Sumário - Escrito propositalmente em forma de crônica
para amenizar o impacto desalentador que alguns temas nos provocam, como
por exemplo o desemprego. Ou quem sabe se para encararmos com maior tranqüilidade
as dificuldades que temos em lidar com uma multiplicidade de conceitos?
Afinal, quem tem certeza absoluta sobre as diferenças entre polivalência,
multiqualificação e multifuncionalidade? Quem pode dizer que
o conceito de polivalência educacional é o mesmo termo que
povoa o campo do trabalho? Que ambigüidades estão envolvidas
na teoria e nas práticas desses conceitos? Enfim, o texto-crônica,
crônica-texto, tenta abordar, ainda de maneira superficial, algumas
concepções que certamente devem ser mais aprofundadas, para
que se possa desenvolver ações educativas mais eficientes
no campo da educação profissional.
A DEMISSÃO
Naquelas semanas ele havia batido à porta de muitas empresas. Nem
se recordava mais das respostas que dera às inúmeras entrevistas
de seleção. Tinha a nítida sensação de
que em algumas ocasiões havia se saído bem, em outras fracassara.
O mais angustiante, porém, era uma idéia que o atormentava
desde que perdera o emprego: afinal, que erros teria cometido?
Procurava estar sempre atualizado, fazia cursos por conta própria,
mantinha um bom relacionamento no trabalho, gostava do que fazia, o seu
desempenho sempre tinha sido considerado muito bom. Por que, então,
o jogaram na rua, depois de tantos anos?
Respirou fundo tentando afastar o pensamento de ter sido descartado como
uma peça velha.
Chegou em casa exausto. Os pés doíam, a cabeça em tumulto.
Conversou rapidamente com a mulher e foi direto para o chuveiro. Enquanto
tomava banho, algumas imagens pareciam saltar das gotas de água que
caíam sobre seu corpo. Imagens da fábrica, das máquinas,
do supervisor cobrando a produção.
A hora da globalização
Depois do jantar, sentou-se no sofá para ver o telejornal. As notícias
eram quase sempre as mesmas; uma delas era a da globalização
da economia.
Incrível! Ele não conseguia entender direito o que era isso.
Também, ora a televisão mostrava vantagens tais como: diversidade
de produtos, baixo custo das mercadorias, aumento da concorrência
entre os fabricantes, ora mostrava algumas fábricas fechando porque
não conseguiam competir com os preços de outros países.
Como poderia ter uma opinião firme sobre o assunto se, além
das contradições dos noticiários, as notícias
eram dadas de maneira tão superficial!
Será que a globalização também se referia ao
desemprego, à pobreza, à violência? Será que
ela estaria provocando desindustrialização e aumento do desemprego?
Pensou em voz alta.
De repente, uma propaganda desviou sua atenção. De um aparelho
de som ultramoderno começaram a sair notas de uma música que
transportava as pessoas para um paraíso colorido.
Ficou com desejo de gozar aquele cenário e decidiu que quando arrumasse
um emprego, compraria o tal aparelho de som.
De repente o medo. E se ele nunca mais arrumasse um emprego?
O desemprego
Lembrou-se com tristeza de uma reportagem que havia lido em um jornal e
que dizia mais ou menos o seguinte:
Durante muito tempo, trabalho e emprego foram considerados como sinônimos.
Dizia-se que uma pessoa trabalhava quando tinha um emprego. Ter emprego
significava estar ligado a uma organização, ocupar uma função
claramente definida, com obrigações, horários, faixas
de remuneração e de promoções, tudo isto mais
ou menos padronizado.
Este tipo de emprego passou a ser um aspecto central na vida das pessoas
e dos países industrializados. Sua importância foi muito grande,
porque satisfazia muitas necessidades: dos gerentes e técnicos que
tinham bem claras as tarefas da linha de montagem, dos trabalhadores que
protegiam seus direitos; enfim o emprego dava uma sensação
de segurança e se constituía em um princípio de organização
da sociedade.
Hoje em dia o emprego estaria se tornando um artigo em extinção.
Ficou tão chocado com a lembrança dessa reportagem que mal
ouviu quando sua mulher o chamou para jantar.
O pesadelo
Naquela noite dormiu mal. Em cada virada na cama tinha um sonho, ou melhor
um pesadelo. Em um deles, a fábrica na qual trabalhava estava toda
automatizada. Os poucos funcionários presentes pareciam muito atarefados
com os problemas que iam surgindo durante o processo de produção.
Teve uma sensação agradável vendo aquelas pessoas conversando
e discutindo em equipe. Quis entrar para um desses grupos, mas foi impedido.
Por que vocês não me deixam participar? Perguntou ele angustiado.
Porque você é um trabalhador acostumado a ter um posto de trabalho
e não a exercer uma profissão. Antigamente os artesãos
exerciam a profissão, depois ela foi se desmembrando em pequenos
pedaços, ou seja, em postos de trabalho. Somente exercia uma profissão
um médico, um advogado, um professor.
Hoje em dia estão tentando recuperar a idéia de profissão
para os trabalhadores em geral.
É por isso que até há bem pouco tempo, para se conseguir
um trabalho, o importante era principalmente o domínio de habilidades
correspondentes a um posto específico. Hoje, como os equipamentos
de trabalho são complexos, sofisticados, caros, isto só não
basta. É preciso que o trabalhador tenha também uma excelente
base de conhecimentos tecnológicos.
Além disso, o trabalhador deve ter outras qualidades: ser responsável,
saber aplicar seus conhecimentos às novas situações,
ser capaz de resolver problemas em grupo...
As qualidades continuaram a ser listadas pelos colegas, mas ele não
conseguia pensar em mais nada. A maior dúvida era: como se transformaria
naquele super-homem?
Mesmo assim, continuou a insistir em participar do grupo de trabalho.
Quanto mais insistia, mais era rejeitado. A recusa, feita inicialmente de
maneira educada, começou a se tornar violenta. Tão violenta
que ele começou a sentir umas sacudidelas. Era sua mulher que, espantada,
tentava acordá-lo.
Tranqüilizou-a. Levantou-se, foi até a cozinha, abriu a geladeira
e bebeu um copo de água. Voltou para cama, mas demorou a dormir.
Mal pegou no sono e recomeçou a sonhar. Incrível! O sonho-pesadelo
começava exatamente do ponto onde havia parado.
Libertou-se das sacudidelas dos colegas e continuou a caminhar pela fábrica
que estava quase deserta. No quadro de avisos viu algumas chamadas de emprego:
"Procuram-se mecânicos polivalentes e competentes."
Nesse momento, o apito da fábrica soou. Era um barulho tão
forte que parecia estar sendo produzido dentro de seu ouvido.
A competência e a polivalência
Sobressaltou-se quando viu que o barulho era provocado pelo despertador.
Refeito do susto, ficou pensando no anúncio do sonho: procuram-se
mecânicos polivalentes e competentes. Seria um enigma?
Claro que ele já tinha ouvido as palavras competentes e polivalentes,
mas o que elas significavam concretamente no trabalho da fábrica?
Tomou café apressadamente, tinha que continuar a batalha de procurar
emprego. Antes de sair de casa não resistiu e pediu um dicionário
ao filho maior. Fazia tempo que não pesquisava no dicionário,
mas logo achou a palavra que estava procurando - competente. A principal
dificuldade era enxergar. Precisava trocar de óculos urgentemente;
o aparelho de som ficaria para depois.
No dicionário, competente queria dizer: aquele que tem competência
legal, suficiente, idôneo, próprio, adequado.
Correu os olhos pela página e encontrou outra palavra interessante:
competência. Lá estava escrito: faculdade concedida por lei
a um funcionário, juiz ou tribunal para apreciar e julgar certos
pleitos e questões. Qualidade de quem é capaz de fazer determinada
coisa; capacidade, habilidade, aptidão, idoneidade.
Das explicações achou uma que lhe pareceu mais lógica
para seu trabalho: capacidade de conhecer e agir sobre determinadas situações.
Faltava achar a palavra polivalente. Na verdade, nem precisava procurá-la,
pois tinha quase certeza do que ela queria dizer.
Uma vez tinha ouvido falar que um artista era polivalente porque sabia representar,
dançar, cantar e até tocar um instrumento.
Lembrou-se, também, das suas aulas de química, quando o professor
falava sobre átomos. Ele dizia que quando um átomo se liga
a outro existe uma valência. Polivalência indicava, então,
várias ligações.
Talvez, um trabalhador polivalente fosse aquele "ligado" a vários
trabalhos.
Porém, quis ter certeza do significado da palavra e voltou ao dicionário:
lá encontrou: polivalente é aquele capaz de fazer várias
coisas, versátil.
Sua mulher entrou na sala neste instante. Curiosa, quis saber o que ele
estava fazendo. Ao ver a palavra polivalente marcada no dicionário,
contou para o marido que na escola onde lecionava, sempre estavam falando
sobre esse assunto.
Pelo que havia entendido, polivalência era mais do que saber diversas
coisas, era ter a capacidade de resolver problemas, de analisar informações,
de julgar, de pesquisar, de transferir aprendizagem; enfim capacidades que
preparassem o aluno para viver em um mundo tão complexo como o de
hoje.
Uma buzina de carro interrompeu a conversa. Somente nesse instante, ele
se lembrou que sua irmã lhe daria uma carona até a cidade.
Chegou ao carro meio esbaforido. Entrou e sentou-se, sem ao menos cumprimentar
a motorista.
O trânsito, como sempre insuportável, favoreceu o aprofundamento
de sua preocupação.
A irmã, professora e estudante de Sociologia, forneceu-lhe algumas
pistas a mais sobre a tão falada polivalência.
Disse-lhe que estava estudando esse assunto em Sociologia do Trabalho e
que tinha visto que a palavra polivalência apresentava vários
sinônimos: multivalência, multiqualificação, poliatividade,
plurivalência e outros dos quais não se lembrava direito.
Apesar de sinônimas, as palavras, na prática, têm diferentes
significados. Assim, algumas empresas usam polivalência para indicar
competência no desempenho de dois postos de trabalho de uma mesma
profissão, por exemplo, costureira de máquina reta e costureira
de máquina overloque. Plurivalência, para essas mesmas empresas
é a competência para desempenhar mais de dois postos nesta
profissão.
Outras empresas dão outras interpretações para esses
mesmos termos. Existem aquelas, por exemplo, que não se prendem aos
postos de trabalho, mas à diversidade de atividades e às diferentes
funções que o trabalhador tem que exercer: analisar, planejar,
executar e controlar seu trabalho.
Sem parar de falar, a irmã contou também que, em seu curso,
na disciplina de Sociologia da Educação, a palavra polivalência
se referia às capacidades internas do trabalhador: de analisar informações,
capacidade de resolver problemas, de julgar, de pesquisar, de transferir
aprendizagem, etc.
Cansado de tanta variação, ele pediu que a irmã parasse
um pouco de falar. Estava cada vez mais confuso e começando a ficar
muito triste com a realidade. Ele não tinha sido preparado nem para
a polivalência exigida no trabalho, nem para a polivalência
educacional. Desejou ardentemente que seus filhos o fossem.
Seu pensamento foi longe fazendo uma relação direta: alunos
polivalentes necessidade de professores polivalentes. E os baixos salários,
a falta de investimento em educação?
Pensou até no artigo que tinha lido no qual uma escola pública,
situada em uma região pobre de Nova Iorque, recebera oito mil doláres
por aluno/ano. Comparou essa verba com a meta de trezentos dólares
por aluno/ano das escolas brasileiras e ficou arrepiado.
Estava tão absorto em suas idéias que nem percebeu que sua
irmã parara o carro no local combinado para que ele descesse.
Despediu-se rapidamente e começou a caminhar em direção
ao endereço que havia marcado no caderno de classificados do jornal,
aliás cada dia mais fino.
Essa busca diária iria se repetir.
Os novos contactos
Um folheto quebrou sua rotina de busca. Nele, divulgava-se uma série
de palestras sobre o mundo do trabalho.
Anotou o dia e o local do evento.
O tempo passou rapidamente e lá estava ele assistindo às palestras.
O primeiro conferencista, um sindicalista atuante, falou sobre os impactos
das novas tecnologias e das mudanças na organização
do trabalho, da falta de investimento e da perda de empregos com a compra
de produtos importados. Disse que tudo isso decorria das alterações
nas relações entre capital e trabalho. Alertou, ainda, para
o perigo de medidas drásticas referentes aos cortes dos postos de
trabalho, baixa dos níveis salariais e perda quase total de benefícios
sociais e necessidade de algumas ações, como por exemplo,
mudança na jornada de trabalho.
O outro conferencista era uma mulher, gerente de desenvolvimento de pessoal,
muito bonita por sinal.
Ela começou abordando as dificuldades que estava encontrando em seu
trabalho. A primeira delas era desenvolver, em cada trabalhador, competências
para que ele pudesse atuar em várias atividades correspondentes a
vários postos de trabalho.
Antes, a preparação se referia a um posto específico;
agora deveria buscar o desenvolvimento de um profissional capaz de exercer
várias atividades. Antes, a necessidade de desenvolvimento de pessoal
baseava-se na comparação entre o perfil do posto e o perfil
do trabalhador e a adequação entre esses perfis era a meta
principal.
Atualmente, a base para desenvolver o pessoal eram as competências,
não de um posto em particular, mas de várias atividades que
configuram uma profissão ou de um determinado campo profissional.
Outra dificuldade é que atualmente deve-se desenvolver não
apenas os indivíduos, mas uma equipe de trabalho.
Por isso, afirmou a conferencista, tenho que me aprofundar em vários
conceitos, um deles, o de competência.
Ela chegara à conclusão de que, atualmente, um trabalhador
competente é aquele que é capaz de mobilizar seus conhecimentos
(saberes), habilidades (saber-fazer) e atitudes (saber-ser) no seu cotidiano.
Ressaltou que seu principal desafio era organizar programas para desenvolvimento
de competências básicas. Essas competências poderiam
ser traduzidas pedagogicamente como a capacidade de abstração,
a boa comunicação oral e escrita, o raciocínio lógico,
a capacidade de prever e resolver problemas do processo e do produto, entre
outras. Isso porque o trabalhador precisa dessas competências para
enfrentar uma realidade que exige constante atualização nas
competências profissionais.
E quais seriam elas, questionou a conferencista, respondendo de imediato:
competências tecnológicas que dizem respeito aos conhecimentos
das técnicas e tecnologias de uma profissão ou de profissões
afins; competências interpessoais que se referem à capacidade
de negociar, decidir em equipe, comunicar-se; competências participativas
que são aquelas pelas quais o trabalhador consegue organizar seu
trabalho de modo cooperativo, solidário e pelas quais o trabalhador
está sempre disposto a assumir responsabilidades.
Nesse momento, alguém da platéia levantou-se e perguntou:
então, como eu devo me apresentar nas empresas para conseguir um
emprego?
A platéia ficou em rebuliço o que parecia indicar que a dúvida
expressa na pergunta era comum a todos.
Passado o tumulto, a conferencista sem responder à questão
formulada, ressaltou que muitos são os conflitos e as tensões
que estão surgindo: trabalho individual versus trabalho em equipe,
qualidade versus metas de produção, especialidade versus generalidade
e que tudo isso só pode ser trabalhado via negociação.
A conferencista finalizou sua exposição dizendo que existe
no ar uma espécie de angústia por parte do trabalhador. As
coisas são muito contraditórias: a empresa incentiva a autonomia
da equipe de trabalho e, simultaneamente, cobra-lhe uma produtividade crescente,
com um tempo de resposta cada vez mais reduzido. Desta maneira, a gerência
transfere para a equipe o controle do ritmo de trabalho individual, o que
pode provocar tensões entre as pessoas que compõem o grupo.
No final desta apresentação, reinava na platéia uma
inquietação generalizada que perdurou até depois da
pausa para o café.
Ao intervalo, seguiram-se outras palestras.
As múltiplas inteligências
O próximo conferencista, um psicólogo, começou sua
fala desafiando a platéia com uma pergunta curiosa: existem pessoas
burras?
Pelo silêncio do auditório parecia que todos estavam tentando
lembrar de pessoas que se encaixavam na resposta.
Antes que a platéia se manisfetasse, o conferencista começou
a desenvolver o assunto, com este raciocínio:
"Todo peixe nada.
O pingüim nada.
Logo, o pingüim é peixe."
O burburinho foi geral, só diminuindo quando o conferencista continuou
sua explicação.
O que eu quero mostrar é o perigo de um raciocínio falso.
No nosso exemplo, não podemos deduzir que o pingüim é
peixe, apenas por uma de suas características. Uma parte não
representa o todo.
Assim, prosseguiu, não podemos afirmar que uma pessoa é burra,
considerando apenas alguns traços de sua inteligência. Devemos
ter uma visão mais ampla do que significa inteligência.
A inteligência manifesta-se por meio de uma grande variedade de estilos
e habilidades. Assim, existem pessoas com maior facilidade para cálculo,
outras para escrever, outras para executar um trabalho manual, outras para
música, etc. O importante é que a educação e
o trabalho ofereçam oportunidades para que as pessoas possam desenvolver
não apenas um , mas diversos tipos de inteligência, ao longo
de sua vida.
Na prática, porém, o profissional é julgado de maneira
estanque. Nas empresas, por exemplo, nem sempre o ambiente para a mobilização
de múltiplas capacidades é propício: compram-se equipamentos
modernos, treinam-se os funcionários, mas continua a prescrição
rígida de tarefas, inibindo a autonomia, a criatividade e outras
condições essenciais para o desenvolvimento mais amplo da
inteligência do trabalhador.
O último conferencista , um diretor de uma escola de formação
profissional, completou a idéia do conferencista anterior, mostrando
como a escola também pode restringir o desenvolvimento das inteligências.
A prática de cursos longos, organizados em disciplinas estanques,
com conteúdos que separam a teoria da prática conflituam com
a condição de um trabalhador que para tornar-se polivalente
deveria ter acesso contínuo à educação.
Vou dar um exemplo concreto. O senhor aí, qual é sua profissão?
João (José), apesar de surpreso com a solicitação
do conferencista, respondeu com voz firme: sou mecânico, trabalho
em produção de autopeças.
Talvez, falou o conferencista, uma possibilidade de polivalência no
seu trabalho seja a de um profissional com bom conhecimento de mecânica
tradicional e de automação da manufatura. Esse profissional,
para ser polivalente, teria que percorrer um longo caminho, tanto na escola
como no trabalho. Desta maneira, cursos muito longos e estanques de formação
dificultam uma articulação com outras esferas importantes
para a polivalência: como o trabalho e a própria convivência
na sociedade.
É preciso, porém, ter cuidado, alertou o conferencista. Quando
dei o exemplo de polivalência na Mecânica, me referia a uma
polivalência técnica que é importante porque desenvolve
a empregabilidade. Empregabilidade pode ser entendida como a capacidade
de um indivíduo tornar-se empregável em várias atividades
e em um conjunto amplo de empresas, durante sua vida ativa de trabalho.
Entretanto, pigarreou o conferencista, ser polivalente não resolve
o problema do desemprego. De nada adianta gerar polivalência se não
existir uma política que amplie as possibilidades de emprego.
João (José) agitou-se na cadeira. Lembrou-se do cunhado que,
apesar de ser um profissional competente, havia sido demitido. Lembrou-se,
também, do marido da vizinha que era segurança de uma firma
e que estava apavorado com a nova política da empresa que era a de
contratar pessoas mais jovens e fortes.
Interrompeu suas lembranças, com a pergunta desafiante do conferencista:
qual o papel da escola diante do impasse de oferecer qualificação,
sem garantir emprego?
Eu como educador, continuou o conferencista, creio que o papel da escola
é formar para a polivalência. E, ainda mais, devemos ampliar
esse conceito considerando-a do ponto de vista educacional.
Nesta perspectiva, a polivalência prepara o cidadão nas capacidades
mais gerais: resolver problemas, analisar, sintetizar, levantar hipóteses,
comunicar-se, tomar decisões com autonomia e outras que o qualificam
não apenas para um emprego, mas para o trabalho em uma concepção
mais ampla. Nesta concepção, o trabalho não se confunde
com emprego e pode manifestar-se na forma de atividades por conta própria,
no lar, na comunidade, na sociedade em geral.
Brincando com a palavra empregabilidade, sorriu o conferencista, poderíamos
dizer que isto é o que chamamos preparar para a "trabalhabilidade."
E ainda do ponto de vista educacional, a escola deveria oferecer às
pessoas múltiplas possibilidades de construir sua polivalência
através de percursos personalizados nos quais o tempo, as estratégias
de formação, os currículos fossem mais flexíveis.
Com esse tipo de visão educacional talvez possamos contribuir para
a construção de uma sociedade mais justa e democrática
que integre e não exclua seus cidadãos.
Depois dessa frase, poderia se escutar uma agulha caindo no chão
da sala. A platéia ficou em absoluto silêncio.
Pouco a pouco tímidos aplausos foram aumentando de intensidade, quebrando
o silêncio, dando a impressão de que a frase final do conferencista
ia sendo compreendida gradativamente.
E a busca continua...
As pessoas saíram da sala agitadas, conversando, trocando idéias.
João(José) saiu totalmente confuso e com um sentimento misto
de tristeza e alívio.
Ficara claro, para ele, que o fato de estar desempregado não era
tão simples de ser explicado. Certamente ele teria que se empenhar
para se recolocar no mercado de trabalho. Porém, esperava que o governo
cumprisse sua parte, estabelecendo políticas de geração
de empregos.
Chegou em casa exausto. Jogou-se no sofá, tirou os sapatos e massageou
os pés com força. A dor parecia repercutir em todo seu corpo.
Precisava fazer alguma coisa para terminar com ela, afinal no dia seguinte
a busca continuaria.