PEDAGOGIA DA AUTORIA
Carmen Moreira de Castro Neves*
Abstract
Digital technology, insofar as it promotes interactivity, integration and media convergence, brought to the contemporary agenda the discussion on a new distance education. This new distance education rejects bureaucratized and inflexible projects that depersonalize course attendants and inhibit innovation and creativity. The proposal put forward in the text is a pedagogy that promotes authoring, based on strategies that view the student as the protagonist of the educational act, respecting the complexity of human beings and their totality and capacity to build significations and generate socially relevant knowledge. This article presents projects that are being developed by the Education and Culture Ministry Distance Education Secretariat, using authoring pedagogy. These projects seek to foster and translate numerous responses from individual and collective actors motivated to explore, analyze, contextualize, deepen, and expand their own view and experience with a given issue.
Keywords: Distance Education; Pedagogy; Authoring Pedagogy; Information Technologies; Communication; Interaction.
Especialistas em educação são
unânimes em reconhecer que as novas
tecnologias da informação e da comunicação
revolucionaram a educação a
distância, possibilitando interações
que abrem caminho para processos
educacionais com elevado padrão de
qualidade e que se refletem na educação
presencial, dando-lhe uma nova
dinâmica. Podemos considerar que
evoluímos quando não adjetivarmos
mais a educação com presença ou distância
e soubermos integrar harmoniosamente
espaços e tempos de
aprendizagem, trabalho individual e
colaborativo, a produção de textos,sons e imagens. Trata-se de aprender
de forma intencional, profunda e ética,
valorizando os sujeitos – educadores
e alunos. Para vencer esse desafio
sempre adiado de valorização dos
sujeitos, posto há muito por grandes
educadores, o texto propõe a pedagogia
da autoria, partindo do programa
TV Escola e do curso Mídias na Educação,
mas indicando sua relevância em
todos os processos educacionais, inclusive
na formação profissional.
1. EDUCAR EM UM
MUNDO SEM
DISTÂNCIAS
O final do século XX mudou definitivamente
a educação a distância.
As tecnologias da informação e da
comunicação – TICs – trouxeram contribuições
essenciais ao processo de
educar e educar-se a distância, especialmente
ao possibilitar interações síncronas e assíncronas de alunos e tutores
(professores ou orientadores,
dependendo do projeto) e de alunos
entre si, prática que favorece o trabalho
colaborativo.
Em decorrência dessas interações,
todo o processo educacional passou a
exigir revisão de paradigmas: planejamento,
gestão, profissionais multidisciplinares,
materiais didáticos, infra-
estrutura, avaliações, relação tutor/
alunos, arquitetura da escola, investimentos.
Todos os componentes
da educação vêm sendo aperfeiçoados
na perspectiva de colocar o aprendiz
no centro do projeto educacional.
Na educação a distância contemporânea,
a busca pela qualidade repele
a massificação que caracterizou os cursos
por correspondência de décadas
passadas e investe em um atendimento
mais personalizado, capaz de
valorizar as múltiplas inteligências do
ser humano.
Mas não foi só a educação a distância
que mudou. A inserção das TICs na
escolas – assim como em hospitais,
empresas, bancos, supermercados, fábricas
e em todas as atividades humanas
– revigora a forma como se faz
educação presencial. De fato, técnicas e
metodologias de educação a distância
passam a ser incorporadas ao dia-a-dia
da escola, anunciando uma outra evolução:
a integração entre presença e
distância. Assim, derrubam-se as fronteiras
físicas da escola, abrem-se caminhos
para novas fontes de pesquisa e
conhecimento, ampliam-se os espaços
educacionais, combinam-se momentos
presenciais com virtuais, renova-
se o papel de professores e gestores
comprometidos com a concretização
de uma educação
contextualizada e
de qualidade.
Nesse cenário e com o aumento
do uso das redes, de equipamentos
como as web-cams e de possibilidades
de encontros síncronos, nota-se um
esgotamento da expressão “educação a
distância”.
Em alguns países, a denominação
educação a distância está sendo abolida,
para representar um projeto educacional
mediado por tecnologias em que
as interações ora são presenciais, ora
a distância: na Suécia, é educação flexível,
na Inglaterra, educação combinada;
na China, educação móvel.
A verdadeira evolução será quando
não for preciso adjetivar a educação
com presencial ou a distância: simplesmente
educação.
Infelizmente, o Brasil não está
pronto para essa evolução: ainda discutimos
legislação específica para
EAD; ainda há perguntas sobre quanto
deve ser o percentual para um curso
ser considerado a distância ou presencial;
ainda há dúvidas, mesmo em
universidades, sobre haver ou não
qualidade em um curso a distância;
ainda são escassos e espasmódicos os
investimentos em infra-estrutura tecnológica
nas instituições públicas; as
licenciaturas continuam diplomando
professores sem domínio de diferentes
linguagens e tecnologias; ainda
não conseguimos sensibilizar as agências
reguladoras e as empresas de telecomunicações
para a importância de
tarifas diferenciadas, o mais possível
próximo de zero, para a área de educação;
ainda falta aos estudantes a
cultura de estudar de modo autônomo,
independente e responsável; ainda
não temos um laboratório em cada
escola pública quanto mais computadores
em cada sala de aula...
Nada disso, no entanto, deve ser
motivo para desânimo. O panorama
no país mostra experiências animadoras
em educação básica, técnica, tecnológica,
graduação, pós-graduação e
corporativa, em instituições públicas
e privadas.
A comparação entre o que há para
ser feito e os bons resultados já alcançados
deve motivar o país a definir
políticas públicas para vencer desafios.
E os principais desafios são: (1)
a universalização da educação básica e
a expansão da educação superior; (2)
a valorização dos profissionais da educação,
assegurando-lhes salário, formação
continuada e condições de trabalho;
(3) a adoção de modelos pedagógicos
que efetivamente coloquem
o aluno como foco da aprendizagem,
garantindo elevado padrão de qualidade
em todos os níveis, modalidades
e etapas e (4) a democratização
do acesso às tecnologias nas escolas,
na perspectiva da inclusão digital da
população1.
Os dois primeiros desafios são óbvios.
Qualquer análise que seja feita
sobre um país condiciona seu desenvolvimento
humano e crescimento
econômico ao nível de educação do seu
povo. Universalizar a educação básica
(apenas a fundamental já não é suficiente,
principalmente em países de grande
população de excluídos), expandir
os índices de acesso à educação superior
e ter profissionais bem formados
e motivados são pilares para a soberania
em um mundo globalizado.
Os dois últimos se interligam: qualidade
na educação significa a formação
de cidadãos éticos, capazes de
construir conhecimento, ler e interpretar
criticamente o mundo e de agir
sobre a realidade, melhorando a própria
vida e a da comunidade. Uma das
estratégias para a qualidade no processo
de ensino e aprendizagem é a
adoção de uma pedagogia que coloque
o aluno como centro da ação educacional.
As tecnologias facilitam esse
processo, modificando o papel do
educador e dos alunos na sala de aula.
A Secretaria de Educação a Distância
– Seed, do MEC, criada em 1996,
conhece as resistências e incertezas
quanto ao uso e impacto das tecnologias
nos processos formativos, bem
como os desafios da qualidade na
educação presencial e a distância. Acreditando
no potencial educativo das
tecnologias e com base nas experiências
de implantação dos programas2
TV Escola, curso TV na Escola e os
Desafios de Hoje, Programa Nacional
de Informática na Educação - Proinfo, Programa de Formação de Professores
em Exercício - Proformação,
Paped e Rádio Escola, o Departamento
de Produção e Capacitação em EAD
da Seed, definiu como política para
suas ações de capacitação, a partir de
2005, a pedagogia da autoria.
2. A PEDAGOGIA DA
AUTORIA
A pedagogia da autoria busca concretizar
desafios lançados por Paulo
Freire, Vigotsky, Piaget, Morin e outros
educadores que põem em relevo
a complexidade e totalidade do ser
humano e sua capacidade de construir
significados e de gerar projetos e conhecimentos
socialmente relevantes.
Como chegamos a ela? Em 2004, a
TV Escola fez um convite aos alunos
e professores, pelo próprio canal: mandem
um vídeo com poesia e ele será
veiculado na I Semana de Poesia da
TV Escola, em outubro. Não havia
prêmios ou ajuda financeira. Sugeriase
às escolas um trabalho além dos
muitos que ela já faz normalmente,
apenas com a promessa de exibição do
vídeo. Dos lugares mais distantes do
Brasil, mais de 300 vídeos foram enviados
e cerca de 50% com poesias de
autoria dos próprios alunos. A reação
dos alunos e a expectativa quanto a
novas participações mostraram que,
efetivamente, crianças e jovens estão
prontos para criar e mostrar suas criações.
Por isso, o Brasil é campeão em
uso de Orkut, blogs e fotologs.
Além desse projeto, observaramse
os resultados das quatro edições
do curso a distância TV na Escola e os
Desafios de Hoje (ofertado de 2000 a
2003), em que os educadores-cursistas
precisavam desenvolver um projeto
de trabalho final, aplicando o que
haviam aprendido ao longo de 180
horas. A metodologia instrumentalizava
os cursistas para o uso crítico e
criativo de TV e vídeo em sala de aula,
mas também os habilitava a produzirem
seus próprios vídeos.
A quantidade de professores que
optou pela produção de um vídeo,
em vez de um paper, como projeto de
trabalho final surpreendeu à Seed e às
universidades públicas envolvidas na
tutoria e implementação do curso. E
esses professores relataram que nunca
mais assistiram à televisão como
faziam antes e nunca mais trabalharam
em classe como costumavam:
sentiam-se muito mais críticos, confortáveis
e seguros com o uso da TV
e vídeo.
De fato, a maioria dos cursos sobre
uso de tecnologias limita-se a
formar um usuário. Ao deparar-se
com os alunos, no entanto, o professor
percebe-se diante de alguém que
se aventura e cria páginas na web,
blogs, fotologs, inventa filminhoscom a câmera digital, domina os recursos
de um celular, enfim, alguém
capaz de produzir.
Processos educacionais, portanto –
sejam presenciais, sejam a distância –,
devem ser mediados por tecnologias,
mas não se restringir ao manuseio do
equipamento e à mera reprodução do
que já está feito.
A pedagogia da autoria é intencional,
profunda, ética. Parte do conhecimento
que está produzido fica disponível
em livros, revistas, jornais, televisão,
vídeos, internet, CD-ROMs,
DVDs, dicionários, etc. Mas não pára
aí: a partir da exploração, análise e da
experimentação diretas de todos esses
recursos, os professores e alunos expressam-
se por meios de suas próprias
produções, também utilizando esses
mesmos recursos: textos, internet,
vídeos, programas de rádio etc., inclusive
combinando-os entre si. O compartilhamento
do processo de produção
e a avaliação dos produtos geram
novas análises, visões interdisciplinares
e novas produções, impulsionando
um contínuo crescimento.
Trata-se, pois, de uma pedagogia
que incentiva o uso integrado de múltiplas
linguagens e promove a autoria
e o respeito à pluralidade e à construção
coletiva, reconhecendo nos alunos,
professores e gestores sujeitos
ativos e não passivos.
Esta idéia, como já foi dito, não é
nova, mas vem sendo sempre um desafio
raramente vencido. Como, portanto,
concretizar a pedagogia da autoria?
O Departamento de Produção e
Capacitação em Educação a Distância
da Seed estabeleceu duas estratégias
básicas. A primeira partirá de uma
nova forma de oferecer os programas
da TV Escola; a segunda adota a
própria pedagogia da autoria para os
cursos de formação continuada nas
mídias que enriquecem a educação.
Há uma terceira estratégia, relacionada
à infra-estrutura tecnológica, que,
apesar de não estar afeta ao Departamento,
é necessária à consolidação
dessa proposta. A seguir, apresentam-
se algumas idéias sobre as referidas
estratégias.
3. A PEDAGOGIA DA
AUTORIA NA TV
ESCOLA
A TV Escola passa a adotar, em
2005, uma pedagogia nova na produção
de seus próprios programas. O
objetivo é levar às escolas públicas
estratégias didáticas capazes de estimular
educadores e alunos a serem
leitores críticos, autores criativos e cidadãos
conscientes do potencial e dos
limites da mídia, livres da manipulação
e da massificação que pode ser
exercida pelos meios de comunicação.
A proposta é a produção de programas
para a TV Escola no seguinte
formato: pré-exibição; exibição e pósexibição.
1. Pré-exibição:
concisa orientação e
preparação do educador
para a análise do
vídeo e sua futura utilização,
dentro e fora
da sala de aula. A préexibição
vai ao ar pela
TV Escola, podendo
estar também na internet
e em impressos,
e busca atrair o educador,
despertando seu
interesse em relação
aos objetivos, conhecimentos
e competências
que podem ser explorados
com o programa,
assim como
seu uso multidisciplinar,
além de auxiliá-lo
a preparar um plano
de aula mais completo
e diferenciado;
2. Exibição: é o
programa televisivo que vai ao ar pela
TV Escola e que aborda determinado
tema, utilizando todos os recursos
da moderna televisão, garantidas qualidade
de áudio, imagem e conteúdo
científico-cultural-educacional. A exibição
terá uma duração máxima de 55
minutos, mas deverá ser desenvolvida
em episódios, segmentos ou capítulos
menores, de modo a permitir à
TV Escola e às escolas um uso mais
flexível, adaptando-se ao tempo de
aula e às diferentes situações pedagógicas,
inclusive facilitando a indexação
e o download via internet;
3. Pós-exibição: é o conjunto de
atividades multimeios que complementa
a aprendizagem proporcionada
pelo vídeo e que será disponibilizado
no e-proinfo3 – ambiente de
aprendizagem da Seed/MEC. Aqui o
aluno poderá testar e aprofundar os
conhecimentos adquiridos por meio
de textos complementares, sites e vídeos
correlacionados, jogos educativos,
Webquest, enquetes, acervo de
imagens, mural de publicações, games
etc. Essas ferramentas serão desenvolvidas
em diferentes tecnologias,
para democratizar o acesso e permitir
seu uso antes mesmo de estar
disponível a tecnologia de televisão
digital interativa, podendo migrar
para ela, assim que possível. É função
da pós-exibição incentivar a autoria.
Espera-se que alunos e professores –
a partir do roteiro do programa, do
vídeo digitalizado e indexado e das
inúmeras sugestões de atividades –
desenvolvam suas próprias idéias,
programas e projetos, harmonizando
o global com o local e contextualizando
a educação, sentindo-se responsáveis
e ativos na construção da própria
história e a da sua comunidade.
Como primeiro passo no desenvolvimento
dessa proposta, houve o
lançamento da I Chamada Pública para
seleção de conteúdos educacionais, no
âmbito do Programa de Fomento à
Produção de Programas Educacionais
Multimeios, sobre temas relativos à
Língua Portuguesa e Matemática, a partir
das matrizes curriculares da 4ª série
do ensino fundamental estabelecidas
pelo Sistema Nacional
de Avaliação da Educação
Básica – Saeb4.
Constitui objeto da I
Chamada Pública a premiação
de programas educacionais
que abordem um determinado
conteúdo de
Língua Portuguesa e Matemática,
desenvolvidos a
partir do formato de préexibição,
exibição e pósexibição.
Ao definir o Saeb como
ponto de partida do Programa
de Fomento à Produção
de Programas Educacionais
Multimeios, a TV
Escola ratifica seu compromisso
com a qualidade na
educação e estabelece como
espinha dorsal da produção
própria dois domínios
essenciais a todo cidadão: o
da língua materna e o do
raciocínio lógico-matemático.
Na continuidade do Programa
de Fomento, deseja-se atingir a 8ª
série e o ensino médio (neste nível,
unindo-se os referenciais do Saeb e
Enem). Essa opção não quer dizer
que outras áreas curriculares estarão
fora da programação da TV Escola.
Trata-se de uma prioridade da produção
própria, visto que programas dasdemais disciplinas (Artes, Geografia,
História e outras) podem ser encontrados
com mais facilidade no mercado
nacional e internacional. Na medida
da disponibilidade de recursos financeiros,
a área de Ciências também
deverá ser contemplada nas próximas
Chamadas Públicas, tendo em vista a
necessidade de desenvolver a curiosidade
e o espírito científico dos nossos
estudantes.
4. A PEDAGOGIA DA
AUTORIA NA
FORMAÇÃO
CONTINUADA DE
EDUCADORES
Uma inovação provoca impacto
na educação e é incorporada nas escolas
somente se gestores e professores
acreditarem nela, perceberem seu potencial
pedagógico e souberem explorá-
la adequadamente.
Assim, a formação continuada para
o uso das diferentes linguagens e tecnologias
na educação, proposta pelo
Departamento da Seed responsável
pela capacitação, leva em conta a avaliação
de todos os cursos realizados
como suporte à TV Escola, Proinfo,
Proformação e Rádio Escola.
O projeto que está em processo
de desenvolvimento, iniciado em outubro
de 2005, é o “Programa de
Formação Continuada Mídias na
Educação”.
Nele, há duas premissas básicas:
a pedagogia da autoria e a integração
das mídias. Ou seja, a proposta ousada
é que, ao final da trajetória do
programa, o educador saiba produzir
e utilizar as quatro linguagens e
tecnologias básicas, que deveriam estar
presentes em todas as escolas:
material impresso, televisão, informática
e rádio.
O programa está estruturado em
módulos temáticos. O acesso se dá
por meio do módulo introdutório,
conceitual: “Integração de Mídias na
Educação: concepções e tendências”, para
que os educadores tenham clareza
quanto ao potencial e à irreversibilidade
do uso de mídias na educação.Complementa-o o módulo “Gestão de
Mídias”, para que sejam enfrentados
os desafios institucionais de inserção
das tecnologias nas salas de aula, escolas
e nos sistemas de ensino. Os
temas representativos das mídias e
suas principais aplicações educacionais
constituem blocos temáticos e
são: Televisão, Rádio, Informática e
Material Impresso. Cada uma das mídias
será desdobrada em diversos módulos,
garantindo o domínio por
parte dos educadores. Haverá níveis
crescentes de aprofundamento em
cada um desses temas e será garantida
a integração entre eles, como, por
exemplo, na oferta de “Rádio na Web”
ou “Hipertexto no Material Impresso”.
A estrutura modular permitirá que
novos módulos sejam incorporados
ao programa, sempre que se constate
demanda ou novas perspectivas tecnológicas,
mediante análise da relevância
do tema em questão. Múltiplos
percursos podem ser desenhados,
desde que seja respeitada a característica
integradora das mídias entre
si e ao projeto pedagógico.
Para incentivar os cursos de licenciatura
e de pós-graduação a inserirem
as mídias no processo de formação
de educadores, buscou-se estabelecer
uma correspondência entre a estrutura
modular proposta e a oferta
usualmente verificada nas disciplinas
das universidades, no que diz respeito
à sua duração. Nesse sentido, cada
módulo deve ter duração mínima de
15 horas, correspondendo a um crédito.
Universidades públicas serão
parceiras na implementação do curso,
mas, futuramente, a proposta será
aberta a todos os que tenham interesse
em uma formação no tema.
Os módulos do programa estão
estruturados em três Ciclos, permitindo
o tratamento dos assuntos em
diferentes níveis de profundidade, a
saber: extensão (120h), aperfeiçoamento
(180h) e especialização (360h).
Dessa forma, os educadores poderão
trilhar um verdadeiro processo de educação
continuada. Outras formas de
certificação serão possíveis: em módulos
e em temas avulsos, resguardadas
uma unidade didática e a produção
de um trabalho final.
Para todos os níveis, o Projeto “Galeria
das Mídias” constituirá um espaço
virtual de visualização das produções
realizadas durante o programa. Será o
espaço das múltiplas autorias.
5. A PEDAGOGIA DA
AUTORIA E A INFRAESTRUTURA
A pedagogia de incentivo à autoria
está ancorada em uma infra-estrutura
que fomenta e traduz as inúmeras
respostas de atores individuais
e coletivos motivados a explorar,
analisar, contextualizar, aprofundar,
expandir, enfim, a produzir sua própria
visão e experiência sobre determinado
tema.
Por que iniciar pela TV Escola,
integrando-a ao Proinfo? Em primeiro
lugar, pela base instalada nas escolas
públicas, que, segundo o Censo
do Inep em 2004, é a indicada no
Quadro 1.

Em segundo lugar, porque há na
Seed a política de integração de programas,
projetos, mídias e linguagens.
Em terceiro lugar, porque a discussão
sobre a TV digital interativa
no Brasil ainda não está definida. A
Secretaria considera que, com a pedagogia
da autoria, pode contribuir para
agregar novos e importantes elementos
à pesquisa e debates sobre o tema.
A maioria das pautas que discute as
possibilidades da tecnologia digital e
da integração e convergência de mídias
está concentrada em dois pontos básicos:
os que se referem à infra-estrutura
e os que dizem respeito à produção e
veiculação de conteúdos, levando em
conta o potencial de interatividade.
A discussão sobre interatividade
na TV digital, todavia, está pautada
principalmente por aquilo que interessa
aos canais comerciais: maior audiência,
mais patrocinadores, novos
mercados, maior lucro.
Tal opção orienta a definição da
infra-estrutura tecnológica necessária
à promoção dessa interatividade
que permitirá, por exemplo, a escolha
de filmes e horários, a seleção de
diferentes finais (entre os preparados
pelas emissoras), a possibilidade
de definir horários alternativos, o
acesso aos sites dos patrocinadores e
outros serviços.
Nada contra essa vertente, mas ela
se fundamenta na capacidade de manipulação
e massificação da mídia,
mesmo levando em consideração os
serviços customizados.
É na educação, todavia, que a TV
digital interativa alcança seu mais nobre
ideal de interatividade: o que cha-ma o telespectador para a análise crítica
dos conteúdos, nele despertando o
desejo de agir, de produzir e de divulgar
suas criações. É uma interatividade
que, como diz Marco Silva5, reconfigura
as relações e as comunicações humanas
em toda a sua amplitude.
Para que isso aconteça, é preciso
equipamento e hardware compatíveis.
Do ponto de vista tecnológico, o middleware
do terminal de acesso deverá
ser concebido, especificado e desenvolvido
de forma a facilitar os serviços
e sua atualização, seja na alteração
de interface com o usuário seja na
incorporação de novas funcionalidades.
O serviço deve apresentar uma
interface de usuário com características
como:
.. ter interface gráfica com elementos
facilmente reconhecíveis;
.. permitir a disponibilização de
conteúdos e aplicações pedagógicas;
.. ser auto-explicativa;
.. ser de fácil utilização/navegação
mesmo para usuários com pouca
familiaridade no universo digital;
.. ser de fácil memorização;
.. possuir aspecto agradável;
.. ser aderente a padrões de usabilidade
e ergonomia.
Do ponto de vista pedagógico, a
interatividade deve possibilitar, por
meio de um canal de retorno, a comunicação
assíncrona/síncrona do usuário
com aplicativos residentes no ambiente
do provedor do serviço, mediando,
inclusive, comunicação com
outros usuários. As informações geradas
pelo usuário podem ser temporariamente
armazenadas e, posteriormente,
enviadas ao provedor do serviço
pela prestadora de serviços de telecomunicações,
conforme a solução de
canal de retorno a ser adotada. Como
a TV Escola não tem a proposta desubstituir o professor, a comunicação
exigida pelo serviço não necessita ocorrer
em tempo real (máximo de instantaneidade),
pois ela se baseia em informações
que podem ser processadas
posteriormente, sem prejuízo do desempenho
da aplicação.
Há duas grandes questões a resolver.
A primeira é desenvolver
uma tecnologia e uma produção de
conteúdos educacionais que seduzam
o usuário, fazendo-o abandonar
a atitude quase sempre passiva
que adota ante a TV comercial e impulsionando-
o a interagir e a produzir.
A segunda é desenvolver uma
tecnologia cujo canal de retorno
suporte as múltiplas produções de
alunos e professores.
Enquanto não se define a questão
da TV digital interativa no Brasil, é
fundamental o uso da TV Escola combinado
ao Programa Nacional de Informática
na Educação – Proinfo e a
outras iniciativas de levar computadores
às escolas. Por meio de um
computador conectado, é possível terse
um retorno mais ágil da produção
das escolas. Outros recursos, no entanto,
como correio, fax, vídeos e CD
ROMs também serão considerados,
no sentido de dar visibilidade à autoria
dos alunos e professores e de democratizar
a pedagogia da autoria. A
televisão por IP é um outro caminho
que vem sendo explorado e que pode
dar novos rumos ao uso da TV e
vídeo na escola.
A qualidade na educação é um conjunto
de fatores, entre os quais estão
as condições de trabalho e de acesso às
tecnologias. Os números anteriormente
apresentados mostram que ainda há
muito a ser feito nesse campo. O Poder
Público no Brasil precisa, de forma
solidária e cooperativa, investir decisiva
e continuamente dotando todas as
instituições educacionais públicas de
tecnologias da informação e da comunicação.
Trata-se de um imperativo
categórico: atualmente não é possível
ser um bom profissional e realizar um
trabalho com elevado padrão de qualidade,
em área alguma, sem acesso e
domínio das tecnologias.
6. APLICAÇÕES DA
PEDAGOGIA DA
AUTORIA
A pedagogia da autoria interessa
ao Senac, Senai, Sesi, Senar e Sebrae, a
universidades e a outras instituições
ou empresas que investem em educação
a distância?
A resposta é: sem dúvida alguma.
Um dos riscos da educação a distância
é a centralização e a tendência a
uma padronização e homogeneização
das respostas dos cursistas, facilitando
a gestão didática e administrativa
do curso, Em outras palavras,
valoriza-se mais a instrução do que a
educação; mais a reprodução do que a
criatividade; mais a repetição do que
uma construção que possa abrir caminhos
não previamente pensados.
Todo processo que não se limita a
adestramento e deseja ser efetivamente
educacional busca formar um cidadão
competente, criativo, capaz de
aprender autonomamente. Se a pedagogia
que embasa um curso levar à
autoria, se os tutores e gestores do
curso forem preparados para orientar
nesse sentido, se os materiais e as
tecnologias disponíveis reforçarem a
análise crítica, a iniciativa e o desejo de
criar, então teremos pessoas que vêem
sua auto-estima reforçada e que se
motivam a buscar novos patamares,
investindo em educação ao longo de
toda a vida.
As instituições que estão envolvidas
com formação profissional sabem
que o mercado de trabalho contemporâneo
está cada vez mais exigente
e procura profissionais tecnicamente
competentes, mas também
capazes de integrar vários campos do
conhecimento, com habilidade para
juntar teoria e prática, com iniciativa
para enfrentar e resolver problemas,
com domínio de informática e de idiomas,
com capacidade de trabalhar em
equipe, um profissional que esteja
aberto à atualização permanente e que
seja capaz de criatividade, liderança,
responsabilidade social...
A proposta da pedagogia da autoria
não é uma construção vazia nem
de transferência de responsabilidades
(do professor para os alunos). É um
processo marcado pela riqueza de estratégias
didáticas, intencionalidade e
profundidade, que se inicia com a
exploração (busca de informações em
diferentes fontes: livros, TV, internet
etc.), continua com a experimentação
(comparar, argumentar, testar,
extrapolar, enfim, descobrir o que
fazer com as informações) e conclui
com a expressão direta (autoria, a
partir das informações coletadas, analisadas
e trabalhadas). Na pedagogia
da autoria devem ser consideradas as
múltiplas inteligências dos indivíduos,
as inúmeras possibilidades de
abordagem multidisciplinar e os desafios
tecnológicos e de linguagem
que decorrem de uma proposta de
criação – o que implica destacar, também,
a importância da construção colaborativa.
Ao assumir o compromisso
de expor sua produção à sociedade,
o autor torna-se mais consciente
e atento à construção do conhecimento
e às implicações éticas de seu
trabalho.
Assim, descartam-se propostas de
cursos em que os professores não
planejam previamente e o aluno vai
fazendo o que quiser, sem uma organicidade
que lhe permita ao final ter
construído um sólido conhecimentosobre o tema a que se propôs estudar
e produzir.
Não se trata de uma utopia: nossas
vivências na Seed mostram essa
realidade. Todos os professores que
terminam o Proformação transformam-
se em leitores competentes,
executam projetos finais relevantes
para a comunidade em que estão inseridos
e passam a demandar por cursos
superiores; muitos educadores
utilizaram seu trabalho final no curso
TV na Escola e os Desafios de Hoje como
projeto para ingresso em mestrados
ou especializações; muitos tutores renovaram
sua prática no ensino presencial
e investiram na elaboração de
dissertações e teses sobre o assunto;
algumas universidades, como a Ufal e
a UnB, incorporaram o curso TV na
Escola e os Desafios de Hoje em suas
graduações e, fundamentalmente,
todos os que passam a dominar as
tecnologias percebem que podem trabalhar
melhor e crescem como pessoas
e como profissionais, razão pela
qual ninguém que aprende a explorar
as tecnologias abandona seu uso e
retorna às velhas aulas restritas a giz
e cópias.
Assim concebida, a educação acaba
com a dicotomia entre o virtual e o
presencial; transforma as inúmeras
fontes de informação em motivos para
a construção do conhecimento; valoriza
todos os sujeitos envolvidos no
ato educacional; integra estratégias didáticas,
linguagens e tecnologias; harmoniza
o global com o local; promove
valores éticos de respeito à pluralidade
e de compromisso solidário. Uma educação
assim concebida adquire qualidade
e deixa de ser distante da vida das
pessoas, das realidades do mercado de
trabalho, das exigências de um mundo
tecnologicamente desenvolvido e
globalizado, ajudando a vencer os desafios
de consolidação de um país desenvolvido
economicamente e justo
socialmente.
A pedagogia da autoria é uma proposta
que contribui para formar sujeitos
conscientes, partícipes e autônomos:
é uma proposta de qualidade
para a educação.
NOTAS
1 Segundo o Censo Escolar do Inep, no
Brasil, há cerca de 6,5 milhões de crianças
em creches e pré-escolas, 36 milhões
de alunos na educação fundamental,
perto de 12 milhões de jovens no ensino
médio, quase 4 milhões no ensino superior
e aproximadamente 2,7 milhões de
funções docentes em exercício nesses
níveis de ensino. Esses educandos e
educadores estão distribuídos em mais
de 300 mil estabelecimentos de ensino,
representando uma capilaridade que nenhuma
outra instituição brasileira – hospitais,
bancos ou agências de correios –
atinge. Se além desses cidadãos matriculados,
as escolas alcançarem, pelo menos,
um pai ou uma mãe em ações educativas,
será possível a construção de um país
com justiça social.
2 Conheça mais sobre esses programas no
endereço eletrônico: http://portal.mec.
gov.br/seed.
3 Ver em http://portal.mec.gov.br/seed.
4 Os dados do Saeb-2003 indicam uma
situação dramática na educação brasileira:
em Leitura, estão no estágio de proficiência
considerado “adequado” apenas
4,8% dos estudantes de 4ª série;
10,3% de 8ª série e 6,2% da 3ª série do
ensino médio. Em Matemática, estão no
estágio “adequado” somente 6,4% dos
nossos alunos de 4ª série; 2,7% de 8ª
série e 6,9% do ensino médio. Além
disso, a taxa de conclusão do ensino
fundamental é de 57,1%, apesar de a
média de estudos ser de 8,6 anos. Como
conseqüência, o Superior Tribunal Eleitoral
indica que, de 120 milhões de
eleitores, cerca de 70 milhões são analfabetos
ou analfabetos funcionais.
5 SILVA, Marco. Sala de Aula Interativa. 3.
ed. Rio de Janeiro: Quartet, 2002.
* Mestre em Política, Planejamento e Gestão da
Educação, pela UnB/DF. Especialista em Políticas
Públicas e Gestão Governamental, atualmente
exercendo a função de Diretora do
Departamento de Produção e Capacitação em
Educação a Distância, na Secretaria de Educação
a Distância do MEC.
E-mail: carmen.neves@terra.com.br
RESUMEN
Carmen Moreira de Castro Neves.
Pedagogía de la Autoría.
Al promover la interactividad, la
integración y la convergencia de
los medios, la tecnología digital
incluyó la discusión acerca de una
nueva educación a distancia en la
agenda contemporánea. Esta nueva
EAD rechaza proyectos burocráticos
e inflexibles que despersonalizan
a los estudiantes e inhiben
la innovación y la creatividad.
La propuesta del texto es la de
una pedagogía que promueva la
autoría, a partir de estrategias
que reconozcan al alumno como
protagonista del acto educativo y
que respeten la complejidad y la
totalidad del ser humano y su
capacidad de construir significados
y generar conocimientos socialmente
relevantes. Se presentan
proyectos desarrollados por la Secretaría
de Educación a Distancia
del Ministerio de Educación
que emplean la Pedagogía de la
Autoría, los cuales intentan fomentar
y traducir las innumerables
respuestas de actores individuales
y colectivos motivados a
explorar, analizar, contextualizar,
profundizar y expandir, o
sea, producir sus propias visiones
y experiencias acerca de determinado
tema.
Palabras-Clave: Educación a
Distancia; Pedagogía; Pedagogía de
la Autoría; Tecnologías de
la Información; Comunicación;
Interacción.