Ira Maria Maciel*
Abstract
The present article
aims at pointing out the pedagogic aspects of developing virtual learning environments. It also maps out a number of
tasks and issues for the implementation of such environments, focusing on their
characteristics, diferent possibilities and limits. In addition, it defends the
need for attributing a new meaning to educational paradigms and the building of
a “ knowledge web “ that may outline the sketches of a new social scenario.
Key-words: Distance learning education;Virtual learning environment; New paradigms.
1. TRILHAS E
INQUIETAÇÕES
A minha busca individual e coletiva de conhecimento tem
sido alimentada por uma série de inquietações. Entre elas, procuro respostas às
seguintes questões: como produzir condições para a inclusão digital em países
assolados pelas desigualdades/exclusões sociais? Como construir novos modos de
aprender e conhecer sem transpor as “velhas fórmulas” para as novas Tecnologias
de Informação e Comunicação (TIC). Como produzir novas linguagens na
comunicação e encarnar os novos paradigmas? Como desenvolver as TIC e EaD na
construção de uma nova paisagem social?
Com a promulgação da Portaria do MEC nº 2.253/20011, que autoriza que 20% da carga horária
das disciplinas presenciais sejam realizadas sob a forma de atividades
não-presenciais, a discussão e o estudo da educação a distância vêm se
mostrando uma necessidade urgente nas instituições educacionais de todo o
Brasil. Torna-se necessário, assim, desenvolver ambientes educacionais para a
oferta de disciplinas na modalidade de educação a distância que possam gerar
pesquisas e inovação pedagógica.
No momento em que se defende a ampliação do ensino virtual
como estratégia mais eficiente e apropriada para diminuir a exclusão social nas
universidades do País e como mais um recurso para elevar a média de
escolaridade dos brasileiros, bem como para estimular a inclusão digital é
importante esboçar trilhas para o desenvolvimento de ambientes virtuais de aprendizagem
e mapear os desafios epistemológicos desse percurso.
O presente artigo tem como objetivo destacar aspectos
pedagógicos para o desenvolvimento de ambientes virtuais de aprendizagem. Ao
mesmo tempo, procura mapear um conjunto de tarefas e questões para a
implementação desses ambientes, focalizando características, possibilidades,
limites. Tem como horizonte a (re)significação de paradigmas educacionais e a
construção de uma “teia de conhecimentos” que possa delinear esboços de uma
nova paisagem social.
2. O AMBIENTE
VIRTUAL: CONDIÇÕES E POSSIBILIDADES
Condição básica
Em primeiro lugar é importante registrar que faço parte dos
profissionais da educação que concebem a educação a distância apenas como uma
modalidade de ensino, possível de ser realizada em alguns níveis dos sistemas
educacionais. Nesse sentido, considero fundamental deixar visível, em qualquer
projeto, a concepção de educação que está subjacente e que orienta as escolhas
teórico-metodológicas adotadas. Esta posição implica considerar inexistente uma
diferença essencial entre educação presencial e educação a distância. O que é
indispensável para as duas modalidades é o reconhecimento do paradigma que dá
suporte ao projeto político-pedagógico em questão. O diferencial está
depositado na expectativa de que a implantação da educação a distância, apoiada
nas novas tecnologias de informação e comunicação, possa contribuir para uma
(re)significação do processo educativo, por seu potencial de vinculação a uma mudança
de paradigma.
Como assinala Alonso (2000)2 o importante é perceber que o uso das
tecnologias da comunicação não muda, em princípio, as questões inerentes a
qualquer projeto educativo. Há sempre que responder: para quem? Para quê? E
como? o projeto será desenvolvido. Precisa-se ter a consciência de que no
momento em que se está desenvolvendo uma interação de qualquer natureza está
implícito um paradigma que organiza e limita a nossa percepção e explica de um
certo modo o sentido da nossa ação. Quando se desenvolve um ambiente de
aprendizagem, faz-se uma opção teórico-metodológica que tem subjacente uma
abordagem de desenvolvimento e de aprendizagem humana, uma visão de homem, de
ciência, de trabalho, de mundo.
Consideradas a abrangência e a especificidade da construção
de um ambiente de aprendizagem e as tarefas pedagógicas implicadas em um
projeto desta natureza, fica muito clara a necessidade do suporte de diversos
paradigmas, de um elenco de princípios, de um conjunto de categorias
procedentes de diversas bases do conhecimento. Precisa-se, igualmente, de uma
(re)discussão de valores, de vínculos sociais e de modos de convivência.
A concepção que tenho quando se quer (re)significar o
processo educacional na modalidade de educação a distância em ambiente virtual,
é de que este ambiente deve encarnar os subsídios teórico-práticos das
abordagens crítico-reprodutivistas, construtivistas e sociointeracionistas,
assim como atualizar as contribuições teóricas advindas da epistemologia da
complexidade e do paradigma rizomático (ver explicação adiante). Esta opção
está baseada na conexão existente entre estes paradigmas e as novas ferramentas
disponíveis no ciberespaço.
Neste sentido, a proposta precisa refletir, entre outros
princípios, aqueles defendidos por Edgar Morin (1998)3 em relação à epistemologia da
complexidade. O autor propõe, dentre muitos aspectos, uma ruptura com a atitude
da simplificação da realidade, ou seja, a adoção do “pensamento complexo” que
busca apreender interações entre os diversos campos do conhecimento a partir de
uma ótica da diversidade, da incorporação do acaso, da incerteza. Pensar em
termos complexos contribui para que todos que interagem com o espaço
cibernético possam dialogar com o ambiente polifônico e polissêmico das
tecnologias hipertextuais e com a complexidade dos objetos de conhecimento.
Assumindo-se a proposta de Deleuze e Guattari (1976)4, tem-se como meta a subversão do
“paradigma arbóreo”5 e adoção do “paradigma
rizomático” que tem como metáfora o “rizoma”6. Em
conjunto com estes autores concebe-se a construção do conhecimento a partir de
entradas múltiplas próprias dos sistemas complexos, defendendo-se a ausência de
hierarquização do conhecimento. Considera-se que o mesmo está sujeito a “linhas
de fuga”, a movimentos em “devir” e sabendo-se que quase sempre acontece a
emergência e construção de novos territórios de conhecimento.
A epistemologia da complexidade e as novas configurações
derivadas do desenho rizomático procuram realizar uma ruptura com a realidade
ainda dominante no ensino contemporâneo, no qual se observa a
compartimentalização e dissociação do conhecimento e dos currículos escolares.
Ao mesmo tempo contribuem tanto para a busca da transdisciplinaridade como para
a constituição de redes de aprendizagem e de conhecimento. Neste sentido,
promover o entrelaçamento de saberes é uma exigência da realidade do mundo
contemporâneo que pode constituir a diferença nos modos de pensar e propor
projetos educacionais.
Os novos esquemas cognitivos, com o desenvolvimento da
cibercultura, entre outros fatores, vêm possibilitar, na área da educação,
novas compreensões sobre o processo de ensinar e de aprender, calcadas em
recursos que conectam e criam relações entre sujeitos, pelas diversas redes de
informação que vão sendo constituídas – do mundo científico, artístico e
cultural. Estes recursos comunicacionais, ao produzirem novas relações do
sujeito social com o conhecimento, modificam o papel do(s) emissor(es) e
reconfiguram o espaço do(s) receptor(es), servindo de suporte para as mudanças.
Ao viabilizarem uma outra relação dialógica, baseada na multidirecionalidade,
estabelecem também a possibilidade de co-criação do conhecimento e de propostas
de solução criativa às demandas institucionais e educacionais (Maciel, Paiva,
2000)7.
Assim sendo, todos os profissionais que estão na aventura
de desenvolver ambientes virtuais de aprendizagem precisam investir no
desenvolvimento de uma base epistemológica múltipla e convergente. A tarefa de
(re)significar o processo educativo precisa ter como eixo a concepção de um
sujeito que, em redes as mais diversas, estabeleça novas formas de contato e
expressão no mundo e do mundo, não mais como consumidor das produções, mas como
autor/produtor. Reiteram-se e assumem-se posições teóricas de autores como
Piaget, Vygotsky, Paulo Freire, Castoriadis entre muitos outros que defendem a
formação de um sujeito ativo, crítico, reflexivo, deliberativo, ético e
autônomo.
Não faz parte dos objetivos deste artigo aprofundar uma
concepção de ensino e aprendizagem, mas indicar que todo projeto pedagógico
carrega um paradigma e que a construção do ambiente virtual de aprendizagem
deve estar articulada a um projeto político-pedagógico construído
coletivamente de forma lúcida e criativa. O ambiente virtual precisa assim
refletir em suas estratégias de ensino e aprendizagem o esboço de mundo
desejado e atualizar a expectativa de constituir uma alavanca para a inovação
pedagógica.
Alava (2002)8,
Cysneiros (2000)9 e Maciel, Paiva (2000)10 chamam atenção para o fato recorrente de
“fazer o velho com o novo” reiterando a evidência sobre o irremediável
imobilismo da forma escolar. Para ultrapassar esse imobilismo é necessário
mapear e enfrentar as deficiências do sistema regular de ensino, promovendo
processos de renovação metodológica. Isto implica, entre outros aspectos,
reconhecer o papel de fênix que o comportamentalismo assume nas diversas
configurações das práticas educacionais e sociais. Sua constante atualização e
seu vigor teórico resistem ao tempo, chamando nossa atenção para o seu
potencial de incorporação pelas modalidades contemporâneas de educação a
distância.
Outras
possibilidades: a mesma intenção?
Quando se enfoca o ambiente virtual de aprendizagem, refere-se
à modalidade de educação a distância que utiliza como suporte o computador, a Web
e as redes locais constituídas no espaço cibernético. Neste contexto,
considero “ambiente de aprendizagem” aquele que viabiliza uma comunicação
multidirecional que permite interações individuais e coletivas entre todos os
envolvidos no projeto educativo. Falo de um espaço que disponibiliza
conferências por computador, acesso a banco de dados, correio eletrônico,
bibliotecas virtuais, conteúdos digitalizados em diversas mídias por onde
circulam discursos pedagógicos. Colocam-se os recursos da Internet como
ferramentas pedagógicas facilitadoras do processo de inovação pedagógica. Como
assinala Moraes (2001)11 “na
rede flutuam instrumentos privilegiados de inteligência coletiva, capazes de
gradual e processualmente fomentar uma ética por interações, assentada em
princípios de diálogo, de cooperação, de negociação e participação”.
O ambiente virtual de aprendizagem pode ser considerado
como sendo um “dispositivo” de comunicação, de mediação de saberes, de formação
midiatizada. Apesar do termo dispositivo não pertencer à área de educação e
comunicação, o conceito desde os anos 70 vem sendo apropriado por estas áreas.
Segundo Peraya (2002)12 o dispositivo se
constitui como:
uma
instância, um lugar social de interação e de cooperação com intenções,
funcionamentos e modos de interação próprios. A economia de um dispositivo –
seu funcionamento – determinada pelas intenções apóia-se na organização
estruturada de meios e materiais, tecnológicos e simbólicos e relacionais,
naturais e artificiais, que tipificam, a partir de suas características
próprias, os comportamentos e condutas sociais, cognitivas e afetivas dos
sujeitos.
Charlier (2002)13 põe
em evidência a acepção de Berten que conceitua dispositivo como um espaço
intermediário de mediação entre um sujeito portador de uma intenção e um
ambiente dinâmico, sendo que o objeto dessa interação sujeito/ambiente é a
construção do conhecimento. Como assinala Cysneyros (2000)14 o computador pode conter várias
tecnologias educacionais, mas, também, pode ser uma tecnologia não educacional.
È uma tecnologia educacional quando for parte de um conjunto de ações (práxis)
com o objetivo de ensinar e aprender, envolvendo uma relação entre alguém que
ensina e um aprendiz.
Todas as novas possibilidades inauguradas pelas TIC, como,
por exemplo, o uso do hipertexto; a convergência de tecnologias digitais; a
capacidade de armazenar conteúdos em banco de dados; a de auto-organização e
retroalimentação constante dos conteúdos; a potencialidade da constituição de
redes comunicacionais como ferramentas de interatividade; a co-criação de
conhecimento precisam, antes de tudo, estar ancoradas em um conjunto de intenções
e numa práxis que tenha como norte a construção de uma nova paisagem educativa.
Do contrário, se estará mais uma vez reeditando as velhas fórmulas, ou como
assinala Najmanovich (2001)15, embarcando
na estratégia de seduzir os estudantes montando um “show educativo” que
consiste em substituir os velhos manuais por outros de nova geração com
imagens, cores, iconografia, mas continuando a veicular os mesmos conteúdos,
sustentando assim a ilusão de que se está melhorando ou inovando a educação.
As novas possibilidades das Tecnologias de Informação e
Comunicação não podem escamotear o fato de que o ambiente virtual carrega
intenções, constitui um espaço relacional que tem marcas sociais, veicula um
discurso pedagógico e científico permeado por ideologias, e, também, não pode
perder de vista que a sua principal função está situada na indispensável tarefa
de ensinar e aprender. Como assinala Najmanovich16 as tecnologias de comunicação e
informação atuais oferecem meios facilitadores, mas, de forma isolada, não garantem
em absoluto novas formas de ensinar, pensar e conviver. O que se tem agora é a
oportunidade de desenvolver um ambiente com a possibilidade técnica de
entrelaçar a cultura, a prática social, saberes, a prática pedagógica, a
ciência, expressando-se por diferentes linguagens, na tentativa de produzir
novos sentidos e, em conseqüência, uma nova paisagem educativa.
Ambiente virtual pode
eliminar a distância?
A produção de uma nova paisagem educativa em ambiente
virtual precisa enfrentar um conjunto de variáveis, entre elas as novas
configurações espaço/temporais. Uma pergunta que circula no ambiente acadêmico
é: pode a tecnologia suspender a distância? Como construir outra interação
diferente da presencial? Como reduzir a distância transacional entre alunos e
aprendizes no ambiente virtual?
Não resta dúvida de que a distância transacional entre os
professores e aprendizes na situação de formação constitui uma variável
importante em qualquer modalidade educacional. Bouchard (2002)17 põe em destaque a acepção Moore que
designa a distância transacional como sendo o conjunto de fatores que pode
contribuir para a distância perceptiva/comunicacional entre o professor e o
aprendiz. Considera que a amplitude da distância pode ser configurada pela
presença ou ausência de um diálogo educativo ou pela presença ou ausência de
uma estrutura rígida ou flexível. Coloca a conferência como um ambiente
pedagógico de pouca propensão ao diálogo e de uma forte adesão à estrutura. As
aulas expositivas tradicionais nas quais prevalece uma comunicação do tipo
unidirecional, apesar da presença dos alunos, também constituem um exemplo de
elevado percentual de distância transacional entre o professor e os aprendizes.
Na modalidade de EaD, a distância transacional torna-se uma
questão crítica e essencial. O distanciamento geográfico e o isolamento
relativo do aprendiz – característicos da modalidade – podem ampliar a
distância entre os professores e aprendizes e gerar a tão freqüente evasão. Por
outro lado, estudos sinalizam que o ambiente virtual pode gerar aproximações e
uma convivência tão próxima quanto a presencial. Maraschi (2000)18 afirma que as tecnologias na realidade
têm a função de eliminar a distância ou construir outras interações diferentes
da presencial. Ao possibilitarem a suspensão das distâncias espaciais permitem
a convivência e a diversidade identitária.
Comunidades de conhecimento com amplas possibilidades
interativas podem ser formadas assim se for atualizada uma comunicação
diferenciada. Quando o ambiente virtual de aprendizagem atualiza os recursos do
hipertexto; disponibiliza o conteúdo através da convergência de mídias; opera
com os recursos das redes eletrônicas de forma criativa tem-se uma grande
chance de reduzir a distância transacional. Na medida em que o ambiente
pedagógico tenha como meta criar situações de aprendizagem significativas e
alocar recursos humanos com disponibilidade subjetiva e objetiva para
estabelecer um diálogo permanente, pode até ultrapassar as condições atuais do
regime presencial.
A anulação da distância transacional na relação pedagógica,
porém, passa por outros registros, em especial por uma definição ética,
política e estética dos sujeitos envolvidos no projeto educacional. Como
assinala Freire em Pedagogia da autonomia (1996)19, para que o diálogo seja inaugurado é
necessário que “o sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugure com seu
gesto a relação dialógica em que se confirme como inquietação e curiosidade,
como inclusão em permanente movimento na História”.
A distância perceptiva/comunicacional entre o professor e o
aprendiz pode ser ajudada por originais processos de midiatização, mas não se
pode deixar de considerar que o fundamental está na mudança na modalidade de
contato, no estabelecimento de atividades sociais de negociação e construção de
sentido e no compromisso de todos que participam do ambiente educacional. É
preciso que todos os envolvidos possam tomar para si a tarefa de reduzir a
distância transacional e mergulhar no enigma da comunicação. Tem-se pela frente
um contexto multidimensional para ser objeto de estudo e pesquisa. Arrisco
algumas novas questões: como reduzir a distância transacional se o ambiente
educacional continua no marasmo e esvaziado de sentidos? Como desenvolver uma
nova paisagem social que fomente uma ética por interações, assentada em
princípios de diálogo, de cooperação, de negociação e participação?
Condição necessária
Cada vez mais o mundo social e do trabalho necessita de
sujeitos que saibam conviver e produzir coletivamente. A modalidade da
comunicação no ambiente virtual de aprendizagem constitui um fator decisivo
para a mudança do paradigma comunicacional e educacional. A inteligência
coletiva, o currículo em rede, a formação de redes cooperativas podem ter como
conseqüência a produção de uma nova ecologia social e ser um caminho em direção
à sociedade do conhecimento.
Cada participante do ambiente virtual tem de ir além da
consciência da impossibilidade de conhecer de forma total qualquer objeto de
conhecimento. Ele precisa vivenciar a práxis de partilhar conhecimentos,
reconhecer os benefícios de uma relação de troca sob o ponto de vista cognitivo
e afetivo e constituir redes que possam gerar laços sociais em torno de
projetos comuns.
Ao se optar por desenvolver uma ecologia social cooperativa
é necessário que todos se sintam comprometidos, operando de modo individual e
coletivo no desenvolvimento de uma escuta, de formas de expressão, do
enfrentamento de fatores críticos do sistema e dos conflitos gerados. A crítica
e a autocrítica derivadas das sínteses teórico-práticas realizadas durante o
processo precisam gerar intervenções e novos processos educativos. As tarefas
previstas e as emergentes precisam ser assumidas individual e coletivamente. O
processo contínuo de avaliação e de negociação de sentidos pode gerar a tomada
de decisões estratégicas, o desenvolvimento de uma prática significativa e o
exercício da cooperação.
A construção e a implementação de um ambiente virtual de
aprendizagem precisam desenvolver o sentimento de pertencimento grupal
necessário ao desenvolvimento de um contexto cooperativo e de constituição de
redes. Um primeiro movimento consiste em incentivar cada aprendiz a encontrar
uma forma de expressão de sua identidade na rede. No ambiente virtual deve ser
criado um espaço e ser alocado um tempo hábil para o conhecimento dos pares,
que resulte em uma alquimia de afinidades. A elaboração de estratégias que
facilitem aproximações e propiciem a aglutinação de novas configurações na rede
pode contribuir para a formação de vínculos. As relações constituídas em rede
podem atuar no enfrentamento das dificuldades inerentes ao processo de
aprendizagem. Os índices de evasão dos cursos de educação a distância, entre
outros fatores, refletem os efeitos do isolamento do aprendiz e a ausência de
uma rede de relações.
A nova grupalização oportunizada pelas salas virtuais,
fóruns de discussão, intercâmbio de trabalhos, seminários on-line,
possibilita que todas as mensagens sejam partilhadas, adquirindo a
característica de “transparência”, o que amplia as perspectivas de
democratização do saber, ao mesmo tempo em que contribui para o desenvolvimento
de um novo modo de socialização.
Para que a relação dialógica seja substantiva é necessário
que o ambiente virtual de aprendizagem ofereça uma cartografia virtual com
universos integrados de estudo e pesquisa. Esta cartografia passa por processos
de auto-organização e retroalimentação constante dos conteúdos, constituindo um
suporte ágil para o desenvolvimento de processos de inteligência coletiva. O
ambiente precisa disponibilizar: os conteúdos da aprendizagem em diferentes
abordagens teóricas e disciplinares, roteiros de entrada e percursos múltiplos
para a consecução da aprendizagem, atividades de aprendizagem em diferentes
níveis de complexidade, propostas de pesquisa, roteiros para auto-avaliação e
avaliação da aprendizagem. As novas modalidades comunicacionais têm, também,
como substrato, a potencialidade de interagir com a diferença e a diversidade.
Se utilizadas com esse propósito, poderão contribuir na ruptura gradual com o
modelo da homogeneização e hierarquização que tanto tem empobrecido a vida
escolar/humana.
Estas definições vão constituir o núcleo central do
ambiente de aprendizagem. Assim, a produção do conhecimento em “rede” determina
uma sistemática atitude de investigação da realidade, incorporando a prática e
sua análise crítica permanente, o que significa a adoção da atitude de assumir a
pesquisa e a reflexão como componentes organizadores de todo o processo
(Maciel, Paiva,1999)20. A cartografia precisa
ainda articular múltiplos saberes e fazeres científicos e pedagógicos já
produzidos em relação às demandas implícitas nos objetos de conhecimento. Neste
sentido, o processo precisa ser vivido como uma construção coletiva de caráter
interdisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar.
A busca da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade
faz parte da necessidade de romper as fronteiras entre as disciplinas; criar a
possibilidade de troca, de cooperação e de articulação entre os campos
disciplinares; constituir o conhecimento em rede enfrentando problemas e
objetos híbridos. Neste movimento, a meta de (re)significar o processo
educativo tem uma nova oportunidade.
É, no entanto, preciso ter clareza de que o ambiente
virtual de aprendizagem não assegura o desenvolvimento da inteligência coletiva
ou de relações sociais cooperativas, apenas fornece a infra-estrutura e a
arquitetura telemática para o desenvolvimento de uma comunicação
multidirecional, por meio da qual é possível estabelecer fluxos de comunicação
entre todos e fazer circular os saberes apropriados e construídos por sujeitos
singulares que interagem no ambiente. Para que a inteligência coletiva possa
ser construída é preciso, ainda, que os vários sujeitos conectados ao ambiente
virtual tenham disponibilidade tanto subjetiva como objetiva para tecer
relações de troca e que estejam envolvidos na busca coletiva de particulares e
comuns objetos de conhecimento e na transformação do mundo.
OS DESAFIOS
PERMANECEM
A necessidade da inserção do Brasil na denominada Sociedade
de Informação e Conhecimento constitui consenso. Todos concordam também que as
Tecnologias de Informação e Comunicação são importantes ferramentas para a
transformação radical da educação brasileira. Especialistas indicam que o
Brasil moderno e justo só será possível se todos os estratos da sociedade
estiverem ligados à comunidade digital e à grande rede de informações.
Assegurar ambientes interativos com base em novas tecnologias comunicacionais
precisa significar acesso digital ao conjunto da sociedade brasileira.
Os desafios aqui apresentados só poderão ser enfrentados se
forem disponibilizados recursos humanos articulados em redes presenciais,
semipresenciais, virtuais, em processo de debate e produção contínua, numa
produção de conhecimento transdisciplinar e de geração de alternativas
criativas para um projeto social e educacional.
Lévy (2001)21
afirma que o ciberespaço será o principal ponto de apoio de um processo
ininterrupto de aprendizagem e ensino da sociedade por si mesma, confirmando as
perspectivas dos compromissos assumidos em conferências internacionais de
educação do direito de “aprender por toda a vida”. No ciberespaço todas as
instituições humanas irão se entrecruzar e convergir para uma inteligência
sempre capaz de produzir e explorar novas formas. A utopia eletrônica presente
nesta concepção traz à memória o panfleto Teoria do rádio (1927-1932) de
Bertolt Bretch. O autor apresentava a utopia tecnológica de uma sociedade
conversacional, dialógica, em que, por meio da radiodifusão, todos poderiam
confluir para um consenso e as massas poderiam exigir diretamente prestações de
contas ao Estado (Sodré, 2002)22.
Apesar de as modalidades comunicacionais serem uma
contribuição valiosa para a questão da marginalização educacional, elas, de
maneira independente, não podem dar conta do conjunto de tarefas necessárias
para o enfrentamento do problema. As modalidades comunicacionais afirmam uma
possibilidade técnica para solucionar o problema em questão. Soluções técnicas,
porém, proliferam, mas ao mesmo tempo inibe-se todo o processo criativo de
encontrar linhas de ação e mergulha-se na impossibilidade política para gerir a
transformação social.
Não se pode mais ser capturado pelo encantamento das
Tecnologias da Informação e Comunicação, mas também não se podem negar as
amplas possibilidades de inovação pedagógica que estão sendo oferecidas e,
muito menos, desistir do projeto de (re)significar a educação, tendo em vista
novos esboços de mundo.
Notas:
1
BRASIL. Ministério da Educação. Portaria MEC n. 2.253, de 15 de outubro de 2001. Documenta, Brasília, n. 481, p. 218-219, out. 2001. Publicada no DOU, 19 out. 2001. Seção 1, p. 18. Dispõe que as instituições de ensino superior do sistema federal de ensino poderão introduzir, na organização pedagógica e curricular de seus cursos superiores reconhecidos, a oferta de disciplinas que, em seu todo ou em parte utilizem método não presencial, com base no art. 81, da Lei n. 9.394, de 1996, e no disposto nesta Portaria.2
ALONSO, Kátia. Novas tecnologias e formação de professores. In: PRETTI, Orestes. Educação a distância: construindo significados. Cuiabá: NEAD/IE; UFMT, 2000.3
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 2.ed. rev. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.4
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Rhizome. Paris: Ed. Minuit, 1976.5
O paradigma árboreo tem subjacente a metáfora da árvore e se caracteriza por: organizar o conhecimento do mais simples para o mais complexo; construir o conhecimento de modo linear; adotar estruturas disciplinares; propor uma antecedência claramente estabelecida de disciplinas teóricas sobre as disciplinas práticas; estabelecer a hierarquização do saber disciplinar; propor relações que obedecem a uma determinada hierarquia e ordem intrínseca; definir uma cartografia com entradas planejadas; desenvolver uma tendência à homogeneização.6
O rizoma é o tipo de caule radiciforme de alguns vegetais, formado por uma infinidade de pequenas raízes entrelaçadas e emaranhadas em conjuntos complexos, que ao ser quebrado se reconstitui criando novas formas.7
MACIEL, Ira; PAIVA, Jane. Redes cooperativas virtuais e formação continuada de professores: estudos para a graduação. CD-Room. Trabalho apresentado na 23ª Reunião Anual da ANPEd.GT Educação e Comunicação. Caxambu, Minas Gerais, set., 2000. p. 163.
8
ALAVA, Seraphin. (Org.). Ciberespaço e formações abertas: rumo a novas práticas educacionais? Porto Alegre: Artmed, 2002.9
CYSNEIROS, Paulo. Novas tecnologias no cotidiano da escola. [S.l.: s.n.] Texto de apoio para o curso oferecido na 23ª Reunião Anual da ANPEd. Caxambu, Minas Gerais, set., 2000.10
MACIEL, Ira; PAIVA, Jane.(2000) op. cit.11
MORAES, Denis. O concreto e o virtual: mídia, cultura e tecnologia. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p. 69.12
PERAYA, Daniel. O ciberespaço: um dispositivo de comunicação e formação midiatizada. In: ALAVA, Seraphin (Org.). Ciberespaço e formações abertas: rumo a novas práticas educacionais? Porto Alegre: Artmed, 2002. p. 29.13
CHARLIER, Bernadette. Como compreender os novos dispositivos de Formação? In: ALAVA, Seraphin (Org.). Ciberespaço e formações abertas: rumo a novas práticas educacionais? Porto Alegre: Artmed, 2002.14
CYSNEIROS, Paulo. (2000) op. cit.15
NAJMANOVICH, Denise. O sujeito encarnado: questões para a pesquisa no/do cotidiano. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.16
Id. ibid.17
BOUCHARD, Paul. Autonomia e distância transacional na formação a distância. In: ALAVA, Seraphin (Org.). Ciberespaço e formações abertas: rumo a novas práticas educacionais? Porto Alegre: Artmed, 2002.18
MARASCHIN, Cleci. A sociedade do conhecimento e a educação a distância. CAPISANI, Dulcimira. Educação e arte no mundo digital. Campo Grande, MS: EAD/UFMS, 2000.19
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997. p. 154.20
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LÉVY, Pierre. A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo: Ed. 34, 2001.22
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