Anotações acerca
da Especialização Flexível
e o Caso Brasileiro
Adelia Maria Miglievich Ribeiro*
Sumário - Com base na bibliografia internacional e nacional
contemporânea, o artigo aponta para as principais características
do modelo de especialização flexível derivadas da falência
do modelo fordista e conseqüente reestruturação produtiva;
leia-se, introdução de novas tecnologias, novos padrões
organizacionais da empresa, novas competências do trabalhador e uma
inédita relação entre as empresas. Aborda-se, também,
a ambivalência da especialização flexível em
termos de reais benefícios para a classe trabalhadora, com foco especial
no contexto brasileiro.
*Adelia Maria Miglievich Ribeiro é mestre em Sociologia
pelo IUPERJ.
Um breve retrospecto acerca do histórico do mundo do trabalho, no
atual século, evidencia, já em meados dos anos 60, problemas
incontornáveis no modelo fordista de produção. A rigidez
dos investimentos de capital fixo de larga escala e de longo prazo em sistemas
de produção em massa bem como o crescimento estável
em mercados de consumo invariantes constituíam um cenário
cada vez mais longínquo.
A profunda recessão de 1973, exacerbada pelo choque do petróleo,
retirou o capitalista do sufocante torpor e pôs em movimento um conjunto
de processos que solaparam os compromissos fordistas, como o pleno emprego,
a produção em massa, a não exigência de qualificação
de mão-de-obra, a economia de escala. A acumulação
flexível surge, portanto, marcada por um confronto direto com a rigidez
do fordismo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção
inteiramente novos, inéditas maneiras de fornecimento de serviços
financeiros, reestruturação dos mercados, taxas altamente
intensificadas de inovação comercial, tecnológica e
organizacional.
A redução dos mercados e o conseqüente acirramento da
concorrência entre as empresas tornaram-se os principais fatores da
obsolescência da automação rígida com base técnica
eletromecânica, a qual se desenvolvera sob a égide do fordismo.
Baseada na fabricação em grandes quantidades, a automação
rígida implica a incorporação orgânica da memória
que estabelece a seqüência das operações na máquina.
Não há como comportar modificações no tipo ou
seqüência das operações. Mudar significaria adquirir
outra máquina.
Hoje, o mercado de trabalho passa por radical reestruturação.
Diante da volatidade do mercado, do aumento da competição
e do estreitamento das margens de lucro, os patrões tiram proveito
do "enfraquecimento" do poder sindical e da grande quantidade
de mão-de-obra excedente para impor regimes e contratos de trabalho
mais flexíveis, distintos de empresa para empresa.
Esses arranjos de emprego flexíveis não criam, por si mesmos,
uma insatisfação trabalhista forte. Entretanto, os efeitos
agregados, quando considerada a perda da cobertura de seguro, dos direitos
de previdência, dos níveis salariais e da segurança
no emprego, explicitam o prejuízo para a classe trabalhadora.
A transformação da estrutura do mercado de trabalho teve como
paralelo mudanças na organização industrial. Na Europa,
a "subcontratação organizada", por exemplo, abre
oportunidades para a formação de pequenos negócios
e, em alguns casos, permite que sistemas mais antigos de trabalho doméstico,
artesanal, familiar e paternalista revivam e floresçam como peças
centrais e não apêndices do sistema produtivo.1
A produção em pequenos lotes e a subcontratação
tiveram o mérito de superar a rigidez do sistema fordista e de atender
a uma gama bem mais ampla de necessidades do mercado, inclusive aquelas
rapidamente cambiáveis. Tais modelos de especialização
flexível propiciaram uma aceleração do ritmo da inovação
ao lado da penetração em nichos de mercado altamente especializados
e de pequena escala. Atenta para as modas fugazes e a mobilização
de todos os artifícios de indução de necessidades e
de transformação cultural, a especialização
flexível nasceu e conseguiu conviver com todo o fermento, instabilidade
e qualidades fugidias de uma estética pós-moderna que celebra
a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercantilização
de formas culturais. 2
Resta saber se narramos uma dolorosa crise na configuração
do capitalismo do fim do século ou se assinalamos um novo regime
de acumulação capaz de conter as contradições
do capitalismo para as próximas gerações. Aqui vale
a pena registrar o modelo de produção existente na Itália,
nos distritos da região do Norte cunhada Emiglia Romana, onde se
evidenciou uma produção têxtil marcadamente flexível
bem como a junção competitividade/cooperação:
Esses distritos foram definidos por três características
mutuamente dependentes. A primeira, mais óbvia característica,
era a relação dos distritos com o mercado. Os distritos produziam
uma ampla cadeia de produtos para mercados regionais altamente diferenciados
/.../ eles ­p;distritos - constantemente alteravam os produtos, em parte
devido à mudança de gostos, em parte, para mudar os gostos,
a fim de criar novos mercados. Essa relação era motivada
e dependia, por sua vez, da segunda e terceira características dos
distritos industriais: seu uso flexível da produção
crescente, larga utilização de tecnologia e sua criação
de instituições regionais que equilibrassem cooperação
e competição entre as firmas, a fim de estimular uma permanente
inovação. 3
Do ponto de vista da integração externa ­p; com clientes
e fornecedores, o novo padrão de organização da produção
apóia-se na "estratégia de negócios" ­p;
definição dos produtos e mercados de competição
da empresa ­p; e na "estratégia de produção"
­p; definição do número e características
das tecnologias de processo, determinação do grau de verticalização
da produção, recursos humanos, organização do
trabalho, qualidade, planejamento e controle da produção.
Michael Piore e Charles Sabel, 4 otimistas, consideram que o novo modelo
da especialização flexível tem na descentralização
da produção e em novos usos do trabalho ­p;ancorados na
reintegração do trabalho de execução e concepção
­p;seus principais atributos de forma a constituir-se, como característica
central do paradigma, a polivalência dos trabalhadores ­p; flexibilização
horizontal e, sobretudo, vertical.
Crêem os autores que as novas tecnologias abrem a possibilidade de
uma reelaboração das relações de trabalho e
dos sistemas de produção em bases sociais, econômicas
e geográficas inteiramente distintas, representadas por uma organização
industrial sustentada em linhas descentralizadas e democraticamente controladas.
Horst Kern e Michael Schumann 5 apontam para a relevância da qualificação
profissional que, junto à introdução de novas tecnologias,
permitiriam o alcance de melhores taxas de produtividade.
Os principais contornos da "especialização flexível"
centram-se em dois eixos que, não necessariamente, respaldam o otimismo
dos autores citados em relação aos benefícios para
o trabalhador:
a. Processo de produção
- produção em pequenos lotes;
- variedade de tipos de produto;
- busca de aliança entre fornecedores e distribuidores;
- sem estoques;
- controle de qualidade integrado ao processo;
- rejeição imediata de peças com defeitos;
- redução do tempo perdido;
- produção voltada para a demanda;
- subcontratação;
- aprendizagem na prática integrada ao planejamento a longo prazo.
b. Trabalho
- múltiplas tarefas;
- pagamento pessoal (sistema personalizado de bonificações);
- longo treinamento no trabalho;
- organização mais horizontal do trabalho;
- ênfase na co-responsabilidade do trabalhador;
- grande segurança no emprego para trabalhadores centrais (qualificados,
polivalentes), nenhuma para trabalhadores informais que convivem com situações
precárias;
- terceirização da mão-de-obra, dos serviços
e "ilhas externas" dentro das fábricas.6
Seria ingenuidade supor qualquer espécie de "determinismo tecnológico".
O emprego de novas tecnologias depende, crescentemente, da inovação
nas formas de organização do trabalho adotadas pela empresa,
das exigências do mercado, da política industrial vigente,
dos fatores culturais e da adaptação a padrões de qualidade
concorrentes. Segundo Fleury, 7 da organização do trabalho
e das mudanças na concepção gerencial dependerá
a maior ou menor rentabilidade econômica de uma dada inovação
tecnológica. Necessário se faz inverter a reestruturação
da empresa: primeiramente, redefinição dos padrões
organizacionais; em seguida, incorporação da microeletrônica.
Benjamin Coriat 8 atenta para o fato de que os custos de produção
nos processos automatizados passam a se basear cada vez mais na taxa de
utilização das máquinas e equipamentos e cada vez menos
na intensificação do "trabalho vivo". Ora, a intensificação
cada vez menor do "trabalho vivo" cede lugar a manipulações
simbólicas e a funções mais abstratas. Tal fato implica,
paradoxalmente, a relevância deste mesmo "trabalho vivo".
Transferi-lo para a máquina significa supô-la mais autônoma
do que ela é.
Segue que Benjamin Coriat e Afonso Fleury apontam para a exigência
de uma maior qualificação do trabalhador. Pede-se a ele habilidades
múltiplas, certa dose de autonomia e o desenvolvimento do chamado
"conhecimento tácito". Trata-se da "intelectualização
da produção", que inclui um forte aumento de aspectos
como participação e formação, da qual depende
a própria eficiência técnica e estratégica das
empresas. O novo paradigma exigiria que o trabalhador tomasse cotidianamente
microdecisões dada a maior complexidade da manutenção
que implicaria a progressiva fusão, num mesmo cargo, das tarefas
de fabricação e manutenção; assim como a informatização
necessitaria de uma contínua interação do pessoal de
produção com a parte do comando das instalações
e com os sistemas de planejamento e controle da produção.
De fato, todas as monografias existentes acerca dos novos ofícios
ligados à automatização/informatização
convergem na ênfase sobre a "polifuncionalidade" dos operadores.
Verdade é que a polivalência é desigual segundo as empresas,
mas está sempre presente, associando as tarefas de vigilância
e de operacionalização às de regulação,
programação, controle e, em alguns casos, manutenção,
gestão de produção e gestão de todo o sistema.
Isto equivaleria ao ápice da polivalência em seu sentido não
deturpado.
A variável qualificação, contudo, pode derivar em distintas
e mesmo contraditórias tendências: 1. desqualificação
em termos absolutos e relativos (perda do ofício com a fragmentação
das atividades de trabalho); 2. requalificação (elevação
da qualificação média do trabalhador); 3. polarização
(pequeno número de funcionários altamente qualificados, grande
massa desqualificada); 4. qualificação absoluta e desqualificação
relativa (qualificação média elevada, redução
do entendimento dos processos tecnológicos e do avanço da
ciência).9
Hubert Schmitz 10 alerta para o fato de que, nas empresas americanas e
inglesas, a tendência foi oposta à polivalência. Incrementou-se
a divisão do trabalho entre operadores e programadores das máquinas,
isto significa que a concepção e o planejamento não
saiu da "administração" para o "chão
de fábrica". Já nas empresas escandinavas, efetuou-se
tal ligação: co-participação operadores/programadores.
Não são poucas as modalidades de participação
dos trabalhadores na empresa, quer por iniciativas patronais ­p; CCQ,
Kanban, Just-in-time ­p; quer por iniciativa da classe trabalhadora ­p;
comissões de fábrica, conselhos de empresa, grupos de expressão
direta, etc.
O presente estudo não pretende inserir-se na polêmica acerca
das vantagens e desvantagens dos modelos organizacionais citados ­p;
esta discussão merece outro artigo. Há quem diga que tais
modalidades são, nada mais, nada menos, que uma estratégia
para maior produtividade e eficiência do capital; por outro lado,
há quem defenda que se trata de formas de atendimento às reivindicações
dos trabalhadores.
A título de exemplo, passemos a caracterizar duas "modalidades
de participação":
- CCQs: nasceram nos Estados Unidos, década de 60, como técnica
de controle de qualidade de produtos. Ligados aos programas de participação
e motivação, este sistema foi exportado para o Japão,
nos anos 70, constituindo um verdadeiro apanágio de participação
dos assalariados nas empresas. Do seu papel inicial ­p; técnica
de controle de qualidade ­p; os CCQs transformaram-se em movimento de
mobilização e organização operária. Hoje,
encontram-se implantados em quase todas as grandes empresas japonesas, bem
como em diversos outros países. 11
- Kanban: em japonês significa cartões ou fichas. Consiste
num sistema de circulação de informações "invertido":
começa nas unidades finais do fluxo de produção e termina
nas unidades iniciais do sistema de produção a fim de garantir
o estoque zero ­p; seu princípio central ­p; ou seja, o estoque
existente em cada unidade não deve ser superior ao das peças
necessárias para uma dada produção.
A especialização flexível, conforme já mencionamos,
supõe novas formas de gestão que não se reduzem ao
determinismo tecnológico. É certo que os instrumentos de trabalho
passam a assumir funções as quais, em princípio, converte-os
em complexos de produção autônomos. Os objetos trabalhados
já não são simples matérias-primas naturais,
mas sofrem significativas transformações químicas,
o trabalhador já não é mais o único fator subjetivo
de produção, os computadores o liberam, em parte, desse aspecto.
A ciência converte-se definitivamente em força produtiva.
Coriat 13 esclarece que, apesar do princípio em que se apóia
a integração propiciada pela automação microeletrônica
ser o mesmo da "organização científica do trabalho",
ou seja, a eliminação de tempos mortos, na especialização
flexível, a eliminação de tempos mortos baseia-se numa
lógica distinta daquela do taylorismo: ao invés de assentar-se
na intensificação do trabalho, busca-se garantir a produtividade
através da racionalização dos tempos das máquinas.
Não se trata do desaparecimento da ênfase no ritmo de trabalho
da fábrica automatizada, ao contrário, por mais que o trabalho
esteja se tornando uma tarefa de controle e supervisão das máquinas
­p; nas indústrias de ponta ­p; as cadências e os ritmos
permanecem.
Se, por um lado, abrem-se ofícios que pedem ao trabalhador competências
relacionais, por outro, parece dar-se marcha-à-ré no processo
ao se verificar a parcelarização do ofício, a precarização
das condições de trabalho, a marginalização
da mão-de-obra desqualificada. Tal ambivalência manifesta-se
também em nível do conteúdo e da organização
do trabalho : "eliminação do trabalho vivo"; intensificação
do trabalho; reduções maciças de pessoal. Tais fatores
bloqueiam as capacidades inovadoras e paralisam os esforços de aprimoramento
da circulação da informação e das permutas de
saberes e experiências.
Tendo em vista as inúmeras transformações nos conceitos
de produção, torna-se claro seus efeitos drásticos
sobre as condições de trabalho, o que suscitou uma série
de reações por parte dos estudiosos, sindicalistas, trabalhadores
em geral.
Kern & Shumann, 14 fundamentados em extensa pesquisa desenvolvida nos
setores da indústria química, automobilística e de
máquinas-ferramentas, concluem que a racionalização
trazida pelo modelo da especialização flexível leva,
inelutavelmente, à diminuição das taxas de emprego,
conseqüência perversa do enriquecimento do conteúdo do
trabalho. Ambivalência de uma "integração informacional"
que só envolve uma elite super-selecionada, que, não necessariamente
ascende de cargos e tem seu rendimento acrescido, apesar do domínio
das competências técnicas, cognitivas e sócio-comunicativas,
em suma, competências relacionais.
Já Piore & Sabel 15 enxergam o declínio da verticalização
da produção ­p; isto é, a combinação
concepção/execução ­p; a proliferação
de pequenas e médias empresas, o sistema de oficina, a emergência
de novos padrões de uso do trabalho, negando, pois, a inexorabilidade
do desemprego.
Não restam dúvidas de que a organização do processo
de trabalho depende do contexto político-econômico, dos padrões
culturais regionais e, sobretudo, da relação de força
entre capital e trabalho, isto é, da capacidade de luta dos trabalhadores
no sentido de adquirirem maior controle sobre o processo produtivo.
O caso brasileiro merece atenção especial. Apesar do processo
de industrialização aqui ter se dado com velocidade e vigor
notáveis, sua marca é o baixo dinamismo tecnológico,
fragilidade crucial no momento de reestruturação com base
na aceleração da mudança tecnológica pela qual
passamos:
A baixa prioridade atribuída historicamente à capacitação
tecnológica no Brasil, aliada aos efeitos da crise sobre o investimento,
que terminaram por retardar o processo de modernização e difusão
de novas tecnologias e técnicas organizacionais, são os determinantes
mais diretos da relativa permanência de processos de trabalho convencionais,
assentados sobre o princípio taylorista da separação
entre o saber e o fazer. 16
Em que pese os setores de ponta, prevalece, no Brasil, processos de trabalho
industriais com mínimo grau de automação, organizados
com base na fragmentação do trabalho evidenciada nos postos
de trabalho com tarefas simplificadas. A maior parte da força de
trabalho industrial compõe-se de trabalhadores semiqualificados ou
não-qualificados, com baixo grau de escolarização formal
e experiências de treinamento de curta duração. As políticas
de pessoal aprisionam-se numa mesma e ultrapassada visão estreita:
inexistência de carreiras, baixos salários, demissão
como instrumento disciplinador, pouco interesse na fixação
da força de trabalho.
Investimentos em pesquisas e desenvolvimento são ainda raros, predominando
a mera aquisição de tecnologia externa. A possibilidade de
aprendizagem através da cooperação com outras empresas,
institutos de pesquisa, universidades, clientes, etc. constitui algo pouco
explorado na tradição das empresas brasileiras, as quais preferem
contratar consultorias caríssimas na ilusão de terem acesso
a métodos desconhecidos pelos concorrentes. 17
Não se nega a modernização de alguns setores produtivos
no Brasil orientados pela melhoria drástica de suas capacidades concorrenciais
no mercado externo ­p; os denominados "setores de ponta". A
crescente onda pelo aumento da eficiência conduz a uma espécie
de efeito em "bola de neve". Inicialmente, a pressão concorrencial
é exercida apenas sobre as firmas e empresas exportadoras de setores
específicos, progressivamente, a pressão é repassada
aos fornecedores que assimilam os métodos de garantia da qualidade.
Junto à incorporação da microeletrônica, introduzem-se
novos conceitos organizacionais. Em geral, as empresas tendem à utilização
de um determinado instrumento ­p; círculo de qualidade, por exemplo
­p; ou perseguem um objetivo concreto ­p; a certificação,
por exemplo, de acordo com as normas da ISO 9000. São tentativas
de adaptação às receitas oferecidas pela literatura
afim e pelos consultores.
A verdade, contudo, é que o sucesso na introdução dos
novos conceitos organizacionais liga-se estreitamente a modificações
estruturais externas à organização do trabalho: estabilidade
no emprego e investimento em formação para os trabalhadores.
Redução dos planos hierárquicos sem questionar as prerrogativas
dos dirigentes, polivalência ­p; no sentido real do termo ­p;
apenas para um número reduzidíssimo de trabalhadores, rotatividade
entre postos de trabalho como intensificação do trabalho e
não enquanto criação de um verdadeiro espírito
de equipe nada têm de conquista para o trabalhador pós-fordista.
Uma das fortes barreiras a serem enfrentadas é, indubitavelmente,
a cultura empresarial. Os países periféricos possuem uma longa
tradição de autoritarismo e centralização da
administração alicerçada numa sólida separação
social vinculada à desconfiança mútua entre dirigentes
e empregados.
Em suma, qualquer aumento de competitividade deve envolver a modernização
das unidades de produção nos aspectos tecnológico,
estratégico e cultural. Não há modernização
que se complete com soluções de ordem meramente econômica.
Ao contrário, exige-se uma ampla transformação na percepção
do trabalho, que inclui a educação profissional.
Em geral, os operários possuem notáveis conhecimentos devido
à experiência e capacidade prática, entretanto, grandes
lacunas em sua qualificação geral. Trata-se de combater o
"analfabetismo funcional" a fim de se implementar novos conceitos
organizacionais. Não se nega que os custos de uma flexibilização
na gestão da empresa podem vir a ser altos, caso se despreze uma
boa administração do processo de mudança e os custos
bem calculados.
Entre os novos empresários ou aqueles "reciclados" está
claro que a fim de se garantir que os mecanismos de capacitação
tecnológica possam produzir frutos reais é necessária
uma "massa" inicial mínima de conhecimentos tecnológicos
e industriais; um sistema de valores e normas suficientemente convincente
para funcionar como tal; modelos organizacionais modernos e alternativos
aos importados e educação profissional.
No Brasil, assim como nos demais países periféricos, a dinâmica
de ajustamento ao novo cenário internacional longe de constituir
um processo de reestruturação estritamente econômico,
é, também, um fenômeno de profundas conseqüências
sociais. As taxas de desemprego, a redução dos salários
médios, o aumento do trabalho informal, a gravidade da exclusão
social não se intensificam por si mesmas mas também como resultado
da reestruturação produtiva tal como esta ocorre.
Se nos países industrializados, apesar do crescimento econômico
respeitável, o desemprego triplicou na última década
dada à economia de mão-de-obra, aumento dos custos do trabalho
e inovações tecnológicas, nos "países em
desenvolvimento", o quadro agrava-se. A racionalização
das empresas acoplada à contração do mercado interno
geram desemprego e possíveis desdobramentos sobre as normas que regulam
a relação salarial.
Contraditoriamente, são nesses momentos mais carentes de políticas
compensatórias que estas se tornam mais difíceis de serem
efetivadas. Nos anos 90 , seria necessário, para se ter um quadro
de pleno emprego, a criação de 1 bilhão de novos postos
de trabalho.
Sérgio Salerno 18 faz o seguinte diagnóstico do quadro brasileiro:
- informalidade de parcelas da economia brasileira, ainda que não
nos setores dinâmicos da economia;
- flexibilidade na definição de salários;
- flexibilidade na contratação de trabalho;
- altos níveis de rotatividade da mão-de-obra;
- horas-extras como recurso para os baixos-salários;
- não-regulamentação de aspectos básicos
do processo de trabalho: tempo, ritmo, volume de produção
x volume de trabalho;
- disponibilidade de mão-de-obra para o trabalho noturno;
- políticas de cargos e salários incompatíveis
com a polivalência da mão-de-obra;
- "flexibilização" do trabalho, via demissões
e recursos às horas-extras;
- adaptação dos ritmos a fim de recuperar atrasos na produção;
- possibilidade de transferência de trabalhadores entre seções/setores/linhas
em conformidade com a flutuação da produção;
- relativa rigidez na oferta de bens intermediários para a indústria;
- mobilidade regional do mercado de trabalho;
- grande oferta de mão-de-obra não-qualificada, sujeita
à disciplina fabril;
- operariado formado na tradição taylorista/fordista da
organização do trabalho;
- just-in-time prejudicado pelas longas distâncias, falta de estrutura
interna do comprador, concentração industrial, alto grau de
verticalização de muitas indústrias, problemas de qualificação
e desenvolvimento dos fornecedores, flutuações da economia
brasileira;
- polivalência como multitarefa;
- ausência de grupos semi-autônomos na acepção
original do termo;
- forte intensificação do trabalho;
- negação da autonomia operacional apesar da apropriação
do saber operário;
- disciplina da iniciativa operária mediante o fortalecimento
de critérios de gerência.
Não restam dúvidas de que a inserção do Brasil
na nova ordem econômica mundial não pode ser vista como um
imperativo que descarta qualquer espécie de discussão entre
centro/periferia ou norte/sul, a fim de abordar as singularidades nacionais
e repensar os atuais parâmetros de globalização e configuração
de blocos econômicos.
A flexibilidade da produção é, em muitos casos, desnecessária.
No Brasil, por exemplo, há muito espaço para economia de escala
caso se considere desejável a ampliação de mercados
de massa. Nesse sentido, justificam-se as fábricas com automação
rígida e linha de montagem. Inimaginável é mantê-las
com as péssimas condições de trabalho que acabaram
por caracterizar o modelo fordista.
Por outro lado, o Brasil tem reais possibilidades de obter, na sua tecnologia
e em seu trabalho, uma vantagem competitiva internacional e, ao mesmo tempo,
um fator de consolidação dos mercados internos. Para tanto,
urge uma interferência radical na política industrial stricto
sensu . Mais do que isso, trata-se de interferir na "cultura"
onde "bebem" os diversos atores sociais,capazes de dar sentido
à indústria nacional.
NOTAS
1 Cf. CAPECCHI, Vittorio. La economia informal y el desarrollo de la especialización
flexible en Emíllia Romagna. In: PORTES, A. La economia informal
en los países desarrollados y en los menos avanzados. Buenos Aires:
Planeta Política y Sociedad, 1990. Cf. NEGRI, Antonio. Le nouvel
space european des entreprises: les PME italiennes, l'exemple de Benetton,
le nouveau chef d'éntreprise dans l'Europe. Paris: GRAMI, 1989. Convenção
de Pesquisa n. 88.31.082. Relatório de pesquisa para o Secretariado
Permanente de Planejamento Urbano do Ministério de Provisão,
Alocação e Organização do território
e dos transportes.
2 HARVEY, David.Condição pós-moderna: uma pesquisa
sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Ed. Loyola,
1992.
3 PIORE, Michael, SABEL, Charles. The second industrial divide. New York:
Basic Books, 1984. p. 29. A tradução é minha.
4 Id. ibid.
5 KERN, Horst, SHUMANN, Michael. La fin de la division du travail ? La
rationalisation dans la production industrielle. Paris: Maison des Sciences
de l'homme, 1989.
6 HARVEY, D. op. cit.
7 FLEURY, Afonso. Novas tecnologias, capacitação tecnológica
e processo de trabalho: comparações entre o modelo japonês
e o brasileiro. In: HIRATA, Helena (org.). Sobre o modelo japonês:
automatização, novas formas de organização e
relações de trabalho. São Paulo: EDUSP/Aliança
Cultural Brasil Japão, 1993.
8 CORIAT, Benjamin. Pensar pelo avesso. Rio de Janeiro: UFRJ/Renan, 1994.
9 SENAI. Departamento Nacional. Cenários da indústria brasileira:
formação profissional para os anos 2000. Rio de Janeiro: SENAI/Divisão
de Pesquisas, Estudos e Avaliação, 1992.
10 SCHMITZ, Hubert. Flexible specialization - a new paradigm of small-scale
industrialization? [S.l: s.n.] Paper.
11 HIRATA, H.. Transferência de tecnologias de gestão: o caso
dos sistemas participativos. In: HIRATA, Helena (org.). Sobre o modelo japonês:
automatização, novas formas de organização e
relações de trabalho. São Paulo: EDUSP / Aliança
Cultural Brasil Japão, 1993.
12 SANTOS, T. Revolução científico-técnica
e capitalismo contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 1983.
13 CORIAT, Benjamin. op. cit.
14 KERN, Horst, SHUMANN, Michael. op. cit.
15 PIORE, Michael, SABEL, Charles. op. cit.
16 CARVALHO, Ruy de Quadros. Projeto de primeiro mundo com conhecimento
e trabalho do terceiro? [S.l.:s.n.] Paper. Trabalho apresentado no XIV Encontro
Anual da ANPOCS. GT "Processo de Trabalho e Reivindicações
Sociais", Caxambu, 20 a 23 out. 1992.
17 VALLE, Rogério. Caminhos para uma nova indústria. [S.l.:s.n.]
1994. Paper.
18 SALERNO, M. S.. Modelo japonês, trabalho brasileiro. In: HIRATA,
Helena (org.) Sobre o modelo japonês: automatização,
novas formas de organização e relações de trabalho.
São Paulo: EDUSP/Aliança Cultural Brasil Japão, 1993.
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