Vania Prata Ferreira Reis*
Sumário - Vania Prata Ferreira Reis. O perfil de empregabilidade:
o desafio do autodesenvolvimento. O cenário de transformações
que estão ocorrendo em nosso mundo contemporâneo, em especial
no âmbito do emprego e do trabalho, está a exigir posturas
pessoais e profissionais diferentes das que temos vivido até o momento.
Qual o perfil profissional necessário e que maneiras temos para atingir
esse perfil são as questões que veremos aqui.
O EMPREGO E O TRABALHO: UM CENÁRIO EM TRANSFORMAÇÃO
O desenvolvimento da produção industrial em massa iniciou-se no século XV. Uma das primeiras iniciativas veio do espantoso Leonardo da Vinci que produzia agulhas em massa em l496. A Inglaterra e a França iniciaram a produção em cadeia no século XVII e os Estados Unidos no século XIX. Mas, foi com a passagem das fábricas com energia a vapor para as fábricas movidas à eletricidade "que houve, de fato, a mudança nos modos de organização e gestão".1
As mudanças tecnológicas havidas desde o início do século transformaram os empregos. Essa transformação, no entanto, não foi feita com o mesmo impacto nos diversos setores, pela heterogeneidade destes.
Naquela época, o processo de redução de emprego crescente nas atividades técnicas só era compensado por um crescimento das atividades econômicas.
Os tipos de serviço "face a face" (serviços de atendimento, de segurança...etc.), por serem menos sensíveis ao progresso técnico, não tiveram diminuída a sua capacidade de criar emprego, nesse período.
Por outro lado, as atividades de concepção, de pesquisa, de especialistas com forte valor intelectual agregado tiveram, e continuam tendo, uma importância estratégica inegável.2
Hoje, fica evidente que o crescimento econômico não significa mais empregos.
Temos um desemprego estrutural causado, na visão Keyniana, pela nossa descoberta de meios para economizar o emprego do trabalho, a um ritmo maior do que aquele pelo qual conseguimos encontrar novas utilizações para a força de trabalho.
Na visão de Oliver Blanchard3 (professor da respeitada instituição de ensino e pesquisa MIT Massachussetts Institute of Technology) , o aumento da produtividade não provoca demissões. Na sua opinião, apenas o que se pode inferir dos números é que quanto mais rápido for o progresso tecnológico, menor será o desemprego. Para ele, é o tipo de emprego gerado que muda. Assim, precisaríamos formar nossa mão-de-obra para as transformações para que então essa mão-de-obra possa ser absorvida.
O autor do livro O Fim do Emprego, Jeremy Rifkin4, discorda desse posicionamento e diz que mesmo que pudéssemos "treinar todas as pessoas desempregadas, o que é duvidoso, o setor de informação não seria capaz de absorvê-las." Não é sem razão que o desemprego é preocupação central de 53% dos brasileiros.
Pesquisa da DMB&B5, realizada junto a 25 mil adolescentes do mundo inteiro, revela que o medo do desemprego é mundial. Para a grande maioria (70%) dos adolescentes de hoje a maior de todas as preocupações é conseguir um bom emprego. Na América Latina, esse número sobe para 76%.
Essa preocupação não é infundada. Nos últimos 7 anos, a indústria brasileira reduziu 1/3 (34,3%) do total de vagas.6 Rifkin7 prevê que em 2020 serão apenas 2% os empregos industriais. Pode parecer exagero mas, se analisarmos com atenção o que vem acontecendo, dá o que pensar.
Em seis anos (1987-1994), a indústria brasileira perdeu 100 mil postos de trabalho. Em um ano (1995), perdeu 390 mil8, ou seja quase quatro vezes mais, e isso aconteceu mantendo-se o crescimento econômico.
Por outro lado, as oportunidades de trabalho no setor de serviços mostram uma realidade diferente. Na década de 70, essas oportunidades representavam 15% do mercado; hoje já temos áreas metropolitanas onde essas oportunidades estão entre 25 a 40% do mercado.
Pierre Morin, em seu livro La Grand Mutation du Travail e de L'Emploi9 analisa a expansão do setor terciário que, em sua opinião, se explica pelo aumento da complexidade da produção. A produção industrial em uma economia evoluída tem necessidade de serviços crescentes (pela diversidade e diferenciação das produções e rapidez das trocas). Ao mesmo tempo, essa complexidade se dá, em especial, no âmbito da distribuição e no consumo, dando ênfase assim ao setor de serviços.
O desenvolvimento do setor terciário tem compensado parcialmente a recessão dos setores primário e secundário. O crescimento do setor de serviços, no entanto, não é ilimitado.
Rifkin10 assim como Bridges11 fala do fim do emprego em conseqüência do "desmonte" que a tecnologia irá trazer para a área de serviços.
Para Bridges12 o emprego, tal como o conhecemos, está com os dias contados. As oportunidades estão migrando para novas relações de trabalho (trabalhos temporários, de horário parcial, projetos com prazo determinado...). Trabalhar de forma assalariada, por um período longo, em uma mesma empresa, em uma mesma atividade será, no futuro, mais exceção que regra.
Há três fatores que determinam essa condição do setor de serviços:
As mudanças tecnológicas que vivemos hoje montam um palco para um ambiente novo onde a quebra de paradigmas é o centro.
AS REGRAS CLÁSSICAS DE ORGANIZAÇÃO E A QUEBRA DOS PARADIGMAS ATUAIS: DA INDÚSTRIA AO SERVIÇO
O emprego industrial nitidamente cede espaço para o setor de serviços, e com ele começam a ser mudados alguns paradigmas.
É possível analisar as transformações nas regras de unidade de tempo, unidade de lugar, unidade de ação, típicos da produção industrial, e sua transformação dentro da área de serviços.
A perda de emprego na indústria, onde os homens são maioria, e o acréscimo da geração de oportunidades no comércio e nos serviços, onde a inserção da mulher é mais fácil, leva a outra mudança gradativa do mercado de trabalho.
A terceirização dos serviços, com a sua implícita possibilidade de romper as "regras de unidade", ampliaram as chances do trabalho feito em casa e com flexibilidade de horário, ampliando com isso o espaço profissional feminino.
O emprego industrial que, dentro do modelo taylorista, assegurava uma produção em massa com mão-de-obra pouco escolarizada, se transfere para o setor terciário onde, ao contrário, tem-se uma necessidade de mão-de-obra escolarizada. Neste ponto também as possibilidades femininas se ampliaram uma vez que no Brasil, como em outros países, as mulheres são maioria nos cursos superiores; mesmo no 2º grau sua presença é significativa.
Segundo o IBGE15 a taxa de pessoas com 9 ou mais anos de estudo na população feminina cresceu na última década 106% enquanto a masculina cresceu 81%.
A participação da mulher na população economicamente ativa aumentou 70% de 1970 a 1990.16 De fato as admissões das mulheres, em 5 meses, 86% maiores que as demissões em todo o país; nos homens só foram 37% maiores. O número a mais de homens admitidos só é significativa, na faixa de pouca escolaridade, nas funções menos qualificadas. Por outro lado, as maiores demissões dos homens estão na faixa de maior qualificação no 2º grau e superior.
Pesquisa da Seade17 mostra que a mulher brasileira estuda três vezes mais para conseguir salários superiores aos dos homens. O salário médio da mulher brasileira é 43% menor que dos homens.18 Assim, nos tempos de concorrência global, o espaço feminino no mercado de trabalho é uma realidade crescente: uma vez que aumentam as exigências de escolaridade, quebram-se as regras de unidade e exigem-se menores custos.
Bernard Gazier, em seu manual de Ecomomie du Travail e de L'emploi, resume em poucas palavras:
/... / A um mundo de trabalho masculino, industrial, a um emprego estável, segue-se um mundo de trabalho mais feminino, terciário e de emprego instável.19
A queda da taxa de fecundidade da mulher, o aumento de ocupações no setor de serviços e comércio, e o aumento da produtividade do trabalho doméstico são as principais explicações para o salto de número de mulheres trabalhando. Em 1980, no Brasil, as mulheres representavam 26,5% do mercado, em l995 esse índice pulou para 48,1%.
Para colorir ainda mais esse cenário, Clovis Rossi20 aponta um outro aspecto dos índices de desemprego: o fato de que a economia teria que crescer o dobro para dar conta do aumento da oferta de mão-de-obra com o fato de a mulher passar também a disputar o mercado do trabalho. "Antes, havia uma pessoa só entrando no mercado de trabalho (um homem). Agora há duas: (um homem e uma mulher)", diz o jornalista. O que nos remete a outra questão: por que a mulher passou a trabalhar fora de casa? Uma análise histórica mesmo superficial mostra que foram sempre questões econômicas que lançaram a mulher ao mercado de trabalho. Mesmo hoje, quando sua participação é tão maior que em outras épocas, uma pesquisa, com respostas estimuladas e múltiplas mostrou que a realização pessoal é a razão para estar trabalhando de 31% das pesquisadas e a realização profissional a de 30%, enquanto manter os gastos pessoais é o motivo de 54% e manter a família o de 40%.21 Ou seja, é maior o impulso econômico que o psicológico.
REALIDADES DO MERCADO DE TRABALHO HOJE
A terceirização do mercado de trabalho é sem dúvida, em muitas situações, a "precarização" das relações de trabalho. Os números oficiais apresentados por Gilberto Dimenstein não deixam dúvida: "dos 803 mil novos empregos criados na região metropolitana de São Paulo de 1988 a 1996, 90% são informais".22
Os dados do IBGE23 mostram a relação entre pessoas com carteira de trabalho assinada nas principais metrópoles brasileiras (7.632 mil), os sem carteira assinada (4.002 mil) e os que trabalham por conta própria (3.821 mil). Trabalhadores com carteira assinada são em menor número que a soma dos sem carteira assinada e por conta própria.
Para ter uma percepção melhor do avanço desta realidade:
| ANO | SEM CARTEIRA (em mil) | COM CARTEIRA (em mil) |
| 1990 | 533 |
3105 |
| 1996 | 802 |
3044 |
| 1997 | 1704 |
3474 |
O quadro mostra claramente o crescimento extraordinário da informalização. Em seis anos os sem carteira assinada cresceram 50%. Na primeira metade de 1997, esse percentual de crescimento subiu para 112%. O aumento das pessoas sem carteira assinada nos últimos seis anos e meio foi de 220%.
Por outro lado, o número de pessoas com carteira assinada diminuiu em 2% nos mesmos seis anos, tendo no início de 1997 aumentado em 14%.
Dois riscos advêm desta situação:
Há os que defendem24 que não houve aumento significativo do desemprego pelo menos da forma medida pelo IBGE nos últimos três anos. É importante lembrar: o IBGE só considera desempregado aquele que não recebeu nenhuma remuneração no período pesquisado. Quem saiu pelas ruas, fez "um bico" não é considerado desempregado pelas estatísticas oficiais. Quem desistiu de procurar emprego também está fora. Por outro lado, para as estatísticas oficiais, tanto os jovens que ainda estão estudando, quanto os aposentados em idade produtiva, são desempregados. Essa metodologia recomendada pela OIT, não revela então a real situação em que vivemos. Se não aumentou o desemprego, por que tanta preocupação?
Parece claro que, no imaginário da sociedade, a valorização do emprego industrial, a perda da relação de trabalho estável e das conquistas sindicais (os benefícios que o emprego na indústria oferecia), assim como a falta de segurança dos empregos de carteira assinada é que tornam efetivo esse sentimento de desemprego, ainda que as pessoas estejam empregadas ou subempregadas.
Muitas empresas fugindo de uma organização sindical mais atuante se deslocaram para regiões onde há fraca organização sindical e na busca de reduzir custos contratam através de cooperativas, sem direito trabalhista algum, pagando a metade do que pagavam a seus funcionários nas regiões mais desenvolvidas.
Para completar o quadro: Pesquisa Nacional da Datafolha25 mostra um retrato do Brasil onde a sociedade produtiva é dividida em cinco categorias: os excluídos, os decadentes, os remediados, os batalhadores e a elite. Uma análise de cada perfil mostra que o grupo de maior sucesso a elite teve escolaridade e renda mais próximos do topo da pirâmide social e é o mais integrado no mercado formal, com 77% de ocupações regularizadas. A elite representa 8% da população economicamente ativa.
A antítese da elite são os excluídos onde 86% não foram além da 8ª série do lº grau. Esse é o grupo de maior desemprego, 19% vive de "bico" e 10% não tem carteira assinada. A maior parte deste grupo (71%) está no Nordeste.
Os decadentes são as principais vítimas da revolução do trabalho; ganham pouco (menos de 10 salários mínimos), mesmo quando têm emprego formal. O nível educacional é, no mínimo, 2º grau, e 21% têm nível superior.
Os batalhadores se situam como grupo com escolaridade entre o 1º e 2º grau, sendo que 89% ganham mais de 20 salários mínimos por mês. A comparação entre os "decadentes" e "batalhadores" apresenta-se como uma boa fonte de reflexão sobre o perfil do profissional de sucesso. Fica claro que não reside só na escolarização a base do sucesso profissional.
Controlar a metamorfose do emprego e do trabalho não é só uma questão econômica, mas também política, e social acima de tudo.
Não há modelos a seguir mas, como coloca Pierre Morin,26 o caminho deverá ser criativo e social como resultado histórico da agregação mais ou menos tumultuada de intenções individuais e coletivas. "Cada dia se constrói nossa sociedade, uma sociedade decidida por ninguém e realizada por todos."
COMPLETANDO O CENÁRIO
A família a transformação do núcleo familiar já é evidente. O IBGE mostra que os casamentos tem diminuído, o divórcio e as separações aumentado. A taxa de fecundidade da mulher que era de seis filhos em 1960 é hoje de dois filhos. Estatísticas internacionais apontam que é a partir do 3º filho que a mulher tende a deixar o emprego. As pressões econômicas e o estímulo ao consumo têm levado os pais a trabalhar cada dia mais e os filhos a estar mais desassistidos.
Há quem atribua boa parte do sucesso dos "tigres asiáticos" aos valores milenares de Confúcio que reforçam a moralidade, a ética, a forte estrutura familiar, a disciplina e o culto ao trabalho. É claro que a família é apenas um aspecto de um todo complexo e dinâmico mas, na preparação do profissional do próximo milênio seu papel deverá ser fundamental e precisará ser melhor pensado.
O caminho de individualismo que está sendo tomado é desastroso.
A educação a educação terá que ser reinventada. Há vários indicadores que levaram nossa sociedade, e agora, em especial, os empresários mais esclarecidos, a perceber que não há como sobreviver numa economia globalizada e com exigências crescentes sem levar a sério a educação no Brasil.
A repetência alcança hoje no Brasil 30% dos alunos no ensino fundamental (nos Estados do Norte e do Nordeste chega a 50%). Um verdadeiro atestado de incompetência do ensino atual e um verdadeiro exército de desmotivados com baixa auto-estima. Gastam-se na América Latina 4,2 bilhões de dólares por ano com a repetência escolar27 ou melhor com a incompetência do sistema em cumprir adequadamente o seu papel (mais do que se apurou com a venda da Companhia Vale do Rio Doce).
O nível de preparo dos professores também é retrato do descaso a que foi submetida a educação: 47,2% dos professores brasileiros só têm o 1º grau completo.
Há experiências acontecendo no Brasil que estão conseguindo as primeiras mudanças neste quadro. Os números de evasão escolar estão baixando. O que fica cada dia mais claro é que a transformação necessária não pode ser responsabilidade só do Estado. Terá que ser um esforço de toda a sociedade. "Cada ano adicional de estudo acrescenta ao trabalhador brasileiro um aumento anual de renda em torno de 16%".28
As previsões de especialistas dão conta de que 75% do que vai ser amplamente consumido em 15 anos nem sequer foi inventado. Qual o saber necessário? Como será possível saber?!
O que será fundamental é uma reestruturação do ensino básico em relação ao acadêmico para fazer face às mudanças. Aprender a aprender terá que ser a tônica. Quem não tiver aprendido a aprender não saberá buscar as respostas aos problemas que surgirão nestes novos tempos. Mais do que isso: não saberá identificar problemas. A análise do cérebro de Einstein com sua incrível inteligência mostrou que ele não tinha mais neurônios do que nós; ele tinha sim, uma quantidade de conexões entre os neurônios muito superior ao homem normal. Estava na capacidade de ligar as informações de seu cérebro o seu grande handicap. Assim, será na capacidade de fazer novas relações entre as situações, entre os fatos, que conseguiremos os recursos para enfrentar os novos desafios. Unir informações, procedimentos que nunca foram unidos: quebrar paradigmas.
O ensino da lógica, da criatividade será mais importante para a articulação do saber necessário que as inúteis repetições de datas e nomes que pouco acrescentam ou, como diz simbolicamente Rubem Alves (diante das pesquisas que mostram que o aluno pouco retém do ensinado) "a comida ruim" que o aluno joga fora (não retendo a aprendizagem) porque de nada serve não tem qualidade.
Nosso país terá que escolher entre muita educação ou pouco trabalho.
O novo capital "Na idade da informática, o dono dos meios de produção deixou de ser o capitalismo". A ferramenta do trabalhador do conhecimento é carregada dentro de sua cabeça.29 Quanto mais se desenvolve a tecnologia, a informática, a robótica, mais se transforma o trabalho do operário em trabalho intelectual.
O operário no Brasil tem em média três anos de estudo. Se antes nosso desafio educacional já era imenso, agora, na era do conhecimento, do capital intelectual, enfrentar este desafio passa a determinar o futuro que queremos para nosso país.
A Qualidade A postura frente à Qualidade enquanto forma de encarar a organização é um recurso competitivo inquestionável hoje e faz parte de outra revolução: a do modo de produzir e servir. O crescente número de empresas que buscam implantar Qualidade sinaliza esse futuro.
O PERFIL DE EMPREGABILIDADE
Vivemos um tempo de mudanças onde mais do que nunca é atual a frase do famoso filósofo grego Heráclito: "Não existe nada permanente, exceto a mudança."
Como ter empregabilidade neste tempo?
Primeiro é preciso conceituar empregabilidade. Acreditamos que a visão de Minarelli30 é a que melhor define o termo: "a capacidade de gerar trabalho e renda permanentemente". Para ter empregabilidade é preciso estar afinado com as exigências das empresas.
As palavras-chave das empresas de sucesso hoje são qualidade, velocidade e flexibilidade. Não é por outro motivo que as empresas buscam colaboradores cujas características não são mais apenas as de pontualidade e assiduidade.
Uma característica no novo perfil que ganha espaço especial é a ética. Muitas pessoas acham que conciliar lucro com ética não é possível. Afinal as raízes de lucro e logro vêm da mesma palavra em Latim lucrum. Mas as pesquisas com executivos de grande corporações no mundo inteiro apontam a ética como característica número um do novo perfil profissional. Muitas são as razões para a ascensão da ética. Uma grande razão se explica com os altos (e às vezes inúteis) custos do controle.
Os conhecimentos básicos exigidos, além de sua própria atividade profissional, são línguas (especialmente inglês e espanhol), informática e cada vez mais Qualidade. Naisbit31 nos apresenta dados claros: 70% da correspondência mundial está em inglês. 85% de todas as conversas telefônicas internacionais são feitas em inglês. 80% de todos os dados armazenados nos 100 milhões de computadores do mundo estão em inglês. A ampla troca de informações internacionais que já está sendo possível com o acesso às redes de informação, como a Internet, é mais revolucionária do que foi a invenção da imprensa. Estar de fora da era da informação é perder oportunidades, é perder poder. Não saber informática equivale a ser um analfabeto.
Por outro lado, o perfil do profissional de sucesso de 20 anos atrás era de uma pessoa que tivesse trabalhado muitos anos em uma ou duas grandes empresas.
Ser funcionário de uma grande estatal era o sonho dourado de muitos. Ficar muitos anos em uma empresa era prova de que aquele era um ótimo profissional. Hoje as exigências são radicalmente opostas. Exigem-se profissionais com experiências diversificadas, que tenham trabalhado em empresas de vários portes e que entre estas figurem "boas empresas".
Boas empresas são definidas como aquelas que priorizam a competência, a capacidade profissional, o treinamento e estão atentas para as questões da qualidade. Ficar muitos anos em uma mesma função, pode ser hoje sinônimo de acomodação, dificuldade de viver mudanças, cristalização de hábitos. Esses profissionais tendem a ser preteridos por outros de perfil mais moderno.
Levantamento da Revista Veja32 sobre a evolução do perfil profissional nos dá uma clara visão desta evolução:
PERFIL profissional
antes da década de 70
· a experiência é a ferramenta usada no comando
· é acomodado
· é dependente
· é carreirista
· é resistente à mudança
· seu salário é determinado pela empresa
· seu conhecimento é fruto da experiência pessoal
Entre as décadas de 70 e 90
· o grau de escolaridade é sua ferramenta de comando
· é confiante
· é político
· procura ser criativo
· ajusta-se às mudanças
· é muito competitivo
· seu salário é negociado com a empresa
· seu conhecimento é baseado na teoria acadêmica.
Anos 90 em diante
· as relações de sua equipe são a ferramenta de seu sucesso
· é estudioso
· tem uma visão global das coisas
· lidera mudanças
· é facilitador
· seu salário é conquistado pelo resultado de seu trabalho e de sua equipe
· seu conhecimento é fruto de seu aprendizado contínuo
Entre as mais diversas fontes que fazem parte da pesquisa em an-damento sob nossa coordenação A empregabilidade na Grande Vitória, temos ainda o seguinte perfil do profissional sendo delineado:
A qualificação está sendo mais valorizada do que a experiência. Uma visão estreita (visão de túnel) é temida e por isso a vida pessoal rica, com amplas perspectivas pessoais é fundamental, assim como desenvolver interesses, ampliar ações (de lazer, de leituras, de rodas de relacionamentos, de assuntos, de preferências...) é necessário, uma vez que os caminhos profissionais a serem trilhados são desconhecidos.
O modo feminino de administrar está em alta. A intuição a capacidade de lidar bem com as emoções. Essas características têm ampliado inclusive o espaço feminino no mercado de trabalho.
Colocando assim parece um feito para Hércules, mas uma análise mais cuidadosa restringe tudo a poucos pontos:
REFLEXÕES FINAIS
Estamos mudando nossa forma de compreender a realidade. Gradualmente os modelos e metáforas da Física, que sempre serviram de referência para as empresas estão sendo transferidos para os referenciais da Biologia. O modelo da Física sugere o linear, causa e efeito racional. O modelo da biologia sugere o holístico, interconectado, adaptativo e sistêmico. Estamos vivendo um processo que cada vez mais se parece com uma elaborada cadeia de sistemas de feed-back de informações comparável aos organismos biológicos. Com o sistema de informações (feed-back) de grande interação, a gestão das empresas terá que ser de igual forma dinâmica, adaptativa... biológica.33
Este desafio como o próprio perfil aponta, e todas as premissas delineadas aqui, não poderão ser da responsabilidade de ninguém a não ser da própria pessoa. A diversidade de experiências e informações, não poderão ser conseguidas em um só lugar, o processo terá que ser de responsabilidade de cada um e ao longo de sua formação, tanto no âmbito profissional quanto no pessoal. Será uma questão de autodesenvolvimento holístico.
Notas:
1 MORIN, Pierre. La Grande mutation du travail et de l'emploi. 2.ed. Paris: Les éditions díorganization, 1995.
2 Id. ibid.
3 Apud. GONÇALVES, Marcos Augusto, BARELLI, Sandra. Fim do trabalho encerra o século. Folha de São Paulo, 3 mar., 1996. Caderno 5 - Mais, p. 7.
4 RIFKIN, Jeremy. O Fim do Emprego. São Paulo: Makron , 1996.
5 FRANCO, Celia de Gouvêa. Pesquisa revela cara neoliberal dos teens. Folha de São Paulo, 28 julho 1997. Caderno 3 Cotidiano, p. 1-3.
6 PAULINO NETO, Fernando. Indústria demite um terço em sete anos, afirma IBGE. Folha de São Paulo, 14 março 1997. Caderno 2 - Dinheiro, p. 5
7 RIFKIN, Jeremy. op.cit.
8 PINTO, Celso. Abertura custa 390 mil vagas em um ano. Folha de São Paulo, 7 agosto 1996. Caderno 2 Dinheiro, p. 1 .
9 MORIN, Pierre. op. cit.
10 RIFKIN, Jeremy. op.cit.
11 BRIDGES, William. Mudanças nas relações de trabalho. São Paulo: Makron, 1996.
12 Id. ibid.
13 MORIN, Pierre. op. cit.
14 Id. ibid.
15 FUNDAÇÃO IBGE. Pesquisa Mensal de Emprego: estimativas do mês de julho de 1997. Rio de Janeiro, 1997.
16 ESPECIAL Mulher: a grande mudança no Brasil. Veja, São Paulo, ago./set., 1994. Número especial.
17 LÍRIO, Sergio. Mulheres estudam mais, mas tem salário menor. Folha de São Paulo. 25 abril 1997. Caderno 2 Dinheiro, p. 16.
18 ESPECIAL MULHER: a grande mudança no Brasil. op. cit.
19 GAZIER, Bernard . Economie du travail et de l'emploi. Paris: Dalloz, 1991.
20 ROSSI, Clovis. Ele, ela
21 ESPECIAL MULHER: a grande mudança no Brasil. op. cit.
22 DIMENSTEIN, Gilberto. Por que deveríamos estar em pânico. Folha de São Paulo, 3 agosto 1997. Caderno 1- Mundo, p. 26.
23 FUNDAÇÃO IBGE. op. cit.
24 O DESEMPREGO não piorou. Exame, São Paulo, p. 116-128, 30 jul. 1997.
25 PESQUISA DATAFOLHA, Folha de São Paulo, 13 jul.,1997. Caderno 1- Brasil, p. 12.
26 MORIN, Pierre. op. cit.
27 BRASIL em Exame - Educação. Exame, São Paulo, set., 1997. Número Especial.
28 WERLANG, Sérgio Ribeiro da Costa. Chegou a hora de pagar a faculdade. Exame, São Paulo, p. 32-35, set., 1997. Número Especial Brasil em EXAME Educação.
29 A NOVA ERA do capital intelectual. Exame, São Paulo, p. 86-89, 13 ago., 1997.
30 MINARELLI, José Augusto. Empregabilidade, o caminho das pedras. São Paulo: Gente, 1995.
31 NAISBIT, John. Paradoxo Global. São Paulo: Campus. 1994.
32 A REVOLUÇÃO que liquidou o emprego. Veja, São Paulo, 19 out., 1994.
33 PREMISSAS. São Paulo: Amana. 1996. Coletânea.