Sumário - Os autores nacionais que discutem as complexas
relações entre educação e trabalho se apóiam,
em grande parte, no pensamento de Karl Marx e Antonio Gramsci. Entretanto,
as idéias de ambos têm possibilitado aos estudiosos múltiplas
interpretações que nem sempre são consensuadas no meio
acadêmico. Esse trabalho tem como objetivos o resgate do pensamento
de Gramsci a partir de sua proposta de integração entre educação,
trabalho e cultura; polemizar sobre algumas afirmações que
são atribuídas ao autor e efetuar comparações
acerca da concepção de educação politécnica
de Marx e da proposta de escola unitária de Gramsci.
O pensamento de Antônio Gramsci é uma referência obrigatória
para discutirmos a relação entre educação e
trabalho. Entretanto, utilizamos de maneira recorrente as idéias
do autor a partir da apropriação de outros autores tais como:
Paulo Nosella, Carlos Nelson Coutinho e Mário M. Manacorda, dentre
outros. Por esse motivo considero ser oportuno analisar as idéias
de Gramsci acerca da organização da escola unitária
expressas, principalmente, em dois capítulos, A organização
da escola e da cultura e Para a investigação do princípio
educativo, do livro Os intelectuais e a organização da cultura.
Neste livro são reproduzidas partes dos Escritos do cárcere,
o caderno nº 12 que trata dos intelectuais, da cultura e da escola,
escrito em 1932. Ciente de que essa trajetória já foi efetuada
pelos autores citados, esse trabalho tem como objetivo enfatizar a abrangência
das idéias de Gramsci no que se refere à integração
entre educação, trabalho e cultura.
A escola unitária
A educação para Gramsci desempenha um papel fundamental tanto
na consolidação da hegemonia como na formulação
da contra-hegemonia. 1 Para o autor a hegemonia é assegurada pelos
organismos privados e não inteiramente pelo Estado. A organização
escolar, ao lado de outras instituições da sociedade civil,
auxiliam na consolidação da hegemonia que é exercida
essencialmente em nível da cultura e da ideologia. O sistema educacional
se constitui num dos canais onde se dá a produção e
a difusão da ideologia. Nesse sentido, "a escola é o
instrumento para formar intelectuais de vários níveis".
2 No sistema educacional burguês tradicional são formados os
intelectuais orgânicos da classe burguesa que contribuem para a manutenção
da hegemonia. Existem nesse grupo de intelectuais indivíduos que
têm uma concepção de mundo que transcende os seus interesses
de classe e auxiliam na formulação da contra-hegemonia. Esses
dois tipos de intelectuais são formados na escola mas, no que se
refere a esse último grupo, a sua consciência é formada
fora da escola, isto é, no partido político. O mesmo acontece
com os intelec-tuais orgânicos não profissionais.
Gramsci 3, ao analisar o sistema de ensino italiano, critica a sua dualidade,
isto é, a existência de dois tipos de ensino: a escola humanista
e as escolas particulares de diferentes níveis. A primeira destinada
a desenvolver a cultura geral dos indivíduos da classe dominante
enquanto a outra prepara os alunos oriundos das classes dominadas para o
exercício de profissões. Com o desenvolvimento da base industrial
houve o surgimento do intelectual urbano e a necessidade de profissionalização
desses indivíduos nas escolas técnicas.
No que se refere à escola clássica Gramsci afirma que:
A tendência hoje é a de abolir qualquer tipo de escola desinteressada
(não imediatamente interessada) e formativa, ou conservar delas tão-somente
um reduzido exemplar destinado a uma pequena elite de senhores e mulheres
que não devem pensar em se preparar para um futuro profissional.
4
Para Gramsci, 5 a solução da crise do sistema de ensino italiano
se daria a partir da implantação da escola única de
cultura geral, formativa, que equilibrasse o desenvolvimento tanto da capacidade
intelectual como da manual. Essa escola forneceria orientação
profissional e prepararia os indivíduos fosse para o ingresso em
escolas especializadas, fosse para o trabalho produtivo.
Gramsci 6 está atento para o fato de que a criação
intelectual e prática, assim como o desenvolvimento de autonomia
e iniciativa dos indivíduos, requerem uma certa maturidade. Nesse
sentido ele alerta que a fixação da idade escolar depende
de o Estado assumir certos encargos que ficam por conta das famílias,
afirmando o caráter público da escola unitária. Pois
somente desta forma a educação pode atingir todos os indivíduos
sem distinção de classe.
A operacionalização da escola única requer mudanças
na organização escolar que dizem respeito aos prédios,
material científico e corpo docente. É enfatizada a necessidade
de um maior número de docentes "pois a eficiência da escola
é muito maior e intensa quando a relação entre professor
e aluno é menor." 7 As instalações devem ter dormitórios,
refeitórios, bibliotecas especializadas, salas para trabalhos de
seminário, etc. O autor 8 defende que, na etapa inicial de implantação
da escola unitária, apenas um grupo reduzido de alunos tenha acesso
a ela. A seleção para o ingresso seria efetuada por concurso
ou a partir de indicações por instituições idôneas.
No que se refere à organização da escola unitária
o autor assinala que esta deveria englobar as escolas primárias e
médias mas com uma reformulação de seus conteúdos,
métodos e disposição dos graus:
O primeiro grau elementar não deveria ultrapassar três-quatro
anos e, ao lado do ensino das primeiras noções de instrumentais
de instrução (ler, escrever, fazer contas, geografia e história),
deveria desenvolver notadamente a parte relativa aos direitos e deveres
/.../ as primeiras noções de Estado e de Sociedade /.../ O
resto do curso não deveria durar mais de seis anos de modo que, aos
quinze-dezesseis anos, dever-se-ia concluir todos os graus da escola unitária.9
O autor 10 chama a atenção para o fato de que os jovens das
classes mais favorecidas têm em sua vida familiar um ambiente que
lhes facilita a carreira escolar. Os alunos urbanos, pelo fato de viverem
nas cidades, também dominam noções e aptidões
importantes para a aprendizagem. Gramsci 11 defende que na escola unitária
devem-se criar condições para que os indivíduos tenham
acesso a esse repertório de informações que facilitam
o processo de ensino-aprendizagem. A criação de uma rede de
auxílios à infância, que atuem paralelamente à
escola unitária, também é prevista e tem como objetivo
desenvolver nas crianças noções e aptidões pré-escolares
assim como "uma certa disciplina coletiva." 12
O autor 13 relativiza o papel da disciplina na escola única na medida
em que critica a disciplina existente por esta ser mecânica e hipócrita.
Outra crítica ao sistema de ensino vigente diz respeito à
distância existente entre os liceus e a universidade, assinalada da
seguinte forma:
Do ensino quase puramente dogmático, no qual a memória
desempenha um grande papel, passamos à fase criadora ou de trabalho
autônomo e independente; da escola com disciplina de estudo imposta
e controlada autoritariamente passa-se a uma fase de estudo ou de trabalho
profissional na qual a autodisciplina intelectual e autonomia moral são
teoricamente ilimitadas. 14
É privilegiado na escola unitária o incentivo de métodos
de estudo e aprendizagem que estimulem a criatividade não devendo
estes ser monopólios da universidade.
Na escola unitária, a última fase deve ser concebida e
organizada como a fase decisiva, na qual se tende a criar os valores fundamentais
do humanismo, a autodisciplina intelectual e a autonomia moral necessárias
a uma posterior especialização, seja de caráter científico
(estudos universitários), seja de caráter imediatamente prático
(indústria, burocracia, organização de trocas, etc).
15
A criatividade deve ser estimulada na escola e não deixada ao acaso
da vida prática. Gramsci esclarece que:
A escola criadora não significa escola de inventores e descobridores;
ela indica uma fase e um método de investigação e conhecimento,
e não um programa predeterminado que obrigue à inovação
e à originalidade a todo custo. 16
Nesse tipo de escola o professor desempenha um papel fundamental tendo a
função de guia amigável tal como acontece de uma maneira
geral na universidade. Os docentes devem ter "consciência de
seu dever e do conteúdo filosófico desse dever." 17 O
docente não deve ser passivo e sim engajado na proposta da escola
unitária.
Para o autor a descoberta faz parte do processo criativo e caracteriza que
o indivíduo possui método e por isso atingiu a maturidade
intelectual. Mas, para se chegar a esse estágio, "a atividade
escolar se desenvolverá nos seminários, nas bibliotecas e
nos laboratórios experimentais. É [na atividade escolar] que
serão recolhidas as indicações orgânicas para
a orientação profissional." 18 Na escola unitária
devem ser iniciadas as novas relações entre trabalho intelectual
e trabalho manual que se estenderão a toda a vida social.
As universidades e as academias também devem assumir novas funções.
Para o autor:
Estas duas instituições são, atualmente, independentes
uma da outra; as academias são o símbolo, ridicularizado freqüentemente
com razão, da separação existente entre a alta cultura
e a vida, entre os intelectuais e o povo. 19
A sua proposta consiste em que a academia deve manter um intercâmbio
com a universidade e deve possibilitar aos egressos da escola única,
que ingressaram no trabalho, acesso ao conhecimento e subsídios para
o desenvolvimento de atividades culturais. A sua preocupação
é de que os trabalhadores não devem ser passivos intelectualmente.
Nesse sentido Gramsci propõe a integração do mundo
da cultura com o mundo do trabalho:
Unificar os vários tipos de organização cultural
existentes: academias, institutos de cultura, círculos filológicos,
etc., integrando o trabalho acadêmico tradicional /.../ a atividades
ligadas à vida coletiva, ao mundo da produção e do
trabalho. 20
Esses organismos também manteriam um intercâmbio com as universidades.
A finalidade dessa iniciativa é centralizar e dar impulso à
cultura nacional.
A aproximação entre educação e trabalho se inicia
na escola elementar com o objetivo de despertar uma nova concepção
de mundo nos jovens.
O conceito e o fato do trabalho (da atividade teórico-prática
) é o princípio educativo imanente à escola elementar,
já que a ordem social e estatal (direitos e deveres) é introduzida
e identificada na ordem natural pelo trabalho; a atividade teórico-prática
do homem, cria os primeiros elementos de uma intuição, liberta
o homem de toda magia ou bruxaria, e fornece o ponto de partida para posterior
desenvolvimento de uma concepção histórico-dialética
do mundo. 21
Essa abordagem permite uma maior aproximação da escola com
a vida que, por outro lado, ocasiona uma participação mais
ativa dos indivíduos na sociedade.
O autor relata a tendência das escolas em fornecer uma formação
com objetivos imediatistas. Esse fato está relacionado à crise
da tradição cultural e da concepção de vida
e de homem. Ressalta, entretanto, que a escola pode ser formativa e instrutiva,
ou seja, rica em noções concretas. Recomenda que:
Deve-se evitar a multiplicação e graduação
dos tipos de escola profissional, criando-se, ao contrário, um tipo
de escola preparatória (elementar e média) que conduza o jovem
até os umbrais da escolha profissional, formando-o entrementes como
pessoa capaz de pensar, de estudar, de dirigir ou de controlar quem dirige.
22
À primeira vista a criação de escolas profissionalizantes
pode parecer democrático mas, para o autor, esse tipo de escola acirra
as diferenças sociais. Ao invés da qualificação
para um determinado posto de trabalho, Gramsci defende que a escola capacite
todo o indivíduo, mesmo que abstratamente, a ser dirigente, pois:
A democracia política tende a fazer coincidir governantes e governados
(no sentido de governo com o consentimento dos governados), assegurando
a cada governado a aprendizagem gratuita de capacidades e de preparação
técnica geral necessárias ao fim de governar. 23
Gramsci nos alerta que as crianças oriundas de classes sociais diferentes
possuem hábitos distintos e a escola deve criar mecanismos para transpor
essas barreiras:
Deve-se convencer a muita gente que o estudo é também um
trabalho, e muito fatigante, com um tirocínio particular próprio,
não só muscular-nervoso mas intelectual; é um processo
de adaptação, é um hábito adquirido com esforço,
aborrecimento e mesmo sofrimento. 24
Mas, para as crianças criadas em familiaridade com o ambiente intelectual,
existe uma maior facilidade de concentração. Gramsci 25 defende
que a escola deva contribuir para superar as diferenças no que diz
respeito ao regime alimentar na medida em que carências nesse sentido
ocasionam dificuldades no estudo. Enfim, as diferenças de classe
dificultam o êxito dos filhos da classe trabalhadora e medidas devem
ser tomadas para suprir essas carências.
Omnilateralidade
Gramsci retoma às idéias de Marx no que se refere a omnilateralidade
26 concepção que diz respeito à realização/emancipação
do homem através do trabalho. É estabelecida uma distinção
entre trabalho alienado e trabalho produtivo. O primeiro é definido
como a atividade que produz algo exterior a si mesmo sendo, portanto, uma
atividade exteriorizada e objetivada. Sua característica fundamental
consiste no fato de a produção ocorrer não para satisfazer
as necessidades do indivíduo e sim as do mercado. O trabalho é
atividade humana que produz valor de troca. A produção é
direcionada para a necessidade de outras pessoas e o seu produto não
pertence ao trabalhador. Este recebe em troca um salário e o transforma
em bens de subsistência para sua família. É no regime
de assalariado que o trabalho revela a sua essência alienante: uma
atividade que produz valor de troca para outro. O próprio homem é
convertido em mercadoria e passa a ter valor pela sua capacidade de produzir
valor. O homem de sujeito passa a ser objeto daquele para quem trabalha.
A introdução da máquina no processo produtivo reduz,
cada vez mais, a intervenção consciente do homem no trabalho.
Nessa alienação o trabalho perde todo o caráter de
atividade humana, isto é, desaparece a consciência de si pela
qual o homem se projeta e se satisfaz no seu produto. No trabalho alienado
o homem não produz significados. A contínua repetição
de uma determinada operação instala a morte psicológica
do sujeito.
"O trabalho exteriorizado, trabalho em que o homem se aliena a si mesmo,
é um trabalho de sacrifício e mortificação."
27 O homem passa a aceitar esse tipo de trabalho como parte de sua natureza
humana. Esse fato ocorre na medida em que o homem é educado para
aceitar o trabalho como forma natural da existência e não como
uma forma alienante, histórica e circunstancial.
Toda a concepção de Marx acerca da emancipação
humana só pode ser plenamente compreendida através da oposição
entre trabalho alienado e trabalho produtivo. O trabalho para Marx 28 não
era uma categoria meramente econômica e sim uma categoria antropológica
impregnada de juízo de valor oriundo de sua posição
humanista. É através do trabalho que há a plena identificação
do homem com a natureza. Marx acompanha o pensamento de Hegel que entendia
o trabalho como "o ato de autocriação do homem".
O trabalho produtivo é a atividade pela qual o homem desenvolve-se
a si mesmo. É a expressão própria do homem, uma expressão
de suas faculdades físicas e mentais.
Marx 29 defende a abolição completa da sujeição
do homem a uma única atividade durante toda sua vida. Esse aspecto
deve-se ao fato de privilegiar o desenvolvimento do homem total e universal.
Ele adverte que o homem deve ser emancipado da influência mutiladora
da especialização. Marx explicita que nas sociedades capitalistas
os homens, na maioria das vezes, se dedicam a uma atividade até o
fim de sua vida para obter seu salário. Por outro lado:
Na sociedade comunista ninguém tem uma esfera exclusiva de atividade,
mas qualquer um pode realizar-se em qualquer ramo que desejar, a sociedade
regula a produção geral e torna possível, assim, a
gente fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã,
pescar à tarde, criar gado de noite, criticar após o jantar,
tal como se deseje sem jamais se tornar caçador, pescador ou crítico.
30
A abolição da divisão do trabalho acarretaria a associação
do trabalho intelectual e manual.
Gramsci também acreditava que na sociedade socialista o trabalho
assumiria características distintas das encontradas na sociedade
capitalista. Nessa sociedade o trabalho gera apenas a sobrevivência
de cada indivíduo sem contribuir para a formação da
riqueza universal. Para ele 31, o trabalho industrial transcende o modo
de produção capitalista podendo ser autônomo e criativo,
diferentemente do tipo americano, ou seja, o trabalho industrial na forma
socialista. Este deve estar sob a direção político-administrativa
do trabalhador e gerar cada vez mais riqueza universal contribuindo para
a melhoria de toda a organização social.
Gramsci enriqueceu a discussão acerca da relação entre
educação e trabalho. Assim como Marx ele 32 privilegia a formação
do sujeito na perspectiva da omnilateralidade. Pretende que a educação
contribua na transformação dos indivíduos em sujeitos.
Ambos almejam que a educação prepare os indivíduos
para a sociedade socialista.
Considerações Finais
No que se refere à operacionalização da proposta de
união entre educação e trabalho de Gramsci e Marx encontramos
algumas diferenças entre o trabalho como princípio educativo
e a politecnia. No documento Instruções aos Delegados do Conselho
Central Provisional 33 Marx defende a tese de que, a partir dos 9 anos,
todas as crianças devem se converter em trabalhadores produtivos
e que todos os adultos devem trabalhar tanto com o cérebro como com
as mãos. As crianças e jovens, de ambos os sexos, deveriam
ser divididas em três grupos de acordo com a sua faixa etária:
9 a 12, 13 a 15 e 16 a 17 anos, e deveriam trabalhar 2, 4 e 6 horas respectivamente.
A sua proposta de educação politécnica compreende três
pontos centrais: educação intelectual, educação
corporal e educação tecnológica. O primeiro ponto não
é detalhado pelo próprio autor. O segundo tem como objetivo
atenuar os efeitos mutiladores da produção através
de exercícios militares e de ginástica. O terceiro ponto compreende
a educação tecnológica que deve abordar os princípios
gerais e de caráter científico de todo o processo de produção
e, ao mesmo tempo, iniciar as crianças e adolescentes a operar com
instrumentos de trabalho dos diversos ramos industriais. A combinação
desses três elementos colocaria a classe operária acima do
nível da aristocracia e da burguesia.
Para Marx 34 a integração educação e trabalho
visava à regulamentação do trabalho das crianças,
redução da jornada de trabalho para oito horas e abolição
do trabalho noturno para os menores. A limitação da jornada
de trabalho é uma condição de melhoria e emancipação
da classe trabalhadora e possibilitaria o resgate da saúde e da energia
física dos trabalhadores assim como asseguraria a possibilidade de
desenvolvimento espiritual tanto nas atividades sociais como nas atividades
políticas. Marx estava atento para a tendência da indústria
moderna de incorporar o trabalho das crianças e jovens e defende
a sua regulamentação. Nesse sentido é enfatizado que
não deveria ser permitido aos pais e aos empresários empregar,
recorrer ao trabalho dos jovens, senão no caso em que este estivesse
relacionado com a educação.
Ao contrário de Marx, Gramsci não se refere à inserção
das crianças no processo produtivo. O trabalho para ele vai ser inserido
na escola a partir de dois elementos educativos fundamentais: noções
de ciências naturais e noções de direitos e deveres
do cidadão. Gramsci pretende desenvolver nas crianças a capacidade
de trabalhar. Enquanto Marx valoriza o trabalho industrial, inclusive o
seu aspecto prático, Gramsci privilegia o trabalho industrial como
princípio educativo assegurando uma autonomia com relação
à fábrica. No que se refere a esse aspecto encontramos opiniões
coincidentes entre Manacorda 35 e Nosella. 36 Ambos afirmam que a base
da cultura, da educação e da escola é a prática
produtiva do trabalho industrial.
Manacorda 37 afirma que Gramsci nega a espontaneidade da criança
no processo educativo e que o autor tem uma visão negativa do processo
educativo como um desnovelamento. O cérebro da criança é
um novelo que o professor ajuda a desenrolar. Esse é um aspecto polêmico
na medida em que em outros momentos dos Cadernos o autor nos transmite uma
visão mais otimista das crianças. Ao avaliar o ensino da lógica
formal ele afirma que:
A relação de tais esquemas educativos com espírito
infantil é sempre ativa e criadora, como ativa e criadora é
a relação entre o operário e seus utensílios
de trabalho. 38
A partir da leitura do próprio Gramsci acredito ser oportuno enfatizar
que o autor tem como pressuposto pedagógico da escola unitária
a construção ativa do conhecimento, partindo da premissa de
que os indivíduos são criativos. Pois o autor chega a afirmar,
inclusive, que todos os homens são filósofos:
Ainda que à sua maneira, inconscientemente, já que na menor
manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na linguagem
está contida uma determinada concepção de mundo. 39
Diferente de Marx, Gramsci detalha, com mais elementos, a operacionalização
de sua proposta de implantação de uma escola pautada nos pressupostos
socialistas. A importância dessa proposta está no fato de o
autor explicitar as diretrizes a serem adotadas na modificação
do sistema de ensino como um todo, partindo da integração
cultura, educação e trabalho. Nesse sentido é que Manacorda
afirma, com razão, que:
Cabe [a Gramsci] o grande mérito de ter sabido ler em Marx não
apenas os temas igualitários e econômicos que a alguns aparecem
quase como exclusivos, mas também os temas humanistas da liberdade,
da cultura, que alguns não sabem encontrar, e de tê-los retomado
de maneira original, aos modernos desenvolvimentos sociais e ao moderno
clima cultural. 40