Mudanças Organizacionais em Lojas de Departamentos:
Adoção de Tecnologias de Informação e Terceirização

José Tarcísio P. Trindade*
Lidia M. Segre**

Sumário - Mudanças organizacionais em lojas de departamentos: adoção de tecnologias de informação e terceirização. O artigo trata, com base em estudo de caso numa loja de departamento, de como a introdução do auto-serviço no setor do comércio varejista bem como a introdução das novas tecnologias de informação alteraram as estratégias e as técnicas de comercialização e a organização do trabalho, provocando mudanças nas rotinas dos serviços e na logística das empresas. Tal processo de mudanças prossegue, agora, com a terceirização, que busca a racionalidade dos processos e a economia de custos.



*José Tarcísio P. Trindade é professor da Universidade Estadual de Maringá/PR e
mestre em Engenharia de Sistemas pela COPPE/UFRJ.
**Lidia M. Segre é professora do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro/COPPE e doutora pela UFRJ/COPPE.

Várias mudanças de natureza organizacional e a introdução das novas tecnologias de informação no comércio varejista, em particular nos grandes magazines e nos supermercados, provocaram uma profunda transformação1 nesse setor da economia.

A introdução do auto-serviço no setor mudou de forma profunda as estratégias e as técnicas de comercialização bem como a organização do trabalho. Assim como a introdução das novas tecnologias de informação provocou alterações marcantes nas rotinas dos serviços e na logística das empresas. Tal processo de mudanças continua, agora, numa nova etapa: a terceirização como coroamento de um projeto que busca a racionalidade dos processos e a economia de custos como metas indispensáveis para manter-se no mercado.

Para tratar desses três temas, mudanças organizacionais, introdução das tecnologias de informação e terceirização, utilizam-se aqui as informações de um estudo de caso desenvolvido junto a uma rede italiana de lojas de departamentos. Tal trabalho fez parte do estágio realizado pelo primeiro autor como bolsista do CNPq, em regime de "doutorado sanduíche", junto ao Politécnico de Milão, sob orientação dos professores Piercarlo Maggiolini (POLIMI) e Lidia Segre (COPPE/UFRJ).

O texto a seguir está dividido em quatro partes. Na primeira é feita uma breve descrição da estrutura de funcionamento de uma loja de departamentos, evidenciando-se as principais mudanças ali ocorridas. Alterações estas que repercutiram na profissionalidade e na organização do trabalho, conforme discussão desenvolvida na segunda parte. Em terceiro lugar, discute-se o processo de terceirização que a empresa está procedendo e, por último, são apresentados os comentários finais e as conclusões.


A estrutura organizacional


O formato tradicional


A estrutura organizacional dos grandes magazines tradicionalmente consistia de vários departamentos que funcionavam como pequenos negócios. Cada uma dessas repartições era gerenciada por uma pessoa (o vendedor) que desenvolvia uma série de tarefas relativas a esse espaço. Entre outras, era responsável por: pedidos; recebimento e exposição das mercadorias; promoções de todo gênero; controle do caixa e livros contábeis e a organização do trabalho. Essa forma de organização dava ao vendedor toda a responsabilidade na gestão de vendas. Além do que o formato de venda assistida obrigava-o a um contato estreito com o cliente, bem como com o fornecedor, já que era responsável também pelo aprovisionamento das mercadorias. O vendedor tinha uma profissão respeitável e para tanto uma escola era mantida pela empresa, com cursos especializados para cada setor. Tais cursos objetivavam a formação de um profissional de modo a satisfazer a demanda pelos serviços de venda assistida ao consumidor.


As mudanças

No início dos anos 70 foram introduzidas profundas mudanças de natureza organizacional seguidas pela introdução das tecnologias de informação que levaram à automação de todas as operações comerciais.

A centralização das decisões e as mudanças na estrutura de vendas acabaram com o modo de organização do trabalho até então vigente. A grande novidade foi a introdução do auto-serviço substituindo a modalidade de venda assistida ao cliente. A justificativa para tais alterações foi de natureza econômica: para poder continuar competitiva no mercado a empresa precisava baixar custos e o auto-serviço foi uma das solucões adotadas. A partir daí a semelhança com um supermercado era nítida: ao invés dos vários caixas espalhados pelos departamentos, foi instalada uma barreira de caixas na saída da loja para onde os clientes levavam as mercadorias escolhidas e efetuavam o pagamento, sem contato ou interferência de ninguém. Assim, a venda assistida foi completamente eliminada. Entretanto tal formato não teve sucesso,2 devido a uma série de problemas, principalmente considerando que o cliente italiano não era um cliente habituado a auto-servir-se e sim um cliente conservador, acostumado a ser servido. Esses hábitos arraigados, acredita-se, foram um dos fatores na queda de vendas e faturamento quando da adoção do auto-serviço puro. As lojas, especialmente a loja objeto de estudo aqui, voltaram atrás e decidiram que fosse mantido um mínimo de serviço. Sendo assim o layout estilo supermercado foi logo susbtituído por ilhas que funcionavam da seguinte maneira: no interior de dois ou três setores colocaram uma, duas ou três caixas, de acordo com o ponto de maior ou menor importância da loja. Isso alterou mais uma vez o modo de trabalho pois no caso das ilhas, o responsável fica num ponto focal onde, além do serviço de caixa, desenvolve também outros trabalhos. Como não é um caixa fixo, eventualmente tem que se ausentar para prestar algum serviço ao cliente. Às vezes são 600 metros quadrados a serem cobertos, fazer caixa, responder a indagações de clientes, enfim fazer com que o setor funcione.

Duas mudanças importantes acompanharam a reestruturação acima descrita: a introdução de contratos de trabalho de tempo parcial e a alteração da jornada de trabalho que passou a ser contínua (um turno único, das 9h às 19h30min), substituindo os dois turnos tradicionais (das 8h até às 12h30min e das 15h às 19h30min).


Impactos e conseqüências

As mudanças de natureza organizacional e a introdução das novas tecnologias de informação repercutiram fortemente na profissionalidade dos até então considerados gestores de pequenos negócios. Estes foram expropriados de sua profissão, já que sua qualificação era desnecessária na nova realidade. Passaram a ser "simples operários de venda", para usar uma expressão corrente entre eles, mesmo considerando a adoção do sistema de ilhas, em lugar do auto-serviço puro. Numa certa medida tal sistema proporcionou um retorno à polivalência que tinha o vendedor no antigo sistema. Entretanto agora essa polivalência tornara-se pobre, fora destituída das responsabilidades e criatividade pelo sistema informático implantado juntamente com as mudanças organizacionais. Além dos problemas referentes ao trabalho em si, tais mudanças acabaram por provocar um grande problema social, uma crise de identidade dessas pessoas.

No caso da inovação que introduziu o auto-serviço, a substituição da venda assistida para dar lugar ao novo paradigma acabou por eliminar aquilo que para determinada faixa de clientes era decisivo na escolha da loja: justamente o serviço de atendimento prestado pelo vendedor. Com o serviço eliminado, ou reduzido ao mínimo, a escola de formação mantida pela empresa perdeu a razão de existir e foi substituída por cursos de treinamento bastante simples.

A inovação tecnológica proporcionou a centralização das decisões. A gestão e a logística passaram das mãos do vendedor para a direção centralizada da empresa, isso porque com a implantação dos terminais de ponto de venda (caixas eletrônicos ligados à rede de computadores) juntamente com a identificação das mercadorias por códigos em barras para leitura óptica, as informações, que antes eram de domínio do vendedor passaram a ser manipuladas pelo sistema informativo computadorizado. Através de cruzamentos das informações de todos os sistemas (vendas, compras, contabilidade, pessoal, estoques, etc.) é possível ter o domínio da situação: planejar, gerir de forma centralizada. Tal centralização acabou também por eliminar uma das funções importantes do vendedor de outrora: o contato com o fornecedor. Hoje trabalha-se de forma centralizada, com base em relatórios emitidos pelo sistema de controle de vendas e de estoques.

A introdução das tecnologias de informação aconteceu, como era inevitável, porém sem grandes preocupações por parte da empresa de preparar adequadamente seu pessoal (talvez porque na verdade nem fosse absolutamente necessário). Ensinou-se o básico, o essencial para que as informações fluíssem proporcionando um controle centralizado maior da organização por parte da direção. Nada que incluísse um bom entendimento das mudanças pelas quais a empresa estava passando.

Claramente, a transferência de funções desenvolvidas pelo trabalhador para o aparato tecnológico acarretou um empobrecimento daquele trabalho de venda e gestão dos espaços. Além disso, por conta de certa rigidez do sistema, existem problemas no tratamento das informações de vendas que muitas vezes podem falhar. Tal rigidez é notada todas as vezes que ocorrem vendas extraordinárias e também quanto ao formato fixo de pedido de reposição de mercadorias. São sistemas que funcionam bem se tudo estiver dentro de um padrão de normalidade. Pequenos desvios quebram o frágil equilíbrio do sistema, o que não aconteceria se houvesse possibilidade de interferência do pessoal de vendas.

A automação dos sistemas de frente de caixa proporcionou que se conhecesse o resultado das vendas diárias e o desencadeamento de pedidos sem interferência do profissional de vendas. Isso, às vezes, leva a procedimentos errôneos, por causa de erros na digitação das entradas e furtos dentro da loja, provocando refornecimento de mercadorias existentes e não refornecimento de mercadorias que faltam. Daí o entendimento dos trabalhadores de que seria melhor para a empresa, inclusive, se os espaços fossem geridos pelas vendedoras como era antes.

Um dos problemas ainda não solucionados satisfatoriamente, ligados à introdução das tecnologias de informação, decorre do fato de que muitas mercadorias não possuem o código em barras (contrariamente ao setor alimentar, em que há um percentual altíssimo de mercadorias, que já vêm com código em barras impresso, de fábrica), o que aumenta a probabilidade de erros de imputação e confusões na identificação correta das mercadorias com reflexos quanto aos números corretos de vendas e reposição do estoque.

De todos os setores da loja, pelo menos em um deles, o setor de ferramentas, prevaleceu um sistema misto: as novas tecnologias, sejam organizacionais ou de informática, foram introduzidas preservando um trabalho mais qualificado do vendedor que mantém um certo controle na gestão dos espaços e controle na reposição.


A terceirização

Depois de todas essas mudanças, que transformaram a estrutura e a organização do trabalho, a última grande alteração que ainda está se processando é a terceirização, aqui entendida como a cessão de espaços dentro da loja para terceiros. Mais uma vez o objetivo que a empresa busca alcançar com tal processo é o de sobrevivência, para fazer frente às novas exigências do mercado, conforme alegações colhidas nos depoimentos. Esse processo de terceirização consiste na empresa ceder um espaço, na forma de aluguel, no interior de sua loja, para que uma outra empresa instale ali um posto de venda de seus produtos. O espaço é gerido autonomamente pela empresa contratante. Isso inclui a contratação de pessoal, a organização da jornada de trabalho, a remuneração, etc. As regras contratuais são diferentes do restante do pessoal da loja, embora desempenhe funções semelhantes. Não é raro encontrar pessoas que sequer têm contrato de trabalho, muitas vezes porque são microempresas, familiares, as que alugam os espaços. Como existe uma grave crise de desemprego,3 as pessoas se submetem a condições que normalmente não são aceitas nos contratos entre as empresas e os sindicatos.

A política de terceirizar, de alugar os espaços no interior da loja, foi inicialmente realizada para venda de produtos que antes não eram oferecidos pela loja, como, por exemplo, jóias, bijuterias, perfumaria, bar e lanchonete. O objetivo era ampliar o leque de oferta de produtos e inclusive de serviços. Posteriormente, entretanto, outros produtos como calçados, que já faziam parte do conjunto de mercadorias oferecidas, também passaram a ser vendidos por terceiros.

A introdução dos boxes, como se denominam tais espaços, está em franca expansão. Na principal loja da rede, na cidade de Milão, cerca de um terço do trabalho de gestão da mercadoria é feito pelos vendedores dos boxes. São eles que fazem todo o trabalho de transporte e arranjo das mercadorias desde o depósito até a colocação das etiquetas de preços, além da venda. Enfim, a gestão completa do espaço.

Resumindo, pode-se afirmar que a introdução dos boxes serve a quatro propósitos:

Não há limite nesse tipo de terceirização, ou pelo menos um limite agora visível, pois uma concorrente da empresa em questão já tinha ultrapassado os 50% do espaço dado em arrendamento a terceiros.


Conclusão

Destacam-se, em todo o processo de mudança, duas fases de reestruturação e uma terceira que se inicia. A reestruturação de maior peso foi aquela do abandono da venda assistida e adoção do auto-serviço. A segunda fase foi caracterizada pela introdução das novas tecnologias de informação, comportando a implementação de um sistema informativo, a adoção do código em barras com o sistema POS (terminal de ponto de venda) e logística, que compreende todas as fases de gestão da mercadoria, ou seja, gestão automatizada do magazine. O auto-serviço reduziu o número de pessoal e o custo do trabalho. A segunda fase trouxe, tanto quanto a primeira, a desqualificação do trabalho, tornando-o monótono (uma mera execução de planilhas emitidas pelo sistema), tolhendo a criatividade do vendedor. De uma certa forma os novos sistemas, embora busquem a racionalidade, impuseram uma dose de burocratização, por causa das rotinas fechadas, com pouca chance para a interferência do vendedor e seu saber-fazer.

Uma questão importante a ser lembrada, antes de se comentar a terceira fase de reestruturação, é em relação à crise pela qual passa esse setor. Diferentemente do setor alimentar, os grandes magazines não experimentaram uma expansão,4 o que claramente contribuiu para agravar os problemas de cortes de pessoal, dentro das medidas adotadas pela empresa objetivando a economia de custos. Além disso, esse segmento do comércio varejista assiste a uma tendência de pulverização (surgimento de pequenas lojas especializadas, ligadas ou não a grandes empresas no sistema de franchise, como faz a Benetton, por exemplo). Nos grandes magazines essa pulverização está se dando através de um processo cada vez mais acentuado de terceirização, seja para responder às exigências de diminuição de custos (fator apontado como sendo o principal) ou de produtividade e qualidade para manter, ou tornar, a empresa competitiva no mercado, diante das novas tendências. Na verdade o que está ocorrendo é um misto dos dois conceitos "terceirização" e "outsourcing" discutidos por Faria.5 Muito embora o tema ali seja discutido, principalmente no que se refere ao setor secundário (indústrias), pode-se transpor tais conceitos para o terciário onde a empresa tem como objetivo principal a venda no caso do comércio varejista. Em particular, nas lojas de departamento o objetivo é a venda de diversos produtos, sem muitas vezes ter uma concentração muito forte em determinado segmento. Obviamente, no caso dos magazines, o conceito de terceirizar para concentrar-se "no seu produto estratégico, naquilo que é capaz de fazer melhor, com competitividade e maior produtividade",6 pode não ser tão claro. O que é produto estratégico? O que a empresa é capaz de fazer melhor? E quais são as tarefas secundárias e auxiliares a serem entregues a empresas que se especializaram e as fazem de modo mais racional e com menos custo? Uma questão que parece óbvia nesse caso é terceirizar determinados serviços prestados pela empresa que não são objeto principal de suas vendas, como, por exemplo, serviço de bar e lanchonete, caso existam, ou mesmo o serviço de limpeza e segurança que não faz parte diretamente do processo de venda.

A impressão que se tem dos depoimentos colhidos e observação in loco é que no comércio a terceirização tem, como já mencionado, o objetivo de redução de custos (de pessoal e operacional) em segmentos menos importantes, mas que não podem ser desprezados por fazerem parte do atrativo para as vendas dos produtos principais. No entanto nota-se também uma clara tendência de terceirizar a venda de produtos tradicionalmente oferecidos pela loja. Aqui claramente parece que a terceirização serve também para a empresa se livrar de problemas sindicais e de obrigações trabalhistas contratuais consideradas pesadas. Uma forma de tentar resolver o problema através do confronto ao invés da parceria, como poder-se-ia supor num momento em que o discurso da participação é tão utilizado por vários segmentos do setor produtivo, ainda mais considerando que é no setor de serviços que a relação com o cliente se dá de forma direta.



NOTAS


1 Uma "verdadeira revolução na "base técnica" do comércio" conforme observa Magalhães referindo-se ao surgimento dos supermercados (o sistema de auto-serviço que praticamente eliminou as vendas, os armazéns, os empórios). MAGALHÃES, M.A.E.. Progresso técnico, processo de trabalho no processo de venda do comércio varejista de alimentos: um estudo exploratório. Rio de Janeiro: UFRJ/ COPPE, 1986. Tese de Mestrado.

2 Ali não se vendia queijo, verdura ou frutas", conforme depoimento colhido, "não podia dar certo".

3 A taxa de desemprego na Itália é uma das mais altas da Europa, acima dos 12% confome PACCI, M. (a cura di), Le dimensione della disugualianza. Bolonha: Il Mulino, 1993.

4 Sobre a introdução de novas tecnologias nos supermercados vide TRINDADE, J.T.P. , SEGRE, L.M. Inovação tecnológica no setor de serviços: o caso da grande distribuição. In: ENGEPI, XV / CONGRESSO INTERNACIONAL DE ENGENHARIA INDUSTRIAL, I, Anais... São Carlos: UFSCar, 1995. v.2, p. 765-769.

5 FARIA, A. Terceirização - um desafio para o movimento sindical. In: MARTINS, H.S., RAMALHO, J.R. Terceirização, diversidade e negociação no mundo do trabalho. São Paulo: Hucitec, 1994.

6 Id. ibid., p. 43.


| Voltar |