnológicos e industriais; um sistema de valores e normas suficientemente convincente para funcionar como tal; modelos organizacionais modernos e alternativos aos importados e educação profissional.

No Brasil, assim como nos demais países periféricos, a dinâmica de ajustamento ao novo cenário internacional longe de constituir um processo de reestruturação estritamente econômico, é, também, um fenômeno de profundas conseqüências sociais. As taxas de desemprego, a redução dos salários médios, o aumento do trabalho informal, a gravidade da exclusão social não se intensificam por si mesmas mas também como resultado da reestruturação produtiva tal como esta ocorre.

Se nos países industrializados, apesar do crescimento econômico respeitável, o desemprego triplicou na última década dada à economia de mão-de-obra, aumento dos custos do trabalho e inovações tecnológicas, nos "países em desenvolvimento", o quadro agrava-se. A racionalização das empresas acoplada à contração do mercado interno geram desemprego e possíveis desdobramentos sobre as normas que regulam a relação salarial.

Contraditoriamente, são nesses momentos mais carentes de políticas compensatórias que estas se tornam mais difíceis de serem efetivadas. Nos anos 90 , seria necessário, para se ter um quadro de pleno emprego, a criação de 1 bilhão de novos postos de trabalho.

Sérgio Salerno 18 faz o seguinte diagnóstico do quadro brasileiro:
Não restam dúvidas de que a inserção do Brasil na nova ordem econômica mundial não pode ser vista como um imperativo que descarta qualquer espécie de discussão entre centro/periferia ou norte/sul, a fim de abordar as singularidades nacionais e repensar os atuais parâmetros de globalização e configuração de blocos econômicos.

A flexibilidade da produção é, em muitos casos, desnecessária. No Brasil, por exemplo, há muito espaço para economia de escala caso se considere desejável a ampliação de mercados de massa. Nesse sentido, justificam-se as fábricas com automação rígida e linha de montagem. Inimaginável é mantê-las com as péssimas condições de trabalho que acabaram por caracterizar o modelo fordista.

Por outro lado, o Brasil tem reais possibilidades de obter, na sua tecnologia e em seu trabalho, uma vantagem competitiva internacional e, ao mesmo tempo, um fator de consolidação dos mercados internos. Para tanto, urge uma interferência radical na política industrial stricto sensu . Mais do que isso, trata-se de interferir na "cultura" onde "bebem" os diversos atores sociais,capazes de dar sentido à indústria nacional.



NOTAS


1 Cf. CAPECCHI, Vittorio. La economia informal y el desarrollo de la especialización flexible en Emíllia Romagna. In: PORTES, A. La economia informal en los países desarrollados y en los menos avanzados. Buenos Aires: Planeta Política y Sociedad, 1990. Cf. NEGRI, Antonio. Le nouvel space european des entreprises: les PME italiennes, l'exemple de Benetton, le nouveau chef d'éntreprise dans l'Europe. Paris: GRAMI, 1989. Convenção de Pesquisa n. 88.31.082. Relatório de pesquisa para o Secretariado Permanente de Planejamento Urbano do Ministério de Provisão, Alocação e Organização do território e dos transportes.

2 HARVEY, David.Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Ed. Loyola, 1992.

3 PIORE, Michael, SABEL, Charles. The second industrial divide. New York: Basic Books, 1984. p. 29. A tradução é minha.

4 Id. ibid.

5 KERN, Horst, SHUMANN, Michael. La fin de la division du travail ? La rationalisation dans la production industrielle. Paris: Maison des Sciences de l'homme, 1989.

6 HARVEY, D. op. cit.

7 FLEURY, Afonso. Novas tecnologias, capacitação tecnológica e processo de trabalho: comparações entre o modelo japonês e o brasileiro. In: HIRATA, Helena (org.). Sobre o modelo japonês: automatização, novas formas de organização e relações de trabalho. São Paulo: EDUSP/Aliança Cultural Brasil Japão, 1993.

8 CORIAT, Benjamin. Pensar pelo avesso. Rio de Janeiro: UFRJ/Renan, 1994.

9 SENAI. Departamento Nacional. Cenários da indústria brasileira: formação profissional para os anos 2000. Rio de Janeiro: SENAI/Divisão de Pesquisas, Estudos e Avaliação, 1992.

10 SCHMITZ, Hubert. Flexible specialization - a new paradigm of small-scale industrialization? [S.l: s.n.] Paper.

11 HIRATA, H.. Transferência de tecnologias de gestão: o caso dos sistemas participativos. In: HIRATA, Helena (org.). Sobre o modelo japonês: automatização, novas formas de organização e relações de trabalho. São Paulo: EDUSP / Aliança Cultural Brasil Japão, 1993.

12 SANTOS, T. Revolução científico-técnica e capitalismo contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 1983.

13 CORIAT, Benjamin. op. cit.

14 KERN, Horst, SHUMANN, Michael. op. cit.

15 PIORE, Michael, SABEL, Charles. op. cit.


16 CARVALHO, Ruy de Quadros. Projeto de primeiro mundo com conhecimento e trabalho do terceiro? [S.l.:s.n.] Paper. Trabalho apresentado no XIV Encontro Anual da ANPOCS. GT "Processo de Trabalho e Reivindicações Sociais", Caxambu, 20 a 23 out. 1992.


17 VALLE, Rogério. Caminhos para uma nova indústria. [S.l.:s.n.] 1994. Paper.


18 SALERNO, M. S.. Modelo japonês, trabalho brasileiro. In: HIRATA, Helena (org.) Sobre o modelo japonês: automatização, novas formas de organização e relações de trabalho. São Paulo: EDUSP/Aliança Cultural Brasil Japão, 1993.


| Voltar |