COMPETÊNCIAS NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL - É POSSÍVEL AVALIÁ-LAS?
Léa Depresbiteris*
O trabalho educacional estaria mais para formar
cabeças bem feitas do que cabeças cheias (Morin1 ).
Abstract
This article seeks to stimulate reflection on a burning issue: have vocational training institutions been able to evaluate competences, or would it be more prudent to think that what is being evaluated are resources – various knowledges – which have the potential to mobilize those competences? Taking into account that a competent practitioner is one who tackles unexpected situations, who builds his/her competences on a ongoing basis, live and in full color, how can we judge, in a categorical fashion, whether or not one is competent in the framework of his/her training? Such questions are the backdrop for a discussion initiated in the article with the concept of the theme complexity and, consequently, with the need for analyzing the multiple aspects involved in evaluating competences.
Keywords: Vocational Training; Competence; Evaluation; Cognitive Resources; Competence Mobilization.
I - ELUCIDANDO ALGUNS
CONCEITOS
Responder à questão a que me proponho
não é uma tarefa simples. Simples
e complexo são termos relativos:
algo pode ser complexo para uma pessoa
e simples para outra.
Baseio-me, para dizer que minha tarefa
é complexa, na origem desses termos.
“Complexo” vem do latim complexus
e indica aquilo que abrange ou encerra
muitos elementos ou partes. O prefixo
cum indica intensidade. “Simples” vem
do latim simplex. O sim indica a noção de único, de algo que não é composto. Por
sua vez, o plex se origina do indo-europeu
plek e significa dobra, laço (Cortella2).
Desta maneira, “simplificado” indica
uma só dobra; “complicado” é aquilo
que é entrelaçado, múltiplo, possui
muitas facetas.
Não é à toa que a Psicologia, descobrindo
vários conjuntos de sentimentos
relacionados a deficiências reais ou imaginárias,
deu a eles o nome de complexo.
Freud, por exemplo, baseou-se na lenda
grega de Édipo para explicar um conflito
fundamental do homem: a representação
do desejo sexual inconsciente e universal
de cada filho pela mãe e a conseqüente
rivalidade com relação ao pai.
Estabelecendo uma analogia com os
complexos da psicologia, podemos dizer
que, hoje em dia, estamos sofrendo, sobretudo
na educação profissional, do complexo
das competências. A própria noção
de competência se apresenta, muitas vezes,
como um enigma para os educadores.
Contribui, para isso, a polissemia do termo e, igualmente, as diferentes visões
políticas e filosóficas sobre ele.
Alguns estudiosos indicam a forte
influência da noção de competências nas
condições sociais do trabalhador. Um
deles, Dolz,3 alerta para o fato de que a
competência pode enfraquecer os sistemas
de qualificação e individualizar a
formação dos reconhecimentos profissionais
em detrimento de sistemas coletivos
negociados.
Apesar da necessidade de uma dimensão
social mais crítica, não se pode
negar que a discussão sobre as competências
desvelou e continua a desvelar
aspectos educacionais de fundamental
importância. Alguns desses aspectos
são os da necessidade de mobilização
integrada de vários saberes, de reformulação
dos currículos das instituições
de educação profissional, da inovação
nos conteúdos e formas de capacitação
de professores e, principalmente,
de uma avaliação de caráter mais
dinâmico e formativo.
Como já mencionei, lidar com o conceito
de competências não é tarefa simples.
Torna-se imperativo defrontar-se
com muitos elementos, muitas variáveis
que tendem a tornar a situação mais
intrincada e complexa.
Uma das “dobras” a ser analisada é a
do próprio conceito de competência.
Na linguagem popular, o termo competência
é usado como “ser capaz de fazer
algo de modo bem feito”.
Em outra acepção, competência designa
a faculdade concedida por lei a um
funcionário, juiz ou tribunal, para apreciar
e julgar certos pleitos e questões, a
qualidade de quem é capaz de apreciar e
resolver determinado problema, de fazer
alguma coisa com capacidade, aptidão
e idoneidade.
Segundo Rey,4 a perspectiva jurídica
revela o aspecto de atribuição, que determina
a natureza das causas que se relacionam
com a competência e o aspecto territorial
que prevê o espaço físico, no qual
ela será exercida. A idéia central é a do
limite pelo qual a competência de uma
instância judicial define-se por uma delimitação
territorial, associada às causas
judiciais que ela pode dar conta. É necessário,
portanto, considerar as dimensões
quantitativa (circunscrição) e qualitativa
(tipo de causas).
No aspecto individual, uma pessoa
é competente quando é publicamente
reconhecida como detentora de
aptidões ou poder, deste fazendo jus.
Neste sentido, vale ressaltar que fazer
jus é merecer. O mérito de quem é
competente não vem do nada; representa
um grande esforço pessoal de
investimento, de estudo.
Outras idéias sobre competências têm
relação com as áreas nas quais o termo é
empregado. Os especialistas em Ciências
Sociais utilizam a palavra quase sempre
no plural – competências – designando
os conteúdos particulares de cada qualificação
profissional em uma determinada
organização de trabalho. Para os psicólogos,
a palavra competência vem no
singular, indicando um comportamento
que é equivalente à uma capacidade ou
habilidade, muitas vezes uma aptidão*.
Um significado, raramente usado
para o termo competência, é o que expressa
oposição, conflito, luta. Machado5
nos auxilia a compreender mais
essa interpretação do termo, recorrendo
ao latim: apesar de competir vir de
com + petere, que significa buscar junto
com; no latim tardio, o que passou a
prevalecer é a idéia de competência
como a de disputar junto com.
Parece compreensível, então, que,
quando surgiu na literatura da educação
profissional, a palavra competência tenha
provocado tanto desconforto nos
educadores. Acontece que a primeira idéia
de competência, nessa modalidade de
educação, foi a de competitividade, decorrente
das necessidades do trabalhador
e das empresas lutarem, em tempos
de crise, por um lugar no mercado de
trabalho. O termo apareceu como uma
exigência do processo de globalização e
do fenômeno de transformação produtiva,
que colocava a competividade como
núcleo central da economia globalizada.
No contexto da educação mais geral,
um dos pioneiros do uso da palavra
“competência” foi Chomsky.6 Ele considerava
que as pessoas nascem com uma
competência lingüística, um potencial
biológico que é inerente à espécie humana.
Para esse estudioso, a competência
difere do desempenho. A competência
representa o que o sujeito pode realizar
idealmente, graças a seu potencial; já o
desempenho está relacionado a um comportamento
observável.
Pode-se perceber que a concepção de
Chomsky considerava as competências
como capacidades inatas de uma pessoa,
ou seja, as competências só seriam desenvolvidas
se as capacidades já estivessem
presentes em seu organismo. Para ele, o
desempenho é uma ação datada e observável.
A competência subjaz ao desempenho,
sendo uma qualidade mais duradoura,
que não pode ser observada em si
mesma. Para medir uma competência, é
necessário observar vários desempenhos.
Alguns estudiosos ainda defendem
esse ponto de vista, afirmando
que, para formar competências, é necessário
que se conte com capacidades
inatas. Outros propõem abordagens,
pelas quais é possível desenvolver
competências, existindo ou não capacidades
inatas; elas podem ser aprendidas
em qualquer etapa da vida.
Para Feuerstein7, por exemplo, mesmo
com uma herança genética não favorável,
é possível desenvolver o aprendizado.
Esse psicólogo romeno baseia-se
na crença de que a genética certamente
influencia o desenvolvimento de uma
pessoa, mas não representa algemas que
impeçam o aprender. Feuerstein8 parte
da idéia de que a inteligência não é algo
fixo, inato, mas uma propensão, ou
uma inclinação do organismo para se
modificar e adaptar-se a novas situações.
Na verdade, toda aprendizagem deveria
provocar uma mudança estrutural
nos processos de pensar de uma pessoa.
Assim, quando se ensina um determinado
vocabulário a alguém, é claro que há
uma expectativa de que os termos aprendidos
sejam utilizados. Essa aprendizagem,
porém, não é estrutural. Ela só
ocorre quando a pessoa realmente usa as
palavras aprendidas, construindo sua linguagem,
modificando sua forma de pensar
e de se expressar.
De modo análogo, na educação profissional,
a competência implica na mobilização
de um conjunto de recursos
cognitivos, afetivos e psicomotores que
a constituem. Um docente, profundo
conhecedor de sua área, mas que não
mobiliza esse saber para estimular a
aprendizagem e a autonomia dos educandos, poderá ser considerado como
competente?
Cumpre ressaltar, ainda, que as competências
sofrem influências do contexto
e do tempo histórico.
Há alguns anos atrás, por exemplo,
um professor competente era aquele que
dava bem sua aula. Demo diz que hoje,
(...) o que se espera do professor já não
se resume ao formato expositivo das
aulas, a fluência vernácula, à aparência
externa. Precisa centralizar-se na competência
estimuladora da pesquisa, incentivando
com engenho e arte a gestação
de sujeitos críticos e auto-críticos,
participantes e construtivos9.
Prosseguindo na elucidação do termo
competências, percebemos algumas vezes
que ele é usado como sinônimo de capacidades,
outras vezes como diferente.
Cardinet10 defende a diferença, mas
ressalta a profunda interrelação entre
competências e capacidades. Para ele, uma
competência pode ser definida como um
conjunto de capacidades e conhecimentos
organizados para realizar uma tarefa
ou um conjunto de tarefas, satisfazendo
exigências sociais precisas. As competências
sempre se manifestam por comportamentos
observáveis. Por exemplo,
organizar e atualizar uma documentação,
de modo a favorecer uma melhor
comunicação, é uma competência que
coloca em prática algumas capacidades,
como informar-se, documentar-se, interpretar
dados, ter conhecimentos específicos
sobre o que está sendo tratado
e conhecer métodos de classificação e
codificação.
Para Cardinet11, as capacidades são
transversais; exprimindo as potencialidades
de uma pessoa, independentemente
dos conteúdos específicos de determinada
área. As capacidades não são
atitudes inerentes ou dons; elas se
manifestam e se desenvolvem para
favorecer a aprendizagem. Cumpre
ressaltar, também, que as capacidades
não são diretamente observáveis, nem
avaliáveis e que elas nunca são totalmente
dominadas, uma vez que se
desenvolvem ao longo da vida.
Outro aspecto importante a analisar
é o da diferenciação que muitos estudiosos
estabelecem entre competências educacionais
e competências profissionais.
Irigoin12 indica algumas definições para
explicitar esses dois tipos de competência.
Na dimensão profissional:
.. competência é a construção social
de aprendizagens significativas e úteis
para o desempenho produtivo, em uma
situação real, que se obtém não só por
meio da instrução, como também, e em
grande medida, por meio da aprendizagem
em situações concretas de trabalho;
.. competência é um conjunto identificável
e avaliável de conhecimentos,
atitudes, valores e habilidades, relacionados
entre si, que permitem desempenhos
satisfatórios em situações reais de
trabalho, segundo padrões utilizados na
área ocupacional.
As competências educacionais para
Irigoin13 representam a capacidade para
atuar com eficiência, eficácia e satisfação
sobre algum aspecto da realidade pessoal,
natural ou simbólica.
Perrenoud14 refere-se às competências
como uma orquestração de diversos recursos
cognitivos e afetivos para enfrentar um
conjunto de situações complexas.
Na mesma linha de pensamento,
Boterf15 propõe que a competência é a
capacidade de mobilizar um conjunto de
recursos cognitivos para enfrentar uma
situação complexa. A competência não
reside nos recursos (saberes, saber-fazer
ou saber-ser) a serem mobilizados, mas
na própria mobilização dos mesmos.
E recorrendo a Dolz16, vemos que a
mobilização não é apenas uso ou aplicação,
mas também adaptação, diferenciação,
integração, generalização ou especificação,
combinação, orquestração, coordenação,
ou seja, um conjunto de operações
mentais que transformam os conhecimentos,
em vez de deslocá-los.
O profissional deve não somente
saber executar o que é prescrito, mas deve
ir além do prescrito. Em última análise,
não é necessário ser competente para
executar o que é prescrito, para aplicar o
que é conhecido. Talvez seja, por esse
motivo, que a redação proposta para as
competências deva buscar ir além de uma
simples atividade profissional. Preparar
e confeccionar produtos de confeitaria,
por exemplo, é uma atividade, um saberfazer.
Preparar e confeccionar produtos
de confeitaria (massas, tortas, biscoitos,
bolos, pães, petits fours, canapés, patês,
saladas, sanduíches, crepes, sucos e outros),
utilizando ingredientes, técnicas,
utensílios, equipamentos e demais materiais
que atendam a critérios de higiene,
aparência e sabor, de modo a garantir a
qualidade do produto e o prazer de quem
se alimenta, seria a competência.
Para esta competência, alguns recursos
cognitivos referem-se à própria
natureza da tarefa e às capacidades que
devem ser desenvolvidas para uma melhor
qualidade do processo e do produto.
É, por isso, que devemos definir
quais são os saberes (conhecimentos
técnicos e tecnológicos), saber-fazer
(práticas) e saber-ser (atitudes, valores)
que devem mobilizar a competência
exigida.
Em síntese, várias são as nuances,
as dobras das competências. Creio,
porém, que a idéia de mobilização é
essencial. Voltarei a ela para reforçar
minha posição sobre a possibilidade
ou não de avaliar competências.
Por enquanto, creio que saber um
pouco da história das competências na
educação profissional poderá esclarecer
ainda mais os nossos desafios.
II - UMA BREVE HISTÓRIA
DO SURGIMENTO
DO TERMO
“COMPETÊNCIAS”
NA EDUCAÇÃO
PROFISSIONAL
Na literatura da educação profissional,
o surgimento do termo “competências”
parece ter ocorrido, primeiramente,
em alguns países industrializados, sobretudo
naqueles que apresentavam
maiores problemas em integrar seus sistemas
educativo e produtivo.
Desta maneira, o modelo de competências
surgiu como uma proposta para
a educação profissional, formulado sob
influência do setor produtivo, como uma
decorrência das mudanças no mundo do
trabalho que apontavam para a necessidade
de um novo perfil do trabalhador.
Paradoxalmente, um tema que sempre
havia sido defendido por educadores
- uma formação mais ampla do trabalhador -
passou a ser um lema de empresários, na
busca de um profissional com maior
autonomia, capacidade de resolver problemas
novos e iniciativa.
Apesar de não ser objetivo deste artigo
aprofundar o porquê dessas novas
exigências, é interessante discorrer sobre
a passagem histórica do ofício para a
profissão.
Na Idade Média, uma pessoa que
dominava um ofício deveria possuir um
conjunto de conhecimentos e habilidades
específicos, provados pela experiência
prática. Exercer um ofício era operacionalizar
um saber-fazer especializado.
Com o tempo, os ofícios foram se
expandindo e abarcando outros tipos de
saberes, o que parece ter incentivado a
formação de grupos de trabalhadores de
uma mesma área de trabalho, com a finalidade
de harmonizar e regulamentar suas
atividades e conhecimentos. Começam,
então, a surgir as ordens profissionais.
O profissional prestava juramento
para respeitar um conjunto de regras,
dentre as quais o segredo da profissão,
ou seja, não revelar informações que ele
tinha direito de possuir sobre seus clientes.
Tal noção se referia, principalmente,
às figuras do médico, do tabelião e do
advogado.
Segundo Le Boterf 17, o ofício é aquele
que descreve uma série de atividades
realizadas em um determinado posto de
trabalho; a profissão é constituída por
um conjunto de missões, funções e tarefas
que o sujeito deve assegurar, não
somente em seu emprego, mas em relação
com os outros atores, os outros
empregos e a empresa ou organização
em seu conjunto. As tarefas profissionais
requeridas não são necessariamente
tarefas precisas, particulares, mas também
papéis e funções almejados.
Procurar um profissional é buscar
alguém que alcançou um certo domínio
do ofício; é referir-se à uma escala de
exigência. Fazer a apreciação “esta enfermeira
é uma profissional” significa distinguir
o ofício (enfermagem) e seu nível de
domínio (profissionalismo). A identidade
do profissional é construída em
relação a um projeto, a um produto, a
um resultado esperado ou a um serviço
(Le Boterf18).
O profissional
deve caracterizar-se
por uma forte trabalhabilidade,
o que
envolve dupla característica:
dominar
bem suas competências
e ter suficiente
recuo em relação
a elas, para poder
adaptar-se às
mudanças de empregos
ou de setores
de atividade.
Como diz Boterf19, a competência
não tem existência material independente
da pessoa que a coloca em ação. Segundo
a tradição grega, alguns profissionais
deveriam saber encarnar esse “fazer-se
competente”. Por exemplo, o médico e o
sofista deveriam brilhar na arte de conjecturar,
isto é, saber adivinhar e abrir
um caminho por meio de balizas, mantendo,
ao mesmo tempo, os olhos
fixos no objetivo a alcançar. Esse conhecimento
oblíquo, esse saber conjectural
convinha tanto ao médico que
ausculta sintomas de uma doença,
como ao sofista mergulhado no fervor
da discussão, como a um mecânico
de automóveis, ou uma enfermeira.
Assim, após ter examinado um indivíduo
de acordo com vários registros de
exploração, o médico deve saber concluir
seu diagnóstico, assumindo o risco de
um julgamento. Mesmo que possa
apoiar-se em um sistema de balizas
codificadas (protocolos, pistas epidemológicas,
itens de exame médico,
quadros clínicos, quadros nosográficos),
ele deve envolver-se de modo
pessoal. Entra em cena a subjetividade
do trabalhador.
Esse enfrentamento de situações
imprevistas e indeterminadas supõe regularidade
e tem fundamento na operacionalização
regular e não-acidental.
Com o aumento da complexidade
do trabalho, não só em termos de conhecimentos
necessários decorrentes da introdução
de novas tecnologias, mas da
reformulação das próprias formas de
organização pelo qual ele se realiza, o
mundo começou a exigir muito mais do
que o saber-fazer.
É o discurso das competências que
desvela a necessidade de outras dimensões
de saberes e, sobretudo, de sua
mobilização.
A importância dessa exigência de
formação mais ampla fica evidente, no
Brasil, com a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional – LDB, Lei n 9394, de
20 de dezembro de 199620 – que dedica
um capítulo especial para a Educação
Profissional.
Nos documentos21 que definem as
diretrizes para a educação profissional,
a competência é vislumbrada como
a capacidade pessoal de articular autonomamente
os saberes (saber, saberfazer,
saber-ser e saber-conviver) inerentes a situações concretas de trabalho.
É “um saber operativo, dinâmico e
flexível, capaz de guiar desempenhos num
mundo do trabalho em constante mutação e
permanente desenvolvimento.”
O saber-fazer desvela as técnicas, os
procedimentos, as estratégias que constituem
as atividades do trabalho.
Os saberes destacam a dimensão dos
conhecimentos técnicos e tecnológicos
que devem embasar um saber-fazer mais
consciente e fundamentado.
O saber-ser diz respeito não só a
atitudes, mas a valores. É por meio dele
que os outros saberes adquirem uma
textura social. Tanguy22 ressalta a importância
do saber-ser, dizendo que ele pode
ser considerado na perspectiva de uma
dimensão social.
Ressalte-se que o saber-ser vem expressar
o que parece ter sido sempre um
preocupação: a ética de uma profissão.
A questão candente é: de que adianta
um profissional extremamente bem preparado
tecnicamente se suas atitudes são
antiéticas?
Para Le Boterf23, a profissão é uma
comunhão de valores e de vida, na qual
instâncias legitimadas estabelecem regras
e são encarregadas de velar por sua boa
aplicação. A ordem dos médicos e a dos
arquitetos são ilustrações disso.
Drauzio Varella24, médico renomado
e competente, em seu livro Por um fio,
conta uma história que reforça a importância
do saber-ser.
Um famoso oncologista americano
recebeu uma mulher, com um câncer
bastante avançado. Seu diagnóstico imediato
foi recomendar sessões de radioterapia.
Como era época dos festejos de
Ação de Graças, a senhora perguntou ao
médico se poderia adiar as sessões por
uns dias porque desejava viajar para visitar
sua família, que morava em outra
cidade. O médico imediatamente recusou
a proposta, afirmando que o caso era
grave. Apesar de triste, a mulher concordou
e disse que, no próximo ano poderia
então viajar, realizar seu desejo. Novamente
o médico retruca, considerando
que talvez o tempo de vida não fosse
suficiente para tal.
Seria essa a única forma de tratar
esse caso?
Outra história que pode elucidar a
importância do saber-ser é a de Quino. Em
uma entrevista ao Correio da Unesco25, ele
conta que conheceu uma velhinha, psicóloga
italiana, que se comunicava pela internet
com monjas tibetanas, mas que mal
cumprimentava seus vizinhos.
Não é à toa que um dos principais
desafios das instituições de educação
profissional é traduzir operacionalmente
e avaliar o saber-ser.
No cotidiano de nossas escolas, tenho
encontrado a palavra “ética” em
todos os currículos de educação profissional.
Observo, contudo, a dificuldade de
se encontrar formas de trabalhar esse
tema, na busca da incorporação de algumas
atitudes essenciais para um profissional.
Mais ainda, coloco-me no papel
do docente quanto à dificuldade de definir
critérios e indicadores de avaliação do
saber-ser.
Contudo, apesar das dificuldades, é
preciso enfrentar os problemas. É necessário
que docentes e alunos reflitam sobre
os aspectos éticos de cada profissão,
como fatores do saber-conviver não só
na escola, como na sociedade.
Alguns exemplos na área da Saúde
ilustram essa necessidade.
Aprendi, com dedicados especialistas
dessa área, que um critério fundamental
para a realização das atividades é
o respeito ao usuário. O alcance desse
critério, no caso específico da administração
de um medicamento, poderia ser
avaliado por evidências como: informação
sobre os efeitos do remédio, esclarecimento
de todas as dúvidas sobre os
procedimentos de utilização, consideração
sobre a decisão do usuário sobre
tomá-lo ou não.
Uma história muito bonita me vem
à mente no tocante à esse último aspecto:
a de uma enfermeira que se viu frente à
negativa de um senhor com mal de Hansen
de tomar um remédio apropriado à
sua doença.
Esse senhor dizia que não precisava
tomar o medicamento, uma vez que
Deus iria curá-lo. A enfermeira, preocupada
com o estado de saúde do homem,
que piorava a cada dia, pensou muito e
achou uma solução interessante. Disse
ao enfermo, que também acreditava na
cura do poder divino, mas que ele a visse
como uma mensageira de Deus, alguém
que poderia oferecer algo que minimizasse
suas dores. Nenhuma palavra a
mais foi necessária; o senhor tomou
prontamente o remédio.
Essa profissional mobilizou saberes
(conhecimentos sobre o medicamento,
sobre a doença, sobre as características do
enfermo), saber-fazer (administração do
medicamento) e, principalmente, o saber-
ser (atitudes de respeito, mas de
intervenção para a melhoria).
Outros casos reais mostram que a
mobilização das competências enfrenta
um caráter dual: o profissional e aqueles
que serão o “outro”. Isso exige análise
sob diferentes perspectivas.
Não são raros os casos de pessoas
que são competentes, mas que encontram
pessoas com as quais vão trabalhar
ou atender que não respeitam o que o
profissional propõe. Uma enfermeira
competente pode não conseguir que, seu
paciente, siga os procedimentos considerados
necessários à sua saúde. Assim,
conquanto esse fato não seja uma constante
na vida dessa profissional, ela não
pode ser considerada incompetente.
Outro aspecto fundamental é o ambiente
de trabalho, no qual as competências
serão mobilizadas. Ainda na área da Saúde, lembro de
uma pergunta que me deixou profundamente
triste e preocupada: “Léa, como
posso ser competente se no posto onde
trabalho estamos reaproveitando gaze?”
Enfim, é preciso considerar que não
nos fazemos competentes sozinhos. A
competência do profissional depende da
rede (ou das redes) a qual ele pertence
(Boterf 26). Não basta a presença de um
profissional competente. Essa competência
precisa ser mantida, estimulada e
vista como algo que não se comporta
sempre da mesma maneira. O fator humano
é que faz com que o melhor dos
médicos possa cometer um erro de diagnóstico
e o mais competente dos cantores
desafine um dia.
Outra dimensão que merece desdobramento
é a questão do tempo: competências
não se desenvolvem de um dia
para outro.
Uma pequena história de Mário
Sérgio Cortella27 em A obra intangível -
Outras idéias - pode ilustrar a relação
temporal intrínseca ao desenvolvimento
de competências.
Cortella28 narra que, no ano em que
se iniciava o século XX, Auguste Renoir,
já sexagenário e bastante afamado pela
vitalidade que deu ao Impressionismo,
foi procurado por um jovem admirador,
interessado em aprender as artes do desenho.
Alegando um tempo escasso para
tal empreitada, o apressado discípulo
desejava saber quanto duraria o aprendizado.
Ele ficara animado ao ver que o
grande mestre era capaz de fazer uma
bela pintura com delgadas pinceladas e
com uma rapidez assombrosa.
Nesse instante, a resposta de alguém
que é um sábio consistente ultrapassa o
senso comum e o óbvio, gerando o
novo. Renoir diz ao rapaz: “Fiz este desenho
em cinco minutos, mas demorei 60 anos
para consegui-lo”.29
A partir do que foi exposto, creio
que cada vez mais a noção de competências
fica cada vez mais explicitada, o
que entretanto não é suficiente para
que consigamos desenvolvê-las. Os
desafios ainda são grandes e necessitarão
de muito envolvimento e participação
dos atores das instituições de
educação profissional.
III – A EDUCAÇÃO
PROFISSIONAL E
AS COMPETÊNCIAS
Sabemos que entender um conceito
é apenas uma fase do processo. É
por isso que questiono: será que as
instituições de educação profissional
estão sendo competentes em desenvolver
competências?
Ressurge a idéia de complexidade,
agora voltada a uma avaliação dessa
amplitude e que envolve múltiplas variáveis:
relações entre os sistemas educacional
e produtivo, características das formas
de gestão educativa, filosofias e
políticas de ensino e aprendizagem, estruturação
dos currículos com integração
entre competências e capacidades, finalidades
da capacitação de professores, adequação
dos ambientes de aprendizagem
e, em uma metalinguagem, a avaliação da
própria avaliação.
Esgotar todos esses elementos seria
inviável neste momento. Destaco apenas
dois deles.
- Estruturação dos currículos
Temos de convir que, ao se falar em
currículos de educação profissional voltados
para o desenvolvimento de competências,
alguns aspectos deveriam
merecer reflexão.
Primeiramente, é fundamental uma
análise conjunta e participativa dos profissionais
da instituição educacional sobre
que abordagens educacionais permearão
as decisões curriculares. Menciono
“abordagens”, no plural, porque sou
favorável à diversidade de princípios e
situações; defendo, contudo, a idéia de
um eixo filosófico norteador das decisões
educacionais.
Deve-se estar consciente de que certamente
serão diferentes os currículos baseados
em abordagens condutivistas de
aprendizagem e aqueles que têm fundamento
em propostas educacionais mais
construtivistas.
Em uma perspectiva fortemente condutivista,
os currículos tendem a colocar
muita ênfase na prática, no saber-fazer.
Essa abordagem curricular parece relacionar
diretamente competências e comportamentos
esperados e a considerar o
sistema produtivo como o único parâmetro
de formação.
Creio que as competências profissionais
não podem ser simplesmente transladadas
para os currículos escolares. Elas
devem passar por um processo de tradução
educacional que acrescente elementos
de uma aprendizagem mais fundamentada
e significativa.
Nesta linha de pensamento, é preciso
identificar que os comportamentos
são voluntários e as ações são intencionais.
Evidentemente, ser competente
é ser capaz de executar uma
série de atos, mas percebendo que eles
contêm uma função técnica e social.
Não deveríamos esquecer que não há
uma única maneira de ser competente
em relação a um problema ou a uma
situação, nem há somente um comportamento
observável correto. Várias formas
de pensar e agir são possíveis.
Um currículo com um eixo mais construtivista
exige ambientes que extrapolem
o espaço da sala de aula e da oficina,
dos laboratórios das escolas. Exige,
igualmente, a realização de atividades de
colaboração, por meio de experiências
que definam responsabilidades e que
tenham potencial de aprimorar além do
saber-técnico, o saber-conviver. Uma
premissa importante é a de que, para
desenvolver competências, é preciso estimular
a resolução de problemas, desafiar
os educandos a mobilizar os conhecimentos
já adquiridos, a integrar novos,
a criar. O conteúdo passa a ser um meio,
e não um fim em si mesmo. Trata-se, segundo Meirieu30 de “aprender fazendo, o
que não se sabefazer”.
Mesmo se evitando a discussão sobre
ser ou não condutivista, alguns aspectos
são desafiadores no contexto das competências,
destacando-se o do rompimento
com a dicotomia teoria e prática.
Jarbas Novelino Barato31 trata com
brilhantismo essa questão. Ele relembra
as décadas de 80 e 90, quando a forma de
estruturação das aulas era, na seqüência,
a teoria e a prática. Mesmo na nova área,
que se estruturava nos anos 80, a Informática,
as sessões de ensino eram rigidamente
organizadas em momentos prévios
de teoria, seguidos de momentos
de prática.
- O novo papel do professor de
educação profissional
A concepção de educação como processo
de mudança, como construção para
a formação de um profissional e um
cidadão, implica no compartilhamento
de responsabilidades entre docente e aluno,
em mudança nos modos de aprender
e de ensinar, em transformação dos
paradigmas de referência do que é educar.
O professor, mais do que um profissional
de uma área, deve ser considerado e
preparado para ser um mediador do
educando em seu aprendizado.
Mediar é, como diz Feuerstein,32 estimular
o pensamento do mediado,
buscando sua autonomia, sua independência,
a capacidade de enfrentar situações
e tomar decisões.
Essa mediação deveria
ser considerada importante
em todas as
áreas de um currículo de
educação profissional. A
mediação é fundamental
na integração entre
competências e capacidades.
Digo isso porque
percebo que ainda existe uma tendência
de se classificar algumas profissões como
mais relevantes do que outras. Educacionalmente,
isso traz sérias conseqüências,
não só para os docentes dessas profissões,
como para os alunos. Creio que o
respeito pelo planejamento, desenvolvimento
e avaliação de uma área profissional
deve ser eqüitativo.
É preciso ter consciência de que, por
mais simples que possa parecer um trabalho,
ele necessita de competências.
Algumas capacidades não podem ser
menosprezadas como: codificar, decodificar,
classificar, analisar, sintetizar, pensar
de maneira hipotética, pensar de
modo analógico, inferir, deduzir, definir
critérios e indicadores, tomar decisões.
Na verdade, estas capacidades deveriam
ser desenvolvidas desde a educação
básica e ser enriquecidas ao longo da
formação de uma pessoa. Desenvolver
capacidades para gerar competências, que
serão sempre calcadas na apropriação de
modos de interação e de ferramentas
socioculturais, é função primordial em
um currículo que se pretenda formador.
Reiterando, as competências profissionais
não podem ser simplesmente transladadas
do sistema produtivo para o processo
de ensino e aprendizagem na educação
profissional; faz-se necessário uma tradução
educacional fundamentada.
IV - A AVALIAÇÃO DAS
COMPETÊNCIAS –
TODO CUIDADO
É POUCO
Creio que todo cuidado é pouco ao se
falar de avaliação de competências.
Observo, com grande preocupação, a
influência que os sistemas de certificação
parecem estar tendo em algumas escolas
de educação profissional.
Um dos problemas é o de pensar
que a avaliação é um momento final do
processo educativo, como algo que
julga, de modo categórico, a competência
ou não competência do educando,
a partir de uma única fonte de
coleta: uma prova teórica.
Considero que um dos perigos
atuais é o de se adotar um pensamento
avaliativo dicotômico: ser ou não ser
competente.
Ampliando essa visão, a avaliação
pode evidentemente analisar os resultados
de uma formação, mas nunca esquivar-
se de suas finalidades formativa e
mediadora.
Formativa, porque formação para
competências exige acompanhamento,
observação, continuidade, coisa que nunca
pode ser considerada acabada. O processo
é fluido, possível de ser revisto e
redirecionado, complementado, integrado
em redes e malhas evolutivas que
favorecem a aprendizagem continuada, a
atualização das informações, a alimentação
e realimentação para suprir as necessidades
que vão surgindo.
Na educação profissional, deve-se ter
bem claro que a competência não é algo
que a pessoa aprende para repetir exaustivamente
ao longo de sua vida. Trata-se
de alguma coisa que deve ser constantemente
revista, tendo em vista as exigências
laborais. Um profissional que sabe
ultrapassar limites de um determinado
contexto e inova para outro é o que se
define realmente como competente. Ele
sabe transpor, transcender. Refletindo,
pensando sua prática, é que o profissional
pode transformar, inovar, colocar
sua experiência em situações profissionais
diversas.
A avaliação deve ser igualmente dinâmica,
o que significa que o ensino seja
estruturado dentro dos princípios e processos
cognitivos que visem modificar as
pessoas na direção de uma capacidade mais elevada e a uma maior eficácia para
resolver problemas.
A avaliação propõe, nesse sentido,
uma diversidade de instrumentos e
técnicas que ressaltem a metacognição
e a auto-regulação como formas de
mediação.
A metacognição pode ser explicada
como uma consciência, um auto-controle
dos próprios processos de aprender.
Os processos metacognitivos incluem as
formas pelas quais os educandos supervisionam
a compreensão de suas ações,
planejam seus estudos, selecionam as
informações e as relacionam com conhecimentos
previamente adquiridos, escolhem
estratégias para resolver problemas
e avaliam seu próprio processo de
pensamento e de ação, buscando formas
de aperfeiçoá-los.
Segundo Doly33, o que faz falta aos
educandos com insucessos de aprendizagem
são métodos de trabalho.
Seria importante, então, avaliar se algumas
operações metacognitivas estão
sendo desenvolvidas na aprendizagem:
operações de antecipação que
consistem na previsão de etapas de
trabalho, na escolha de estratégias com
relação aos fins desejados, aos resultados
obtidos; operações de auto-regulação
que controlam o que se está realizando,
avaliando desvios com relação
aos objetivos, registrando erros e
operações de avaliação terminal dos
produtos e resultados visados.
Os professores poderiam usar a
metacognição, não só para um trabalho
individual, mas coletivo, aproveitando
para enriquecer a classe de alunos,
com o relato das formas de pensar
um problema de cada indivíduo.
Todos poderiam perceber que, muitas
vezes, podemos chegar a um resultado
por diversos caminhos diferentes.
Pode-se até levar os alunos a refletirem
que, dependendo da situação, algumas
formas de atuar são mais efetivas
que outras.
Na minha prática de avaliadora,
tenho usado um instrumento com
potencial para a metacognição: a prova-
protocolo34. Nela, o educando reporta
sobre sua própria atividade interna.
Protocolos são provas que, junto
às perguntas de conteúdo curriculares,
intercalam perguntas que solicitam
do aluno descrever o que acabou
de fazer, as dificuldades experimentadas,
as dúvidas, as autocorreções de
seus erros.
Um exemplo de questões sobre
como o educando vislumbra e resolve
os problemas de qualquer natureza
poderia ser:
Antes de realizar a tarefa:
.. O que você deve fazer para resolver
esse problema?
.. Que informações são fundamentais
para resolvê-lo?
.. Como você se sente para lidar
com essas informações?
.. O que parece ser o mais difícil e o
mais fácil na resolução?
.. Que estratégias você acha que
poderia adotar para resolvê-lo?
Depois da realização da tarefa:
.. O que ajudou você a se dar conta
do que deveria ser feito para resolver o
problema?
.. Qual foi a parte mais clara do
enunciado? E a menos clara?
.. Que coisas foram difíceis de entender?
Por quê?
.. O que você fez para resolver suas
dúvidas e seguir em frente?
.. Em que momentos você cometeu
erros? Quais foram os erros?
.. Como você identificou que eram
erros?
Procedimentos de uma avaliação dinâmica
concretizam a idéia de investigaçãoação35.
Procura-se entender o ensino e a
aprendizagem como componentes de um
processo contínuo, em espiral, de açãoobservação-
reflexão-nova ação, evitandose
a mecanização das ações avaliativas.
Testes clássicos podem ser usados,
mas não devem ser os únicos instrumentos
para a tomada de decisões avaliativas.
É preciso diversificar os meios de
análise da aprendizagem, considerar as
produções efetuadas em diversas etapas
com a ajuda de ferramentas e por meio da
interação entre pessoas e entre elas e o
meio ambiente. Não se pode ter uma
visão estática do aprendizado.
Falar dos instrumentos de avaliação
é importante, mas de nada adianta elaborá-
los sem pensar nos critérios e indicadores
ou evidências que nos permitam
analisar os resultados coletados.
Critérios, parâmetros, padrões são
termos usados, em avaliação, como
sinônimos para designar uma base de
referência para julgamento. A noção
de referência vem do latim referre, que
significa literalmente reportar. Assim,
para avaliar, nos referimos a alguma
coisa preexistente, de modo a fundamentar,
garantir nossa opinião, nosso
juízo (Hadji36).
Um catálogo de cores, por exemplo,
é uma referência que indica os diversos
padrões de tonalidade. Cada critério define
o que se julga poder esperar legitimamente
do objeto avaliado. É, por
meio dos critérios, que se realiza a “leitura”
do objeto. Pensar em critérios é refletir
sobre o que avaliar.
Uma reflexão fundamental, quando
se fala de padrões, de critérios, é a do que
se está entendendo por qualidade das
competências. Qualidade vem do latim
qualitate: propriedade, peculiaridade característica
distintiva, atributo ou condição
das coisas e das pessoas, capaz de
distingui-las das outras e de lhes determinar
a natureza.
Segundo Aristóteles37, a qualidade é
uma das categorias que se encontra em
todos os seres e indica como eles são ou
como estão. As categorias são: substância,
quantidade, qualidade, relação, tempo,
lugar, ação, paixão, posição e estado.
Qualidades são, portanto, propriedades
que se encontram nos seres.
Podemos predicar nesta substância o
muito e o pouco. Podemos dizer que um
homem é grande ou pequeno: a isto chamamos
de quantidade. Depois de dizer o
que é e quanto, podemos ainda dizer que
é vermelho, verde, nobre, feio, bonito
qualidade (RIOS, Garcia Morente38).
É na reflexão sobre os critérios que
encontramos o sentido social da construção
de cada profissão. A adoção dos mesmos
exige uma reflexão para além das
decisões de caráter técnico-formal, devendo-
se considerar as múltiplas e intrínsecas relações sociais. Entender esses
critérios é compreender além de aspectos
gerais, algumas particularidades.
Os critérios e os indicadores funcionam
como uma forma de descrição da
qualidade do alcance da competência.
Dessa maneira, nunca podemos esquecer
o componente valorativo social da
competência a ser desenvolvida e que
designa o desejável socialmente. Como
diz Dolz39, a competência de arrombar
uma casa, por exemplo, também emprega
processos cognitivos e psicológicos.
Um arrombador competente igualmente
aprende seu ofício por meio de um
processo de socialização em um certo
ambiente. Contudo, essa competência
certamente não é bem vista socialmente.
Falando-se de competências, poderíamos
dizer que elas encerram em si mesmas
um conjunto de qualidades.
.. Como determinar a qualidade de
um agente de turismo na realização de
eventos?
.. Quais as competências e como
serão avaliadas na aprendizagem de um
idioma?
.. Quais os critérios e indicadores
de competências para um técnico de
alimentos?
Na área de Saúde, por exemplo,
Donabedian40 descreveu a qualidade da
atenção em três dimensões: técnica, interpessoal
e de comodidade. A primeira
é entendida como a aplicação da ciência e
da tecnologia à solução dos problemas
de saúde do usuário. A segunda expressa-
se na relação que se estabelece entre
prestadores e receptores dos serviços de
Saúde. Por último, a comodidade diz
respeito aos elementos do entorno do
processo de cuidado e atenção.
Para definirmos critérios e indicadores
é fundamental conhecer bem o objeto
que será foco de nossa avaliação. Esse
conhecimento nos permite adentrar no
âmago da qualidade de cada situação e
determinar o que se espera.
Na definição de critérios e indicadores,
deve-se lembrar, ainda, que as competências
profissionais não se limitarão
à aplicação de instruções, mas exigirão
iniciativa, responsabilidade e flexibilidade
de ação. Assim, é importante que se
definam os resultados esperados, mas
que muitas vezes não estão explicitamente
prescritos, e que se esteja atento
para novas possibilidades de resolução
do problema que se apresenta para o
educando.
Muitas vezes é mais importante tomar
iniciativas necessárias para assegurar
a continuidade do trabalho, do que respeitar
cegamente as instruções. Por outro
lado, em algumas ocasiões os desempenhos
de um profissional estão dentro
das especificações desejadas, mas se situam
fora das normas de segurança prescritas,
fazendo com que o que receberá o
serviço possa sofrer graves riscos.
Muitas pessoas me perguntam: mas
e a estética, a beleza, a criatividade nas
competências, como avaliar?
O julgamento da dimensão da beleza
é uma das dimensões mais complexas
dos critérios. Nesse momento não se
pode deixar de lidar com o conceito de
talento além do de competência. Pelo
talento, sabemos que o trabalho do artista
não se conclui num produto, mas
numa criação. É evidente que nenhum
dos recursos (saberes, saber-fazer e saber-
ser) é descartado, afinal não há artes
sem regras. Contudo, a beleza não encerra
uma descrição fechada. Como diz
Boterf41, é por isso que existem muitas
dificuldades na avaliação das competências
de profissões como jornalista, arquiteto,
esteticista.
Para mim, a criatividade, na educação
profissional, está relacionada à inovação,
à criação, e mesmo assim, exige
grande dose de conhecimento. Em uma
ocasião, assisti a um concurso de cabeleireiro
para escolher o penteado mais criativo.
Todos os critérios definidos apontaram
o grande vencedor da noite. Porém,
qual não foi minha surpresa quando
descobri, nos bastidores, na lavagem
da cabeça da modelo que apresentava o
penteado premiado, grande parte das
madeixas da moça foram caindo. Havia
muita criatividade no penteado, mas o
conhecimento do profissional falhou,
pois ele usou um produto químico prejudicial
ao cabelo da modelo.
Voltando à necessidade de conjugar
critérios e indicadores, não se pode definir
apenas critérios para avaliar o êxito
em uma atividade, indicando se ela foi
realizada corretamente. Neste caso, margens
de tolerância devem estar bem especificadas.
Somente o produto não nos
diz se os recursos cognitivos e afetivos
estão sendo desenvolvidos. É necessário
observar o processo.
Outro aspecto a considerar na avaliação
é o de que trabalho se reveste de um
caráter cada vez mais coletivo. Sendo,
assim, o desempenho competente dependerá
largamente da capacidade de comunicação
e cooperação. Isso exige que as
situações de avaliação favoreçam o diálogo
entre pares, entre o mediador e o mediado
em uma situação de aprendizagem. Enfim, avaliar competências também
exige que a avaliação seja competente.
Uma avaliação competente busca
sempre contextualizar as situações e os
atores envolvidos. Um profissional não
é apenas um conjunto de competências;
é uma pessoa em relação com as outras
e em evolução na sua história de vida.
Antes de avaliar é preciso:
.. analisar a natureza da profissão a
ser formada;
.. refletir e decidir qual o conceito de
competência da escola;
.. decidir, coletivamente, as finalidades
do planejamento, do desenvolvimento
e da avaliação de competências, não
somente profissionais, mas as que se referem
ao cidadão que se deseja formar;
.. traduzir as competências profissionais
em competências educacionais,
para fugir da mera adaptação das atividades
do mercado de trabalho para a escola;
.. organizar um currículo que promova
o desenvolvimento de competências
e de capacidades que as permeiam;
.. traduzir as competências em saberes,
saber-fazer e saber-ser.
V - COMPETÊNCIAS
NA EDUCAÇÃO
PROFISSIONAL - É
POSSÍVEL AVALIÁ-LAS?
Para responder a essa questão, reitero
a noção de que as competências envolvem
mobilização em uma situação real
de trabalho.
Se as competências referem-se à
mobilização, um saber-agir em uma situação
real e contextualizada de trabalho,
como exigir que as escolas de educação
profissional “dêem conta” de avaliá-las?
Defendo, então, a idéia de que se pode
avaliar, sim, mas não as competências e
sim, os recursos que as mobilizarão.
Há que se considerar a dificuldade de
representar, na escola, situações que se
aproximem da realidade; problemas
novos surgem no dia-a-dia.
Além disso, em algumas profissões,
existem fatores que devem ser eticamente
considerados. Como escolas de educação
profissional da área de saúde, deverão enfrentar
a questão ética de uma situação
simulada? Como lidar com a segurança do
usuário? E com o sigilo das informações?
O contexto das situações profissionais
tende a se definir menos em termos
de conjuntura rotineira e mais em
termos de conjuntura fluida As conjunturas
fluidas se caracterizam por
situações complexas em que interferem
múltiplas lógicas de atores, em
que se dá uma grande mobilidade do
que está em jogo, nas quais os critérios
de definição dos problemas são instáveis
e os confrontos atravessam as
fronteiras habituais dos conflitos.
Na avaliação de competências, temos
de considerar como é difícil ter na escola
um profissional completo: aquele que
identifica um problema, apresenta-o,
imagina e aplica um solução e, por fim,
garante seu acompanhamento.
Um profissional competente não
conhece de antemão a solução dos problemas
que surgirão em sua prática. Ele
a constrói, constantemente, “ao vivo e a
cores”, às vezes com grande desgaste,
sem dispor de todos os dados de uma
decisão mais clara.
Por mais perfeita que fosse a simulação
de uma situação real, talvez não desse
conta da realidade.
Assim, como exigir que, antes de
ter praticado na escola, uma das competências
profissionais da área de Turismo
– realizar eventos, planejando-os e
adequando-os às necessidades, condições e
aos interesses dos demandantes, utilizando
técnicas que permitam maior qualidade ao
realizado e zelando por atitudes de discrição
e respeito – possa ser considerada
como realmente desenvolvida?
Contudo, apesar de não ser possível
afirmar categoricamente que o futuro profissional do Turismo seja ou não competente
sobre a realização desses eventos,
uma vez que isso implicaria em observação
constante da mobilização dos saberes
em várias e diversificadas situações,
pode-se, evidentemente, buscar evidências
sobre a presença ou não de alguns
recursos essenciais para essa competência.
Um cuidado a tomar seria, como diz
Boterf42 , considerar que competências reais
dos profissionais não podem ser objeto
senão de antecipações probabilísticas.
As competências necessitam de um tempo
para serem desenvolvidas e mobilizadas.
VI – VISANDO A UMA
FUTURA REFLEXÃO
Numa perspectiva mais ampla, a educação
profissional deveria zelar pela idéia de
promover as competências necessárias para
gerar não só a oportunidade de um trabalho,
mas ferramentas de pensar e de agir,
que permitam a formação de um cidadão
capaz de saber conviver em um mundo
cada vez mais complexo e mutante.
A idéia central é a de “educabilidade”,
ou seja, desenvolver estratégias, ao longo
da educação profissional, para que as
pessoas possam modificar, melhorar
suas maneiras de pensar, suas estruturas
cognitivas, sua atitudes, possam repensar
seus valores.
Esse caminho é longo e não pode ser
considerado como responsabilidade exclusiva
da escola.
Penso com “meus botões”: não
será preferível ser mais comedido no
que estamos avaliando na educação
profissional? Estamos dando conta
de formar trabalhadores e cidadãos
com currículos muitas vezes fortemente
focados em tarefas específicas do
mercado de trabalho?
Tenho receio de estarmos nos iludindo
sobre avaliar competências na escola.
É, por isso, que proponho uma
atitude menos ambiciosa e mais objetiva:
podemos avaliar os recursos que serão
mobilizados no desenvolvimento
da competência, mas essa competência
só será avaliada na realidade do trabalho.
São muitas as dúvidas que esse tema
me suscita. Espero que os leitores me
ajudem nessa reflexão.
NOTAS
1 MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar
a reforma, reformar o pensamento. São
Paulo: Bertrand Brasil, 2001.
2 CORTELLA, Mário Sérgio. O mistério do
simples. Folha de São Paulo, São Paulo,
mar., 2003. Cad. Folha Equilíbrio.
3 DOLZ, Joaquim; OLLAGNIER, Edmée. O
enigma da competência em educação.
Trad. Cláudia Schilling. Porto Alegre: Artmed,
2004.
4 REY, Bernard. As competências transversais
em questão. Trad. Álvaro Manuel
Marfan Lewis. Porto Alegre: Artemed, 2002.
5 MACHADO, Nilson. Sobre a idéia de competência.
In: PERRENOUD , Philippe (Org)
As competências para ensinar no século
XXI: a formação dos professores e o
desafio da avaliação. Porto Alegre: Artemed
Ed. 2002. p.138-155.
6 CHOMSKY, Noan. Aspect de la théorie
syntaxique. Paris: Le Seuil, 1971.
7 FEUERSTEIN, Reuven. Instrumental enrichment:
an intervention program for cognitive
modifiability. Illinois: Scott Foresman,
1980.
8 Id. ibid.
9 DEMO, Pedro. Pesquisa: princípios científicos
e educativos. São Paulo: Cortez,
1991.
10 BORDALLO, I ; GINESTET, J. P. Pour une
pédagogie du projet. Paris: Hachette, 1993.
11 Id. ibid.
12 IRIGOIN, Madgi; VARGAS, F. Competencia
laboral: manual de conceptos, métodos y
aplicaciones en el sector salud. Montevideo:
Cinterfor, 2002.
13 Id. ibid.
14 PERRENOUD, Philippe. As competências
para ensinar no século XXI: a formação
dos professores e o desafio da avaliação.
Porto Alegre: Artemed Ed., 2002. p.138-155.
15 LE BOTERF, G. Desenvolvendo a competência
dos profissionais. Trad. Patrícia
Chittoni Ramos Reuillard. Porto Alegre:
Artmed, 2003.
16 DOLZ, Joaquim; OLLAGNIER, Edmée. O
enigma da competência em educação.
Trad. Cláudia Schilling. Porto Alegre: Artmed,
2004.
17 LE BOTERF, G. Desenvolvendo a competência
dos profissionais. Trad. Patrícia
Chittoni Ramos Reuillard. Porto Alegre:
Artmed, 2003.
18 Id. ibid.
19 Id. ibid.
20 BRASIL. Leis, Decretos. Lei n. 9.394, de 23
de dezembro de 1996. Diário Oficial [da]v. 134, n. 248, p. 27833-27841, 23 dez. 1987.
Seção I. Estabelece as diretrizes e bases da
educação nacional. Texto integral da lei de
diretrizes e bases da educação nacional.
21 BRASIL. Ministério da Educação: Disponível
em: http://portal.mec.gov.br/setec/
index.php?option=content&task=view&id=73&
Itemid=198>
22 TANGUY, Lucie; ROPÉ, Françoise (Orgs).
Saberes e competências: o uso de tais noções
na escola e na empresa. Trad. Patrícia
Chittoni Ramos. Campinas: São Paulo, 1997.
23 LE BOTERF, G. Desenvolvendo a competência
dos profissionais. Trad. Patrícia
Chittoni Ramos Reuillard. Porto Alegre:
Artmed, 2003.
24 VARELLA, Dráuzio. Por um fio. São Paulo:
Companhia das Artes, 2004.
25 QUINO, o humor livre : entrevista. O
Correio da Unesco, Rio de Janeiro, v. 28,
n. 9/10, p. 60-62, set./out., 2000. Entrevistador:
Lucia Iglesias Kuntz.
26 LE BOTERF, G. Desenvolvendo a competência
dos profissionais. Trad. Patrícia
Chittoni Ramos Reuillard. Porto Alegre:
Artmed, 2003.
27 CORTELLA, Mário Sérgio. A obra intangível
Outras Idéias. Jornal Folha de São Paulo, São
Paulo, 2004. Cad. Folha Equilíbrio.
28 Id. ibid.
29 RENOIR. Apud. CORTELLA, Mário Sérgio.
(2004) op. cit.
30 MEIRIEU, Philippe. Apprendre... oui, mais
comment. 10 ed., Paris: ESF éditeur,1993.
31 BARATO, Jarbas Novelino. Educação profissional:
saberes do ócio ou saberes do
trabalho? São Paulo, Editora SENAC, 2004.
32 FEUERSTEIN Apud. SOUZA, Ana Maria
Martins et al. A mediação como princípio
educacional : bases teóricas das abordagens
de Reuven Feuerstein. São Paulo,
Editora SENAC, 2004.
33 DOLY, Anne Marie. Metacognição e mediação
na escola. In: GRANGEAT, Michel (Coord)
A metacognição, um apoio ao trabalho
dos alunos. Portugal: Porto Editora, 1999.
34 BERNARD, Juan Antonio. Modelo cognitivo
de evaluación educativa. Escala de
estratégias de aprendizaje contextualizado.
Madrid: Narcea.S. A Ediciones. [s.d.]
35 DEPRESBITERIS, Léa. Avaliação educacional
em três atos. São Paulo: Editora SENAC,
1999.
36 HADJI, Charles. A avaliação – regras do
jogo: das intenções aos instrumentos. Portugal:
Porto Editora, 1994.
37 ARISTÓTELES Apud. RIOS, Terezinha
Azerêdo. Compreender e ensinar : por
uma docência da melhor qualidade. São
Paulo: Cortez, 2001.
38 RIOS, Garcia Morente. Apud. RIOS, Terezinha
Azerêdo. Compreender e ensinar :
por uma docência da melhor qualidade. São
Paulo: Cortez, 2001. p. 69.
39 DOLZ, Joaquim; OLLAGNIER, Edmée. O
enigma da competência em educação.
Trad. Cláudia Schilling. Porto Alegre : Artmed,
2004.
40 DONABEDIAN, A. Enfoques básicos
para la evaluación. In: La qualidad de la
atencion médica: definición e métodos
de evaluación. [s. l.] La prensa Médica
Mexicana, 2002.
41 LE BOTERF, G. Desenvolvendo a competência
dos profissionais. Trad. Patrícia
Chittoni Ramos Reuillard. Porto Alegre:
Artmed, 2003.
42 Id. ibid.
* Pedagoga, mestre em Tecnologia Educacional pelo
Instituto de Pesquisas Espaciais de São José dos
Campos, doutora em Ciências da Educação pela
Universidade de São Paulo e formadora de mediadores
do Programa de Enriquecimento Instrumental
– PEI - pelo Instituto Hassah Wizo Canada
Research Institute em Jerusalém. Consultora de
programas educacionais e da área de Saúde e
formadora de formadores no PEI no SENAC/SP.
E-mail: Leateris@uol.com.br
RESUMEN
Léa Depresbiteris. Competencias
en la educación profesional –
¿es posible evaluarlas?.
Busca estimular la reflexión sobre
una cuestión candente: ¿Están logrando
las instituciones de educación
profesional evaluar competencias, o
sería más prudente pensar que se están
evaluando los recursos – distintos
conocimientos – que poseen potencial
para movilizarlas? Considerando
que un profesional competente
es aquél que sabe manejarse en situaciones
inesperadas, que construye sus
competencias constantemente, “en
vivo y en colores”, ¿cómo juzgar, de
manera categórica, en el ámbito de su
formación, si alguien es o no competente?
Preguntas como estas sirven
para una discusión que comienza, en
el artículo, con la idea de la complejidad
del tema y en consecuencia, con la
necesidad de analizar los múltiples
aspectos que implica la evaluación de
competencias.
Palabras clave: Educación Profesional;
Competencia; Evaluación; Recursos
Cognitivos; Movilización de
Competencia.