turismo sustentável

O Turismo Ecológico Sustentável e a Autoconsciência do Homem Contemporâneo:
uma Abordagem Filosófica da Questão Ambiental

Enrique Blanco*

 

Abstract

The concept and the ideal of nature have changed throughout history. Presently, consumption logic has guided human interventions in nature, considered as an inexhaustible source of resources. Ecological tourism, taken as one of those interventions, lacks the critical space needed for reflection on its practices. The philosophy of nature or ecophilosophy can help in this process, contributing with philosophical reasoning to mediate the ground between humankind, tourism, and nature.

Key words: Ecotourism; Ecophilosophy; Self-Awareness; Sustainable Consumption; Environmental Education.

Se banirmos da superfície da terra o homem ou o ser pensante e contemplador, esse espetáculo patético e sublime da natureza não é mais do que uma cena triste e muda; o universo cala-se, o silêncio e a noite dele apoderam-se. Tudo se transforma numa vasta solidão onde os fenômenos inobservados se passam de uma maneira obscura e surda. É a presença do homem que torna a existência dos seres interessante.1

Denis Diderot - Filósofo e escritor francês.
(1713-1784)

A busca pelo significado da natureza acompanha o homem desde os primórdios da humanidade. Essa questão possui um caráter eminentemente filosófico, pois remete o homem ao que ele pôde pensar de mais originário, a partir de sua própria existência no mundo. De fato, a investigação acerca da idéia de natureza confunde-se e incorpora-se ao surgimento e desenvolvimento das mais remotas civilizações.

Na antiga Grécia, cerca de VII a.C, a natureza era pensada pelos filósofos da physis, conhecidos por filósofos pré-socráticos, como sendo a arché, o princípio que representava o devir do mundo orgânico e inorgânico, integrando num único movimento criador, tudo o que existia no universo. Por isso, partindo da observação e da pura especulação, a origem de todas as coisas era pensada por esses filósofos da natureza como sendo a água, o ar, o fogo, a terra ou até mesmo o ápeiron (o ilimitado). Assim, desde o surgimento dos antiqüíssimos mitos cosmogônicos (kósmos: mundo e gónos: origem), passando pela teogonia (théos: deus e gónos: origem), o homem grego alcança a cosmologia (kósmos: mundo e logos: explicação racional), e constrói a idéia de natureza como o princípio gerador da criação e da destruição, de onde tudo surge e para onde tudo retorna. Essa ordem harmônica de constante e eterna transformação fazia com que a natureza ocupasse, na hierarquia dos seres e das coisas criadas, o mesmo grau de importância que o homem.

Contudo, com o passar dos séculos, a idéia que o homem tinha a respeito da natureza se modifica drasticamente. A natureza, que representava a noção da grande mãe por sua potência criadora, passa a ser vista como mera escrava, pela capacidade humana de subjugá-la e subtrair suas riquezas. Nesse cenário, a filosofia da natureza perde lugar para a ciência da natureza, disciplina essa voltada para a compreensão dos fenômenos naturais, a partir de sistemas organizados, métodos e doutrinas. O pensamento holístico dos antigos filósofos da physis, fundado na idéia de que tudo era Um, passa a ser visto com desprezo por não ser considerado científico. Para a compreensão analítica e sistematizada do mundo natural, deveria ocorrer a irremediável e urgente cisão entre o homem e a natureza. A filosofia moderna se une ao pensamento científico, estabelecendo a dicotomia entre sujeito e objeto, fazendo com que a natureza seja, a partir de então, considerada como o “outro” que subsiste fora do homem, isto é, a natureza passa a ser tudo o que não é o homem. O outro, o estranho, o desconhecido que deve ser estudado, catalogado, entendido e sistematizado. A natureza passa a ser vista como enigma ameaçador e não mais como princípio originário.

Nesse sentido, apesar de reconhecermos a inestimável importância de Descartes para a modernidade, não podemos deixar de identificar na filosofia cartesiana, o reconhecido abismo que esta criou entre o homem e o mundo natural. O domínio da natureza passou, necessariamente, pelos postulados cartesianos que explicavam o homem como res cogitans (coisa pensante), e o mundo material como res extensa (coisa extensa). Como se sabe, Descartes2 entendia o corpo como sendo um engenho mecânico e material, logo, o significado da res extensa incluía, além de todas as coisas materiais existentes no mundo, o próprio corpo humano como sendo a representação material da substância pensante. Por sua vez, a res cogitans representava o pensamento como sendo a substância primeira do ser, instituindo assim, a supremacia do homem em relação ao mundo físico e a todos os seres que não possuíam a ratio (a razão). Dessa forma, estabelece-se a dicotomia radical e definitiva entre o mundo natural, enquanto objeto de conhecimento, e o homem, enquanto sujeito do ato de conhecer. Esta divergência fundamental será a base para o afastamento cada vez maior entre a natureza e o ser.

Mas será que não havia outra maneira de se pensar a natureza? Será que, para podermos conviver com os caprichos da natureza, e dela retirarmos nosso sustento e desenvolvimento, deveríamos ter partido de uma dicotomia total entre o homem e o mundo natural? Acreditamos firmemente que não, e um exemplo de que podemos reverter essa cisão radical entre a natureza e o homem, é a idéia do desenvolvimento sustentável.

De fato, tentar estabelecer uma visão mais holística e integradora entre a teoria e a práxis, ou seja, associar o que fazer ao como se deve fazer, sempre foi a intenção de vários filósofos e cientistas sociais. Seguindo essa proposta, várias instituições e organismos nacionais e internacionais ligados ao meio ambiente tentam implementar o seguinte projeto: como conciliar o consumo dos recursos naturais com os fundamentos da sustentabilidade. Essa idéia ganhou diversas formas de atuação, como por exemplo, o desenvolvimento de técnicas para a produção de fontes de energia renovável, a pesquisa de novos modelos de reciclagem, a prática do reflorestamento de áreas degradadas, entre outras importantes ações. Todas essas atitudes visam controlar o consumo irresponsável da natureza, partindo do critério da racionalização do uso dos recursos naturais.

Todavia, uma nova forma de consumo ligada ao meio ambiente está se desenvolvendo nos últimos anos: é o turismo ecológico. Gostaríamos de ressaltar, antes de tudo, que o turismo ecológico é uma forma de consumo da natureza, e é este o principal motivo que o obriga a ser realizado de forma consciente, isto é, de maneira sustentável. Com efeito, parece que não se tem dado a devida atenção a este fato, qual seja, que o turismo é uma forma de consumo. A realidade de mercado prevê, através da lógica de consumo, que os produtos sejam constantemente repostos para que os clientes possam comprá-los, fenômeno que, obviamente, é impossível ocorrer com a natureza. Mas, apesar de o “produto” natureza ser bem mais nobre do que uma mera garrafa de refrigerante, e nos parecer, à primeira vista, que o mundo natural nunca vai se acabar, não nos enganemos: o turismo, antes de ser ecológico, é uma forma de consumo.

Partindo desse princípio, muito tem-se falado sobre a importância do turismo ecológico para a economia dos estados e dos países que possuem, por dádiva da natureza, verdadeiros paraísos terrestres com belas paisagens, animais exóticos e um ritmo de vida muito tranqüilo e aprazível. De fato, seria um equívoco não aproveitar tais recursos naturais como fonte de renda reversível em benefício das populações locais, ao mesmo tempo que se deve promover a preservação das suas tradições e dos seus costumes, pois tais populações sempre sofrem alguma forma de influência, nem sempre positiva, da cultura e dos hábitos dos visitantes.

No entanto, não só a cultura desses povos vem sofrendo o impacto da presença cada vez maior e desorganizada dos turistas ecológicos. A natureza, que sempre teve o papel de seduzir o viajante, está sendo desprezada e encarada como mais um produto de consumo nas “excursões verdes”. A natureza, sempre considerada a causa e origem do ecoturismo, tem se tornado o alvo da Indústria do Lazer. Isso não seria um grande problema, se esse lazer fosse feito de maneira consciente. Mas, infelizmente, não é o que se tem verificado. O homem contemporâneo sente a necessidade de consumir seu tempo livre de maneira frenética e aleatória, realidade essa comprovada, por inúmeras pesquisas de mercado. De fato, podemos identificar o resultado de todo esse processo num fenômeno que nos parece extremamente problemático: a prática irresponsável e predatória do turismo ecológico, baseada na deturpada idéia contemporânea de natureza, em que consiste entender o mundo natural, fundamentalmente, como um produto de consumo.3

O fenômeno responsável por essa idéia desvirtuada acerca da natureza foi a dicotomia entre o homem e o mundo natural, proporcionada pelo processo de domínio, subjugação e conhecimento exaustivo dos mecanismos e dos processos naturais. Outro fator de fundamental importância para reforçar essa visão distorcida é acreditar na falsa noção de que o mundo natural é uma fonte inesgotável de recursos a serem consumidos, indiscriminadamente, sem a necessidade de haver a preservação desta mesma fonte. Além desses fatores, existem ainda as inúmeras associações que várias religiões sempre fizeram entre Deus e a própria natureza. Porém, essa visão religiosa moderna não corresponde à antiga concepção grega de natureza, que entendia o princípio originário do universo como algo divino. Na antiga Grécia havia uma forma de reverência em relação ao mundo natural, totalmente diversa da que temos hoje. Quando o homem contemporâneo associa Deus à natureza, uma outra forma de se relacionar com o mundo natural se estabelece: se Deus é eterno, caridoso e inesgotável em toda sua infinita benevolência; nada mais lógico do que ver a natureza como possuidora de todos esses atributos divinos de eternidade e de inesgotabilidade. Ora, tudo que é eterno e inesgotável pode ser consumido, sem a menor preocupação de sustentabilidade ou controle.

O resumo desse longo processo em que se construiu a relação do homem com o mundo natural, está baseado nas três concepções acerca da natureza as quais fizemos referência – a científica, a divina e a mercadológica –, e tem como resultado, a idéia e o ideal contemporâneo de natureza. A clássica distinção entre natureza e cultura, proposta por célebres antropólogos e sociólogos, parece não ter muito mais sentido nos dias de hoje. A mídia nacional e internacional, com suas visões folclorizadas em relação ao mundo natural, juntamente com as políticas ambientais propostas por algumas entidades públicas ou não-governamentais, e por que não dizer, o próprio turismo ecológico, parecem ter uma interpretação homogênea e pasteurizada acerca da natureza. Por isso, não se precisa mais escrever vários tratados acadêmicos para se diferenciar natureza de cultura, pois atualmente o homem afirma: natureza é cultura. O homem cria tudo, desde as piscinas com ondas até estações de esqui em pleno deserto. O sonho de domínio e consumo da natureza só parece diminuir um pouco, quando o controle humano sobre o mundo natural é desafiado pelos ditos desastres naturais.

A reversão deste quadro se faz necessária e urgente. Acreditamos que a filosofia, associada à educação ambiental, poderia prestar um grande serviço em desfazer equívocos em relação ao entendimento do mundo natural e juntas construir uma idéia de natureza mais afinada com a realidade atual. Como uma das maiores preocupações da filosofia é a objetivação da teoria na práxis social, devemos procurar alcançar o maior número de pessoas. Uma excelente oportunidade para realizar essa proposta é o próprio ecoturismo, pois ele mobiliza milhões de pessoas no mundo inteiro, e tende a crescer cada vez mais. Como no Brasil esta realidade não é diferente, por que não aproveitar o momento atual para incluir o saber filosófico neste verdadeiro movimento social proporcionado pelo turismo ecológico?

Para isso, deveríamos conhecer melhor uma disciplina filosófica extremamente importante, que surgiu, na década de 1990, na Alemanha: a ecofilosofia. Como a ecofilósofa Márcia Gonçalves esclarece,4 a intenção dos ecofilósofos é fornecer o instrumental teórico para os atuais movimentos ecológicos, a fim de aprofundar discussões fundamentais para a questão ambiental, tendo como princípio a necessidade de reavaliar as múltiplas relações que o homem mantém com a natureza. Na verdade, a ecofilosofia é a filosofia da natureza aplicada na prática, em que consiste deslocar as reflexões a respeito do homem em direção das questões referentes à própria natureza. A partir dessa abordagem filosófica acerca da natureza, pode ser construída uma visão mais conseqüente em relação ao mundo natural. Entendemos que o espaço aberto pelo turismo ecológico pode ser um meio extremamente interessante para a aproximação do saber filosófico com a sociedade, e, assim, poder efetivamente construir um turismo ecológico sustentável.

Como Nietzsche nos diz: “São os tempos de grande perigo em que aparecem os filósofos. Então, quando a roda rola com sempre mais rapidez, eles e a arte tomam o lugar dos mitos em extinção. Mas projetam-se muito à frente, pois só muito devagar a atenção dos contemporâneos para eles se volta”.5

Acreditamos que o conhecimento filosófico tradicional e a ecofilosofia podem nos ajudar nesse momento de grande perigo pelo qual passa o meio ambiente. Não devemos esperar pelo auxílio de multinacionais comprometidas unicamente com suas taxas de crescimento e aumento de produção, e nem por líderes políticos que pensam em projetos como, por exemplo, o “Projeto Bosque Saudável”, que para evitar as queimadas da floresta propõe a derrubada de, absolutamente, todas as árvores. Ficamos atônitos com decisões como esta, pois não entendemos o que leva as pessoas raciocinarem dessa maneira. A resposta pode ser o completo e total desprezo pelo mundo natural, devido à vontade frenética de subjugação técnica e científica, e ainda, pela idéia que a natureza representa um produto de consumo inextinguível e auto-renovável. Fatos como esse nos fazem retornar à proposta da união entre a filosofia e a sociedade. A prática do turismo ecológico é o campo ideal para se formar uma consciência ecológica efetiva, partindo dos conhecimentos filosóficos a serem aplicados pela educação ambiental. A intenção seria construir uma nova postura frente à questão ambiental, tendo como base o conhecimento filosófico. Dessa maneira, a prática do turismo ecológico poderia se tornar efetivamente sustentável, pois o respeito à natureza depende, primeiramente, do respeito pela própria vida humana, que passa anteriormente pela questão da consciência de si. Consciência de si como ato, isto é, a autoconsciência a respeito de si próprio e de seu papel na sociedade. Essas questões, aliás, são fundamentais para a filosofia, pois ela já trabalha há muito tempo com esses problemas. Sartre diz que temos a liberdade de consciência para a práxis social e individual.6 Este é o sentido do engajamento do homem consigo mesmo e com o todo social. Na verdade, a noção de engajamento é um dos pontos principais da filosofia existencialista de Sartre. O autor também afirma7 que estar engajado significa a condição do homem em situação, pois é isso que faz com que o indivíduo esteja situado na realidade que o circunda, e da qual ele faz parte. Assim, o homem pode dar um sentido real a sua existência, como fez o célebre personagem sartreano, Antoine Roquetin, que se engajou consigo mesmo e com seu papel na sociedade, na obra A Náusea.8

Outros dois conceitos fundamentais da obra sartreana, que acreditamos ser de vital importância para a questão ambiental, é a idéia de projeto e a de compromisso. Segundo Sartre, esses são os fundamentos para a construção de uma práxis individual e social, como está exposto em sua obra, A Crítica da Razão Dialética.9 A práxis estabelece a necessidade de ‘interiorização do exterior’ e de ‘exteriorização do interior’.1010 O indivíduo se compromete em um projeto de ação efetiva que é muito maior do que meras ações esporádicas sem um objetivo determinado, pois a idéia de compromisso orienta um projeto de vida. Ora, por que não integramos e direcionamos todos esses conceitos filosóficos, juntamente com a ecofilosofia, para pensar e agir no âmbito das questões ambientais?

A postura filosófica frente à realidade não deve ser vista como uma mera utopia que não tem a menor referência com a vida concreta. Muito pelo contrário, o engajamento individual e social deve ser entendido em seu sentido existencial, ou seja, como visão de mundo. Atualmente, as pessoas até se envolvem, mas não se comprometem com a questão ambiental, por isso, a idéia é desenvolver uma “representação de mundo”, uma Weltanschauung comum em relação à questão ambiental. Acreditamos que o respeito pelo meio ambiente passa, necessariamente e anteriormente, pelo respeito a si mesmo, mediante o processo de autoconsciência proposto pela filosofia. Esta é a base para a efetiva transformação do que está estabelecido, por meio da concreta mudança individual. Partindo da afirmação do “Eu”, o homem pode alterar seu cotidiano. Como afirma Maria Civiletti, citando Mead:

Embora o indivíduo se forme a partir do social, via processo de internalização, é importante ressaltar que este processo é profundamente dialético, possuindo o sujeito um papel ativo. Um indivíduo isolado não é capaz de reorganizar toda a sociedade, mas ele a afeta continuamente por meio de sua própria atitude, pois provoca a reação do grupo face a ele, responde a esta reação, o que por sua vez muda a atitude do grupo”.11

Estamos falando de uma ação efetivamente concreta. Concordamos totalmente com Adorno quando ele afirma que: “Uma reflexão pura, que se abstém de toda intervenção, serve apenas para reforçar aquilo diante da qual retrocede atemorizada”.12 Devemos parar de pensar que a filosofia não tem a menor implicação com a realidade. As idéias têm conseqüências e podemos ver isso todos os dias, na filosofia política, no direito, na economia e em vários setores da vida real que afetam diretamente nossa existência cotidiana de maneira dinâmica e transformadora. Como Civiletti nos alerta: “A relação cultura/indivíduo não é um dado, um sistema estático ao qual o indivíduo se submete, e sim um plano de negociações onde seus membros estão em constante processo de recriação e reiteração de informações, conceitos e significados”.13

Esta é a importância do pensamento filosófico para a valorização do meio ambiente: quando o homem estabelece a consciência de si como ato, ou seja, quando se vê como um ser individual e universal e aplica essa realidade a sua própria vida e à sociedade, ele constrói uma nova visão de mundo. Essa visão de mundo é semelhante àquela que nós fizemos referência, quando abordamos o ideal de natureza desenvolvido pelo homem grego. O homem se percebe um com o Todo, isto é, ele se compreende como parte indissociável do mundo natural, e por isso, nunca aceitará a idéia deturpada de natureza, que vê o mundo físico como produto de consumo. Para essa nova postura, que pretende reavaliar o atual processo de interação do homem com a natureza, a ecofilosofia pode trazer todo o instrumental teórico para elaboração de uma práxis, efetivamente, sustentável e conseqüente. Dessa maneira, o turismo ecológico sustentável poderia ser realmente viável, pois evitaria as determinantes autoritárias da Indústria do Lazer. A solicitação é a seguinte: menos profissionalismo de mercado e mais formação filosófica no campo do turismo ecológico.

O início desse processo poderia ser realizado pela educação ambiental nas próprias rotinas dos passeios ecológicos, como, por exemplo, por meio da antiga prática grega chamada de movimento peripatético, no qual havia a interação do discurso filosófico com a prática da caminhada, ou seja, andar e pensar ao mesmo tempo. Que melhor lugar para resgatar essa prática do que nos passeios ecológicos? Poderiam ser ministradas palestras, pequenos seminários, discussões coletivas, inclusive com o uso de novas mídias, como o desenho animado, a história em quadrinhos e até a encenação teatral; a fim de integrar, nas próprias sedes das excursões ecológicas, o discurso filosófico com a questão ambiental. Por que encontramos, na maioria dos folhetos e das propagandas que divulgam o turismo ecológico, objetivos direcionados apenas para a aventura, para a fruição da beleza, para a saúde física, para o alívio do estresse, etc? Obviamente, todos esses objetivos são muito importantes e devem ser mantidos, mas não bastam para que haja a mudança de paradigma que propomos. Não nos esqueçamos de que: “São os tempos de grande perigo em que aparecem os filósofos”.14 Devemos ter em mente que o primeiro passo para que exista uma prática sustentável no campo do turismo ecológico é que essa experiência tenha um forte e profundo embasamento teórico. Acreditamos que a filosofia pode instaurar na atividade do turismo ecológico uma nova proposta de sustentabilidade ambiental. Seria muita arrogância de nossa racionalidade ocidental contemporânea acreditar que problemas fundamentais como a questão da autoconsciência individual - que pode se refletir na práxis cotidiana - pudessem ser uma questão menor, e que já estaria resolvida há muito tempo. De fato, essa questão não está nem de longe resolvida. Caso contrário, não estaríamos investindo milhares de páginas de pesquisa, inúmeras reuniões, congressos e palestras para reaproximar o homem da natureza e engajar os indivíduos em causas sociais. Nesse compromisso da filosofia com a causa ambiental poderia ser construído um verdadeiro esclarecimento ecológico, uma espécie de aufklärung15 ambiental, proporcionando, assim, uma idéia mais conseqüente a respeito da natureza. Este esclarecimento teria um sentido efetivamente emancipatório, e não repressor e unilateral, como apontado por Adorno e Horkheimer na obra Dialética do Esclarecimento.16 De fato, a conhecida Escola de Frankfurt entendia que a Indústria Cultural fazia o papel de mistificação das massas por meio de um falso esclarecimento. Esse esclarecimento inculcava na sociedade, por intermédio dos mecanismos de opressão existentes nos meios de comunicação de massa, a idéia de que a razão instrumental seria o ápice da humanidade em seu processo de desenvolvimento racional. A cultura mercantilizada serviria para esse processo de uma falsa emancipação humana. Como Rodrigo Duarte afirma, esta falsa idéia de esclarecimento é proporcionada pelo: “medo ancestral do homem diante das ameaçadoras forças naturais”, que, por sua vez, “se corporificou no conceito moderno de ‘técnica’, que não tem como objetivo a felicidade do gênero humano, mas apenas uma precisão metodológica que potencialize o domínio sobre a natureza”.17

A questão fundamental é fazer uma crítica rigorosa à visão antropocêntrica de natureza, na qual o homem é considerado como o centro do mundo, e a natureza uma fonte inesgotável de riquezas. Nem uma visão idílica, bucólica e ufanista em relação à natureza, nem tão pouco a proposta do “bosque saudável” ou do meio ambiente encarado como mero produto de consumo. Devemos ter a preocupação de restaurar uma visão holística a respeito da natureza numa perspectiva contemporânea, contrária, obviamente, à falsa idéia de reunificação do homem com a natureza, pela prática do consumo proposta pela Indústria Cultural-do-Lazer. A idéia é compreender o homem e o mundo natural, numa relação efetiva e concreta de convívio verdadeiramente sustentável. Aliás, as populações indígenas sempre tiveram essa preocupação de equilíbrio sustentável, vide o célebre caso do chefe da tribo americana sioux que, já no século XIX, reclamava do descaso que o homem branco tinha pela natureza com a prática da caça indiscriminada dos bisões, afetando, assim, o equilíbrio entre o homem e o mundo natural. Ou ainda, lembremo-nos do profundo respeito que as tribos indígenas brasileiras têm em relação à natureza, considerado-a origem e fonte da vida orgânica e inorgânica.

Parece, realmente, que o problema está em nossa atual matriz racionalista ocidental que tudo quer catalogar, sistematizar e quantificar. Quase na mesma época em que na Grécia, os filósofos da natureza afirmavam a integração harmônica e orgânica do homem com o mundo natural, temos no longínquo oriente, aproximadamente no século VI a.C, as seguintes palavras de Lao Tsé, (popularmente, o “Velho Filósofo”): “Tudo que existe, é um incessante vir e voltar, um nascer e morrer. O que retorna, volta ao Imperecível. Quem isto compreende é sábio. Quem não compreende é autor de males”.18 Talvez, um dos males provocados pelos que não compreendem essa unidade com o Todo, é o patente desrespeito do homem contemporâneo em relação ao mundo natural. Tanto para os antigos filósofos do ocidente, os filósofos da physis, como para o taoísmo do “Velho Filósofo”, a natureza sempre foi o princípio gerador e unificador do ser com algo que está para além da própria compreensão humana. Faria-nos muito bem um pouco de humildade em relação à natureza, a fim de entendermos que somos apenas uma parte em relação ao Todo incognoscível. Ao mesmo tempo, essa humildade não provocaria uma mera contemplação bucólica e passiva, mas antes, a decisão prática de integrar a filosofia e a ecofilosofia com as causas ambientais, e com todos os desdobramentos relativos ao meio ambiente. Um desses desdobramentos, em que a filosofia pode e deve atuar é, exatamente, a questão do turismo ecológico, para que possa torná-lo efetivamente sustentável. Não se deve permitir que a lógica de mercado e a Indústria Cultural ocupem o valioso espaço do turismo ecológico, e o tornem definitivamente insustentável, por meio de uma mercantilização irresponsável.

Por que continuar, apenas, com a prática da coleta dos dejetos lançados nas trilhas das florestas, e com os processos de bioremediação das áreas degradadas por ação dos turistas “descuidados”, quando se pode fazer uma intervenção educativa muito mais ampla? Como Carlos Walter Porto Gonçalves19 nos diz, temos que parar de pensar sobre o “meio” ambiente e passar a entendê-lo por inteiro. Este é o papel da educação. Quando se educa o aluno no sentido de que ele não deve depredar um monumento histórico ou uma pracinha, porque essas coisas pertencem a ele mesmo, inaugura-se um novo mundo para o jovem. O conceito de cidadania passa a ter um significado real e concreto para ele, e nunca mais essa palavra terá um sentido abstrato e desprovido de referência imediata com a realidade. Logo, é imprescindível a interiorização do conceito de pertencer. O homem deve aceitar que pertence ao meio ambiente, para se poder criar uma espécie de “cidadania ecológica”, e, com isso, desenvolver um sentido de identidade com a natureza.

Uma das melhores maneiras de promover o respeito e a responsabilidade com uma determinada cultura é, exatamente, conhecer e se envolver com esta cultura. Por que não transpomos essa lógica de relacionamento para a questão ambiental, particularizando essa ação no caso do turismo ecológico? Ou seja, por que não aproveitar o envolvimento que as pessoas estabelecem com o meio ambiente, pela atual prática do turismo ecológico, para podermos incorporar, no mesmo momento, o conhecimento filosófico acerca da natureza. A prática filosófica sendo utilizada como ferramenta, para que o indivíduo procure se aprofundar no conhecimento de si mesmo (conhecimento de si como ato), juntamente com uma percepção mais conseqüente em relação à natureza, partindo sempre das questões fundamentais concernentes ao meio ambiente.

O ponto de intersecção para instaurar esse diálogo, o que chamamos na falta de termo melhor, de aufklärung ambiental, seria exatamente, a prática do turismo ecológico, em que a educação ambiental poderia viabilizar esse discurso integrador. Essencial seria interiorizarmos a idéia de pertencer ao mundo, ou como Heidegger20 nos diz, nos entender como ser-no-mundo, a partir de outro conceito fundamental para o autor, que é o da circunvisão. Como Márcia de Sá Cavalcante afirma, em nota ao texto de Heidegger, Ser e Tempo, o significado de circunvisão é: “A construção do mundo cotidiano das ocupações não é cega, mas guiada por uma visão de conjunto, a circunvisão, que abarca o material, o usuário, o uso, a obra, em todas suas ordens”.21 Acreditamos, firmemente, que a aplicação de todos esses conceitos filosóficos à questão ambiental poderia dar uma nova visão a respeito da relação do homem com a natureza, isto é, uma visão mais consciente do mundo natural a partir da consciência de si.

Como está citado na epígrafe desse trabalho, quem dá sentido à natureza é o próprio homem, é ele que a contempla e reflete sobre ela: “É a presença do homem que torna a existência dos seres interessante”.22 Contudo, o contínuo abandono e o desprezo acerca do saber filosófico deixou o homem sozinho com sua própria falta de consciência a respeito de si mesmo, do outro, e do mundo natural. Por isso, se faz urgente mudar o paradigma de abordagem sobre a questão ambiental, e aceitar o auxílio dos filósofos e dos ecofilósofos para integrar às fileiras das pessoas comprometidas com o projeto ambiental.

NOTAS

1 Citado por: DOBRÁNSZKY, Enid Abreu. No tear de palas: imaginação e gênio no século XVIII - uma introdução. Campinas: Papirus, 1992. p. 129.
2 DESCARTES, René. Discurso do método: meditações; objeções e respostas; as paixões da alma; cartas. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Os Pensadores.
3 A idéia de que a natureza passa a ser vista como um produto de consumo pela sociedade contemporânea, é um desdobramento proposto por nós, em relação à Teoria Crítica da Sociedade da Escola de Frankfurt. De fato, entendemos que a Indústria do Lazer opera de maneira análoga à Industria Cultural, no sentido da “mistificação das massas”, a partir da falsa idéia de reunificação do homem com a natureza pela prática do consumo. Como Rodrigo Duarte esclarece, a Indústria Cultural representa a “falsa identidade do universal e do particular”, ou seja, a aparência de que o indivíduo e o todo se encontram reconciliados quando, na verdade, tal sistema é um poderoso instrumento para – simultaneamente – gerar lucros e exercer um tipo de controle social: DUARTE, Rodrigo. Adorno/Horkheimer & a dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. p. 38.
4 GONÇALVES, Márcia C. A Ecofilosofia chega ao Brasil. Senac e Educação Ambiental, Rio de Janeiro, Senac Nacional, v. 10, n° 3, 2001.
5 Citado por Emmanuel Carneiro Leão. HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2001. p. 11. Parte I.
6 A idéia de intencionalidade da consciência proposta por Sartre, isto é, fornecer à consciência um caráter dinâmico e um sentido intencional, foi influência da Fenomenologia de Husserl. Para Sartre, a consciência humana está intrinsecamente ligada ao mundo: “A consciência e o mundo são dados de um só golpe: exterior por essência à consciência, o mundo é por essência relativo a ela”. Citado por: MACIEL, Luiz C. Sartre: vida e obra. 5.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1986. p. 35.
7 SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1978. Os Pensadores.
8 Id. A Náusea. Trad. de Rita Braga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. (Grandes Romances)
9 Id. A Crítica da razão dialética: precedido por questões do método. Trad. de Guilherme João de Freitas Teixeira. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
10 Id. (1978) op. cit., p. 163.
11 CIVILETTI, Maria V. P. Interação social, cultura e desenvolvimento. Ciências Humanas, Rio de Janeiro, Gama Filho, v. 18, n° 30, ago., 1995. p. 121.
12 Citado por: RAMOS DE OLIVEIRA, Newton et al. Adorno: o poder educativo do pensamento crítico. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2001. p. 180.
13 CIVILETTI, Maria V. P. (1995) op. cit., p. 121.
14 Citado por Emmanuel Carneiro Leão HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2001. p. 11. Parte I.
15 Este termo foi utilizado no período do Iluminismo, para identificar a possibilidade do “esclarecimento”, da “iluminação”, que o conhecimento poderia provocar no indivíduo, e por conseguinte, em toda a sociedade. Na verdade, o sentido de esclarecimento que propomos está fundado na idéia de razão emancipatória, exposta pela Escola de Frankfurt, e não com o esclarecimento racionalista proveniente da razão instrumental, o qual é posto em cheque pela Teoria Crítica da Sociedade. Utilizamos, assim, apenas o termo aufklärung como uma palavra desprovida do significado opressor da racionalidade iluminista.
16 ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. 17 DUARTE, Rodrigo. (2002) op. cit., p. 27.
18 TSÉ, Lao. Tao Te King: cumprimento da ordem cósmica. Trad. de Huberto Rohden. São Paulo: Fundação Alvorada, [s.d.] p. 72-73.
19 GONÇALVES, Carlos W. P. A Amazônia não é um vazio demográfico cultural. Senac e Educação Ambiental, Rio de Janeiro, Senac Nacional, v. 11, n° 2, 2002.
20 HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2001. Parte I.
21 Id. ibid., p. 314.
22 DIDEROT, D. Apud. DOBRÁNSZKY, E. (1992) op. cit., p. 129.