EXCLUSÃO DIGITAL E EDUCAÇÃO NO BRASIL: DENTRO E FORA DA ESCOLA
Bernardo Sorj*
Julie Remold**
Abstract
The article presents a broad view of the relationships between education, computer and internet use, and social inequality, especially among poor people in urban areas in Brazil. In the first part, it resorts to observations and interviews with school participants from a Brazilian middle-sized city to present Brazil’s school system and the use of information technologies. In the second part, the article describes the general penetration of information technologies among Rio de Janeiro slum-dwellers, based on quantitative and qualitative research carried out in low-income communities in the city during the second half of 2003.
Keywords: Digital Inclusion; Education; Computer; Internet; Use; Information Technology; Brazil.
INTRODUÇÃO
Este artigo pretende apresentar uma
visão ampla da relação entre a educação,
o uso do computador e da internet, e a
desigualdade social, em particular entre
pobres urbanos no Brasil. Na primeira
parte, recorremos às observações e entrevistas de participantes em escolas de uma
cidade brasileira de médio porte para
apresentar o sistema escolar brasileiro e
o uso das tecnologias de informação. Na
segunda parte, descrevemos a penetração
geral das tecnologias de informação
entre os habitantes das favelas do
Rio de Janeiro, com base em pesquisa
quantitativa e qualitativa conduzida
em comunidades de baixa renda do
Rio de Janeiro, durante o segundo
semestre de 2003. A pesquisa foi realizada
em dois turnos de 1.500 entrevistas
cada, e representa um universo
de aproximadamente 1.200.000 pessoas.
Oito grupos focais, compostos
de um conjunto de grupos etários e de
gêneros, complementaram a pesquisa.
Discutimos a importância de vários
fatores, em particular da educação, na
formação da exclusão digital. Finalmente,
nas conclusões, tecemos comentários
mais genéricos acerca dos
desafios para desenvolver políticas para
o avanço da inclusão digital.
DENTRO DA ESCOLA
a) O sistema educacional
O Brasil já progrediu muito na expansão
do seu sistema educacional. Esforços
recentes para melhorar o acesso à
educação foram muito eficazes e os relatórios
do Censo afirmam que 94% das
crianças entre 7 e 14 anos compareceram
à escola em 2000. As matrículas no Ensino
Médio quase dobraram nos últimos
dez anos. No entanto, se por um
lado, observa-se a grande expansão na
história brasileira recente, por outro, o
país agora enfrenta problemas relativos
à qualidade: são altos os índices de reprovação
e repetência e altos os níveis de
analfabetismo funcional dentre aqueles
que receberam educação formal. Em
média, um aluno brasileiro passa mais
de 2,8 anos repetindo de série, e apenas
80% conseguem chegar à quarta série.
Atrás do Gabão e Ruanda, o Brasil tem
o terceiro maior índice de repetência domundo, e os custos de ensino dos anos
de repetência são mais do que suficientes
para oferecer educação a todos os brasileiros
de 7 a 17 anos ou aumentar significativamente
as ofertas de Ensino Superior
(UNESCO. Instituto de Estatística
da UNESCO, 2004a1). De acordo com o
censo escolar mais recente do Brasil, o
problema do atraso dos alunos é tão
grave que mais da metade dos alunos de
5ª à 8ª série tem 15 anos ou mais. No
Ensino Fundamental, um em quatro
alunos repete todos os anos, e tal repetência
é responsável por 20% dos custos
da educação (BRUNEFORTH, M.;
MOTIVANS, A.; ZHANG, Y. 20042).
Os altos índices de repetência não
podem ser atribuídos aos altos padrões
daqueles que são aprovados. Como se
sabe, muitos alunos aprovados no Ensino
Fundamental têm níveis de alfabetização
baixos. Na recente a avaliação
internacional do Pisa3, o Brasil participou
na faixa dos alunos de 15 anos
matriculados na escola acima da 4ª série,
representando somente 69% de todos
os alunos de 15 anos. Os participantes
brasileiros no Pisa ficaram entre os de
desempenho mais baixo, dentre 43 países,
em testes combinados de leitura,
alfabetização científica e matemática. A
despeito do grande número de brasileiros
que afirma ter alfabetização básica,
quando níveis claros de alfabetização são
definidos, aproximadamente 40% dos
brasileiros são incapazes de encontrar
informações em pequenos textos (Lobo,
20044). Esses problemas não podem ser
totalmente atribuídos ao fato de o Brasil
ser um país pobre, com pouco para gastar
em educação. Os pesquisadores do
Pisa constataram que os países que gastam
mais em educação tenderam a ter
melhores resultados nos testes, mas
concluíram que os níveis de desempenho
para os alunos de países com notas
baixas, como o Brasil, “ficam consideravelmente
aquém do que o gasto por aluno preveria”
(UNESCO. Instituto de Estatística da
2004b5). Ou seja, as notas do Brasil na
avaliação foram baixas, mesmo se comparadas
a outros países com níveis de
renda per capita similares.
A disponibilidade de professores
qualificados também é um problema no
país. De acordo com o Censo de 2000,
mais de 40% da população têm menos
de 20 anos de idade, e 31% da população
estão na escola. Junte isso a uma ampla
população com idade escolar e crescentes
índices de presença na escola, e a escassez
de professores qualificados torna-se um
problema previsível. Graças, em parte, a
expansões nas ofertas de educação a professores
em instituições de Ensino Superior,
e à legislação recente, mais de 90%
dos professores de escolas do Ensino
Médio agora têm formação superior.
Porém, no Ensino Fundamental, seja
no primeiro ou no segundo segmento,
somente 36% e 77% dos professores,
respectivamente, possuem formação
universitária (IBGE, 20036).
Apesar de todos os problemas de
qualidade da educação, os alunos brasileiros
mostram um alto nível de interesse
e compromisso em aprender. A expectativa
de vida escolar de 13 anos no Brasil
é notável, considerando a média de 2,8
anos que os alunos repetem. Aparentemente,
os alunos reconhecem as oportunidades
que acompanham a educação
pública, e perseveram, apesar das reprovações
e dificuldades. Em um questionário
do Pisa focado na leitura, os alunos
brasileiros estão incluídos dentre os que
apresentaram os mais altos níveis de
interesse. Isso, apesar de as notas em
alfabetização combinada terem sido as
mais baixas (KIRSCH, I., JONG, J. de;
LAFONTAINE, D. et al., 20017) de todos
os países participantes, e de pouquíssimas
escolas no país oferecem bibliotecas
ou empréstimo de livros. Oferecidas
as oportunidades para alcançar
um bom desempenho acadêmico, é possível
que os alunos brasileiros se esforcem
substancialmente no sentido de
obtê-lo.
b) Tecnologia da Informação e
Comunicação
Embora o número de escolas com
computadores e, conseqüentemente, o
número de crianças com acesso a eles na
escola permaneçam baixos, a Tecnologia
da Informação e Comunicação (TIC)
desempenha papel importante nos planos
para melhora da educação brasileira.
Há alguns anos, o governo federal anunciava
planos para instalar em todas as
escolas conexões de internet em banda
larga, mas os fundos direcionados para
esses fins, como parte de um programa
para universalizar o acesso às telecomunicações
(Fust), não foram disponibilizados
(SORJ, 20038).

A figura 1 mostra os percentuais das
escolas brasileiras do Ensino Fundamental
e Médio com acesso à recursos
TICs. As escolas estaduais atendem cerca
de 40% da população escolar, as municipais
são responsáveis por cerca de 50%,
e aproximadamente 10% dos alunos freqüentam
escolas particulares. Observe
que a categoria para escolas com ao menos
um computador inclui computadores
não dedicados ao uso acadêmico,
como aqueles usados exclusivamente
pelos funcionários. Os dados mostram
que, em todos os três níveis, as escolas
estão aumentando seus investimentos
em tecnologia da informação, mas até
mesmo em escolas particulares, onde é
mais provável que os computadores estejam
disponíveis e onde os índices de
aumento estão caindo, somente metade
das escolas oferece laboratórios de informática
para uso do aluno. Ainda assim,
considerando que a freqüência em escolas
públicas e particulares relaciona-se à
renda, os resultados indicam que a exclusão
social reproduz-se no acesso a computadores
e à internet nas escolas.
Assim como na maior parte do
mundo, a decisão de que as escolas brasileiras
devem ter computadores para
uso educacional antecipou-se a muitas
decisões importantes sobre como os
computadores seriam usados. Por mais
de dez anos, o governo promoveu e
financiou computadores em salas de aula
com orientações limitadas de uso.
O trabalho de campo de entrevistas
e observação dos participantes nas salas
de aula de uma cidade brasileira de médio
porte revelam que os computadores às
vezes acabam sendo desperdiçados ou
mal utilizados. Muitas escolas foram
incapazes de atender as exigências de
segurança recomendadas para equipamentos
caros. Em uma escola de Ensino
Médio do Rio de Janeiro, os computadores
foram guardados por meses durante
o período de reformas. Quando
foram religados, a maioria dos conteúdos
havia sido removida. Muitas escolas
que têm apenas um computador guardam-
no em uma área acessível apenas a
professores e administradores para evitar
problemas de roubo e danos. Embora
não sejam freqüentes casos de roubo,
há muita pressão para que os diretores
escolares mantenham os computadores
seguros, mesmo que isso signifique
mantê-los fora de uso. Os laboratórios
de informática sempre devem ter barras
nas janelas e portas, e em muitos casos,
sistemas de alarme também. Esses padrões
de segurança impossibilitam as
escolas de implementar um programa de
informática efetivo em sala de aula, com
uma ou duas máquinas por sala, conforme
defendido por muitos pesquisadores
educacionais. A separação física de
computadores em laboratórios de informática
apresenta desafios adicionais para
a integração curricular.
Um grande número de professores
opta por não usar os laboratórios de
informática em virtude da dificuldade
em integrar os trabalhos no computador
com o ensino regular de sala de aula. Em
muitas escolas, esse fato é formalizado
quando uma professora é dispensada
das suas tarefas normais para incluir em
sua programação um horário semanal
no computador. Em escolas que não
oferecem aulas de informática à parte, a
maioria dos professores que usa o laboratório
o faz para ensinar habilidades no
computador ou para substituir a aulas
de arte, permitindo que as crianças usem
programas de desenho. Os professores
reconhecem a importância da integração
curricular, e muitos lamentam o fato de
terem recorrido ao computador ou aulas
de arte em vez de integrar o uso do
computador ao programa. Alegam que o
tempo de planejamento limitado e o
acesso restrito aos computadores fora de
aula dificultam o planejamento de atividades
relevantes às metas educacionais.
Alguns professores conseguem usar
os computadores de forma integrada às
disciplinas. Alguns bons exemplos são
encontrados em escolas particulares,
onde, em vez de um professor de informática
dar aulas de informática, a escola
consegue contratar monitores para apoiar
os professores no planejamento de
atividades de informática. Tais monitores
podem pesquisar na internet com
antecedência informações relativas ao que
a turma esteja estudando e fornecer links
úteis ao professor. Ou podem instalar o
software necessário nos computadores a
tempo para a visita de uma turma ao
laboratório. Na ausência de problemas
logísticos, essas escolas liberam os professores
para concentrar esforços no sentido
de promover o melhor uso dos seus
computadores.
Nas escolas públicas, é comum que
as tentativas de integração curricular
não sejam bem- sucedidas, porque os
níveis de alfabetização dos alunos,
combinados com a complexidade do
material que estavam estudando, impossibilitaram
que os alunos concluíssem
satisfatoriamente uma tarefa independente.
Os alunos solicitados a
escrever suas próprias redações, com
base em pesquisa no computador, acabaram
simplesmente copiando textos
das suas fontes. Outros escreveram
seus próprios textos sobre idéias que,
evidentemente, não entendiam.
Em geral, os professores que usam
os computadores estão satisfeitos sobre
como o uso da tecnologia melhora a
auto-estima do aluno, o seu interesse na
escola e a sua motivação. Alguns dizem
que os pais ficam orgulhosos quando
vêem os trabalhos feitos pelos filhos no
computador e que os computadores ajudam
a aumentar o interesse dos pais.
Outros consideram que a freqüência escolar
aumenta nos dias previstos para
funcionamento do laboratório de informática,
e muitos afirmam que os alunos
se orgulham de saber usar o computador.
Alguns professores acreditam que
os benefícios de auto-estima trazidos
aos alunos por si só já justificam as suas
atividades no computador, e quase todos
os professores conseguem propor
projetos no computador como prêmios
pelo árduo trabalho em outras áreas.
Porém, a maioria de usos do computador,
em geral, não contribui para
realização de seus objetivos educacionais
das escolas. Muitos professores
sabem disso, e a resistência para usar
os computadores da forma que julgam
mais adequada ilustra não somente
as limitações de horário e recursos,
mas também as limitações de sua
experiência com o conhecimento de
abordagens alternativas ao ensino.
FORA DA ESCOLA
a) Informática nas favelas
O acesso a computadores nas favelas é
maior do que a média para muitas capitais
no Norte e Nordeste do país. O acesso a
computadores nas favelas do Rio de Janeiro
aproxima-se da média nacional, mas
encontra-se 30% abaixo da média para o
estado. Em relação à cidade do Rio de
Janeiro, há 2,6 vezes mais computadores
per capita na cidade do que nas favelas (seis
vezes mais em bairros ricos).


A distribuição desigual de computadores
entre a população de diferentes
cidades no Brasil é um reflexo
dos níveis desiguais de riqueza e educação
entre as regiões e os estados.
Isso é notadamente flagrante para a
população pobre das regiões Norte e
Nordeste, se comparadas à região Sul,
mais rica. Mas ter um computador
também se associa a algo mais intangível:
reforça a noção de que o conhecimento
do computador é um bem
valioso e pode ser a chave para obter
emprego e sucesso na educação. Em
outras palavras, à medida em que o
sistema produtivo torna-se mais informatizado,
a idéia de que é importante
dominar essa ferramenta se “infiltra”
rapidamente nos diversos setores
sociais: o uso do computador
passa a ser visto como um pré-requisito
para conseguir emprego e sair-se
bem na escola.
Se o uso dos computadores tem
uma correlação óbvia com o nível de
renda e educação, sua utilização está
igualmente associada a padrões culturais
mais amplos de penetração da informática
no ambiente socioeconômico.
De fato, na pesquisa e nos grupos
focais, a única pergunta para a qual
encontramos uma resposta consensual,
independentemente do nível de
educação, etnia ou gênero, foi que aproximadamente
todos os entrevistados
indicaram que saber usar o computador
ajuda a conseguir emprego.
A exclusão digital em função de
gênero, raça e grupos etários reproduz
nos setores mais pobres da população,
assim como varia entre favelas
diferentes. Fazer referência a “comunidades
pobres” pode nos levar a imaginar
um grupo homogêneo, quando,
na realidade, há diferenças em cada
comunidade pobre e dentre elas:

Porém, o número de pessoas com
computadores em casa não define o
número de usuários, que é mais do que
o dobro do número daqueles que têm
computador. (Figura 5)

Uma possível explicação sobre por
que o número de usuários de computadores
é maior que o número de residências
com computadores é que vários
membros da família usam um computador.
Mas isso não explica totalmente
a diferença, já que somente
27,6% dos entrevistados indicaram
que o principal local onde usam o
computador é em casa.
O grande número de usuários em
relação ao de proprietários deve-se principalmente
ao fato de que o local de
trabalho, não a casa, é o principal espaço
onde os moradores das favelas usam
computadores, seguido pelas casas dos
amigos e familiares. A casa é o terceiro
local mais comum onde as pessoas
usam computadores. Nas favelas onde
existem, as Estações Futuro10 (telecentros)
criadas pela ONG Viva Rio11
são o segundo local mais freqüente
onde as pessoas acessam os computadores,
com aproximadamente 30% de
usuários, segundo a pesquisa. (tendo
indicado essa resposta). Esses dados
contradizem a expectativa normal de
que nos setores mais pobres da população
o número de usuários por computador
em casa é alto.
Provavelmente uma das principais
descobertas da pesquisa é que o local de
trabalho, e não a casa, é o principal ponto
de acesso para computadores e internet.
O local de trabalho também é um local
para aprender a usar os computadores e
a principal fonte de motivação para fazêlo.
Isso implica importantes mudanças
não apenas no número de pessoas digitalmente
incluídas, mas também no perfil
do usuário. (Figura 6)

Como veremos, as mulheres – porque,
na maioria dos casos, trabalham
como domésticas ou faxineiras – apresentam
um maior nível de exclusão digital
que os homens nos setores mais
carentes da sociedade. Por outro lado, a
população negra masculina, a que possui
uma média de posse de computadores
por família muito mais baixa que a da
população branca nas favelas, encontra
no trabalho um mecanismo de integração
social. O acesso a computadores fora
de casa tem um impacto de democratização
geral, embora democratizante, permitindo
assim que as pessoas com níveis
educacionais mais baixos ingressem no
mundo dos computadores.
Tal fenômeno de dissociação entre a
posse e o uso de computadores reproduz-
se em relação à internet. Embora
apenas metade daqueles que têm computadores
em casa tenha acesso à internet,
o número de usuários da internet é
mais do que o triplo daqueles que têm
acesso em casa. (Figura 7)

b) Fatores para integração/
exclusão
Dentre os usuários de computadores
na favela, assim como na população
geral, há uma tendência de diminuição
do uso do computador à medida em que
envelhecem. Na favela, porém, essa tendência
é especialmente notável. Os níveis
educacionais mais baixos, assim como as
chances menores de aprender no trabalho,
geralmente ocorrem nos setores mais
idosos da população. (Figura 8)

Não é de se espantar que os seguintes
gráficos indiquem haver uma clara
correlação entre a renda e a posse de
computadores. (Figura 9)

Porém, o nível de escolaridade é fundamental
dentre aqueles que estudaram
de um a três anos, encontramos dois
computadores a cada 100 casas; dentre as
pessoas que estudaram mais de 15 anos,
a posse de computadores chega a 48,6 a
cada 100 casas. Dentre os usuários de
computadores, dentro ou fora de casa, o
padrão que associa escolaridade ao uso do
computador é mantido, mas a distância
tende a diminuir. Isso indica ser possível
que as pessoas com menor escolaridade
encontrem em computadores fora de casa
um mecanismo para igualar a condição
social. (Figura 10)

O mesmo ocorre com os níveis de
renda. (Figura 11)

Conforme mostrado na figura 12,
enquanto o percentual de brancos
que possuem um computador é mais
alto que a média (9,0%), o percentual
de mestiços é igual, e o percentual
da população negra é apenas metade
da média.

Essa situação reflete a posição duplamente
desfavorável da população
negra em termos de renda e educação.
(Figura 13)

Mas em termos de usuários de computadores,
essa diferença tende a diminuir
devido ao acesso a computadores
fora de casa. (Figura 14)

Parece que o acesso fora de casa funciona
como um fator de criação de oportunidades
para a população negra masculina.
O acesso externo parece ter influência
oposta sobre o acesso da população
feminina:

O trabalho funciona como um fator
que contribui com a exclusão digital
no caso das mulheres e com o aumento
da igualdade social em relação
aos negros. A maioria das mulheres
trabalha em serviços de faxina ou domésticos,
e não tem oportunidade de
usar computadores, enquanto um número
maior de homens, inclusive
muitos que trabalham como office-boys,
encontram-se em um ambiente que os
convida e permite a adquirir conhecimento
básico de computadores.
CONCLUSÕES: POLÍTICAS
PÚBLICAS E INCLUSÃO
DIGITAL
Considerando as descobertas desta
pesquisa e a literatura internacional sobre
exclusão digital, podemos tirar algumas
conclusões sobre os objetivos de
universalizar o acesso aos computadores
e à internet e democratizar a informação.
O conhecimento básico de TICs cada vez
mais torna-se um pré-requisito para o
emprego. A universalização de conhecimentos
básicos de informática e da internet
é fundamental para limitar o impacto
negativo que pode ter sobre os setores
mais carentes, a despeito de várias limitações
das políticas para democratizar a
informação. A luta pela inclusão digital
é uma luta contra o tempo. Novas tecnologias
da informação aumentam desigualdades
sociais existentes e as políticas
para inclusão digital nada mais são que
uma luta para re-igualar as possibilidades
de acesso ao mercado de trabalho e as
condições de vida.
Os programas para inclusão digital
precisam confrontar as complexidades
das questões envolvidas:
1. As políticas para universalizar o
acesso à internet nos países em desenvolvimento
não terão êxito caso não se
associem a outras políticas sociais, em
particular àquelas relativas à educação.
Nos países em desenvolvimento, onde
os índices de analfabetismo são muito
altos (no Brasil, este índice é de aproximadamente
30%), o esforço para aumentar
o acesso a serviços públicos (educação,
saneamento, segurança, saúde,
justiça) torna ainda mais complexa da
luta contra a exclusão digital. Obviamente,
isso não significa que devemos esperar
até conseguirmos erradicar o analfabetismo
a fim de desenvolver políticas
de inclusão digital. As demandas da economia
e da geração de empregos exigem
políticas inter-relacionadas que trabalhem
com diferentes setores sociais e
diferentes ritmos para universalizar os
serviços públicos. Ao mesmo tempo,
não podemos ignorar as fortes interligações
entre diferentes políticas sociais.
Definitivamente, o sucesso dessas políticas
depende de um programa integrado
para universalizar vários serviços públicos:
o acesso universal a novas tecnologias
da informação e comunicação é
impossível sem o acesso universal a
outros bens sociais.
2. Conforme indicado antes, é fundamental
definir prioridades de públicos-
alvo. Esta pesquisa indica que telecentros
em comunidades carentes são
usados por setores da sociedade que já
têm um nível básico de educação e renda
relativamente mais alta. Uma política
para universalizar o acesso à internet
deve ter como objetivo primordial a rede
educacional, já que esse é o único local
que pode ser efetivamente alcançado pela
maioria da população. Conforme indicado
pela pesquisa, o local de trabalho é um
fator importante no aumento da inclusão
digital. As políticas de inclusão digital
devem criar incentivos para aumentar
o número de empresas que usam computadores
e internet, assim como para
oferecer cursos de informática e de internet
aos seus funcionários.
3. Propor que as escolas sejam usadas
para condicionar as novas gerações a
usar o computador e a internet não significa:
a) transformar as TICs em instrumento
privilegiado para o sistema educacional,
nem b) investir excessivamente
em quantidades exageradas de computadores
nas escolas. A pesquisa sobre o
impacto do uso de computadores e da
internet nas escolas é contraditória. A
adaptação dos professores a esse novo
instrumento é um longo processo que
não pode ser dissociado da necessidade
de melhoria geral do desenvolvimento
profissional desse segmento. Por outro
lado, o desenvolvimento de softwares
adequados, a adaptação de sistemas pedagógicos
e o desenvolvimento de técnicas
de ensino críticas sobre o uso de TICs
serão um processo necessariamente longo
na maioria dos países em desenvolvimento.
Até esse momento, o papel dos
laboratórios de TICs deve ser apresentar
aos alunos esses instrumentos e seus
usos, dando-lhes treinamento sobre
programas básicos, a fim de motivá-los
a utilizar a tecnologia para facilitar uma
futura inserção no mercado de trabalho.
Dentro dessas limitações, um programa
de TIC mais modesto, consistindo em
um curso de um ano durante o Ensino
Fundamental e outro mais durante o
Ensino Médio, seria um ponto de partida
razoável.
4. O desenvolvimento de telecentros
– locais onde o público possa acessar
a internet – baratos é fundamental em
qualquer tipo de política para universalizar
serviços. A despeito dos esforços de
ONGs para desenvolver telecentros comunitários,
o seu impacto quantitativo,
tem sido, na prática, muito limitado. Ao
mesmo tempo, as ONGs desempenham
uma importante função ao demonstrar
que telecentros também podem ter um
efeito importante nas comunidades em
que operam. Mas universalizar o acesso
deve ser uma preocupação e uma responsabilidade
da política pública. O mercado
pode ter impacto direto, como no
caso dos telecentros peruanos – administrados
por chefes de família com custo
reduzido em função do uso de equipamentos
baratos e programas piratas –
ou podem funcionar como parceiro na
implementação das políticas. As ONGs
também podem ser instrumentais na
implementação local de programas públicos.
Porém, as políticas governamentais
devem alcançar uma escala e setores
da população que iniciativas voluntárias
ou o mercado não consigam alcançar. As
políticas públicas para universalizar o
acesso aos computadores e à internet
exigem soluções criativas para aumentar
o acesso a comunidades e indivíduos
mais carentes, com serviços subsidiados,
executados por empresas privadas,
associações comunitárias e/ou ONGs.
5. As políticas de inclusão digital
devem ter metas claras, baseadas no que
esperam e no que for possível alcançar,
dadas as condições sociais existentes e a
sua capacidade efetiva pública para absorver
as TICs. A fim de alcançar níveis
mais altos de eficiência sociofinanceira,
as políticas de inclusão digital devem
usar estudos quantitativos e qualitativos
profundos. Os estudos devem usar metodologias
e indicadores que considerem
as várias formas de acesso e usos das
TICs e as barreiras para melhorar/possibilitar
a inclusão digital.
O verdadeiro valor da informação
depende da habilidade do usuário em
interpretá-la. Para ser útil, a informação
deve ter significado, ser transformada
em conhecimentos através de um processo
de socialização e práticas para construir
capacidades analíticas. Assim, o confronto
com a divisão digital não pode ser
apartado da divisão educacional.
NOTAS
1 UNESCO. Instituto de Estatística. Global
Education Digest 2004 Comparing education
statistics across the world. Montreal,
2004a.
2 BRUNEFORTH, M.; MOTIVANS, A.;
ZHANG, Y. Towards higher levels of
education. Investing in the future: financing
education in Latin America and the
Caribbean. Unesco Instituto de Estatística.
Montreal, 2004.
3 PISA – Programme for International Student
Assessment é um programa internacional de
avaliação comparada, cuja principal finalidade
é produzir indicadores sobre a efetividade
dos sistemas educacionais, avaliando
o desempenho de alunos na faixa dos 15
anos, idade em que se pressupõe o término
da escolaridade básica obrigatória na maioria
dos países. Esse programa é desenvolvido
e coordenado internacionalmente pela
Organização para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE), havendo em
cada país participante uma coordenação
nacional. No Brasil, o Pisa é coordenado
pelo Inep – Instituto Nacional de Estudos
e Pesquisas Educacionais. Disponível em:
http://www.inep.gov.br/internacional/
pisa/.
4 LOBO, F. Ensaio sobre a cegueira. Carta
Capital, São Paulo, v.11, n. 311, pp. 10-16,
2004.
5 UNESCO. Instituto de Estatística. Literacy
skills for the world of tomorrow: further
Results from PISA 2000. Montreal, 2004b.
6 IBGE. Censo Demográfico 2000 : educação
– resultados da amostra. Rio de Janeiro,
2003.
7 KIRSCH, I., JONG, J. de; LAFONTAINE, D.
et al. Reading for change: performance
and engagement across coutries. 2001.
Disponível em: www.pisa.oecd.org/dataoecd/
43/54/33690904.pdf.
8 SORJ, B. brasil@povo.com: a luta contra a
desigualdade na Sociedade da Informação.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
9 INEP. EDUDATABRASIL. Sistema de Estatísticas
Educacionais.2004. . Disponível em:
http://www.edudatabrasil.inep.gov.br/.
10 Estação Futuro. Projeto desenvolvido pela
ONG Viva Rio, que tem como objetivo
popularizar o uso da internet através da
instalação de pontos de acesso em comunidades
de baixa renda, com computadores
ligados à rede mundial em conexão sem fio
em banda larga. Hoje já são dez Estações em
funcionamento: Rocinha, Complexo da
Maré, Praça Seca, Praia de Ramos, Urucânia,
São Cristóvão, Santa Cruz, Macaé, Cesarão,
Campo Grande e mais a “Barraca do Futuro”,
na Feira de São Cristóvão. Nas Estações,
os usuários recebem orientação de
monitores para navegar na internet, criam
seu endereço de correio eletrônico gratuito
etc.
11 ONG Viva Rio: http://www.vivario.org.br.
* Ph.D. em Sociologia na Universidade de Manchester,
Inglaterra. Prof. titular de Sociologia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, diretor do Centro
Edelstein de Pesquisas Sociais e pesquisador associado
do Centro Internacional de Segurança Humana/
Viva Rio e do Instituto de Estudos do Trabalho
e Sociedade (Iets). E-mail: besorj@attglobal.net.
Site: www.bernardosorj.com.br.
** Mestre em Educação pela Universidade de Stanford,
Stanford, Califórnia, EUA, 1998 – 1999. Bacharelado
em Antropologia pela Universidade de Massachusetts
em Amherst, Massachusetts, EUA, 1990 – 1994.
Licenciatura em Ciências Sociais (Social Studies
Teaching Certificate) pela Universidade de Massachusetts
em Amherst, Massachusetts, EUA, 1992 - 1994.
E-mail: remold@stanfordalumni.org.
Título original: Digital divide and education
in Brazil: inside and outside the school.
Tradução de Jacob J. Pierce.
RESUMEN
Bernardo Sorj; Julie Remold. Exclusión
digital y educación
en Brasil: en la escuela y
fuera de ella.
Presenta una visión amplia de la educación,
del uso de la computadora y la
internet y su relación con la desigualdad
social, particularmente entre los
pobres urbanos de Brasil. En la primera
parte trae observaciones y entrevistas
con participantes de escuelas de
una ciudad brasileña de mediano porte,
para presentar el sistema educacional
brasileño y el empleo de las tecnologías
de la información. En la
segunda parte, describe la penetración
general de las tecnologías de la
información entre los habitantes de
las favelas de Rio de Janeiro, con base
en una investigación cuantitativa y
cualitativa sobre comunidades de bajos
ingresos de la ciudad realizada en
el segundo semestre de 2003.
Palabras-Clave: Inclusión digital;
Educación; Computadora,
Internet; Uso; Tecnología de la
información; Brasil.