INOVAÇÕES PEDAGÓGICAS
EM EDUCAÇÃO PROFISSIONAL:
UMA EXPERIÊNCIA DE UTILIZAÇÃO DO MÉTODO
DE PROJETOS NA FORMAÇÃO DE COMPETÊNCIAS
Eduardo Fernandes Barbosa*
Alberto de Figueiredo Gontijo**
Fernanda Fátima dos Santos***
Abstract
This article presents an experience in professional education based on the application of the Projects Method as a pedagogical resource for developing competencies. This work has its origins in research on the curriculum reform of the Minas Gerais Federal University Technical College Electronics Technical Course. This reform followed the new guidelines that have regulated professional education since 1999. Pedagogical implications stemming from this model of competencies are discussed in relation to the assumptions of the Projects Method, evaluating its effectiveness and efficiency in the process of developing competencies. The article presents an account of a successful experience of applying this method and discusses its main results.
Keywords: Professional Educational; Methodology; Project; Competence; Competence-Based Curriculum; Innovation; Pedagogy.
1. INTRODUÇÃO
Numa visão geral, um sistema de
Educação Profissional (EP) possui
quatro componentes básicos que se
articulam e interagem, visando uma
formação profissional específica: organização
curricular, recursos humanos, recursos
metodológicos e infra-estrutura. As
interações entre professor, aluno, conteúdo,
contexto e método revelam, efetivamente,
as finalidades educativas do
sistema. Nos últimos anos, a Educação
Profissional no Brasil tem sido
objeto de discussões voltadas para a
análise e avaliação de sua estrutura e
funcionamento. As novas formas de
organização do trabalho e as demandas
criadas pelas novas tecnologias
são alguns dos fatores que têm motivado
as reformas atualmente em
curso. O foco principal das discussões
mais recentes tem sido a questão
da organização curricular, com ênfase
na adoção do modelo de competências.
Entretanto, programas de reforma
educacional fundamentados somente
na organização curricular e que não
contemplem ações efetivas na formação
docente, no desenvolvimento
de novas metodologias e na reestruturação
da infra-estrutura escolar
têm sido insuficientes para a obtenção
dos resultados esperados.
Uma educação profissional voltada
para a formação de competências,
exige uma organização curricular
que leve em conta a diversidade
dos processos educativos, dentro e
fora da escola, dos interesses e prioridades
de formação de cada indivíduo.
A necessidade de aprendizagem
significativa, ensino contextualizado
e formação de competências
são exemplos de demandas que se
apresentam como desafios para os
atuais sistemas de ensino. Nesse contexto,
o Método de Projetos vem se
destacando como estratégia pedagógica
que visa estabelecer relações
entre as informações a que os alunos têm acesso e a realidade, instaurando
um ambiente de ensino baseado
na resolução de problemas.
Este artigo relata a experiência
de aplicação sistemática do Método
de Projetos em turmas do Curso de
Eletrônica do Colégio Técnico/UFMG
(Coltec) e tem por objetivo apresentar
as possibilidades de formação de
competências através dessa metodologia.
Na Seção 2 são apresentados
os principais pressupostos do
modelo de Educação Profissional orientado
por competências. A Seção 3
apresenta aspectos básicos do Método
de Projetos e na Seção 4 é relatada
a experiência de aplicação do MP
na Educação Profissional. A Seção 5
apresenta os principais resultados
obtidos e a Seção 6 resume as conclusões
do trabalho realizado.
2 - O MODELO DE EP ORIENTADO POR COMPETÊNCIAS
Até a década de 1970, a EP limitava-
se ao treinamento para a produção
em série e padronizada, em decorrência
de tarefas de menor complexidade
nos postos de trabalho do
país. Somente com a inserção de
novas tecnologias é que se passou a
exigir uma sólida formação para os
trabalhadores. O setor produtivo, a
partir de então, passou a exigir dos
profissionais uma atitude mais flexível
diante das novas situações do
trabalho. Buscando elevar o nível de
qualificação, o Sistema de Educação
Profissional se viu diante da necessidade
de promover uma diversificação
em seus programas e currículos.
O atual modelo de EP se traduz
numa tentativa de adequar a educação
às novas demandas sociais, direcionadas,
sobretudo, para o uso das
tecnologias da informação. Baseado
no desenvolvimento de competências,
esse modelo busca estruturar
um tipo de formação que capacite o
técnico a manter-se em atividade
produtiva e geradora de renda em
contextos sócio-econômicos cambiantes,
transitando entre variadas
atividades produtivas de sua área
profissional. Propõe, para a organização
dos cursos, a contextualização dos
conteúdos, a flexibilização curricular e
a interdisciplinaridade dos programas,
possibilitando aos planos serem regidos
por disciplinas, etapas ou módulos,
atividades nucleadoras e projetos.
Quanto ao papel dos docentes, as
Diretrizes Curriculares para a EP de
nível técnico (MEC, 1999)1 indicam a
necessidade de sua permanente formação,
pautada por competências.
Um currículo por competências
representa um novo paradigma de
ensino, que aposta em metodologias
ativas para desenvolver no aluno a
capacidade de “aprender a aprender”.
Dentre os recursos que podem ser
aplicados na formação de competências,
no contexto da EP, destacam-
se: método de ensino orientado por
projetos; prática profissional em laboratórios
e oficinas; realização de pesquisas como
instrumento de aprendizagem; utilização
das tecnologias de informação; realização de
visitas técnicas; promoção de eventos; realização
de estudos de caso; promoção de
trabalho em equipe. A seleção de uma
estratégia para construção de competências
depende dos objetivos de
aprendizagem que se pretende alcançar
e tem influência direta nos
instrumentos, mecanismos e critérios
de avaliação.
3 - ORIGEM E PRESSUPOSTOS
DO MÉTODO DE PROJETOS
Dentre os recursos utilizados na
formação de competências, no contexto
da EP, o Método de Projetos
tem se destacado pelas amplas possibilidades
que oferece. Surgiu no
início do século XX, a partir de trabalhos
de John Dewey e William Kilpatrick
e, desde sua origem, recebeu
denominações variadas, tais como:
“projetos de trabalho, metodologia
de projetos, metodologia de aprendizagem
por projetos, pedagogia de
projetos, etc”. O Método de Projetos
é uma estratégia de ensino-aprendizagem
que visa, por meio da investigação
de um tema ou problema,
vincular teoria e prática. Gera aprendizagem
diversificada e em tempo
real, inserida em novo contexto pedagógico
no qual o aluno é agente na
produção do conhecimento. Rompe
com a imposição de conteúdos de
forma rígida e pré-estabelecida, incorporando-
os na medida em que se
constituem como parte fundamental
para o desenvolvimento do projeto.
No Brasil, o método foi introduzido
a partir do Movimento Escola
Nova, através dos trabalhos de Anísio
Teixeira e Lourenço Filho. Atualmente,
o Método de Projetos tem
sido visto mais como nova postura
diante do ensino e aprendizagem.
Segundo Amaral (2000),2 a partir da
utilização do Método de Projetos, a
aprendizagem passa a ser vista como
um processo complexo e global,
onde o conhecimento da realidade e
a intervenção nela tornam-se elementos
do mesmo processo. Contrariamente
às metodologias tradicionais,
que trabalham com conteúdos
fragmentados, conduzindo a uma
organização compartimentada de
disciplinas, o MP busca romper com
esse modelo, possibilitando uma articulação
entre conhecimentos de
forma significativa.
Nesse contexto, novos papéis são
atribuídos a professores e alunos. De
acordo com Hernández (1998),3 o
professor torna-se um pesquisador,
dividindo com os alunos a responsabilidade
pela construção do conhecimento.
Quanto aos alunos, cabe-lhes
desenvolver uma postura ativa perante
o processo de ensino-aprendizagem e reconhecer que o professor
não é mais o único a decidir sobre os
caminhos a serem seguidos nem o
centro absoluto do saber. Normalmente,
os alunos estão de tal forma
moldados às práticas tradicionais de
ensino que se torna necessário um
trabalho de esclarecimento quanto
às novas abordagens inseridas pelo
Método de Projetos.
De modo geral, o desenvolvimento
de um projeto envolve três
momentos: primeiro, a problematização,
momento no qual o tema ou
problema é escolhido ou negociado
pelo grupo. Entre os autores que
estudam o assunto não há consenso
quanto à responsabilidade da escolha
do tema gerador. O ponto fundamental
dessa decisão diz respeito à
motivação. O tema não deve ser
assumido pelos alunos como imposição
do professor, tampouco pode
ser fruto de uma curiosidade circunstancial
dos alunos. O tema gerador
deve constituir-se em desafio, algo
que mereça investimento de tempo
e esforço cognitivo e que esteja
ligado a uma necessidade real.
O segundo momento é o desenvolvimento,
no qual são elaboradas
estratégias para buscar respostas ao
problema proposto. Segundo Leite
(1996)4, essas estratégias devem incluir
situações que obriguem o aluno
a agir, observando a existência de
vários pontos de vista e de diferentes
formas e caminhos para o aprendizado.
Devem favorecer o confronto
das próprias idéias com os conhecimentos
técnico-científicos, instigando
a dúvida e a curiosidade. Para isso,
torna-se recomendável estimular o
uso de espaços alternativos de aprendizagem,
como: bibliotecas, ambientes
reais de trabalho, realização de
entrevistas e palestras, etc.
O terceiro momento é a síntese, a
sistematização do conhecimento elaborado
e o ponto de partida para
novos projetos. É neste momento
que se avalia o trabalho realizado –
Os objetivos inicialmente propostos foram ou
não alcançados? De modo geral, a avaliação,
dentro da ótica dos projetos, é desenvolvida ao longo de todo o
processo, buscando verificar a capacidade
do aluno de resolver uma
situação problemática real, dando
enfoque para a mobilização e articulação
de recursos.
4 - A UTILIZAÇÃO DO
MÉTODO DE PROJETOS NUM CURSO DE EP BIBLIOGRAFIA NOTAS
A aplicação sistemática do MP em
turmas do 3º ano do Curso de Eletrônica
do Coltec – UFMG teve início
em 2002, a partir do projeto de
pesquisa – O Método de Projetos como
Recurso Pedagógico na Formação de Competências,
cujos objetivos são o desenvolvimento,
a experimentação e
avaliação da efetividade do Método
de Projetos na formação de competências.
O trabalho com projetos já
vinha sendo aplicado informalmente
pelos professores do Curso de Eletrônica;
entretanto, não havia uma sistematização
que permitisse o aproveitamento
das diversas possibilidades oferecidas
pelo método. Uma pesquisa
realizada com concluintes e egressos
(1996 – 1999) mostrou que o aprendizado
mais efetivo e significativo,
para a maioria dos alunos, ocorreu em
função do desenvolvimento de projetos,
mesmo sem a devida fundamentação
pelos professores.
O trabalho foi desenvolvido num
grupo de 42 alunos, com idades entre
16 e 18 anos, sendo 83% do sexo
masculino e 17% do feminino. Esse
grupo cursava 13 disciplinas com
carga horária acima de 40h/sem, em
regime integral – ensino médio e
educação profissional concomitantes
–, permanecendo 10 horas diárias
no ambiente escolar. Em termos
de infra-estrutura, o Coltec tem boas
instalações e laboratórios; conta com
grande número de professores em
regime de dedicação exclusiva, com
formação suficiente para o atendimento
das demandas de conteúdo
do curso. No grupo de alunos pesquisado
foram detectadas algumas situações
problemáticas, como: falta de
motivação, descumprimento de tarefas
escolares, indisciplina, baixa freqüência
às aulas e dificuldades de
assimilação de conteúdos de formação
específica. Esperava-se, portanto, que
a introdução do MP contribuísse para
modificar a situação descrita.
4.1. Avaliando as Necessidades
Metodológicas na Educação Profissional
Antes da aplicação do Método de
Projetos, foi realizada uma sondagem
para avaliar a efetividade do
método de ensino utilizado, baseado
na pedagogia tradicional, através de
um questionário junto aos alunos. Os
principais resultados estão no quadro
a seguir:




AMARAL, Ana Lúcia. Conflito conteúdo/
forma em pedagogias inovadoras: a pedagogia
de projetos na implantação da escola
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no modelo de competências. In: DUTRA,
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BARBOSA, E. F., ROCHA, M. F., MARTINS,
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conteúdos e métodos. Boletim Técnico do Senac, Rio de Janeiro, v. 27,
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para educação profissional. Brasilia, 1999.
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2001. Inclui bibliografia. [capturado em
nov. 2002] Disponível em: http://
www.senac.br/boletim
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* Doutor em Ciência da Computação pela Universidade
Federal de Minas Gerais – UFMG. Especialista
em Educação Tecnológica pela Leeds University, Inglaterra.
Engenheiro Eletricista pela Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais - PUC-MG. Professor
Adjunto da UFMG - Depto. de Engenharia Eletrônica
(em exercício no COLTEC, Centro Pedagógico da
UFMG).
E-mail: efbarbosa@uai.com.br
** Mestre em Engenharia Elétrica pela Universidade
Federal de Minas Gerais -UFMG. Engenheiro Eletricista
pela Universidade Católica de Minas Gerais - PUCMG.
Professor Adjunto da UFMG - Setor de Eletrônica
- COLTEC - Centro Pedagógico da UFMG.
E-mail: alberto@coltec.ufmg.br
*** Pedagoga pela Faculdade de Educação da Universidade
Federal de Minas Gerais - UFMG. Auxiliar de
Pesquisa no Programa de Bolsas da Fundação de
Amparo à Pesquisa de Minas Gerais - FAPEMIG.
E-mail: ferandasantos@ig.com.br