GESTÃO DE PESSOAS, GRUPALIDADE E SAÚDE NO TRABALHO
Hilda M. R. Alevato*
Abstract
This article deals with the phenomenon called groupality and the two sides experienced in personnel management in the workplace environment: leadership and authority. Through analysis of the demands of groupality, the objective is to discuss the relation between those two sides of personnel management and the presence of psychical suffering in the social dynamics of workplaces. The article is based on research about the relations among work, health, and management in different professional categories and organizational frameworks developed at the Rio de Janeiro Higher Institute for Pedagogical Studies (ISEP-RJ). A qualitative methodological approach was used, seeking to understand work social dynamics, through the study and interrelations among their main indicators.
Keywords: Personnel Management; Psychical Suffering; Work Social Dynamics; Stress.
Há mais ou menos 10 anos, num
congresso internacional sobre saúde
do trabalhador, presenciei um dirigente
sindical aborrecer-se com um
palestrante porque entendia que seus
companheiros não formavam um
“exército de loucos”. O assunto da
mesa, claro, era a saúde mental e o
conferencista falava dos assustadores
índices de adoecimento e afastamento
do trabalho relacionados à Psiquiatria.
Se pensarmos bem, há pouco tempo,
não éramos muitos os pesquisadores
dedicados ao estudo do sofrimento
psíquico no trabalho. Já tínhamos convicções estabelecidas sobre a importância
do tema e, mais ainda, sobre a atenção
que ele exigia, mas encontrávamos muita
resistência em diferentes setores e algumas
vezes até deboches e descaso.
Na verdade, ainda hoje as pessoas
tendem a associar saúde mental à representação
social de loucura, assustando-
se com o estereótipo que lhes
vem à mente. Para muitos, a perspectiva
manicomial – associada às imagens
do louco – afasta-se do cenário
laboral. Ao mesmo tempo, a consciência
da auto-imagem recomenda
uma negação que geralmente não se
verifica nos outros campos da saúde.
Compreender a saúde mental como
parte de um todo absolutamente indissociável
na vida de todos nós – a
saúde – é apenas um dos lados da luta
pela qualidade de vida no trabalho. O
outro lado – aceitar a necessidade de
cuidar da própria saúde mental, reconhecer
seus sintomas – parece ainda
bastante mal compreendido.
Talvez esse seja um dos mais significativos
pontos a serem aprimorados nos
discursos e práticas daqueles que pretendam
contribuir para a promoção da saúde
nos ambientes laborais: mostrar que a
mente de um homem é capaz de manifestar-
se em sintomas bastante variados, em
sua maioria bem diferentes daqueles associados
à “loucura” no senso comum.
Lamentavelmente, vemos hoje que
as primeiras pesquisas que chamavam
atenção para o avanço dos riscos associados
à saúde mental no trabalho estavam
no caminho certo. Estamos enfrentando
um cenário de incrível carga mental
pelas conquistas tecnológicas, em meio a
crises econômicas e políticas, além de
ajustamentos de diversas ordens, numa
rede de abrangência mundial. Porém,
para além dos inúmeros elementos que
se entrecruzam, as pessoas convivem
cada vez mais intensamente com o agravamento
de estressores, pelas falhas da
gestão de pessoas no cotidiano dos
ambientes laborais.
Em nosso trabalho “Diferentes estressores:
diferentes formas de controle” (Alevato,
2004a)1, tratamos exatamente desses
estressores. Mostramos que para cada
grupo de estressores há necessidade de
intervenções específicas e que a tendência
a olhar o estresse sem o cuidado de
entender seu processo alimentador muitas
vezes potencializa-o, independentemente
da qualidade das propostas implementadas
para controlar seus efeitos.
Um exemplo esclarecedor do que
estamos dizendo é a ginástica laboral.
Quase todas as pessoas sabem apontar
os inúmeros benefícios do exercício físico
bem orientado. Sem dúvida, a incorporação
de espaços dedicados ao cuidado
com a saúde, associada à liberação do
tempo para o usufruto, dentro das próprias
empresas, precisa ser valorizada.
No entanto, num ambiente em crise, em
que os estressores se alimentam na sociodinâmica
do trabalho2, a freqüência compulsória
à ginástica laboral acaba se transformando
em mais um elemento estressor,
podendo inclusive agravar lesões
pelo movimento físico sob pressão e/
ou tensão emocional.
Outro exemplo pode ser extraído de
uma das empresas onde desenvolvemos
um trabalho de apoio e coletamos dados
para pesquisa3. Lá, a presença de uma
“sala de meditação” – para a qual as
pessoas eram constrangidas a se dirigir
sempre que as discussões se tornavam
mais calorosas – era um elemento altamente
negativo, apesar de todo o cuidado
e boa intenção com que foi montada.
Para seus idealizadores, faltava calma e
relaxamento aos empregados, todos
pareciam sempre “nervosos”, “prontos
para explodir”, como eles diziam. Ao
criar a sala, eles não perceberam que
estavam focados apenas nos sintomas
do que vinha sendo vivido naquele
setor, num diagnóstico equivocado que apenas contribuía para que todos ficassem
mais e mais irritados e tensos
em suas relações.
Essa dificuldade em “ler as pistas”
do cotidiano está associada a uma outra,
geralmente fruto de uma grave lacuna na
formação dos administradores: o desconhecimento
dos processos humanos na
formação de grupos (grupalidade) nos
ambientes laborais, sua dinâmica e as
exigências próprias desse processo. Conforme
nossas pesquisas vêm mostrando,
situa-se na qualidade da administração,
melhor dizendo, na qualidade da
gestão das pessoas, o caminho mais significativo
para controlar os estressores
nos ambientes laborais.
Nesse artigo, então, vamos discutir
a relação entre o sofrimento psíquico
gerado pelo agravamento dos estressores
e a administração ou gestão
de pessoas. Iniciamos destacando algumas
informações recentes acerca da
problemática da saúde mental no trabalho.
A seguir, situamos o fenômeno
da grupalidade, diferenciando-o do
conceito de grupo, dadas as especificidades
dos processos vividos nos ambientes
de trabalho. Por fim, trazemos
uma análise da ação administrativa em
relação a suas duas faces, liderança e autoridade,
cuja demanda na sociodinâmica
laboral nos ajudou a esboçar algumas
considerações sobre a importância de
uma gestão melhor fundamentada no
que se refere à grupalidade.
Não estamos pretendendo estabelecer
um novo modelo de administração,
que substitua o esforço por compreender
a realidade e suas pistas, tal qual se
apresentam em determinada situação.
Nosso objetivo se situa no campo dos
fundamentos para a gestão4 de pessoas
enquanto prática profissional que não
pode ser espontaneísta, pelas próprias
implicações que engendra.
SAÚDE MENTAL DO
TRABALHADOR: NOVOS
DOENTES, NOVOS RISCOS
Estamos, sem dúvida, diante de
um enorme desafio. Os dados levantados
em pesquisas internacionais
sobre a saúde no trabalho5 nas últimas
décadas não deixam dúvidas sobre a
seriedade do sofrimento psíquico e
suas conseqüências6.
O relatório “Safety in numbers: pointers
for a global safety culture at work”,
publicado pela Organização Internacional
do Trabalho (ILO)7, em 2003,
não abre espaço para hesitações: a
maior causa de acidentes e doenças do
trabalho é o estresse.
São cerca de 270 milhões de acidentes
de trabalho por ano, no mundo,
dos quais cerca de 75% (aproximadamente
200 milhões) poderiam ser facilmente
evitados com os conhecimentos
já disponíveis hoje. Segundo o
mesmo relatório, o trabalho mata por
ano aproximadamente dois milhões
de pessoas nos países industrializados,
sendo possível imaginar qual seria
essa quantidade se fossem levantados
também os dados de países economicamente
desfavorecidos.
Tais mortes, acidentes e doenças consomem
mais de 4% do PIB mundial.
São mais de U$ 1,250,000,000 milhão de
dólares desperdiçados, em especial nos
países que mais necessitam de recursos.
Em países como o Brasil, calcula-se que
o custo da desatenção possa atingir quase
10% do PIB8.
Esses dados, ao lado de tantos outros
levantados por instituições como a
OMS (Organização Mundial de Saúde),
trazem à pauta implicações que precisam
ir muito além da indignação. São aposentadorias
precoces, sobrecarga da rede
social de atendimento, absenteísmo (que, em alguns setores,atinge a marca de
10% dos trabalhadores/dia), redução na
empregabilidade, empobrecimento da
família (pela sobrecarga gerada pela doença
e pela queda no rendimento familiar)
e outras graves conseqüências.
Para a economia do país, a quantidade
de acidentes e doenças do trabalho
está diretamente relacionada à produtividade.
Os países mais competitivos
são aqueles que apresentam taxas
mais baixas de acidentes. Numa listagem
indicadora de competitividade,
com 27 países ranqueados, o Brasil
ocupa a 23ª posição, segundo o International
Institute for Management and
Development9 e a Organização Internacional
do Trabalho10.
Entretanto, mais do que qualquer
preocupação com o enfoque meramente
pessoal ou empresarial, o que esses dados
nos revelam é a urgência com que
precisamos mudar a abordagem com
que temos focado a saúde e a segurança
no trabalho no Brasil. Precisamos avançar,
libertando-nos da participação meramente
denunciativa que tem caracterizado
grande parte das ações coletivas da
sociedade organizada.
Entre nós, a dicotomia mau patrão/
bom empregado, por exemplo, aparece
freqüentemente como a única vilã, quando
sabemos que a complexidade das
relações de emprego – especialmente nas
grandes cidades – não comporta uma
análise tão reducionista. Ainda que mereça
atenção especialíssima o fato de não
termos superado situações indignas
como o trabalho de caráter escravo ou o
trabalho infantil, há indicadores bastante
sérios que vêm recebendo tratamento
inadequado. Como exemplo, podemos
lembrar das pesquisas sobre a Síndrome
de burnout11 entre os profissionais da
educação (Codo, 1999)12, cujos resultados
apontam desde o assustador índice
de 48% de atingidos em todo o Brasil,
em 1998, até problemas na metodologia
de pesquisa13 que entravam o enfrentamento
da questão.
O campo do sofrimento psíquico no
trabalho talvez seja hoje um dos mais
desafiadores em termos de pesquisa,
comprovação, prevenção e intervenção.
Além de não se prestar a soluções normatizadas,
como os demais riscos à saúde
no trabalho – recomendação do uso
de um equipamento de segurança ou a
construção de uma parede de isolamento,
por exemplo – a mente humana
ainda representa um enigma, especialmente
quando o assunto é a consciência
(Damásio, 2002)14. Não é possível entender
um fenômeno como o estresse
laboral sem considerar a complexidade
das interrelações que o próprio atingido
elabora em suas vivências.
Conforme apontamos em outra
oportunidade (Alevato, 1999)15, o final
do século XX nos trouxe o desafio de
mudar o conceito de doença do trabalho.
Estamos distantes dos famosos “Tempos
Modernos”, eternizados por Chaplin,
no filme que consagrou a imagem simbólica
do trabalhador engolido na engrenagem.
A tradição, caricaturada no filme,
associava a doença no trabalho exclusivamente
à alienação dos trabalhadores e às
condições sob as quais eram obrigados a
exercer suas atividades. Seus sofrimentos
e suas mortes levaram ao movimento
pela prevenção, refletido em normas
regulamentadoras e equipamentos de
segurança, aprimorados desde meados
do século XX.
Nos campos físico, químico e biológico
dos riscos à saúde no trabalho, muito
já se avançou. Há muita informação disponível
e, em muitos casos, apenas a
existência da miséria e da exploração criminosa
é capaz de submeter um ser
humano a riscos. Isso significa dizer que
doenças, mortes e acidentes nesses campos
são fruto mais da perversa situação
social de excludência, imposta por alguns
e vivida por muitos, do que das
condições da própria atividade.
Tais considerações nos levam à primeira
reflexão sobre as mudanças necessárias
no entendimento do que hoje
chamamos de riscos à saúde do trabalhador.
Certamente, a ocorrência dessa espécie
de ameaça – a excludência, a exploração
criminosa –, sugere outro tipo de
iniciativa de “prevenção”.
A segunda reflexão vem a reboque da
primeira. Se é verdadeira a afirmação da
Organização Internacional do Trabalho,
“occupational accidents are all caused by preventable
factors within the workplace” (SAFETY
in numbers: pointers for a global
safety culture at work. (2003)16, por que
muitas empresas, instituições e governos
ainda não agem de forma a mudar
um cenário tão devastador de mortes,
mutilações e adoecimentos? Na mesma
linha de raciocínio, se fosse apenas uma
questão financeira – tendemos a ver as
empresas sempre pelo lado do lucro – por que não implantar medidas que tornam
os empregados mais produtivos,
além de evitar gastos desnecessários?
Também aqui é possível perceber que a
idéia de “prevenção” exige um ajuste de
enfoque e de encaminhamentos, além de
novos e diferentes fóruns de debate.
Há, porém, uma terceira reflexão na
qual pretendemos nos deter mais cuidadosamente.
Falar em doença do trabalho,
há algumas décadas, era falar do
Outro, falar pelo Outro, protegê-lo, atendê-
lo. Hoje, falamos de todos nós. Falar
de doença do trabalho, há algumas décadas,
era falar de riscos restritos a determinados
grupos, diferenciados por ocupação.
Hoje, falamos também de um risco
de natureza socioambiental, que atinge
de forma generalizada, adoecendo direta
e indiretamente, inclusive por agravar a
ameaça dos demais riscos e atingir as
relações, além de interferir na disposição,
na atenção, na vontade de trabalhar.
Atualmente, todos nós vivemos –
os mais escolarizados, os menos atingidos
pelas condições agressivas dos
fatores físicos, químicos e biológicos,
os mais politizados, os governantes,
os diretores, os chefes, os empregados
etc. – o risco cotidiano do estresse, da
violência, da sobrecarga de apelos e
demandas simultâneas geradas pela
revolução tecnológica.
Portanto, sem desconsiderar ou
minimizar a importância de qualquer
risco, sem esquecer que o trabalhador
mais explorado vive a necessidade
inadiável de iniciativas que contribuam
para a superação das mazelas de suas
condições de existência, é preciso não
subestimar o fato de que os riscos
socioambientais à saúde no trabalho
não escolhem suas vítimas. Democraticamente,
os novos tempos ampliaram
bastante o rol daqueles que desenvolvem
doenças no trabalho.
Por outro lado, ao atingirem não
apenas os empregados, mas também
seus chefes, seus gerentes, seus diretores,
juízes, médicos, professores, as doenças
dos novos tempos colocam a situação
de todos – especialmente dos mais
dependentes do emprego – em risco de
agravamento. A existência de pessoas
adoecidas e investidas de poder17, assediando
ou agindo de maneira inadequada
e até agressiva, nos impõe a necessidade
de vencer as explicações mais óbvias e
usuais. É preciso atenção para não banalizar
olhares e enfoques.
Dessa maneira, queremos destacar
essa terceira reflexão, a qual chamamos
de nova geração de doenças e doentes do
trabalho. São patologias desenvolvidas
com diferentes mapas sintomáticos, por
ocupantes de cargos e funções de diferentes
naturezas, num processo de sofrimento
de difícil delimitação e diagnóstico.
Suas causas são múltiplas e os estressores
próprios da sociodinâmica do trabalho
tendem a se realimentar, piorando
os quadros de adoecimento e os índices
de acidentes e mortes em todos os segmentos
profissionais.
Três cuidados são indispensáveis: o
primeiro diz respeito à facilidade com
que desprezamos nossos primeiros sinais
de sofrimento psíquico ou de adoecimento.
São familiares e colegas que
nos recomendam um descanso ou um
passeio como “tratamento” e/ou minimizam
os sintomas. A alegação comum
é que estamos apenas muito estressados,
e que “está todo mundo assim” ,”é assim
mesmo”. Sem a necessária atenção, além
das doenças, o agravamento da situação
aumenta também os índices de
acidentes e mortes.
O segundo cuidado se refere à diferenciação
entre o adoecimento psíquico
de uma pessoa por condições que se
originam em sua vida particular e os
riscos sócioambientais que atingem um
grande número de trabalhadores, no
mesmo ambiente laboral. Muitas vezes
atribuímos à subjetividade ou à personalidade
“deformada” de alguém as atitudes
ou comportamentos que não
acompanham os padrões sociais. Também
ouvimos pessoas dizendo que
em suas empresas todos estão “desmotivados”,
refletindo leituras equivocadas,
geradas numa curiosa e improvável
situação de coincidência: tantas
pessoas desmotivadas, no mesmo
lugar, ao mesmo tempo.
Onde se vê pessoas que não se interessam
pelo que está sendo proposto, a
melhor iniciativa não é a que parte de
esforços pelas transformações individuais
dos chamados “desmotivados”, mas
sim a que se volta para as propostas que
lhes são apresentadas, para a comunicação
com as pessoas, em síntese, para a
gestão e a sociodinâmica. O fenômeno
que o senso comum chama de desmotivação
é geralmente um claro sintoma da
presença de risco socioambiental, que
denominamos de Síndrome Loco-Neurótica
(Alevato, 1999)18.
O terceiro cuidado tem relação com o
conceito de saúde mental do trabalhador.
Quando falamos em saúde mental,
não podemos restringir a leitura às vítimas
usuais das doenças do trabalho.
Conforme dissemos, há muitos profissionais
e ocupantes de cargos que não se
enquadram na definição de “trabalhador”
stricto sensu – diretores, gerentes,
médicos, juízes, engenheiros etc. – mas
que hoje são tão ou mais vitimados que
aqueles, capazes, portanto, de agravar o
sofrimento de todos, pelo exercício distorcido
do poder. A tendência a atribuir
as atitudes defensivas, neurotizadas e
muitas vezes agressivas de pessoas investidas
de poder às características oriundas
de uma personalidade impermeável,
sem vínculos, leva a equívocos nas intervenções
e na atenção que os grupos por
eles comandados demandam.
Assim, conforme estamos vendo, a
relação entre o conjunto de competências
exigidas na atividade de gestão de
pessoas e a qualidade de vida nos ambientes de trabalho é bastante específica e
intensa. Nesses ambientes, chama a atenção,
em especial, o fenômeno que chamamos
de grupalidade, conforme veremos
a seguir.
GRUPOS HUMANOS E
GRUPALIDADE
Sem apelar para a já superada discussão
acerca de um homem com “instinto
gregário”, podemos dizer que não é
possível imaginar um ser humano fora
de sua rede social. Tal rede, histórica,
cultural, é a base na qual se constrói a
consciência humana – é sua prática social
– através de um processo radicalmente
interativo, num universo simbólico de
grande complexidade. No cotidiano,
durante toda sua vida, o homem vai
desenvolvendo suas funções mentais
superiores em aprendizagens
vividas nas diferentes
situações.
É aos grupos que
compõem essa rede que
se lançam demandas pulsionais
de vida e morte,
numa ilusão de extensão
do Eu, que os transforma
– os grupos – em
objetos também de pulsões.
Num complexo
processo conflituado e
homeostático, para o
qual concorrem pólos
instáveis em permanente
realinhamento, os grupos
vão se formando, reorganizando-
se, transformando-
se, morrendo.
É na economia particular/
coletivo, renovação/
conservação, nós/
eles etc., que se mantém a
idéia de grupo, diferenciando-
o de um coletivo
de pessoas ou da “massa”.
Como define Baremblitt
(1986), “em seu
sentido empírico, grupo é um
conjunto de indivíduos associados
em torno de um objetivo
comum durante um período
de tempo prolongado”. 19
Se esse objetivo comum – sua tarefa,
conforme a Psicanálise – se perde, a tendência
é o esvaziamento e o desmanche
grupal. Num exemplo simples, é possível
imaginar um grupo de amigos adolescentes
que se reúne para jogar bola.
Com o passar do tempo, a vida adulta e
a entrada em cena de outros interesses e
demandas, os membros vão abandonando
os encontros, afastando-se e buscando
novos caminhos. Podem manter
amizades pessoais, mas o espírito de
grupo deixa de justificar-se.
Um grupo humano, portanto, existe
com base nessa tarefa comum, nesse plus
que transforma os indivíduos em pessoas
em relação, numa busca partilhada
de algo que se realiza na própria relação.
Um conjunto de indivíduos num ônibus
urbano, nessa perspectiva, não chega
a formar um grupo, porque ainda que
tenham um objetivo
semelhante – chegar a
algum ponto da cidade
– não dependem
uns dos outros
para atingi-lo, não estabelecem
suas regras
em acordo, não criam,
não produzem,
não têm, enfim, uma
tarefa comum.
A formação de um
grupo é um processo
que tem como momento
fundante a decisão
dessa tarefa, em
torno da qual as pessoas
se agregam, criando
suas normatizações,
seus compromissos,
suas obrigações,
suas formas próprias
de interagir. Há
um sentido único, conhecido
e partilhado
pelos membros do
grupo. Esse sentido
embute a interdependência,
ou seja, sozinho
nenhum membro consegue,
nem mesmo
deseja, realizá-lo.
De uma maneira
geral, a participação em
grupos é espontânea, conquistada ou
desenvolvida, comportando a liberdade
de escolha de companheiros, de
novas associações e de desligamento.
A presença da tarefa fundante é clara,
assim como a participação baseada no
livre-arbítrio.
Entretanto, num ambiente de trabalho,
os chamados grupos ou equipes
têm características totalmente diferenciadas.
Trata-se de um fenômeno exclusivo
do modelo econômico que vivemos,
com especificidades focadas por raros
autores. Nossas pesquisas sobre a sociodinâmica
do trabalho vêm se dedicando
intensivamente a esse estudo. Dentre
outros pontos, já identificamos três particularidades
dessa forma de associação
que chamamos de “grupalidade” (Alevato,
2004b)20: a compulsoriedade, a aleatoriedade
e a transitoriedade. Essas particularidades
nos sugerem, portanto, que
nos ambientes laborais raramente há
grupos; há grupalidade.
Tais particularidades se originam no
próprio processo de filiação, quando as
pessoas se empregam. Nesse momento,
elas são compulsoriamente levadas a
conviver de maneira muito interdependente
com outras pessoas, às quais sequer
conhecem. Não trabalham juntas
porque querem e raramente têm a chance
de partilhar o espaço com colegas de sua
escolha pessoal.
Ao empregarem-se, as pessoas são
obrigadas a passar a maior parte de seus
dias, sem alternativa, com desconhecidos
com quem dividem o espaço de
realização profissional. Não podem simplesmente
decidir não comparecer a um
encontro ou reunião, não podem sequer
decidir quando e se se encontrarão. Geralmente
a convivência com os colegas de
trabalho é mais freqüente e intensa do
que com as pessoas a quem amam.
No universo do emprego, também
não é um desejo ou interesse comum
que une as pessoas, como acontece, por
exemplo, com aqueles que se aproximam
para praticar um esporte ou debater
sobre a qualidade dos vinhos. Algumas
ali estão porque viram um anúncio
no jornal, outras porque precisam de um
salário, outras porque um amigo indicou
e assim por diante. O que as leva a vincular-se são razões diversas e, mesmo
que algumas vezes coincidentes, tais razões
raramente guardam relação entre si.
Nos cargos e funções oferecidas pelas
empresas, a maioria dos indivíduos
busca atender desejos, necessidades e
interesses privados – sobrevivência, sustento
da família, ocupação do tempo,
dentre outras – que dificilmente coincidem
com os produtos finais de suas
atuações. Ou seja, num mundo dominado
pela lógica do emprego, a maioria das
pessoas não vê sua realização no produto
do próprio trabalho, em si, mas no
que fará com o salário que receberá por
cumprir seus deveres. A realização, portanto,
não está atrelada ao produto do
trabalho, está fora da ação. Empregar-se
é diferente de buscar colegas para tocar
violão, por exemplo, quando aquilo que
recompensa está na atividade em si: no
caso, tocar violão.
Apesar da intensa carga de relacionamento
diário, a grupalidade traz implícita
a provisoriedade da filiação a um projeto
que independe dessa filiação. O projeto
existe antes dela e continua, mesmo
sem sua presença. A sensação predominante
entre os empregados de uma organização
é de que a tarefa grupal não lhes
diz respeito. Vivem um trabalho para
alguém, não para si.
Todos esses pontos, dentre outros
que caracterizam os coletivos humanos
nos ambientes de trabalho,
são muitas vezes desconsiderados
quando se pensa na formação daqueles
que os administrarão e coordenarão
no dia-a-dia. O fenômeno da grupalidade
– tão fundamental para a
qualidade de vida das pessoas e para
o resultado empresarial – é vivido em
processo e precisa ser focado cotidianamente.
Talvez seja correto afirmar
que o maior desafio da direção, do
gerenciamento de pessoas, seja contribuir
para fundar e manter aceso o
espírito de grupo.
De uma certa forma, e guardadas as
devidas ressalvas, as características da
grupalidade tendem a sobrevalorizar a
importância da tarefa, exigindo uma atitude
de permanente explicitação do sentido
do estar ali. Há uma demanda por
uma “força de interdependência capaz de unir
os participantes, explicando a todos e a cada
um o valor de cada esforço” (Alevato, 1999)21.
Conforme Kernberg (2000):
A eficiência da liderança da organização
não depende exclusivamente, nem
sequer predominantemente, da personalidade
do líder. O primeiro requisito
para o funcionamento eficaz de uma
organização – inclusive de sua liderança
– é um relacionamento adequado
entre a tarefa geral da organização e sua
estrutura administrativa.22
Assim, podemos dizer que a melhor
chefia é a que consegue manter aceso o
desejo de “fazer parte”, numa trama
comum. Isso acontece através da construção,
do compartilhamento e da visibilidade
do objetivo comum, daquilo
que justifica o sentido e o esforço por
“estar ali”.
É uma espécie de identificação com
Outros que nos permite igualarmonos
– ser iguais ou ver Outros como
iguais – não sentindo aversão por eles,
nem por si mesmo. Freud explica que
essa identificação pode surgir com
“qualquer nova percepção de uma qualidade
comum partilhada com alguma outra pessoa
que não é objeto de instinto sexual”23,
sendo essa qualidade emocional comum
apoiada “na natureza do laço com
o líder.”24 Ele nos retrata, ele nos
representa, ele nos protege, amando
“todos os indivíduos do grupo com um
amor igual.”25
Essa imagem de “pai” com que Freud
descreve o líder tem sido bastante discutida
ao longo dos anos. Mas, apesar de
todos os questionamentos que a obra de
Freud tem atraído, desde os primórdios
dos estudos de Administração as teses
que advogam a influência da liderança
sobre o comportamento das pessoas só
vêm se confirmando.
Kernberg (2000) deixa evidente que
“ independentemente dos desafios propostos às
instituições pela realidade externa ou mesmo
por crises que afetam sua própria existência, os
bons líderes podem de fato ajudar as organizações
a sobreviver e a funcionar sem uma severa
regressão paranogênica.”26
Conforme explica Fiedler (1967), “a
experiência tem mostrado que o líder é, provavelmente,
o fator isolado mais importante para
influenciar a realização da equipe.”27 Especialmente
nos momentos de crise, conforme
nossas pesquisas vêm confirmando,
a presença dessa referência, com suas
características, é capaz de diferenciar o
rumo dos acontecimentos.
No caso dos ambientes de trabalho,
porém, todas essas observações precisam
ser potencializadas, já que, além das
demandas próprias de qualquer grupo,
acresce-se a própria exigência de fundação
e realimentação da grupalidade, como
já apontamos. Essa exigência coloca aquele
que trabalha gerenciando pessoas
diante de duas faces nessa função: autoridade
e liderança.
Dizendo de outra forma, ao lado
da demanda interna por liderança, os
ambientes de trabalho guardam especificidades
que exigem também autoridade
daquele a quem se atribuiu a
função de chefia. Autoridade é hoje
um conceito bastante confundido com
autoritarismo, tema do qual muitos
querem se esquivar. No entanto, é
necessário enfrentar o desafio de compreender
melhor o sentido moral de
autoridade, inclusive por sua importância
no desenvolvimento da autonomia.
A seguir, vamos apresentar
algumas breves considerações sobre
cada uma dessas faces.
GRUPALIDADE E
LIDERANÇA
O que seria um bom líder? Haveria
alguma forma de descrever um bom
líder ou de identificar “traços pessoais”
capazes de indicar alguém ao posto de
liderança? Essas questões têm ocupado
o tempo de uma série de pesquisadores
há muitas décadas mas, efetivamente,
apesar da abundância de publicações
sobre o tema, ainda que se possa dizer
que existe um fenômeno ao qual chamamos
de liderança, “‘líder’ é apenas aquele
que em determinada situação melhor contribui
para manter e/ou reencaminhar os membros de
um grupo em direção àquilo que justifica sua
união” (Alevato, 2004a) .28
O papel de líder é, portanto, fundamental
para o grupo que representa – ou
que se vê representado nele – na medida
em que, ao diferenciar-se dos membros,
em geral pode favorecer a realização de
todos. A divergência de opiniões, o conflito
– necessário à superação dos desafios
cotidianos – pode levar ao desmanche
do grupo, se falhar a palavra mediadora,
aquela capaz de lembrar o desejo
comum a todos.
Por outro lado, em algumas formações
humanas, o temor do desmanche
pode condenar os membros ao silenciamento,
à evitação das opiniões, oferecendo
uma imagem de pseudo-consenso,
na qual mantêm-se os acordos de fala
como substitutivos da realização da tarefa.
O que sustenta os membros unidos,
nesse caso, é apenas uma semelhança
discursiva, não a presença do desejo comum.
Em geral, pessoas expostas a
essa situação tendem a esgotar-se nas
repetições, reforçando a impotência ou
impossibilidade coletiva e a necessidade
de saídas individualizadas. Os
membros parecem se conformar com
esse pseudo-assemelhamento, restrito
a uma espécie de explicação: “sim,
temos algo em comum. Nossa impotência
nos une. Vemos as coisas da mesma forma,
passamos pelos mesmos problemas”.
Em geral, em sua melhor forma, o
grupo preserva uma liderança básica, uma
espécie de referência, que partilha com
lideranças eventuais, mantendo a segurança
que favorece as diferentes manifestações
sem que isso represente ameaça.
Debatem-se os problemas e surgem
opiniões diversas. É um ambiente rico,
freqüentemente democrático.
Por que a divergência e o conflito não
são sinais de ameaça nesse caso? Porque
nos melhores momentos da grupalidade,
os membros são levados a buscar o
mesmo fim, um fim comum, um objetivo
desejado, uma tarefa que se realiza
pelo esforço de todos. Eles não precisam
centrar seus esforços na sobrevivência
interna, investindo todas as energias em
autodefesas difarçadas pelo assemelhamento
discursivo. Nos melhores momentos
de um grupo, seus membros
muitas vezes brigam, discordam entre
si, às vezes até dos caminhos decididos,
mas aceitam examiná-los, porque têm
confiança em si mesmos e a segurança de
querer a mesma coisa.
No caso dos ambientes de trabalho,
porém, aquele que vive a responsabilidade
sobre um conjunto de pessoas
muitas vezes não parece, ele mesmo,
ter confiança no sentido daquilo
que propõe. Isso acontece freqüentemente
com os chamados “chefes-sanduíche”,
aqueles que estão em níveis
intermediários da estrutura hierárquica,
distantes dos grandes centros de
poder e decisão empresarial.
Na medida em que a grupalidade se
fragiliza, mais tende a demandar uma
presença explícita da liderança mágica, só
ela, forte e capaz de enfrentar as ameaças,
determinar caminhos, defendê-la dos
inimigos, guiando os membros em direção
à saída do labirinto. Nesses casos,
aumenta o risco de uma liderança disfuncional
pelas próprias fragilidades
humanas, seja pelas tensões vinculares
sobre uma personalidade com características
e/ou necessidades patológicas,
seja pelo fato de que também
o líder pode ser atingido pelas doenças
do trabalho contemporâneas.
Além disso, num cenário de desemprego
e competição, as disputas internas
não ameaçam apenas o sucesso da tarefa,
mas também a pessoa que oficialmente
deveria coordenar sua identificação e sua
realização. Um fracasso na tarefa tende a
representar um fracasso pessoal de seu
responsável e um risco ao vínculo empregatício,
gerando mais tensões para o
ocupante desse posto.
Ao mesmo tempo, como a função de
chefia muitas vezes é oferecida como
prêmio pelo bom desempenho profissional e/ou como uma espécie de promoção
na “carreira”, o fantasma do fracasso
privado ocupa mais as preocupações
do homem do que o próprio sucesso
da tarefa, levando para o campo das
interações e relações pessoais as diferenças
e ajustes do cotidiano. Qualquer
crítica ou comentário divergente, nesses
momentos, tende a ser traduzido
como ofensa, provocando reações de
defesa egóica impróprias à busca pelo
objetivo coletivo.
Nesses casos, desenvolvem-se mecanismos
de amenização das críticas, cuidados
excepcionais e contraproducentes,
silenciamentos generalizados ou
grandes cargas de ameaças e punições,
que em nada ajudam na busca por melhores
condições para o êxito. A evitação
dos conflitos muitas vezes impede a
emergência da criatividade, desperdiçando
idéias e oportunidades de superação
dos problemas.
Conforme estamos vendo, há muitos
fatores que interferem no resultado
da ação profissional. Um ótimo grupo
de médicos, com uma chefia competente,
pode fracassar em seus esforços por
salvar um paciente, por exemplo. No
entanto, esse fracasso, trabalhado com
responsabilidade e cuidado, pode ser a
chave para o exercício de superação das
deficiências coletivas. Porém, esse mesmo
grupo de médicos, com uma chefia
mal preparada, ao fracassar com um paciente
poderia perder-se em acusações e
culpabilizações, comprometendo o desenvolvimento
de seu trabalho em outras
frentes.
Assim, a fragilização da grupalidade,
a inexistência do espírito de grupo, não
é uma situação vivida de maneira pouco
dolorosa por aquele que tem responsabilidades
na gestão das pessoas. O comportamento
disfuncional de um líder,
portanto, “pode originar-se das características
da própria estrutura organizacional, e não
de sua própria personalidade”, como esclarece
Kernberg (2000)29.
Muito se poderia dizer ainda sobre o
fenômeno da liderança, tema fascinante
e, sem dúvida, desafiador. Entretanto,
para nossos propósitos, nesse artigo cabe
apenas sintetizar alguns aspectos dentre
tantos que poderiam ser destacados.
Primeiramente, merece destaque a
importância da liderança na vida coletiva
nos ambientes de trabalho. Se concordamos
que um grupo é mais do que um
conjunto de pessoas e o reconhecemos
como a ilusão do empoderamento do
Eu, aquele algo que une as pessoas em
torno de uma tarefa, podemos concordar
que trabalhar na gestão de pessoas
exige competências – conhecimentos,
habilidades – específicas.
Outro ponto importante é a impossibilidade
de fixar características que permitam
identificar uma personalidade
mais ou menos indicada à função de
liderança. Isso nos leva a diferenciar o
que estamos discutindo da tendência a
atribuir a supostos “dons” e “vocações”
o sucesso na gestão de pessoas. Não é
uma questão de genética ou benção divina,
mas de profissionalização e arte.
Trata-se, portanto, de um desenvolvimento
pessoal tanto mais importante
quanto as circunstâncias contextuais
ameacem a saúde das pessoas e o desempenho
coletivo. Sabemos que um adequado
preparo para a função pode ser
bem menos penoso para todos do que
o risco de deixar a tarefa entregue ao acaso
ou à espontaneidade de alguém. A qualidade
de vida no trabalho é um ideal a ser
permanentemente cuidado: demanda
atenção e envolve competência e investimento
permanente.
A grupalidade é, assim, um fenômeno
totalmente dependente da administração
cotidiana. Não se avalia
um bom gestor de pessoas pelos
momentos de exceção, pelas atitudes e
decisões nas emergências. Um bom
gestor de pessoas é aquele que consegue
manter viva a chama da grupalidade
no cotidiano, na rotina.
Finalmente, um ponto dos mais relevantes.
De tudo que sabemos sobre a
grupalidade e a liderança, podemos deduzir
que nenhuma liderança pode ser
pensada no isolamento da vivência intragrupal.
Dizendo de outra forma, é
fundamental compreender que o fenômeno
da liderança se manifesta em situação,
ou seja, há um cenário, um ambiente,
uma circunstância na qual essa liderança
pode ser analisada, de tal forma que
sua qualidade – da liderança – só se
mostra apropriada, ideal, porque avaliada
sob aquelas condições.
Podemos dizer que a carga de exigências
sobre a gestão de pessoas é bem
menos pesada quando os homens têm a
chance de optar por outros locais e colegas
de trabalho, se aqueles que lhes são
propostos os desagradam por algum
motivo. A tendência é que permaneçam
no conjunto apenas aqueles que se mostrem
disponíveis ou se disponibilizem
para estar ali.
No entanto, num cenário de desemprego
estrutural, a possibilidade de encontrar
novas oportunidades de sobrevivência
no mercado de trabalho se reduz,
gerando a sensação de inescapabilidade
que alimenta ansiedades e tensões
que interferem na possibilidade de realização
pelo trabalho. Ao mesmo tempo,
considerando-se que também os chefes,
diretores, gerentes e administradores que
participam do cotidiano laboral são, também
eles, empregados e em sua grande
maioria assalariados que dependem de
seus empregos, a carga de ansiedades e
tensões não é apenas oriunda dos empregados,
mas também de si mesmos.
Conforme explica o psiquiatra argentino
Pichon-Rivière (1991):
ao fator insegurança frente à sua tarefa,
acrescenta-se a incerteza diante das mudanças
políticas, sendo ambos sentimentos
que repercutem no contexto familiar,
onde a privação tende a se globalizar. O
sujeito se vê impotente no manejo de seu
papel, e isto cria um baixo limite de
tolerância às frustrações, em relação ao
seu nível de aspirações. [...] Essa depressão
neurótica ou neurose de fracasso
submerge o sujeito num processo regressivo
para posições infantis.30
Ao mesmo tempo, como já foi dito,
resultados coletivos ruins são quase sempre
equivocadamente traduzidos como
indicadores da incompetência de gerentes,
o que acaba se transformando numa
armadilha em cascata, invisível e poderosa,
capaz de desorientar psicologicamente
muitos daqueles de quem se espera
equilíbrio emocional para mediar questões
de Outros. Nesses casos, novamente,
apenas uma adequada formação
desse contingente de gerentes, chefes
e administradores, de todos os
escalões, seria capaz de contribuir para
uma liderança mais segura, com menor
carga de tensionamentos.
As considerações que aqui estamos
destacando se mostram fundamentais
porque percebemos um equívoco freqüente
no processo de escolha de gerentes
e ocupantes de cargos que terão sob
sua responsabilidade a gestão de pessoas.
Ao desconsiderar a importância dessa
dimensão da formação requisitada desses
profissionais, as empresas tendem a
expor seus homens) e seu desempenho
corporativo a graves riscos.
O melhor vendedor de uma equipe é,
muitas vezes, levado ao posto de chefe
de seus colegas, como se fosse uma “promoção”
funcional. Os pequenos desafios
do dia-a-dia gerencial passam a ocupar
seu tempo e os antigos sucessos vão
ficando distantes. A possibilidade de
que a auto-estima desse profissional seja
afetada é relativamente importante, se
considerarmos que o clima de cobranças,
explícitas ou não, nem sempre se compensa
com resultados visíveis como as
vendas realizadas anteriormente. Essas
pequenas ou grandes dificuldades cotidianas
tendem a acumular-se e freqüentemente
perde-se um excelente vendedor,
transformado num péssimo
supervisor. Sem os necessários
conhecimentos e habilidades,
esse profissional dedicado
e responsável tende a
perder-se em diagnósticos
equivocados sobre as vivências
no trabalho, gerando mais
desconforto e sofrimento psíquico
no espaço laboral.
Ajudar um conjunto de
pessoas estranhas entre si e
diferentes em hábitos, desejos,
visões de mundo, a conviver;
contribuir para que seus
interesses sejam atendidos de
forma a manter o envolvimento
e a participação; trabalhar a
favor desse envolvimento; favorecer
que eles encontrem ali,
no cotidiano, o sentido que
justifica seus esforços, representando
esse coletivo nas instâncias
que o circundam, essas
são as principais tarefas da face
liderança, vivida por aqueles
que têm a responsabilidade
sobre outras pessoas nos ambientes
de trabalho.
GRUPALIDADE E
AUTORIDADE
Falar das pessoas em seus
ambientes de trabalho, porém,
não é falar apenas de seus
interesses, seus propósitos, da
tarefa que elas próprias se atribuem.
A análise da grupalidade,
especialmente no que se
refere à vivência profissional,
envolve também interesses externos
que ajudam a justificar
a existência do grupo.
Já falamos da compulsoriedade
da convivência no trabalho:
pessoas que se vêem
ajuntadas, relacionando-se
diariamente, sem escolhas ou
opções reais. Mas, nesse ponto,
mais do que aquilo que
levou as pessoas a estar naquele
conjunto, precisamos pensar
naquilo que levou a tarefa a
procurar seus sujeitos. Ou seja,
precisamos pensar naquilo
que levou à necessidade de
formação de um coletivo de
pessoas trabalhando juntas.
Essa perspectiva externa
que, no caso do grupamento
humano nos ambientes de
trabalho, subverte a formação
habitual do grupo (subverte
pela identificação de
uma tarefa por pessoas estranhas
à formação, à gênese
do grupo e subverte também
pela incorporação fora
do processo da vontade, da
escolha livre etc.) traz com
destaque a dominação, a força
da referência, do controle
representado pela autoridade
representado pela autoridade,
sobre os esforços de
cada membro Existe aqui
uma exigência de caráter assimétrico,
não igualitário, hierárquico,
da autoridade.
O movimento de formação
de grupos estudado pela
maioria dos teóricos deixa
em aberto a questão de uma
grupalidade de origem “extrínseca”
como essa, na qual
a identificação dos membros
só se mostra positiva pela
via da tarefa, do objetivo, do
sentido comum, a ser descoberto
depois de estarem juntos
os membros. Em geral,
segue-se o pressuposto de
formação grupal sob o qual
as pessoas se encontrariam
na busca por um objetivo
que partilham ou na busca
de compensações afetivas e
simbólicas. Mas isso não é
verdadeiro na absoluta maioria
das situações de trabalho
hoje.
Ao subverter a lógica
fundante, os conjuntos de
pessoas em situação de emprego
ou trabalho acabam
por enfrentar uma demanda
interminável por justificativas
para estar ali. Paralela e
contrariamente à lógica grupal, também o sistema econômico abre
espaço de sucesso para poucos, estimulando
competições e desempenhos diferenciados,
ao mesmo tempo em que cobra,
contraditoriamente, parcerias e vivências
em equipe.
Talvez se possa dizer, num breve
parêntese, que a própria presença de um
discurso que sobrevaloriza o “espírito
de equipe” na literatura especializada e
nos “treinamentos” corporativos seja a
prova de sua ausência ou impossibilidade,
numa formação de caráter geográfico
e não essencial. Não há um instinto
gregário ou uma comunidade por princípio,
que, leve elementos independentes
e voltados para seus interesses pessoais,
subitamente e a despeito de tudo,
integrarem-se numa totalidade.
Essa particularidade dos conjuntos
humanos nos ambientes profissionais
torna mais violentas as demandas por
controle, já típicas da convivência humana.
Conforme Kernberg (2000), a partir
dessa perspectiva, cada sistema – indivíduo,
grupo, instituição, sociedade – precisaria
“incluir uma função de controle que lhe
permita analisar o ambiente, a realidade interna
do sistema e a organização executiva da
realização de tarefas dentro dessa realidade
externa e interna31 .
Dentro desse modelo, como explica
o psiquiatra americano, “a psicopatologia
pode ser compreendida como um colapso da
função de controle, uma falha na execução de
uma tarefa primária ou uma ameaça à sobrevivência
do sistema”.32
A cobrança por essa função acaba
contribuindo para a demanda por alguém
que coordene, que limite as investidas
individuais, que diga o que deve ser
feito, realimentando e respondendo pela
tarefa primária de realização daquilo que
tenha determinado sua existência. Esse
lado das competências exigidas do administrador,
gerente, diretor etc. nos ambientes
de trabalho, constitui o que chamamos
de face da autoridade da função.
É possível associar a idéia dessa força
de controle ao desenvolvimento da
moralidade, na perspectiva apresentada
pelo biólogo suíço Jean Piaget (1994)33 e
explorada por inúmeros outros pesquisadores34.
As primeiras orientações da
vida humana encontram um novo ser
em estado que Piaget denomina de anomia,
ou seja, ausência, ignorância das
regulações externas. De uma forma muito
simplificada, podemos dizer que o alimento,
o aconchego, o amor dos pais,
vai convencendo cada um a se submeter
a suas imposições, numa complexa troca
que encaminha para o mundo das regras
sociais. Em alguns casos, essa carga afetiva
é substituída pela violência – física,
moral e/ou simbólica – que apresenta o
medo do semelhante ao novo ser.
Dessa fase, o humano vai migrando
para outra, denominada por ele de
heteronomia, na qual já identifica as regras,
mas as associa àqueles que determinam
que sejam cumpridas. Ou seja,
os comportamentos são regulados por
outrem, a cuja autoridade submete-se,
obedecendo-lhe por reconhecer nele o
direito de dar ordens, por amá-lo e/
ou por temê-lo.
O caminho para a autonomia é longo.
Terceira fase do desenvolvimento moral
nessa perspectiva, nela as decisões e atitudes
são reguladas com base na autoridade
dos valores internalizados. Podemos dizer
que não há uma autonomia de caráter
pleno, nem definitivo, nem estável. É o self
que emerge de sua própria criação, representando
um ser único, livre da obediência,
mas não de seus próprios limites.
Identificam-se traços de autonomia nas
pessoas que têm dentro de si as convicções
necessárias para regular seus próprios
desejos, decisões e atitudes, dentro de
limites sociais, valores e da moralidade
que aceitam para si. Suas relações com
Outros tendem ao amadurecimento, associando-
se a eles por afeto e parceria,
não por submissão ou dependência.
A autonomia é portanto uma busca
permanente, uma aprendizagem eterna,
um estado de autovigilância que tem na
perspectiva da vida em sociedade seu
ideal, sendo verdadeira a recíproca, ou
seja, é a atitude ideal para a vida em
sociedade. Essa aprendizagem, essa busca,
acontece em qualquer espaço humano,
inclusive nos ambientes de trabalho.
Considerando-se que a maioria de nós
passa nos ambientes de trabalho a maior
parte de sua vida produtiva, esses são
ambientes privilegiados para a educação
para a autonomia.
Assim, podemos dizer que a autoridade
é, ao mesmo tempo e contraditoriamente,
o controle, a dominação e o caminho
para uma relação socialmente rica e
humanamente digna nos ambientes de
trabalho. Autoridade, difrerentemente do
autoritarismo, é a face da administração ou
da gestão humana capaz de contribuir para
a superação da atitude heterônoma, regulada
pelo Outro, dependente do controle,
na medida em que trabalhe para favorecer
a emergência de visões autocríticas,
orientadas para a vida em comunidade,
voltadas para o objetivo comum e para
a própria realização. É a presença da
dimensão ética na gestão de pessoas.
De uma maneira geral, o mundo
adulto conhece bem o fenômeno. Uma
das características da vida adulta é a predominância
da autonomia, ou seja da
orientação da conduta fundada nos valores
e princípios morais internalizados e
recriados. Entretanto, quando os modelos
de resposta às demandas da vida
adulta fracassam, a tendência é a regressão
a modelos experimentados em outras
fases do desenvolvimento, realimentando
padrões comportamentais heterônomos,
dependentes de controle externo,
controle esse geralmente esperado
da pessoa que exerce a função de
representante da autoridade, seja ela de
que natureza for. Nesses momentos, o
melhor a esperar da autoridade é sua
presença educativa, voltada para a autonomia
e para a superação da dependência
de controle externo, típica da regressão.
Como explica Kernberg (2000), é possível
entender as atitudes regressivas utilizando
o conceito de “relações objetais
internalizadas que antecedem a constância objetal e a consolidação do ego, do superego e
do id” 35. Independentemente da maturidade
do indivíduo, as evidências clínicas
têm mostrado que, sob certas condições,
há uma tendência a ativar níveis psicológicos
primitivos.
Impulsos fantasiosos, conflituados
na disputa pelo amor que justificaria a
submissão àquela figura externa de autoridade,
emergem no vácuo do fracasso
do modelo autônomo adulto. A ilusão
de fortalecimento do self pela presença de
um Outro, assemelhado em suas demandas,
é elemento reforçador da pressão
do coletivo pelas explicações mais
simplistas, típicas do padrão infantil,
num modelo de causa e efeito que se faz
refém das culpas, lamentos e súplicas
por ajuda de alguma força poderosa. As
concordâncias e falas uníssonas desestimulam
as transgressões, silenciam saídas
criativas e aprisionam todos num
modelo repetitivo, apesar de esgotado
em sua potencialidade transformadora.
A presença de uma autoridade externa,
que substitua a autonomia e os valores
morais recriados – no caso de pessoas
adultas que experimentam o fracasso de
suas tentativas particulares de auto-ajustamento
– é quase uma exigência. Muitas
vezes, a burocracia, as regras escritas, as
tentativas de acordo em relação às limitações
a serem aceitas incondicionalmente,
ganham excessivo destaque, aparecendo
como grandes justificativas morais
para critérios de justiça de padrão
infantil. É o caso de ambientes de trabalho
em que alguns usam o argumento da
conduta equivocada de outros para justificar
seus próprios deslizes: “se ele pode
chegar atrasado, eu também posso”, “se fulano
nunca vem às reuniões e não acontece nada, eu
também vou deixar de vir”, por exemplo.
Uma das mais importantes falhas na face
autoridade do gestor é desperdiçar sua
marca ensinante.
Essa espécie de colapso na função de
controle egóico ou de emergência do self
na autonomia é típica do estado de ruptura
e desmanche grupal, que deixa aflorar,
em muitos casos, um eixo persecutório
de agressividade, intolerância,
moralidade primitiva, sadismo etc. Em
outros casos, é o eixo narcisista, hedonista,
auto-centrado e laissez-faire, de
desprezo pela vida e pela sorte do Outro,
que predomina. Ambos são igualmente
ameaçadores, igualmente difíceis, igualmente
confundidos com características
permanentes de personalidades individuais,
gerando antipatias e acusações
estereotipadas e preconceituosas.
A saída de caráter precário, encontrada
em muitas dessas situações, é também
o esforço por mostrar uma ideologia
compartilhada, uma semelhança entre
os membros do grupo. Porém, ao
mesmo tempo em que essa identidade
parece prevenir uma violência potencial
entre os indivíduos, tende a engessar
qualquer iniciativa diferenciada.
Esse jogo cotidiano de muitas nuances
expõe os membros do coletivo a um
perverso nível de estresse continuado,
de difícil sustentação, com prejuízo da
qualidade de vida e da própria saúde. São
muitas horas, diariamente, sob efeito
defensivo, ou melhor, em estado de
alerta permanente, que geram esgotamento,
desequilibração metabólica, além
de processos psicológicos e emocionais
de difícil controle pessoal.
São situações em que “os nervos parecem
à flor da pele”, nas quais as relações ficam
prejudicadas pelo tensionamento e comprometimento
do humor. Qualquer comentário
pode desencadear uma longa
discussão, infértil e repetitiva. Como acontece
com indivíduos neuróticos, a volta ao
mesmo ponto de debate parece ser a
única alternativa, gerando cansaço e a
sensação de que nenhuma saída diferenciada
é possível (Alevato, 1999)36.
Nessas circunstâncias, a tendência é
oferecer o controle dos indivíduos às
dimensões burocráticas e disciplinares,
heterônomas, aumentando a “dependência
subjetiva do indivíduo em relação à avaliação
que dele faz a instituição”. (Kernberg,
2000)37. Ainda conforme Kernberg, isso
“diminui a capacidade pessoal de fiar-se em seu
próprio sistema de valores e oferece um gatilho
para a contaminação por correntes ideológicas,
rumores e regressões para ansiedades primitivas
de caráter depressivo e persecutório” (Kernberg,
2000) 38.
Sob o ponto de vista da saúde física,
Botsaris (2003) destaca que a falta de uma
válvula de escape suficiente para a quantidade
de mediadores do estresse liberados
no corpo “resulta num aumento progressivo
da pressão arterial ao longo da vida do
indivíduo, o que em geral culmina com um
acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio
ou, num número menor de pessoas, uma
insuficiência renal ou cardíaca” 39.
No plano das relações profissionais,
vemos a carga de energia centrada na
defesa exclusiva da dimensão do privado,
muitas vezes dirigida a alvos fora
daquele contexto, como uma espécie de
compensação das perdas vividas na dimensão
discursiva, racionalizada. De
uma maneira geral, as justificativas para
o não envolvimento com a tarefa comum
são bem articuladas, politicamente
corretas, permeadas por conceitos
emblemáticos, ainda que acompanhadas
de uma inércia sempre perdoada pelo
partilhamento da desesperança no sucesso
de qualquer esforço.
A presença desse modelo de solidariedade
discursiva fundada na desesperança
realimenta uma carga absurda de
sofrimento psíquico, num nível de exigência
certamente potencializado pelo
cenário econômico em geral que o mun-do vive nesse momento de sua história.
Freqüentemente o profissional se vê
martirizado, impotente, ressentido, mas
não pede demissão por medo do desemprego.
Esse incômodo sofrimento se
reflete no humor, no sono, nas relações,
na sexualidade, na vida, enfim, transformando
o trabalho em fonte de adoecimento
e infelicidade.
GESTÃO E SAÚDE
MENTAL:
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É sempre um grande risco tratar de
um tema tão complexo num texto de
poucas páginas. Haveria muito ainda a
explorar e muitos pecados a evitar. Entretanto,
conforme entendemos, o processo
coletivo de construção do conhecimento
humano precisa desses riscos,
porque é também através deles que vamos
conquistando interlocuções, aprimorando
nossos esforços e superando
situações que a dignidade humana não
pode continuar tolerando.
Muitos de nossos antigos conceitos
têm que ser revisitados e reformados
nesse momento de nossa civilização. Um
deles, que destacamos nesse texto, é o de
doença do trabalho. Não se trata, como
entendemos hoje, de uma ameaça restrita
a alguns, nem de um estado de perda
ou falta de saúde. Saúde é um bem pelo
qual se busca permanentemente, na conquista
e esforço diário, envolvendo mais
do que um somatório de partes físicas
funcionando bem. Envolve qualidade
de vida e isso passa pela dimensão profissional
do homem, sua relação com seu
trabalho. Se atentarmos para a quantidade
de horas diárias que um homem vive
em torno de seu trabalho, é fácil perceber
a significância das experiências oriundas
de tal vínculo.
Como numa orquestra, o cotidiano
laboral não se constitui de pessoas sentadas
lado a lado, ainda que tocando a
mesma música. Há todo um esforço na
direção de compôr a harmonia entre os
instrumentos, sua afinação, sua participação,
seu silêncio, num movimento
que todos sabem que só terá êxito com
a força de uma coordenação geral, já que
nenhum dos participantes da orquestra
acredita ser bem sucedido sozinho. Por
mais virtuosos que os músicos possam
ser, o sucesso não está em suas exibições
particulares. Não é isso que buscam quando
se reúnem numa orquestra. A tarefa
é coletiva, o grupo existe no momento
em que cada um está convencido que sua
participação é fundamental, mas que o
sucesso é coletivo.
Na maioria dos ambientes de trabalho,
porém, antes do desafio dessa harmonização,
está a lacuna da própria visão
de orquestra. Poucos filiam-se profissionalmente
pensando no sentido da
orquestra que passarão a compôr. O diretor,
o chefe, o coordenador, diferentemente
do maestro que encontra
um sentido coletivo
pronto, precisa saber fundar
um porquê, uma gênese
grupal, transformá-la em
desejo para cada um, antes
de afinar os instrumentos e
harmonizar o conjunto.
Entretanto, da mesma
forma que cada maestro,
cada direção sozinha não responde
pelo resultado do
conjunto. É, sim, capaz de
contribuir para grandes diferenciações,
de maneira visível.
Observando uma grande
empresa, na qual a estrutura
hierárquica e funcional
se apresenta da mesma forma
em todos os setores,
sediados no mesmo território,
sob as mesmas condições
sociais, econômicas e
culturais, vamos encontrar
as equipes de trabalho vivendo
rotinas emocionais bastante diferenciadas,
e isso se deve, na maioria das
vezes, à sociodinâmica do trabalho, à
chefia imediata.
Algumas vezes, os estudiosos desconsideram
a importância dessa dinâmica
intragrupal, inclusive através de críticas
à metodologia de pesquisa dedicada ao
espaço microssociológico. No entanto,
comparando os departamentos de uma
mesma empresa ou os setores de uma
mesma instituição, é possível descobrir
particularidades nas relações, na disposição
grupal, no desempenho coletivo,
que se desenvolvem em determinado
momento de sua existência, internamente,
apesar do entorno semelhante.
Dizendo de outra maneira, é nas
interações micro/macro, é na presença
materializada desse universo macrossocial
no cotidiano, que a realidade se constitui.
Não há uma força maior, determinante,
que condicione respostas semelhantes
de indivíduos passivos. Há
movimento, invenção, criação, assim
como há resistências, defesas, isolamentos,
repetições. Tais diferenças, capazes
de representar a transformação, a superação,
o adoecimento, a submissão, se
estruturam e se manifestam nas interações,
no cotidiano.
É nesse contexto que
as características assumidas
no processo social,
próprio do humano,
destacam a importância
da coordenação, da direção,
da gestão das pessoas.
Se atentarmos mais
criticamente para nossos
próprios olhares, vamos
perceber porém, que tendemos
a entregar às qualidades
pessoais de chefes
e empregados a responsabilidade
pelo sucesso
ou fracasso da tarefa
grupal. Raramente nos
damos conta que a função
diretora exige conhecimentos
específicos, habilidades
e técnicas específicas,
mais do que dons
ou vocações.
Assim, quando nos
deparamos com casos de sucesso, o
fator sorte às vezes aparece, dividindo
algumas cenas com os tais dons ou
vocações. Nos insucessos, o diagnóstico
atual aponta predominantemente
para as desmotivações. “As pessoas não
querem nada...”, “estão fazendo corpo
mole...”, dizem alguns. Entretanto, finalizamos
esse trabalho com a provocativa
observação de Drucker (citado
por Maslow, 2000)40. O renomado
autor questiona: “Quando os funcionários
foram contratados por sua empresa
eram desinteressados, fracassados?”
Ele responde: “ Se a resposta for sim, o
processo seletivo da empresa é ruim. Se a
resposta for não, a empresa precisa rever o que
fez para estragar o ânimo e o desempenho
dessas pessoas!” Ou seja, de uma forma ou
de outra, o desafio maior está na sociodinâmica
do trabalho, nas mãos de sua
direção. É preciso investir em ações que
dêem sustentação às atividades próprias
da gestão de pessoas, desenvolver competências,
identificar a responsabilidade
da própria ação gestora e evitar diagnósticos
apressados, orientados por modismos
e superficialidades que apenas agravam
os riscos aos quais todos estão
expostos hoje.
NOTAS
1 Esse trabalho foi vencedor do Prêmio Paul
Rosch, concedido pela International Stress
Management Association (ISMA), de 2004.
ALEVATO, H. Diferentes estressores: diferentes
formas de controle. In: CONGRESSO
DE STRESS DA ISMA, 4. Fórum
Internacional de Qualidade de Vida no
Trabalho, 6. Anais eletrônicos... Porto
Alegre, 2004a. Disponível em : <
www.ismabrasil.com.br.>
2 Sociodinâmica do trabalho é a totalidade
formada por relações sociais entre sujeitos
radicalmente interativos, na materialidade
cotidiana, semioticamente mediadas, vividas
num determinado ambiente laboral,
num dado momento da história. (ALEVATO,
(2004a) op. cit.)
3 Desenvolvemos nossas pesquisas no Nipec
– Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas em
Educação e Cotidiano – mantido e certificado
pelo Isep/RJ – Instituto Superior de
Estudos Pedagógicos.
4 Não diferenciamos aqui os conceitos de
gestão, direção, administração e outros
que perpassam o mundo laboral. Nos
referimos mais freqüentemente à direção
e à gestão focando as expectativas, o
papel e as atribuições daqueles que têm
sob sua responsabilidade a coordenação
de outras pessoas.
5 Conforme sabemos, o conceito de trabalho
é bem mais amplo que a simples relação de
emprego ou de dependência econômicofinanceira
de um patrão. Entretanto, devido
ao uso popularizado, optamos aqui pela
expressão “saúde no trabalho” em lugar de
“saúde nos ambientes de emprego”.
6 Documento conjunto da World Health
Organization e da International Labour
Organization. MENTAL health and work:
impact, issues and good practices. Geneva:
World Health Organization/ILO, 2000.
Disponível em:
7 SAFETY in numbers: pointers for a global
safety culture at work. Geneva: ILO, 2003.
p. 10. Disponível em:
8 Inter-American Development Bank, 20/06/
2002. www.iadb.org/exr/prensa/2000/
cp11900e.htm.
9 www02.imd.ch/wcy/
10 SAFETY in numbers: pointers for a global
safety culture at work. Geneva (2003) op.
cit., p.17.
11 Síndrome de Burnout é definida por alguns
autores como uma das conseqüências mais
marcantes do estresse profissional, e se
caracteriza por exaustão emocional, avaliação
negativa de si mesmo, depressão e
insensibilidade com relação a quase tudo e
todos (até como defesa emocional). O
termo Burnout é uma composição de
burn=queima e out=exterior, sugerindo assim
que a pessoa com esse tipo de estresse
consome-se física e emocionalmente, passando
a apresentar um comportamento
agressivo e irritadiço. http://
www.psiqweb.med.br/cursos/stress4.html
12 CODO, W. (Coord.) Educação: carinho e
trabalho. Petrópolis: Vozes, 1999.
13 Ver a análise desenvolvida por SCHAUFELLI,
W.; ENZMANN, Dirk. The burnout
companion to study and practice: a critical
analysis.Philadelphia: Taylor, 1998.
14 DAMÁSIO, A. O mistério da consciência.
São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
15 ALEVATO, H. Trabalho e neurose. Rio de
Janeiro: Quartet, 1999.
16 SAFETY in numbers: pointers for a global
safety culture at work. Geneva (2003) op.
cit., p. 9.
17 Ver o trabalho do psiquiatra americano Otto
Kernberg (2000), especialmente p 85ss.
KERNBERG, O. Ideologia, conflito e liderança
em grupos e organizações. Porto
Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.
18 ALEVATO, H. (1999) op. cit.
19 BAREMBLITT, Gregório. (Org.) Grupos:
teoria e técnica. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
p. 2.
20 ALEVATO, H. (2004a) op. cit., p.138.
21 Id.(1999) op. cit., p. 33.
22 KERNBERG, O. (2000). op. cit., p. 59.
23 Id. ibid.
24 Id. ibid., p. 117.
25 Id. ibid., p. 105-106.
26 KERNBERG, O. (2000) op. cit., p. 147.
27 FIEDLER, F. A. A distância psicológica do
líder e a eficiência do grupo. In: CARTWRIGHT,
D.; ZANDER, A. (Ed.) Dinâmica
de grupo. São Paulo: Herder, 1967. p.
731. v.1.
28 ALEVATO, H. (2004a) op. cit., p. 141.
29 KERNBERG, O (2000) op. cit., p. 83.
30 PICHON-RIVIÈRE, E. O processo grupal.
São Paulo: Martins Fontes, 1991. p. 5.
31KERNBERG, O. (2000) op. cit., p. 26.
32 KERNBERG, O. (2000) op. cit., p. 27.
33 PIAGET, Jean. O juízo moral da criança. São
Paulo: Summus, 1994.
34 Em ALEVATO, H. Fábrica de enlatados.
Rio de Janeiro: Ed. do Autor. 2004, desenvolvo
a questão.
35 KERNBERG, O. (2000) op. cit., p. 18.
36ALEVATO, H. (1999) op. cit.
37 KERNBERG, O. (2000) op. cit., p. 51
38 Id. ibid.
39 BOTSARIS, A. O complexo de Atlas. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2003. p. 111.
40 DRUCKER Apud. MASLOW, A. Maslow
no gerenciamento. Rio de Janeiro: Qualitymark,
2000.
* Psicanalista e Doutora em Educação pela Universidade
Federal Fluminense. Prof. Titular do Mestrado
do Isep/RJ. Pesquisadora e coordenadora do
Nipec: Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas em
Educação e Cotidiano. Diretora do Departamento
de Educação da Universidade Gama Filho.
E-mail: psihelp@bol.com.br
Recebido para publicação em: 01/09/05.
RESUMEN
Hilda M. R. Alevato.Gestión de personas, grupalidad y salud en el trabajo. Trata del fenómeno que denominamos
grupalidad y de los dos aspectos experimentados
en la gestión de personas
en los ambientes de trabajo: liderazgo
y autoridad. A través del análisis de
las exigencias de la grupalidad, se
pretende discutir la relación entre el
citado doble aspecto de la gestión y la
presencia del sufrimiento psíquico en
la dinámica social de los ambientes de
trabajo. Este artículo se basa en las
investigaciones sobre la relación entre
trabajo, salud y gestión de diferentes
categorías profesionales y contextos
organizacionales, desarrollados por el
Instituto Superior de Estudios Pedagógicos
de Rio de Janeiro (Isep/RJ).
Se empleó un abordaje metodológico
cualitativo, que busca comprender la
dinámica social del trabajo, a través del
estudio y de la interrelación de sus
principales indicadores.
Palabras clave : Gestión de Personas;
Sufrimiento Psíquico; Dinámica
Social del Trabajo; Estrés;
Grupalidad.