FORMAÇÃO DE PROFESSOR

De Anísio Teixeira à Cibercultura:
Desafios para a Formação de
Professores Ontem, Hoje e Amanhã

Marco Silva*

 

Abstract

Although geared to present-day reality, this text recovers a concern already expressed by Anísio Teixeira in 1963: the worldwide revolution in means of communication cannot be ignored in training “tomorrow’s teachers.” Just when we were beginning to understand television as an indispensable pedagogical resource, as Anísio Teixeira would have it, the Internet comes along, and we end up having difficulties taking the necessary steps to improve cyberculture education. Based on the utopianism and daring of this always up-to-date educator, the article discusses the implications of cyberculture in producing the qualitative leap in the training of teachers for today and tomorrow.

Key words: Anísio Teixiera; Teachers’ Training; Cyberculture; Education For Citizenship.

 

Introdução

No texto Mestres de amanhã1 Anísio Teixeira resume sua inquietação com a formação de professores em seu tempo e em seu amanhã. Num tom meio profético, antevê desafios cada vez mais cruciais a partir do seu tempo, quando se inicia o vertiginoso alastramento mundial dos meios de comunicação, da propaganda, do consumismo, do entretenimento.
Nesse texto está a expressão de uma preocupação hoje muito generalizada, porém pouco concretizada em investimentos diretos na formação do professor. Essa preocupação pode ser explicitada assim: a educação para todos não pode ficar alheia à revolução das ciências e dos meios de comunicação de massa; a formação dos mestres de amanhã precisaria romper com a pregnância do tradicional, engajando-se no enfrentamento dos descaminhos da cultura tecnológica e consumista e na apropriação do pensamento científico e dos meios de comunicação, de modo a dominá-los e a servir-se deles, assegurando a todos a educação capaz de enriquecer a vida no planeta.

Todavia, estamos hoje ainda mais distantes da formação vislumbrada por Anísio em sua modernidade. Mal nos aproximávamos do aprendizado com a TV como recurso didático, temos agora a internet e a pós-modernidade fazendo nossas pernas ficarem mais curtas diante do passo que precisaremos dar em educação na cibercultura.

Anísio2 convocava o professor a superar seus mais caros preconceitos para fazer frente à complexidade social que se descortinava em seu tempo. Ele observava o avanço da mídia globalizando o homem comum ainda despreparado, em sua cultura local, para a avalanche de informações trazida de todo o mundo. A comunicação de massa estendia-se por todo o planeta e era preciso criar estratégias educacionais muito sensíveis ao fato de que “subitamente o homem comum não é apenas o habitante de sua rua, sua cidade, seu Estado, sua nação, mas literalmente de todo o planeta e participante de uma cultura não apenas local e nacional, mas mundial”.3Anísio4 dimensionava “o grau de cultivo mental” necessário ao cidadão preparado para não sucumbir à avalanche de informação vinda de todo o mundo, “a fim de compreendê-la e absorvê-la com o mesmo sentido de integração com que recebia a comunicação local e pessoal do seu período paroquial de vida”.

Anísio apontava para a defasagem dos professores ainda distantes do perfil necessário à nova formação dos estudantes e enfatizava: “ainda não fizemos em educação o que deveria ser feito para preparar o homem para a época que ele criou e para a qual foi arrastado”.5 Era preciso formar professores capazes de lidar com a complexidade e a amplitude do seu tempo de modo a conduzi-lo e submetê-lo a uma nova ordem humana. Era preciso preparar as novas gerações para lidarem com a mídia de massa capaz de “condicionar mentalmente o indivíduo, transformando-o em joguete das forças de propaganda e algo de passivo no campo da recreação e do prazer.”6

O professor não estava sendo preparado para atuar na “nova fase da civilização industrial”.7 Não estava sendo preparado para oferecer uma educação à altura do seu tempo. Pior, estava alheio às implicações educacionais diante da exigência de “compreensão mais delicada do valor, do significado e das circunstâncias em que a nova comunicação lhe é feita”.8

Este texto mantém o enfoque na formação de professores, porém preocupa-se mais ainda diante da constatação: o professor não se preparou para lidar com a televisão e com a cultura de massa e agora tem um cenário de maior complexidade para o qual não criou know-how quando a mídia de massa era inocente, se comparada à atual mídia digital on-line. A par do novo contexto cibercultural, sugere encaminhamentos para efetivo avanço em qualidade e ousadia na formação dos mestres de hoje e de amanhã.

SUGESTÕES AOS MESTRES DE AMANHÃ

Tomo o texto Mestres de amanhã9 com muito respeito à lucidez do seu ponto de vista crítico traduzido em efetiva contribuição à formação de professores. Nele, Anísio procura antever “o que poderá ser o mestre dos dias vindouros”, priorizando sobretudo o mestre do ensino comum destinado a todos, o mestre da escola primária e da secundária, uma vez que esse mestre “está em crise e se vê mais profundamente atingido e compelido a mudar” diante dos desafios da modernidade.

Anísio10 atentava para a defasagem do professor aturdido em meio às transformações operadas nos grandes empreendimentos que dirigem a informação e as diversões modernas: a imprensa, o cinema, o rádio e a televisão assumindo enorme extensão e poder a ponto de determinar corações e mentes, mesmo alargando os horizontes da aldeia local para o global. Reconhecia que o esforço pela educação do homem não ultrapassava os objetivos de prepará-lo para “uma sociedade muito mais singela do que a sociedade moderna”. E tinha muito claro que a educação capaz de fazer frente ao seu tempo ainda estava para ser concebida e planejada, que o mestre capaz de educar verdadeiramente deveria ser dotado de cultura e “treino” que apenas começavam a ser imaginados.

Tratava-se então de preparar mestres capazes de enfrentar os recursos midiáticos baseados na propaganda e na diversão comercializada implicando condicionamento político e ideológico do homem. Até então, a formação do professor o preparava para ser “o guardião e transmissor da cultura. Tanto quanto possível era ele o transmissor de uma cultura cuja significação e limites conhecia e, sobretudo, era o mais importante transmissor dessa cultura, estando em seu poder comandar até certo ponto a formação do educando.”11 Doravante, o mestre deveria se preparar para lidar com a cultura intrinsecamente dinâmica, com a vida que exige delicados e constantes reajustamentos.

O perfil clássico do mestre estaria cada vez mais em crise. Com a expansão dos meios de comunicação, ele estaria perdendo o antigo poder de guardião e transmissor do saber, passando a ser apenas um contribuinte para a formação do aluno, que recebe, em relativa desordem, por esses novos meios de comunicação, imprensa, rádio e televisão, massa incrível de informações e sugestões provenientes de uma civilização agitada por extrema difusão cultural e em acelerado estado de mudança.12

A destruição de costumes, hábitos e de velhas crenças e preconceitos faz Anísio13 perguntar: “quanto vai o homem depender de sua cultura formal e consciente, de seu conhecimento intelectual, simbólico e indireto, para se conduzir dentro da nova e desmesurada amplitude de sua vida pessoal”. Sua resposta passava antes pela constatação: “São, portanto, de assustar as responsabilidades que aguardam o mestre de amanhã.”14

Como estar além do guardião e transmissor da cultura? Como educar o “homem comum” para não sucumbir à excessividade caótica dos meios de comunicação? Anísio15 enfatiza:

Será imensa a tarefa do professor secundário e grande deve ser o preparo, para que possa conduzir o jovem nessa tentativa de dar à sua cultura básica a largueza, a segurança e a perspectiva de uma visão global do esforço do homem sobre a terra.

As sugestões de como fazer, Anísio16 as reúne a partir do que considera mais avançado na ocasião. Cita a comprehensive school americana e o colégio universitário de Keele, Inglaterra, mas vai além do que destaca em tais instituições.

¤ Expor aos estudantes uma diversidade de abordagens sobre conteúdos de aprendizagem e convidá-los a apreciar, sentir, rever, discutir, motivando a análise e a humildade diante dos conhecimentos já sistematizados e dos problemas que defrontam a civilização ocidental na nova era industrial e midiática. A sala de aula “lembrará muito mais um laboratório, uma oficina, uma estação de televisão, do que a escola de ontem e ainda de hoje”.17 E o mestre não será “o antigo mestre-escola a repetir nas classes um saber já superado”. Ele “lembrará muito mais o bibliotecário apaixonado pela sua biblioteca, o conservador de museu apaixonado por seu museu, e no sentido mais moderno, o escritor de rádio, de cinema ou de televisão apaixonados pelos seus assuntos, o planejador de exposições científicas”.18

¤ Lançar mão de equipamentos e de meios de comunicação e oferecer a cada jovem, antes de terminar o nível secundário de estudos um quadro da cultura contemporânea, desde os seus primórdios até os problemas e complexidades dos dias presentes. Oferecer a contribuição excelente de professores especializados “através dos recursos da televisão, do cinema e do disco, podendo levar todos os jovens a ver e ouvir, ou, pelo menos, a ouvir, esses especialistas e, a seguir, com o professor da Classe, desdobrar, discutir e completar as lições que grandes mestres desse modo lhe tenham oferecido”.19 “O mestre seria algo como um operador dos recursos tecnológicos modernos para a apresentação e o estudo da cultura moderna”.20 Em suma, estando o mestre “rodeado e envolvido pelo equipamento e pela tecnologia produzida pela ciência, não lhe seria difícil ensinar o método e a disciplina intelectual do saber que tudo isso produziu e continua a produzir.”21

Estas sugestões deveriam ser “o programa de educação comum do homem moderno”. No entanto, Anísio22 advertia: “nossa tarefa é hoje muito mais difícil”. Havia a dificuldade de fazer chegar essa educação a todos, ao homem comum. Havia também a dificuldade diante da reviravolta que se operava com a transição da “cultura clássica” para a “cultura científica moderna”. Suas sugestões visavam, portanto, enfrentar a dificuldade da inclusão do homem comum na educação moderna e a dificuldade de desenvolver a educação capaz de lidar com a passagem da “cultura clássica” para a “complexa, variada e, sob muitos aspectos, abstrusa cultura científica moderna”, sem perder o compromisso com a formação cidadã, isto é, a formação capaz de desenvolver no indivíduo uma visão de mundo criticamente sintonizada com sua atualidade.

Para colocar em prática tais sugestões, Anísio convidava os “mestres de amanhã” a uma indagação oportuna e valiosa: “O que haverá já hoje que nos possa sugerir o que poderá ser a escola de amanhã?”.23 E, tendo como resposta os meios de comunicação, os mestres deveriam assumir o rádio, o cinema e a televisão como seus grandes aliados. Sobre isso a convicção de Anísio era explícita: “Diante dos novos recursos tecnológicos, ouso crer ser possível a completa reformulação dos objetivos da cultura elementar e secundária do homem de hoje e, em conseqüência, de alterar a formação do mestre para essa sua nova tarefa”.24

E para instigar nos “mestres de amanhã” tal inquietação, ele25 os convidava a reparar nos profissionais da mídia que, compelidos pelo espírito de competição, “se empenharam em se pôr à altura dos recursos tecnológicos e do grau de expansão da cultura moderna”.26 A partir dessa provocação, os convidava a imaginar assim: “Algo de semelhante será o que irá suceder com a escola, com a classe e com o professor”.27 Certamente não no mesmo espírito de competição, mas na busca de ousar em educação.

O mestre lançaria mão dos “novos recursos tecnológicos e dos meios audiovisuais” não para transmitir conteúdos, ao contrário, buscaria neles rompimento com a pedagogia da transmissão. Ou seja, rádio, cinema e televisão “irão transformar o mestre no estimulador e assessor do estudante”.28 De “guardião e transmissor da cultura”, o mestre seria transformado, graças à parceria com as tecnologias de comunicação, em “guia de aprendizagem” e em “orientador em meio às dificuldades da aquisição das estruturas e modos de pensar fundamentais da cultura contemporânea”.29 Em lugar de transmitir pacotes de informações em sala de aula, o mestre, a par da dinâmica do conhecimento em permanente expansão, poderia “ensinar ao jovem aprendiz a aprender os métodos de pensar das ciências físico-matemáticas, biológicas e sociais, a fim de habilitá-lo a fazer de toda a sua vida uma vida de instrução e de estudos”. Em suma: com as tecnologias de comunicação mestres e estudantes estariam mais empenhados em “descobrir, em aumentar o saber, do que no próprio saber existente propriamente dito”.30

O PROFÉTICO E O PATÉTICO

Anísio31 antecipou inquietações que pouco chegaram ao que ele chamava de “educação comum do homem comum”. Sua antevisão, quando motivou os corações e mentes dos educadores, pouco logrou significar efetivo salto de qualidade em sala de aula. Ainda assim, seu texto mantém um desconcertante tom profético na medida em que denuncia algo muito ignorado na formação de professores: a educação escolar perde centralidade para a mídia definida pela propaganda, pelo entretenimento, transportando ao mesmo tempo senso e contra-senso; a pedagogia da transmissão não tem lugar quando tudo o que é sólido cada vez mais se desmancha na excessividade caótica das informações fragmentadas nos interesses mercadológicos.

Dizendo assim, antecipou inquietações que só vieram tomar vulto a partir da década de 1980 com a efervescência em torno do que passa, então, a se definir como teoria social pós-moderna. Aí estão pesquisadores da pós-modernidade formulando inquietações que dão continuidade às de Anísio. Pode-se falar então num Anísio profético, no sentido da predição feita por indivíduo que pretende saber ler o futuro; previsão. Suas predições só hoje ganham respeito e maior entendimento. Em resumo, pode-se falar da passagem da “modernidade fordista” presente na sociedade e na escola (o fixo, o estável, o padronizado, o homogêneo, a distribuição em massa unidirecional e uniformizante, a configuração fixa de influência e poder, autoridades e metateorias facilmente identificáveis, a idéia de um amanhã a ser construído), para a “flexibilidade pós-moderna” também presente na sociedade e na escola (a fantasia, o imaterial, o fictício, o efêmero, o acaso, a flexibilidade das técnicas de produção e de nichos de consumo, o presenteísmo, a falência das metateorias, o valor da diferença, o desbastamento da figura da instituição estável, o prazer e a diversão).32

Entre os teóricos do pós-moderno fala-se da era tecnológica atual como fase de empobrecimento de perspectivas, de fechamento de horizontes, de acentuada miséria do pensamento, estando os seres humanos cada vez mais reduzidos ao caráter tecnicista e fetichista da vida. G. Anders33 aponta para crescente debilidade do homem diante do fascínio da técnica. J. Baudrillard diz que “o indivíduo deixou de existir em um relacionamento objetivo, até mesmo ‘alienado’, com seu ambiente. Ele não é mais ‘um ator ou dramaturgo, mas... um terminal de redes múltiplas’, como um astronauta em sua cápsula, através da qual circulam mensagens eletrônicas, controladas por computador. (...) Não sobra nenhum segredo, nenhuma vida interior, nenhuma intimidade. Tudo, incluindo o indivíduo, ‘se dissolve completamente em informação e comunicação’”.34 No ambiente semiótico caótico constituído pela excessividade e instantaneidade da informação e da comunicação, o indivíduo não apresenta autodefesa ou reação à “dissolução de si mesmo”.35

Por sua vez, F. Tinland36 fala em “homem aleatório”, para definir o indivíduo cada vez mais desarmado para inventar sua rota “em um mundo onde certamente o provisório, o flutuante estenderam sua empreitada” como “revanche da contingência, da eventualidade, das bifurcações e cadeias aleatórias, do complexo sobre o simples, dos sistemas sobre o Sistema, dos fluxos e flutuações sobre os estados e as coisas. (...) Nossa história, a de cada um de nós, a dos coletivos, a da humanidade investida de uma realidade nova pela potência mesma de nossa tecnologia é aventura – aventura do homem aleatório...”37 Cito pelo menos três dos aspectos que, para Tinland,38 configuram a condição do “homem aleatório”: 1) aquele formulado por I. Prigogine, Ilya; Slengers, Isabelle. (A nova aliança),39 “segundo o qual ‘nós nos encontramos em um mundo irredutivelmente aleatório, em um mundo onde a reversibilidade e o determinismo têm a aparência de caso particular, onde a irreversibilidade e o indeterminismo microscópios são a regra’”; 2) a “derrota das filosofias da história, deixando o sujeito a descoberto”; 3) “o crescimento em potência da trama tecnológica, geradora de ameaças proporcionais às esperanças de bem-estar”. Especificamente sobre este terceiro aspecto, observo que o “homem aleatório” tem diante de si a hipermídia, o digital, a cibercultura, e que, sua fundamentação no acaso, pode se dar conta de que a potencialidade do aleatório é bem-vinda porque significa liberdade sem fronteiras, porém pode apenas dispor mais do algoritmo combinatório multimídia e saber menos como potencializar seu horizonte de possibilidades na perspectiva de um presente e de um futuro menos ameaçados.

No espaço virtual, mais especificamente a comunicação nos chats, “o usuário assume a personalidade que sua fantasia, ou sua psique, lhe propõem. Personalidades diversas, mesmo conflitantes, se preferir. Encontra para cada faceta de sua personalidade um interlocutor conveniente. Sua identidade se fragmenta e se adapta a cada nova situação.”40 Quem se assusta com isso hoje é, por exemplo, R. Cerqueira Leite, para quem:

um dos valores morais da cultura ocidental é a identidade individual, o caráter, a constância, a palavra dada. A própria honra e a honestidade estão fortemente ligadas a essa unicidade, a essa invariabilidade. Liberando o homem do seu superego, o computador dilui esse valor. Se cada cidadão pode assumir personalidades convenientes, muitas vezes uma multiplicidade delas simultâneas, então a identidade desaparece e o valor que surge será a adaptabilidade, a versatilidade. Não haverá mais ideologias, princípios. (...) Que lealdade podemos esperar de um ego desintegrado em múltiplas personalidades? Que consistência se pode exigir da versatilidade?41

Anísio não conheceu nada disso, mas antecipou com lucidez e perspicácia a tendência de agravamento da dissolução do sujeito no progresso da mídia. Hoje, na internet, as interfaces, as telas, mais geralmente as próteses (de linguagem, de saber, de inteligência), encarregam-se do indivíduo espectral, dispensando-o da presença corporal e, por conseqüência, de rituais que regulem as oposições dos corpos, evitam-lhe de engajar a totalidade de sua personalidade nas trocas com o outro. Quando não há o contrapeso da educação cidadã antenada, essa nova ambiência comunicacional acarreta a dispensa da lei e da moral, o anonimato manifesta-se como uma anomia percebida não como um sentimento de abandono, mas antes como uma liberação, uma suspensão da responsabilidade e dos códigos sociais.

Tudo isso está de certa forma antevisto no texto de Anísio, quando este observa que
o progresso científico conduz o homem nenhum de nós sabe para onde” e que o espírito do anúncio e da propaganda chega ao indivíduo antes de a escola garantir-lhe sustentação identitária como cidadão em seu tempo. Assim, o indivíduo é condicionado a desejar o supérfluo, para atender às necessidades inventadas antes de haver atendido suas reais necessidades. Em suma: “se a educação é cada vez mais fraca, o anúncio e a propaganda são cada vez mais fortes”42

O objetivo da sociedade “se reduz ao de consumir cada vez maiores quantidades de bens materiais”,43 enquanto o homem é condicionado a inventar necessidades “num delírio de busca ilimitada de falsos bens materiais”.44

Anísio viu em tudo isso “terríveis mudanças irreversíveis”. Mais: viu com perspicácia a fragilidade da escola e da formação de professores em seu tempo e doravante. Aqui a antevisão é bombástica: “ainda não fizemos em educação o que deveria ser feito para preparar o homem para a época a que foi arrastado pelo seu próprio criador”;45 “na educação comum do homem comum os progressos são os mais modestos”. Eis aí o patético evidenciando-se diante do profético. Em nossos dias estamos talvez mais distantes de realizar a formação do mestre preconizada no início da década de 1960. Ainda não fizemos em educação o que deveria ser feito... Os progressos são ainda modestos. Pode-se falar até em esquizofrenia entre o mundo fora da escola e o modelo hegemônico no sistema de ensino. Quanto à utilização de meios de comunicação, incorporados à sala de aula estes servem sobretudo para solidificar a transmissão instrumental de informações ao permitir, por exemplo, que os alunos vejam uma ameba no tamanho diretamente observável. Patético!

A pedagogia da transmissão continua implacável a despeito do modismo construtivista que veio valorizar a construção coletiva da aprendizagem pelos próprios estudantes. Já na educação on-line, via internet, cada vez mais valorizada com boas intenções ou como panacéia encobrindo interesses mercadológicos ou mesmo a incompetência na gestão do ensino presencial, prevalece o velho modelo em que o professor é o responsável pela produção e transmissão de pacotes fechados de informações para serem reproduzidas no ambiente virtual. Patético!

Enfim, prevalece a educação de massa dispensando ao conjunto da população a ser instruída um tratamento uniforme, garantido por um sistema jurídico e um planejamento centralizado. Seu modelo canônico de referência continua sendo o da transmissão para reprodução. Com ressalvas, claro! Refiro-me aos mestres que driblam a lógica da transmissão e conseguem educar. Mas, fora esses, a tendência é a sedimentação de dois tipos de professor, vitimados pelo mesmo sistema: aqueles que se devotaram ao critério do desempenho e aqueles que perderam o viço do início de carreira e paralisaram-se no dever morto da profissão que não ousa mais. Patético!

A PEDAGOGIA DA TRANSMISSÃO AGONIZA NA CIBERCULTURA

Pouco se fez para superar a prevalência da pedagogia da transmissão. O resultado desse descaso é a sala de aula, hoje, cada vez mais sem atrativos e alunos cada vez mais desinteressados no seu modelo clássico baseado em memorização e reprodução. As últimas conclusões do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica do MEC)46 confirmam esse grave problema, que certamente não se restringe ao ensino básico. Sabemos que a pedagogia da transmissão prevalece também na universidade e nos cursos a distância. O próprio Ministério da Educação reconheceu o descompasso entre o modelo tradicional de escola e os recursos informacionais hoje disponíveis no cotidiano dos estudantes. Em destaque, pelo menos duas explicações para o crescente desinteresse pela sala de aula:

¢ O professor se sente o todo-poderoso, repete conceitos e não sabe interagir com os alunos; os conteúdos estão distantes da realidade e devem ser decorados e cobrados em provas.

¤ A oferta atual de informação e conhecimento é cada vez maior e melhor fora da sala de aula, graças aos novos recursos tecnológicos, em especial a internet e a multimídia interativa.47

Com Pierre Lévy,48 o filósofo da cibercultura, podemos verificar que o crescente desinteresse pela sala de aula é fenômeno mundial. Ele nos lembra que há cinco mil anos a escola está baseada no falar-ditar do mestre. E diz ainda que hoje a principal função do professor não pode mais ser a difusão de conhecimentos que agora é feita de forma mais eficaz pelos novos meios de informação e comunicação. Para Lévy, a sala de aula baseada na transmissão, memorização e prestação de contas não tem mais centralidade na cibercultura.

O especialista em educação pela UNESCO Martín-Barbero49 também está atento aos desafios do nosso tempo cibercultural à velha sala de aula. Ele diz que os professores só sabem raciocinar na transmissão linear, separando emissão e recepção. E alerta para o aumento do hiato entre a experiência cultural de onde falam os professores e aquela outra de onde aprendem os alunos.

De fato, a obsolescência do modelo tradicional de ensino escolar vem se agravando na cibercultura. Na sala de aula presencial do ensino básico e da universidade prevalece a centralidade do mestre responsável pela produção e pela transmissão do conhecimento. Na educação a distância via internet, os sites educacionais, os ambientes virtuais de aprendizagem continuam estáticos, ainda centrados na transmissão de dados, desprovidos de mecanismos de participação, de criação coletiva, de aprendizagem construída. Ou seja, também na educação on-line o paradigma permanece o mesmo do ensino presencial tradicional. O professor-tutor-conteudista é o responsável pela produção e pela transmissão do conhecimento. As pessoas permanecem como recipientes de informação. A educação continua a ser, mesmo na tela do computador conectado à internet, repetição burocrática ou transmissão unidirecional de conteúdos empacotados.

Cada vez mais imersos na cibercultura, os alunos estarão exigindo uma nova ambiência de aprendizagem. Eles passam a integrar a chamada “geração digital” e estão cada vez menos passivos perante a mensagem fechada à intervenção. Assim, eles migram da tela estática da TV para a tela do computador conectado à internet. Estão mais conscientes das tentativas de programá-los e são mais capazes de se esquivar dessa programação. Evitam acompanhar argumentos lineares que não permitem a sua interferência e lidam facilmente com a linguagem digital. Aprendem que deles depende o gesto instaurador que cria e alimenta a sua experiência comunicacional: interferir, modificar, produzir, partilhar. Essa atitude menos passiva diante da mensagem é sua exigência de uma nova sala de aula. Seja na educação presencial, seja na educação a distância. A propósito, vale lembrar o que dizia Anísio aos mestres de amanhã: “a mocidade está a aceitar a mudança, é verdade que um tanto passivamente, mas sem nada que lembre nossa conformidade. Só conseguiremos restaurar-lhe a harmonia, se conseguirmos construir uma educação que a aceite, a ilumine, e a conduza num sentido humano”.50

É preciso então reconhecer: até aqui tínhamos os apelos de mestres valorosos como Paulo Freire, Vygotsky e tantos outros enfatizando participação colaborativa, dialógica e multidisciplinaridade como fundamentos da educação, da aprendizagem; hoje temos também o apelo da cibercultura questionando oportunamente a velha pedagogia da transmissão. Doravante, os programas de formação de professores precisarão enfocar questionamentos inadiáveis. Exemplos: Que é cibercultura? Por que a cibercultura convoca o professor a reinventar sua sala de aula?. Como situar participação, dialógica e multidisciplinaridade na sala de aula garantindo a formação cidadã no contexto cibercultural? Como lançar mão do que há de oportuno em cibercultura para favorecer o salto de qualidade necessário em educação? Qual será a principal função do professor na cibercultura, uma vez que o falar-ditar do mestre passa a não ter mais centralidade? A seqüência deste texto busca contribuir para o tratamento dessas questões.

A CIBERCULTURA COMO NOVO DESAFIO À EDUCAÇÃO

Cibercultura é o conjunto de técnicas, de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento da internet como novo meio de comunicação que surge com a interconexão mundial de computadores. Para Lévy51, cibercultura é o principal canal de comunicação e suporte de memória da humanidade a partir do início do século 21; é o novo espaço de comunicação, de sociabilidade, de organização e transação da informação e do conhecimento.

Há um rompimento paradigmático com o reinado da mídia clássica baseada na transmissão em massa. Enquanto esta efetua a distribuição para o receptor massificado, a cibercultura, fundada na codificação digital, permite ao indivíduo teleintrainterante a comunicação personalizada, operativa e colaborativa em rede multidisciplinar.

A cibercultura emerge com a passagem do computador pessoal (PC) para o computador coletivo (CC), isto é, conectado à internet. O pesquisador da cibercultura A. Lemos vê aqui a passagem do computador apolíneo, individualista e austero ao computador dionisíaco, coletivo, efervescente, multiconectado em rede on-line ou ciberespaço.52

O computador conectado e a internet criam a nova ambiência informacional e dão o tom da nova lógica comunicacional que toma o lugar da distribuição em massa própria da fábrica, da escola e da mídia clássica (rádio, imprensa e TV) até então símbolos societários. Na cibercultura a produção para a massa cede espaço à produção operacionalizada em redes multidisciplinares definidas por comunidades de interesses.

A sociedade pode se dar conta dessa transição à medida que experimenta a diferença entre a tela da TV e a tela do computador on-line. A TV, máquina rígida, restritiva, centralizadora tem na tela um espaço de irradiação, de transmissão. Já o computador tem a tela operativa ou interativa, permitindo algo mais que a mera recepção. Isso significa dizer que estaríamos passando do esquema “um-todos” às redes interagentes que se configuram como “todos-todos” e como “faça-você-mesmo”.

As conseqüências socioculturais que emergem com a cibercultura compõem um cenário muito novo com implicações bombásticas para a educação e para a mídia de massa. Os produtores de TV já perceberam o novo perfil dos espectadores e procuram investir em programações que permitam aos espectadores não apenas a experiência audiovisual, mas também participativa, operativa... Os reality shows são tentativas ainda precárias de participação do público na TV. Na verdade, disputam o público que migra para a internet e, ao mesmo tempo, produzem know how para a TV digital que virá fundir-se com a internet. Quanto aos professores, estes ainda se encontram em sua maioria excluídos da cibercultura por não terem em casa ou na escola um computador on-line. Assim, não têm chance de superação de resistências à tecnologia digital.

O QUE OS PROFESSORES PODEM APRENDER COM A CIBERCULTURA?

Insisto na pergunta oportuna de Anísio:53 “Que haverá já hoje que nos possa sugerir o que poderá ser a escola de amanhã?”. Hoje temos a cibercultura. Distanciados dela os professores não se dão conta da mudança paradigmática em informação e comunicação que se opera em nosso tempo. Em síntese, eles perdem ou retardam a urgente percepção de modificações decisivas na informática, na esfera social e no cenário das comunicações:

¤ Mudança na tecnologia informática. A tela do computador não é espaço de irradiação, mas ambiente de adentramento e manipulação, com janelas móveis e abertas a múltiplas conexões. As herméticas linguagens alfanuméricas são substituídas pelos ícones e janelas móveis que permitem interferências e modificações na tela. O computador desconectado projetado para o indivíduo cartesiano, solipsista, deu lugar ao computador comunitário, associativo, cooperativo.

¤ Mudança na esfera social. Há um novo espectador menos passivo diante da mensagem mais aberta à sua intervenção. Ele aprendeu com o controle remoto da TV, com o joystick do videogame e agora aprende com o mouse. Essa mudança significa emergência de um novo leitor. Não mais aquele que segue as páginas do livro de modo unitário e contínuo, mas o que salta de um ponto a outro fazendo seu próprio roteiro de leitura multidisciplinar. Não mais aquele paciente que se submete às récitas da emissão, mas aquele que, não identificando-se apenas como receptor, interfere, manipula, modifica e assim, reinventa a mensagem. Sinais dessa mudança são os games em rede on-line. Seus roteiros estarão cada vez mais abertos, depositando nas mãos dos jogadores a capacidade de criar, de administrar sua própria aventura.

¤ Mudança no cenário comunicacional. Ocorre a transição da lógica da distribuição (transmissão) para a lógica da comunicação (interatividade). Isso significa modificação radical no esquema clássico da informação baseado na ligação unilateral emissor-mensagem-receptor. O emissor não emite mais no sentido que se entende habitualmente, uma mensagem fechada, ele oferece um leque de elementos e possibilidades à manipulação do receptor. A mensagem não é mais “emitida”, não é mais um mundo fechado, paralisado, imutável, intocável, sagrado, ela é um mundo aberto, modificável na medida em que responde às solicitações daquele que a consulta. O receptor não está mais em posição de recepção clássica, ele é convidado à livre criação, e a mensagem ganha sentido sob sua intervenção.

Toda essa mudança quer dizer cibercultura. É preciso despertar o interesse dos professores para essa nova realidade e, a partir daí, para a construção de uma nova comunicação com os alunos em sala de aula presencial e a distância. É preciso enfrentar o fato de que tanto a mídia de massa quanto a sala de aula estão diante do esgotamento do mesmo modelo comunicacional que separa emissão e recepção. O produtor de TV percebeu que não se pode dar às pessoas somente coisas para ver e ouvir, mas para interagir. O professor pode superar a defasagem à medida que perceber que seus alunos não estão mais no contexto da audiência de massa, mas da audiência interativa. À medida que for assumindo tudo isso, poderá recriar sua autoria em sala de aula. Jamais perder de vista os ensinamentos dos valorosos educadores, mas buscar na cibercultura o ambiente mais favorável à ressignificação de sua prática docente comprometida com a educação cidadã.

REINVENTAR A AUTORIA DO PROFESSOR

Desde o Iluminismo a escola é colocada como o lugar privilegiado para a formação da cidadania. Porém há uma dificuldade de base para a realização dessa função social da escola: o modelo de sala de aula baseado no falar-ditar do mestre iluminado e no silêncio nem sempre passivo do a-luno (sem luz). Ressignificar a educação na cibercultura significa superar essa dificuldade. O professor poderá modificar sua atuação em sala de aula investindo em pelo menos três fundamentos inarredáveis em educação:

¤ Participação coletiva. Comunicar supõe participar. Participar não é apenas responder “sim” ou “não” ou escolher um opção dada, significa interferir, modificar a mensagem. Participação coletiva quer dizer interação colaborativa, co-criação. Aprender supõe participação ativa na construção do conhecimento.

¤ Dialógica. A comunicação é produção conjunta da emissão e da recepção. É co-criação, os dois pólos codificam e decodificam. Assim “A” modifica “B” e “B” modifica “A”. Por isso, Paulo Freire54 diz: a educação autêntica não se faz de “A” para “B” ou de “A” sobre “B”, mas de “A” com “B”.

¤ Multidisciplinaridade. A comunicação supõe múltiplas redes articuladoas de conexões e liberdade de trocas, associações e significações. O professor não transmite, ele propõe o conhecimento oferecendo múltiplas informações (em imagens, sons, textos, etc.). Ele oferece múltiplos enfoques disciplinares convocando seus alunos ao trânsito livre, associativo, criativo capaz de gerar novas sínteses entre as disciplinas (inter) e para além das disciplinas (trans).

Na cibercultura o computador e a internet potencializam esses fundamentos. É preciso enfatizar que a transição da TV para o computador on-line não é apenas uma evolução da técnica. Além disso, temos mudança paradigmática que favorece a expressão desses fundamentos. O chip, o processador baseado no aporte hipertextual,55 tem em sua natureza digital a disponibilização para tais fundamentos. Será preciso, portanto, verificar a validade do hipertexto em educação:

¤ O professor precisará se dar conta do hipertexto enquanto escritura não seqüencial, como montagem de conexões em rede que permite e exige uma multiplicidade de recorrências, transformando a leitura em escritura.

¤ O professor precisará saber que o hipertexto (mais concretamente o computador, a internet) não vem substituir, mas potencializar seu ofício. Com o hipertexto ele é convocado a passar de mero transmissor de saberes a arquiteto de percursos, formulador de problemas, provocador de interrogações, coordenador de equipes de trabalho, sistematizador de experiências, e “memória viva de uma educação que, em lugar de aferrar-se ao passado [transmissão], valoriza e possibilita o diálogo entre culturas e gerações”.56

Ou seja, se o professor se dispõe a aprender com o movimento contemporâneo da tecnologia digital, hipertextual, poderá verificar que a migração da TV para a internet significa emergência do novo leitor que não segue as páginas do livro de modo unitário e contínuo, mas salta de um ponto a outro fazendo seu próprio roteiro de leitura; que não mais se submete às récitas da emissão, mas que interfere, manipula, modifica, reinventa a mensagem. É preciso, no entanto, enfatizar: mesmo não havendo tecnologias hipertextuais na sala de aula é possível engendrar essa dinâmica do hipertexto. Pode-se, por exemplo, investir em multiplicidade de nós e conexões, utilizando textos, fragmentos da programação da TV, filmes inteiros ou em fragmentos, gravuras, jornais, música, falas, performances, etc. Nesse ambiente o professor disponibiliza roteiros em rede e oferece ocasião de exploração, de permutas e potenciações (dos temas e dos suportes). Aí ele estimula a co-autoria e a fala livre e plural. Se não há internet, bastaria um fragmento em vídeo para detonar uma intrincada rede de múltiplas conexões com aprendizes e professor interagindo e construindo conhecimento. Mas que fique claro: a tecnologia hipertextual multimídia vem potencializar esse trabalho do professor e do aprendiz.

Seja na sala de aula inforrica, seja na infopobre, seja na presencial, seja na on-line, o professor não mais transmite, ele disponibiliza. Não mais impõe um conhecimento fechado, mas enseja, urde, arquiteta percursos. Ele oferece múltiplas informações (em imagens, sons, textos, etc.) utilizando ou não tecnologias digitais, mas sabendo que estas, utilizadas de modo interativo, potencializam consideravelmente ações que resultam em conhecimento. Ele enseja, isto é, oferece ocasião de... Ele urde, ou seja, dispõe entrelaçados os fios da teia, enreda múltiplos percursos para conexões e expressões com que os aprendizes possam contar no ato de manipular as informações e percorrer percursos arquitetados. Ele estimula os aprendizes a contribuir com novas informações e a criar e oferecer mais e melhores percursos, participando como co-autores do processo.

O professor, neste caso, constrói uma rede e não uma rota. Ele define um conjunto de territórios a explorar. E a aprendizagem se dá na exploração – ter a experiência – realizada pelos alunos e não a partir da sua récita, do seu falar-ditar. Isto significa modificação em seu clássico posicionamento na sala de aula. Significa antes de tudo que ele não mais se posiciona como o detentor do monopólio do saber, mas como o que disponibiliza a experiência do conhecimento. Ele predispõe teias, cria possibilidades de envolvimento, oferece ocasião de engendramentos, de agenciamentos. E estimula a intervenção dos alunos como co-autores de suas ações.

Anísio não conheceu o hipertexto digital, a cibercultura, mas anteviu sua dinâmica. Basta conferir suas sugestões: o professor expõe para os estudantes uma diversidade de abordagens sobre conteúdos de aprendizagem e os convida a apreciar, sentir, rever, discutir, motivando a análise...; ele oferece conteúdos de aprendizagem através dos recursos da televisão, do cinema e do disco para levar todos os jovens a ver e ouvir, desdobrar, discutir e completar.

Assim se dá a construção da educação cidadã na cibercultura. Assim o espírito do tempo favorece a construção de uma nova sala de aula. Pois, como agora profetiza E. Morin: “Hoje é preciso inventar um novo modelo de educação, já que estamos numa época que favorece a oportunidade de disseminar um outro modo de pensamento”.57

A par da cibercultura, de suas implicações e possibilidades, o professor estará tentado a ser mais que instrutor, treinador, parceiro, conselheiro, guia, facilitador, colaborador. Ele procurará ser um formulador de problemas, provocador de situações, arquiteto de percursos, mobilizador das inteligências múltiplas e coletivas na experiência do conhecimento. Ele disponibilizará estados potenciais do conhecimento de modo que o aluno experimente a aprendizagem quando participa, dialoga e associa. Por sua vez, o aprendiz deixa o lugar da recepção passiva de onde ouve, olha, copia e presta contas para se envolver com a proposição do professor e, oxalá, com a reinvenção da sala de aula, da educação e, de resto, do nosso tempo.

CONCLUSÃO

O amanhã de Anísio chegou e os mestres de hoje caminham pouco na maestria por ele vislumbrada. Muitos negligenciam a TV e outros tantos resistem ao computador e à internet. A TV está no mesmo paradigma da pedagogia da transmissão. Negligenciá-la é surpreendente por isso. Já a tecnologia e a mídia digitais, fundadas em novo paradigma comunicacional, podem de fato intimidar.

Anísio deslumbrou-se com o potencial pedagógico da televisão, do cinema e do rádio. Ele ainda não tinha meios de questionar o modelo de transmissão próprio dessa mídia. Criticou o professor transmissor, a pedagogia da transmissão, mas não ajudou a questionar esse mesmo paradigma na mídia de massa. Hoje temos claro que essa mídia clássica fixa e reproduz as mensagens a fim de assegurar-lhes maior integridade e alcance, melhor difusão no tempo e no espaço; ela não contempla a participação efetiva do seu usuário; ela não é favorável ao engendramento co-criativo de signos, contentando-se em transportar uma mensagem pronta para a massa, impossibilitando a intervenção física na mensagem, somente a “imaginal”. Temos claro também que, por outro lado, o digital é abundância de montagem, incidindo esta sobre os mais ínfimos fragmentos da mensagem, uma disponibilidade indefinida e incessantemente reaberta à combinação, à mixagem, ao reordenamento dos signos. A menos que seja subutilizada, a informática não se contenta em reproduzir e difundir as mensagens (o que, aliás, faz melhor do que a mídia clássica). Ela permite sobretudo engendrar, modificar à vontade como o demonstra ao extremo a figura do hacker. O digital autoriza a fabricação de mensagens e sua modificação, bit por bit. O hipertexto digital autoriza, materializa as operações [da leitura clássica], e amplia consideravelmente seu alcance, ele propõe um reservatório, uma matriz dinâmica, a partir da qual um navegador, leitor ou usuário pode engendrar seu próprio texto.58

Aqui poderemos encontrar ambiência favorável à realização da profecia de Morin. Contudo, é preciso assumir: em nosso tempo pouco se tem feito para qualificar o professor à altura da complexidade que nos cerca. Há quatro décadas, Anísio expressou sua sincera inquietação. No entanto, temos que dar nossas mãos à palmatória da sua crítica mais veemente, e repetir: “ainda não fizemos em educação o que deveria ser feito para preparar o homem para a época a que foi arrastado...”; “na educação comum do homem comum os progressos são os mais modestos”.

Notas

1 TEIXEIRA, Anísio. Mestres de amanhã. Capturado em 20 fevereiro 2003. Disponibilizado: http://www.prossiga.br/anisioteixeira/artigos/mestres.html. Este texto, disponibilizado na Biblioteca Virtual Anínio Teixeira, foi conferência proferida em sessão do Conselho Internacional de Educação para o Ensino, reunido no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, em agosto de 1963, e publicada na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Rio de Janeiro, v. 40, n. 92, out./dez., 1963. p. 10-19. Doravante, estarei citando o texto online.
2 Id. ibid., p. 2
3 Id. ibid.
4 Id. ibid.
5 Id. ibid., p. 7.
6 Id. ibid., p. 2.
7 Id. ibid., p. 1.
8 Id. ibid., p. 2.
9 Id. ibid.
10 Id. ibid., p. 1.
11 Id. ibid., p. 3.
12 Id. ibid.
13 Id. ibid., p. 4.
14 Id. ibid.
15 Id. ibid.
16 Id. ibid., p. 3.
17 Id. ibid., p. 7.
18 Id. ibid.
19 Id. ibid., p. 4.
20 Id. ibid., p. 6.
21 Id. ibid., p. 7.
22 Id. ibid., p. 7, 4.
23 Id. ibid., p. 5.
24 Id. ibid.
25 Id. ibid.
26 Id. ibid.
27 Id. ibid.
28 Id. ibid.
29 Id. ibid.
30 Id. ibid.
31 Id. ibid., p. 6.
32 Cf. COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural São Paulo: FAPESP-Iluminuras, 1997. p. 302.; Cf. também: HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1993. p. 303.
33 ANDERs, G. Apud. MARCONDES FILHO, Ciro. (Org.). Pensar-pulsar: cultura comunicacional, tecnologias, velocidade. São Paulo: NTC/Projeto Brasil, c1996. 426 p.
34 Apud KUMAR, Krishan. Da sociedade pós-industrial à pós-moderna. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. p. 137; Ver também o capítulo “A implosão do sentido nos media”, de BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulações. Lisboa: Relógio d’Água, [s.d.] p. 103-112. (original francês: 1981).
35 Id. ibid.
36 TINLAND, Franck. L’homme aleatoire. Paris: Presses Universitaires, 1997. p. 5.
37 Id. ibid.
38 Id. ibid.
39 PRIGOGINE, Ilya; SLENGERS, Isabelle. A nova aliança: a metamorfose da ciência. Brasília: Ed. Universidade de Brasília c1984. 247p. Pensamento cientifico, 20.
40 GILLAUME, Marc. La contagion de passions: essai sur l’exotisme interieur. Paris: Pon, 1989. p. 39.
41 LEITE, Rogério Cerqueira. O mediador inteligente e o fim dos princípios. Folha de São Paulo, 22, mar., 1998. Caderno Mais. p.15.
42 Id. ibid., p. 6.
43 Id. ibid.
44 Id. ibid.
45 Id. ibid., p. 7.
46 Cf. GOIS, Antônio; CHACRA, Gustavo. Ensino básico tem queda de qualidade. Folha de S. Paulo, 22, nov., 2000. Caderno Cotidiano. p. 1.
47 Id. ibid.
48 Cf. LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. Id. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Editora, 34, 1993.
49 MARTÍN-BARBERO, J. Cf. Nuevos regímenes de visualidad y des-centramientos culturales. Bogotá (Colômbia), 1998. Cópia reprográfica. Este texto foi traduzido e publicado no Brasil: FILÉ, V. (Org.). Batuques, fragmentações e fluxos: zapeando pela linguagem audiovisual escolar. Rio de Janeiro: DP& A, 2000.
50 TEIXEIRA, Anísio. (1963) op. cit., p. 7.
51 LÉVY, P. (1999) op. cit.
52 LEMOS, A. Cultura das redes: ciberensaios para o século XXI. Salvador: EDUFBA, 2002. p. 55s.
53 TEIXEIRA, Anísio. (1963) op. cit., p. 5.
54 FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. p. 98.
55 MACHADO, A. Máquina e imaginário: o desafio das poéticas tecnológicas. São Paulo: EDUSP, 1993. p. 286. A idéia de hipertexto foi enunciada pela primeira vez pelo matemático Vannevar Bush em 1945. Ele imaginava um sistema de organização de informações que funcionasse de modo semelhante ao sistema de raciocínio humano: associativo, não-linear, intuitivo, muito imediato. Só na década de 1960 é que Theodore Nelson criou o termo para exprimir o funcionamento da memória do computador. “A idéia básica do hipertexto é aproveitar a arquitetura não-linear das memórias de computador para viabilizar textos tridimensionais (...) dotados de uma estrutura dinâmica que os torne manipuláveis interativamente. (...) A maneira mais usual de visualizar essa escritura múltipla na tela plana do monitor de vídeo é através de “janelas” (windows) paralelas, que se podem ir abrindo sempre que necessário, e também através de “elos” (links) que ligam determinadas palavras-chave de um texto a outros disponíveis na memória”.
56 Id. ibid., p. 23.
57 MORIN, Edgar. Os países latinos têm culturas vivas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5., set.,1998. Caderno Idéias/livros, p. 4.
58 Cf. LÉVY, Pierre. Inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998. p. 5.