PROGRAMA SINTONIA SESC-SENAC – UMA EXPERIÊNCIA RADIOFÔNICA DE MÍDIA-EDUCAÇÃO
Valéria Márcia Mendonça*
Abstract
Non-formal popular education, with an open character and mediated by radio communications technology, is shaping up as a possibility for distance education in its search for new pathways and solutions for ongoing teaching and learning. To this extent, this article presents the experience of open education via radio that has been carried out since 1996 by the National Senac Distance Education Center and the Management for Dissemination and Institutional Promotion of the Sesc National Department, signaling the theoretical and methodological references, the educational and communicational structure, the production process, and the education of radio network broadcasters for this media-education process.
Keywords:Education; Media; Educational Radio; Distance Education, Popular Education, Popular Communication; Democratization of Communication; Citizenship; Radio Production; Community Radio; Network.
I. INTRODUÇÃO
"É preciso valorizar o mundo real dos
sujeitos, considerá-los como protagonistas
de sua história e não como ‘receptores’
de mensagens e consumidores de produtos
culturais."
(BELLONI, 2001)1
Em um artigo sobre a história da
Educação a Distância no Brasil, AZEVEDO
e QUELHAS (2005) falam
sobre o papel educativo do rádio, já
em 1920, destacando a Rádio Sociedade
do Rio de Janeiro, fundada por
um grupo de membros da AcademiaBrasileira de Ciências, capitaneados
pelo pioneiro do rádio educativo brasileiro,
o médico Edgard Roquete
Pinto: “Essa emissora, que desde 1923
realizava transmissões de caráter educativo,
em 1936 foi doada ao Ministério da
Educação e Saúde” .2
Quando o censo de 1940 apontou
a existência de 55% de analfabetos no
Brasil, que era, naquele momento, um
país eminentemente rural, para os
autores “ficou claro que a situação de
analfabetismo e baixa escolarização de jovens
e adultos se devia às dimensões territoriais
do país, que dificultam o acesso, principalmente
para os cidadãos menos favorecidos,
aos grandes centros, onde se encontra
a rede de ensino”3. Essa estatística impulsionou
o desenvolvimento de inúmeros
projetos de educação a distância,
alguns deles com o apoio do rádio
já na década de 50.
Segundo FÁVERO (2003), os sistemas
radioeducativos:
(...) funcionaram em dioceses católicas
que dispunham de emissoras, os situados
nas Regiões Norte e Nordeste, assim como
nos estados de Minas e Mato Grosso,
foram absorvidos pelo Movimento de
Educação de Base (MEB), criado em 1961
pela Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil, com o apoio da Presidência da
República.4
SANTOS (2002)5, ao analisar o movimento
de educação de jovens e adultos
do MEB, ressalta que o rádio desempenhou
um papel significativo na difusão
da Educação de Base. Principalmente o
radinho de pilha, que foi muito utilizado
nesse período, levando o programa
de alfabetização aos recantos mais distantes
do país. Nesse sentido, a iniciativa
educadora do MEB, através do rádio, forjou
uma parceria reconhecidamente positiva
para a educação popular. Tanto que, em
1963, o MEB já tinha atingido quinze
estados e alfabetizado 110 mil cidadãos
(AZEVEDO; QUELHAS, 2005)6.
Com o regime militar, instaurado
em 1964, foram extintas no país tanto a
mobilização educadora do MEB quanto
a maioria dos programas educacionais
via rádio. A iniciativa de radioeducativo,
referência do período pós 1964, é o Projeto
Minerva, criado em 1970. Em cadeia
nacional de rádio AM, o Projeto Minerva
deveria preparar alunos adultos para os
exames supletivos do antigo ginásio (atual
Ensino Fundamental). Com a escolha
de meios de comunicação como o rádio
e também a televisão, o governo pretendia
atingir mais pessoas e formar, em
curto prazo, um contingente maior de
mão-de-obra qualificada para promover
o desenvolvimento econômico do país.
A partir dos anos 1970, começa a haver
um processo de transformação no campo
do rádio, imposto pelo desenvolvimento
tecnológico e pela crise causada a este meio
pelo auge da televisão. Surgem as TVs
Educativas e os telecursos.
Para CARVALHO (2003)7, os projetos
de educação via rádio deram lugar aos
programas tidos como “culturais”,
como, por exemplo, a divulgação da
música popular brasileira. E acrescenta
outro dado da trajetória da mídia radiofônica
dizendo ser possível “afirmar que
as rádios criadas no Nordeste pelo MEB, (...),
foram fundadas e mantidas com doações das
comunidades. Era o primeiro ensaio do que
hoje chamamos de Rádios Comunitárias”8.
Nos anos 1980, “crescem (no mundo)
as iniciativas de produção no seio do movimento
social organizado (trabalhadores, mulheres,
associações de bairros, sindicatos, ONGs etc.),
em uma perspectiva de democratizar os meios
e de tornar mais polifônicas as mensagens
(abrir espaço para que outras vozes, minoritárias,
sejam ouvidas)”9. Isso porque os estudos
sobre o papel dos meios de comunicação,
naquele momento, começam a
se preocupar com a interação dos produtos
da mídia com as diferentes culturas e:
a imposição de padrões culturais de uns
povos (os de maior poder de produção e
veiculação de mensagens) sobre outros. E
ainda, passa-se a reconhecer o papel ativo
do receptor em relação aos conteúdos
veiculados pela mídia, época em que (...)
surgem os trabalhos de educação para os
meios, ancorados na crença de que é
preciso municiar os mais jovens e mais
ingênuos (mais pobres ou menos
escolarizados) com as ferramentas e
instrumentos necessários para não se
deixarem influenciar pelas mídias.
(DUARTE, 2005)10.
Seguindo a tendência mundial, em
1980, a UCBC – União Cristã Brasileira
de Comunicação Social – promoveu um
congresso – que contou com a participação
de Paulo Freire – em que discutiu a
relação entre “Comunicação e Educação
Popular”. Nesse congresso, a nova diretoria
decidiu, então, converter a experiência,
acumulada pela Instituição desde
1970, de ensinar comunicação à professores
e líderes de movimentos populares
em um Programa de Leitura Crítica da
Comunicação, que ficou conhecido como
LCC. Os movimentos populares passam,
assim, a ser o público-alvo do LCC.
Em parceria com pesquisadores universitários,
do Brasil e de outros países da
América Latina, ao longo dos anos 80, o
Programa LCC fomentou importantes
discussões nos estudos da comunicação
e educação e da participação social11. Em
1988, foi realizado, na Universidade de
São Paulo – USP, o I Simpósio Brasileiro
sobre Comunicação e Educação, promovido
pelo Programa LCC. Os participantes
desse simpósio sugeriram, na ocasião,
que fosse criado um curso universitário
direcionado aos professores interessados
na inter-relação educação e comunicação.
Na última década, esses estudos
passaram a se concentrar, especialmente,
na recepção dos conteúdos veiculados
pelos meios de comunicação, principal
elemento de trabalho do LCC12.
Nesta medida, em 1990, no Rio de
Janeiro, representantes das organizações
da sociedade civil13 se reúnem para discutir
o papel da mídia brasileira na campanha
eleitoral de 1989 para a Presidência
da República. O debate, transmitido pela
TV Globo, entre os então candidatos
Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio
Lula da Silva, teria sido a gota d’água para
deslanchar uma série de debates sobre a
ética jornalística, que estava em curso na
época, capitaneados pela Comissão de
Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais
do Município do Rio de Janeiro14.
A tônica dos debates era a urgência
em tomar decisões impeditivas da continuidade
do abuso de poder de persuasão
dos meios de comunicação.
Essa reunião precedeu o processo de
criação do Fórum Nacional pela Democratização
da Comunicação – FNDC15,
que se compromete, conforme descrito
no documento que tornava pública a suamissão, em propiciar um espaço de discussão
que promova a criação de políticas
públicas impeditivas da continuidade do
uso arbitrário e antidemocrático dos
meios de comunicação, além de “municiar
a sociedade, através do debate e transferência
de conhecimento, capacitando-a para
a leitura crítica da produção dos meios de
comunicação e para produção de sua própria
comunicação, fazendo uso de mídias alternativas”
– principalmente as rádios e
TVs comunitárias16.
A partir dessas medidas, iniciou-se a
construção de um novo espaço de educação
popular através dos meios de comunicação,
agora com outras feições.
Aprofundaram-se os estudos sobre a
mídia e educação e as rádios comunitárias
se multiplicaram por todo o Brasil.
Com base nas mesmas fundamentações
democráticas usadas nas décadas de 50/
60 – de atingir um maior número de
pessoas, principalmente das classes menos
favorecidas, por ser de baixo custo e
por alcançar os analfabetos –, o rádio
passou a ter um papel importante na
educação aberta para a cidadania. Essa
pontencialidade do rádio está indicada
por MARTÍN-BARBERO (2001) da
seguinte forma:
(...) O rádio não requer qualquer capacidade
além da audição, com sua ‘restrição’
ao sonoro – a voz e a música –
permitindo-lhe desenvolver uma habilidade
expressivo-coloquial, e seu emprego
não-excludente, e sim compatível,
possibilitando a superposição e o
entrelaçamento de atividades e tempos.
Esses traços tecnodiscursivos, que vão
possibilitar ao rádio mediar o popular
como nenhum outro meio, permitirão
sua renovação, a partir de um entrelaçamento
privilegiado da modernizadora
racionalidade informativo-instrumental
com a mentalidade expressivo-simbólica
do mundo popular.17
Com base nessas premissas, norteadas
pelos estudos efervescentes de mídia
e educação e dos movimentos sociais,
desenvolvem-se metodologias de capacitação
popular, que buscam transferir
conhecimento e técnicas de comunicação
necessárias para fortalecer o movimento
das rádios comunitárias, além de propiciar
à população uma leitura crítica damídia. Desde o início dos anos 1990, no
apoio ao movimento de educação e comunicação
popular no país e fomentando
processos de educação via rádio, dentro
da perspectiva de fortalecimento da
cidadania e democratização da comunicação,
têm sido disseminadas as metodologias
de capacitação popular propostas
por organismos que compõem as
redes Latino-Americanas de comunicação.
Dentre elas pode-se destacar a rede
da Amarc – Associação Mundial de Rádios
Comunitárias, ou da Aler – Associação
Latino-Americana de Educação Radiofônica,
entre outras, que ainda hoje
atuam no Brasil e as quais muitas organizações
brasileiras de comunicação comunitária
estão associadas.
Dentro desse contexto de democratização
da comunicação, os técnicos
do Centro Nacional de Educação a
Distância, do Departamento Nacional
do Senac, consolidaram a realização de
um projeto de Educação Aberta via
Rádio, com veiculação de programas
radiofônicos capazes de levar à população
ouvinte a discussão de temas
relevantes à formação para a cidadania,
sob o ponto de vista da atuação social
de uma organização de formação para
o trabalho, como é o Senac.
II. A EXPERIÊNCIA
DE PROGRAMAS
EDUCATIVOS VIA RÁDIO
A primeira série de programas educativos
para veiculação aberta em rádio
produzida pelo Senac, a série Espaço Senac,
foi ao ar em 1996. O objetivo desse
programa era fazer chegar ao cidadão
trabalhador conteúdos relativos às áreas
de educação e trabalho, e também temáticas
relacionadas às áreas do comércio e
de serviços. O programa pretendia atingir
prioritariamente os alunos, professores
e técnicos do Senac, mas, pelo fato
de ser veiculado por emissoras em regime
aberto, a audiência passou a abranger
o público em geral.
A construção da série Espaço Senac
se deu ao longo dos cinco anos em que
esteve no ar. O programa foi idealizado
e produzido por uma equipe interdisciplinar:
técnicos do Senac da área
de educação e a equipe da ONG Criar
Brasil, que atua pela democratização
da comunicação, priorizando a realização
de programas educativos para o
rádio, no apoio ao movimento brasileiro
de comunicação popular.
Essa equipe definiu o perfil do
programa articulando o seu caráter
educativo com parâmetros próprios à
linguagem radiofônica. Ao longo dos
cinco anos do Espaço Senac, foram sendo
introduzidas algumas mudanças,
inclusive a partir de críticas e sugestões
de radialistas e ouvintes do programa,
consultados através de questionários
de avaliação.
Entre 1996 e 2000, foram produzidos
e veiculados 158 programas e uma
série de 60 spots18 educativos-culturais
da série Espaço Senac. No último ano,
em 2000, a série era veiculada, semanalmente,
em 554 emissoras educativas,
comerciais e comunitárias – AM e
FM –, de todo o Brasil, que abriram
gratuitamente espaço em sua grade de
programação semanal.
Uma pausa na produção e veiculação,
em 2001, serviu para reestruturar o projeto
e ganhar a parceria enriquecedora da
Gerência de Divulgação e Promoção do
Departamento Nacional do Sesc, já que
o caráter de atuação cultural dessa organização veio agregar valores a essa proposta
educativa. A nova série recebeu
o nome de Sintonia Sesc-Senac, inaugurando,
em 2002, a parceira das duas
instituições.
Amadurecido como uma experiência
de educação aberta no contexto de mídia-
educação, o projeto mantém os objetivos
de educar para a cidadania e contribuir
para a democratização da comunicação19,
atuando nas seguintes vertentes:
produção e veiculação de programas de
rádio de conteúdos educacionais; atuação
em conjunto em rede e em parcerias
e formação dos radialistas para realizarem
um trabalho educativo a partir da
regionalização do programa.
1. Produção e veiculação de
programas
Essa primeira vertente busca contribuir
para a educação popular, ao construir
programas que valorizem o ser
humano em sua totalidade, como cidadão
e sujeito reflexivo, que pode e deve
intervir no mundo em que vive. Com a
participação de especialistas, os programas
do Sintonia Sesc-Senac abordam assuntos
de interesse da população, ligados
à cidadania, educação, cultura, saúde,
meio ambiente, direitos humanos, direitos
dos trabalhadores e das crianças e
adolescentes, esporte, lazer, terceira idade.
De forma lúdica, apoiados pela riqueza
dos efeitos sonoros e possibilidades
dos gêneros e formatos radiofônicos
(radioteatro, entrevistas, pesquisa de
opinião pública, participação do ouvinte,
debates etc.), os programas, de acordo
com uma proposta de ação transformadora,
no sentido freiriano, transmitem
as informações de maneira a provocar na
população/ouvinte uma mudança de
olhar sobre o mundo à sua volta, tanto
local quanto global, em busca da “autoconscientização”,
para uma valorização
plena do homem e uma consciência crítica
da realidade. (FREIRE,1997)20.
De abril de 2002 a dezembro de 2005,
a série de programas Sintonia Sesc-Senac
produziu e veiculou 164 programas, em
uma rede de 697 emissoras21. Pela dificuldade
de se fazer uma pesquisa quantitativa
precisa, principalmente junto àsemissoras do interior do país e às rádios
comunitárias, as organizações que trabalham
com educação popular via rádio
adotaram a estimativa de cinco mil ouvintes
por emissora. Nesse sentido, o
Sintonia Sesc-Senac estaria atingindo cerca
de 3.500 milhões pessoas com a veiculação
de cada um dos programas.
.. Formato
Cada formato radiofônico tem suas
leis e suas pautas aceitas pelo público,
após muitos anos de experimentação
para se fazer comunicar com a audiência,
de forma fluida, clara e sem ruídos. A
melhor escolha é estar aberto a novos
formatos e à criatividade. No entanto,
podemos destacar alguns gêneros da
produção radiofônica que, segundo VIGIL
(1997)22, poderiam ser classificados
da seguinte forma:
1. segundo o modo de produção
das mensagens. Aqui aparecem os três
grandes gêneros da radiodifusão, em
que geralmente a maioria dos programas
educativos é transmitida: gêneros
dramáticos (novelas, esquetes, leitura
dramatizada etc.) jornalísticos (entrevistas,
notícias, notas, reportagens...)
e musical;
2. segundo a intenção do emissor.
Os gêneros não são excludentes, de
maneira que um mesmo programa pode
ter, por exemplo, finalidades educativas
e de entretenimento. Neste item cabem
os gêneros informativo, educativo, participativo,
cultural, publicitário, de entretenimento,
religioso, ambiental etc.;
3. segundo a segmentação dos receptores.
Levando em conta os públicos
prioritários, podemos falar de gêneros
infantil, juvenil, feminino, terceira idade,
urbano, rural, sindical etc.
Na comunicação radiofônica, esses
gêneros podem ser combinados de todas
as formas possíveis. Eles se justapõem
e se complementam, quando se
trata de organizar as mensagens com
clareza, em formatos adequados aos
objetivos dos programas. Portanto, o
formato, diferentemente do gênero, é
um produto completo, que tem sentido
próprio. Por exemplo, uma notícia é um
formato autônomo, que cabe dentro do
boletim, outro formato mais amplo.
Esse boletim, por sua vez, pode ser parte
de uma revista informativa.
Mas qual seria o melhor formato
radiofônico a adotar quando se trata de
produzir programas educativos? Seguindo
o esquema proposto por VIGIL23
(embora seja conveniente lembrar que
não existe somente esta classificação de
gêneros e formatos radiofônicos), quanto
à intenção do emissor, o Sintonia Sesc-
Senac já estava classificado como gênero
educativo. Segundo a escolha do público,
as possibilidades deveriam ser amplas,
com o objetivo de contribuir para a
inclusão de imensos setores da população,
prioritariamente os menos favorecidos
quanto ao acesso à educação e à
informação, representados por vários
segmentos que compõem a sociedade
brasileira: trabalhadores (de setores diversos),
estudantes, homens, mulheres,
jovens, idosos, moradores da periferia
das grandes cidades, da zona rural etc. E,
finalmente, segundo o modo de produção
das mensagens, a combinação dos
gêneros dramático, jornalístico e musical
se apresentava como sendo a ideal, dado
a intenção de realizar programas criativos,
cativantes, bem-humorados e, ao
mesmo tempo, informativos e educativos,
que pudessem ser alcançados por
público tão heterogêneo, representantedas diferentes realidades e culturas que
compõem o país. A junção desses três
gêneros radiofônicos – dramático, jornalístico
e musical – resulta na radiorevista
informativa, ou simplesmente
revista. Esse formato amplo, híbrido,
que engloba todos os demais formatos,
gêneros e subgêneros, é capaz,
por isso mesmo, de acolher todos os
tipos de ouvintes.
Exemplo de roteiro de radiorevista:
Técnica – A partir de agora você está na
rede Sintonia Sesc-Senac
Sobe prefixo do programa - (jingle vai até
o fim)
Sobe música: Mas a limeira não é minha
Araúna.... – Track 2 do Cd Comadre
Fulozinha
Locutora – Música pra ouvir, música pra
cantar, música pra dançar.// Assim é o
som do grupo nordestino Comadre
Fulôzinha. (Sobe som e fica em BG)
Locutor –Fique ligado no Sintonia, que já
já vamos conversar com a vocalista dessa
banda.
Locutora – E também do Nordeste, vamos
conhecer o poeta Jessier Quirino,
que se define um matuto por convicção.
// Já já, no Papo de Livro.
Locutor – Porque o Sintonia está no ar.
Técnica - Apresentação: Rosangela
Fernandes e Cristiano Menezes
Com base no formato revista, a estrutura
do programa se consolidou com
a criação de diferentes quadros, cada um
com vinheta24 e formato próprios, mediados
por uma locutora e um locutor que,
devido à necessidade de dar credibilidade
à abordagem dos temas, convidam os
entrevistados – geralmente técnicos especialistas,
mas principalmente personagens25
que dão seus depoimentos de vida
–, a participarem do programa por telefone.
Ao longo dos anos, ocorreram
adaptações às demandas naturais de um
processo em construção, mas hoje o
Sintonia tem jingle26 personalizado e está
composto pelos seguintes quadros:
* Família Ramos
Temas relacionados à saúde, direitos
do cidadão e comportamento, no formato
de radioteatro, de modo a suscitar
a identificação e a conseqüente aproximação
do ouvinte com a questão levantada.
A família tem seis personagens
centrais: Augusto (o pai), Célia (a mãe),
Letícia (a filha), Rafael (o filho), Flávia (a
nora) e Pedro (o neto), e vive na periferia
de uma grande cidade.
* Som da Terra
Uma viagem sonora com talentos de
todas as regiões brasileiras pouco conhecidos
da maioria da população. O objetivo
é divulgar os músicos que ainda têm
pouca projeção na mídia, valorizando
principalmente a nossa música de raiz.
Exemplo roteiro Som da Terra
(...) Sobe música: Faço serviço na hora,
quem é que não tem saudades do meu
sertão... – Track 3 Coral de Aboios
Locutor – O coral Aboios surgiu há seis
anos, no Sertão Pernambucano.// Vaqueiros
do município de Serrita, assolado
pela seca, encontraram na música, um
alternativa de trabalho.
Locutora – Uma idéia que foi tomando
forma e se concretizou com o apoio da
Fundação Quinteto Violado, que tem
como objetivo estimular e valorizar todas
as manifestações culturais nordestinas.
Locutor – Para saber mais sobre o coral,
a gente conversa com a sua produtora
Fátima Figueiredo..// Fátima, explica pra
gente o que é o Coral Aboios?
Track 03 Faixa 01:25 – 01:55
Fátima - O Coral Aboios, ele é um grupo de
vaqueiros, de pessoas que valorizam essa cultura
(+) do vaqueiro e o Coral Aboio com a sua música
ele leva mensagem assim, passando assim, a
bravura do vaqueiro, o canto do Nordeste, o
Sertão, a seca, as vaquejadas. Esse o objetivo do
coral, é divulgar, a história do vaqueiro.
(...)
* Papo de Livro
Entrevista com autores – ou organizadores
de livros – da literatura brasileira.
O quadro apresenta escritores de livros
infanto-juvenis, literatura em geral
e os grandes nomes da nossa literatura.
Os próprios autores ou estudiosos dos
grandes escritores falam das obras, de
suas preferências, contam casos e trechos
dos livros são lidos, com a intenção de
buscar uma aproximação com o ouvinte,
tendo em vista despertar o interesse pelo
autor e pela leitura.
* Sabores do Brasil
Abordagens de temas relacionados à
culinária brasileira e sua relação com a
cultura nacional. A história dos pratos e
o caminho que fizeram até chegar ao
Brasil. A “miscigenação” dos sabores,
originários de diferentes culturas, que
formam as diversas tendências da mesa
brasileira.
* De Bem com a Vida
Temas relacionados ao idoso do século
XXI. O quadro conta com depoimentos
de idosos e participação de especialistas
que debatem sobre temas como
a saúde na terceira idade, os desejos e
projetos desses idosos, entre outros.
Exemplo roteiro De Bem com a Vida:
(…)
Locutora – Já de volta e de bem com
a vidaSobe música: Eu vejo a vida melhor no
futuro....... – Tempos modernos
Locutor – Aulas de ginástica, música,
bordado.... Essas são algumas atividades
oferecidas pelo Grupo Colméia Recreativa
Cultural e Social para idosos de um
bairro da zona sul de São Paulo.// Vamos
conhecer o projeto de perto, agora, no De
Bem com a Vida ...
Tecnica – VINHETA DE BEM COM A
VIDA
Locutora – Uma idéia que surgiu na
década de oitenta com um grupo de oito
pessoas que se reunia pra rezar e cantar./
/ E foi desses encontros que nasceu uma
proposta bem interessante.
Locutor – Para saber como tudo começou,
vamos conversar com o Antonio
José Ribeiro, presidente do grupo Colméia.
// Seu Antonio, conta pra gente um
pouco dessa história. (…)
* Paixão do Ofício
Quadro com duas vertentes: profissões
com nicho de mercado apresentadas
através de depoimentos de pessoas
que adoram suas profissões e experiências
de trabalhos associativos e cooperativados,
com a intenção de valorizar também
essas formas de trabalho de geração
coletiva de renda.
* Fique por Dentro
Radiojornalismo de serviço, trazendo
dicas de utilidade imediata para o diaa-
dia do ouvinte. Temas ligados ao meio
ambiente, cidadania, saúde e alimentação
são abordados no quadro. A partir
de 2004, por já estar sendo utilizado
pelos radialistas separadamente, o Fique
por Dentro passou a ser enviado para as
emissoras em faixa extra, fora do programa,
facilitando assim a sua inserção na
programação das emissoras.
* Participação do Ouvinte
Em uma revista radiofônica, não
podem faltar também as promoções que
estimulam a participação dos ouvintes,
convidando-os a dar opiniões acerca dos
temas abordados. É uma forma de possibilitar
uma comunicação direta com a
audiência, na tentativa de estreitar o relacionamento
com o ouvinte e, ao mesmo
tempo, auferir a aceitação dos temas abordados
no programa. Assim, a roteirização
prevê um pequeno quadro que traz apergunta do dia, em que o ouvinte, através
de telefonema gratuito – 0800 –,
participa respondendo para ganhar brindes.
Na medida do possível, esses brindes
estão relacionados aos assuntos apresentados
no programa.
Exemplo roteiro Participação do
Ouvinte(...)
Rosangela – De volta, e hoje falando de
economia solidária.//
Cristiano – Uma economia onde as pessoas
se juntam para buscar trabalho e
renda, através de associações de trabalhadores,
cooperativas, redes...
Rosangela – E é sobre esse tema que a
gente faz a nossa pesquisa do dia...
Téc. VINHETA TELEFONE
Cristiano – É a hora da sua participação.
// É só responder à seguinte pergunta:
Aí, na sua cidade, existe algum empreendimento
de Economia Solidária?
Rosangela – Ligue e responda para ganhar
brindes do nosso programa. // O
nosso telefone é o 0800-25-62-72.
Rosangela– Repetindo: 0800-25-62-72. /
/ Responda: Na sua cidade tem algum
empreendimento da Economia solidária?
Cristiano – Telefone no horário de nove
da manhã até o meio-dia, de segunda a
sexta-feira. // Participe!
(...)
.. A Linguagem
“La verdadera comunicación no comieza
hablando, sino escuchando. La principal
condicion de um buen comunicador es saber
escuchar.” (KAPLÚN, 1985)27
Esta citação de Mário Kaplún, incansável
educador popular do ensino da
comunicação e um dos principais teóricos
da “educomunicação” – expressão
por ele mesmo cunhada – nos dá bem a
medida da importância da linguagem
para o rádio educativo. Buscando referências
novamente em VIGIL(1997) que,
concordando com Kaplún, diz que “temos
duas orelhas e uma só boca” 28 para
escutar mais do que falar, a linguagem
radiofônica deve ser construída ouvindo
as preferências do público prioritário.
Para realizar a comunicação é necessário,
além de compartilhar um código, ganhar
a confiança da audiência, respeitando-lhe
as diferentes maneiras de entendimento
da mensagem. O próximo passo é tomar
posse das formas de colocar em
prática o uso da linguagem radiofônica,
que se constrói apoiada em três tipos
básicos de “vozes”: “A voz humana, expressa
em palavras; a voz da natureza, do
ambiente: os efeitos sonoros; e a voz do coração,
dos sentimentos, que se expressa através
da música”29. Para o autor, abrir mão de
uma delas significa empobrecer essa linguagem,
diminuindo a efetividade da
comunicação. Os produtores do Sintonia
Sesc-Senac têm procurado se apropriar,
harmonicamente, destas três vozes
radiofônicas.
A escolha do jingle do programa levou
em consideração a linha que se queria
dar ao formato e à linguagem da programação.
A produção musical, encomendada
ao músico arranjador David Tygel,
revisita a linha musical das vinhetas do
rádio dos anos 60, quando o veículo era
a mídia principal, ouvido por toda a
família reunida na sala, levando informações,
notícias e entretenimento, com
quem todos travavam uma relação de
confiança. Para a criação das vinhetas de
cada um dos quadros que compõem o
programa, essas mesmas ponderações
foram levadas em consideração, resultando
em uma produção musical de altíssima
qualidade, que, conforme o que
se pretendia, resgata o clima de cordialidade
e companheirismo do rádio anterior
à era da televisão. Ao fim, a produção
do Sintonia Sesc-Senac conta com o jingle
do programa, oito vinhetas para os quadros
e mais algumas variações dos mesmos
temas, para serem adequadas às
necessidades criativas dos roteiros e enriquecer
a programação. Além das vinhetas,
a utilização de músicas – folclóricas,
populares, de raízes culturais – aprimoram
a linguagem porque reforçam a construção
da ambientação, complementam
idéias, liberam a imaginação e evocam a
emoção, falando direto aos sentimentos
do ouvinte.
Outros recursos empregados pela
produção do Sintonia Sesc-Senac são os
efeitos sonoros, que alimentam a imaginação
dos ouvintes, recriando os ambientes.
Esses são recursos indispensáveis
à linguagem radiofônica, principalmente
na ambientação da radionovela.
Exemplo Família Ramos
TEC Prefixo Família Ramos. // Elas
estão cada um em seu quintal. // Fazer
ambientação: Iracy está no tanque esfregando
roupa. Deixar ao fundo som de
vila: de crianças brincando, cachorro latindo...
Iracy (Cantando) Lata d’ Água na cabeça,
lá vai Maria, lá vai Maria...
Célia Já vi que tá de bom humor hoje./
/ Esfregando roupa no tanque e tão
animada...
Iracy E aproveitando para regar as minhas
plantinhas.// (OT) É como diz o ditado:
Quem canta, seus males espanta.//
No caso do uso das palavras, comunicar-
se respeitando as normas da língua,
a clareza das idéias e a definição dos
significados das mensagens é tarefa obrigatória
no rádio educativo. Para
cumprir o objetivo de se fazer
educação e potencializar o uso
do rádio como a mídia adequada
a informar, esclarecer
e debater os temas importantes
para a formação crítica
do cidadão brasileiro, a
relação que se estabelece com
o ouvinte deve, necessariamente,
ser construída com
base na credibilidade. Para
isso, o rádio educativo deve
cumprir o papel do “amigo”
de todas as horas, que traz as boas
– e também as más – notícias, de
forma a ajudar o amigo a crescer, a ver
outras possibilidades. O comunicador
convive na intimidade do dia-a-dia das
pessoas, acompanhando-as a todos os
lugares e lhes falando ao “pé do ouvido”,
de igual para igual, fortalecendolhes
a imaginação e construindo significados.
Portanto, a linguagem coloquial,
dialógica, bem-humorada, parece ser a
mais adequada e tem servido aos propósitos
do Sintonia Sesc-Senac.
Exemplo de linguagem coloquial:
Cristiano – Olá, amigo e amiga do rádio.
// Hoje o nosso programa está com
aroma de rosa, não é mesmo?
Rosangela – É, Cristiano. // Vamos falar
de uma rosa que não está mais entre nós,
mas que deixou pra música brasileira, um
trabalho importantíssimo.
Cristiano – O nome dela é Rosinha de
Valença que morreu em 2004, depois de
estar em coma por doze anos. // O nosso
programa vai trazer para você a alegria da
Rosinha. // E contar um pouco da sua
trajetória na música.
.. As etapas de produção e a
veiculação
Um primeiro desafio que se apresenta
é manter em dia um cronograma que prevê
produção e veiculação concomitantes.
Como se trata de produzir, editar e depois
enviar para diferentes emissoras, a série
poderia ser feita toda de uma só vez e
enviada, na íntegra, para as rádios. Mas,
nesse caso, a atualidade dos conteúdos
abordados sofreria uma perda irreparável,
além de dificultar a troca de experiências
com os radialistas e, através deles, o
contato com o ouvinte. Desta maneira,
a melhor opção tem sido produzir e
veicular as séries, concomitantemente.
Para que isso aconteça, o cronograma de
produção tem seu início marcado para
cerca de 40 dias anteriores ao início da
veiculação nas emissoras. Os radialistas
da rede recebem um quadro com a sugestão
das datas de veiculação de todos os
programas da série. A solicitação para
que sigam o cronograma de veiculação é
motivada pela idéia de que as emissoras
da rede estarão irradiando, nas mesmas
semanas os mesmos programas, facilitando
o trabalho com calendários comemorativos
e datas especiais, que possam
interessar ao caráter educativo do projeto.
Com isso, a cada mês são produzidos
e veiculados quatro programas.
Elaborar quatro programas por mês
significa realizar reuniões de pauta quinzenais
com toda a equipe, pesquisar temas
e pessoas para serem entrevistadas,
gravar e transcrever as entrevistas, redigir
os roteiros, gravar a locução e a radionovela,
editar as falas, musicar e fazer a
sonoplastia, mixar, masterizar, copiar,
produzir e imprimir a capa do CD e
distribuir os CDs pelo Correio.
É no CPRTV – Centro de Produção
de Rádio e Televisão, do Senac, que a
produção dos programas se realiza. Um
telefone 0800 ampliou as possibilidades
de atuação do programa de Educação
Aberta via Rádio, facilitando o contato
direto com os ouvintes, almejado desde
o início do projeto. É através deste telefone
que os ouvintes ligam para responder
à pergunta do quadro Participação do
Ouvinte.
Os contatos dos ouvintes, por
sua importância para o processo
educativo do projeto, renderam
um desdobramento das atividades
da produção do programa: no
momento do contato, além dos
ouvintes darem sugestões e gravarem
depoimentos sobre os programas,
também são colhidos e
armazenados alguns dados sobre
o público, que possibilitam a classificação,
por amostragem, do perfil
da audiência do Sintonia Sesc-Senac.
Segundo relatório da produção, na série
de 2005, 228 ouvintes ligaram e receberam
brindes pela participação em 33 dos
40 programas produzidos até o fechamento
do documento.
2. Atuação em conjunto: redes e
parcerias
Produção
Para a realização das atividades das
séries de programas Sintonia Sesc-Senac,
existe uma equipe composta por 15 profissionais,
com atuação direta na produção.
São técnicos do Sesc e do Senac e
jornalistas/radialistas contratados especialmente
para o programa. Nessa produção
conjunta, participam ainda outros
profissionais das Instituições responsáveis,
além de técnicos dos Departamentos
Regionais do Sesc e do Senac, querespondem pelo programa em seus estados,
denominados internamente de
Correspondentes do Rádio. Quinzenalmente,
de maneira alternada, a coordenação
do projeto se reúne tanto com os
roteiristas dos programas – reunião de
pauta – quanto com os técnicos especialistas
do Sesc e Senac Nacionais – reunião
de temas. Os quadros Paixão do
Ofício e Papo de Livro contam com uma
repórter/locutora diferenciada. O quadro
Fique por Dentro tem roteirista,
conteudista e locutora próprios e é gravado
no CD em faixas separadas do
programa. Os roteiristas principais fazem
o encadeamento de todos os quadros,
compondo o roteiro final e fazendo
as marcações para a produção de
estúdio, responsável pela finalização dos
programas. Essa rede trabalha em sincronia,
para tornar os programas consistentes,
dinâmicos e atrativos, com base
em um cronograma de produção e cadenciados
pela interdependência das atividades.
Uma ação depende da outra,
sem qualquer hierarquia, como requer
todo trabalho em rede. E o resultado é
fruto do trabalho de todos.
.. Correspondentes
Paralela à produção radiofônica, realiza-
se outra atividade, não menos importante:
a de construir e manter o cadastro
das emissoras que veiculam os
programas. Desde o início, a formação
do cadastro de emissoras mereceu atenção
redobrada dos idealizadores do projeto.
Era preciso, por um lado, conquistar
rádios dispostas a abrir espaço em
sua grade de programação, ao mesmo
tempo de forma gratuita e comprometida
com a veiculação dos programas e,
por outro, buscar uma abrangência nacional.
Em agosto de 2002, quando da
retomada da série para o envio do primeiro
CD, havia 130 emissoras registradas.
Graças à divulgação junto aos Departamentos
Regionais do Senac e do
Sesc em todo Brasil e ao esforço dos
correspondentes do rádio em conquistar
novas emissoras, no final daquela
série esse número havia dobrado e, em
dezembro de 2005, compunham o cadastro
de emissoras 697 endereçamentos.
O trabalho de formação desta listagem
de rádios possibilitou a criação de
laços de cooperação entre os radialistas,
os correspondentes regionais e a equipe
de técnicos do Sesc e Senac Nacionais.
Portanto, outra rede se conforma dentro
do projeto Sintonia. A própria estrutura
de atuação do Sesc e do Senac constitui
uma rede, por possuírem representação
em nível estadual, em todo país. O que se
faz no projeto Sintonia Sesc-Senac é potencializar
essa aptidão, apostando na
eficiência do trabalho em rede, nessa proposta
de Educação Aberta via Rádio.
Para consolidar a rede de rádios, os
radialistas, que são parceiros importantes
da Rede Sintonia Sesc-Senac, preenchem uma
ficha de adesão, se comprometendo com a
veiculação gratuita dos programas. Assiduamente,
os dados do cadastro de emissoras
são atualizados, permitindo mais facilidade
na aferição de informações sobre a rede,
coleta de informações relevantes para o
constante aprimoramento dos programas
e adequação às demandas dos radialistas.
(Ver tabelas 1 e 2)


Uma outra rede tem se confirmado
através do uso da linha 0800. Trata-
se da rede de ouvintes que participam
do programa. Essa linha gratuita
tem possibilitado a participação
efetiva do ouvinte, com base em uma
proposta de ampliação das possibilidades
educativas do programa, à luz
de um Seminário sobre Linguagem
Radiofônica, realizado em maio de
2003, no Departamento Nacional do
Senac. Através desse canal de comunicação
com o programa, os ouvintes
não só participam das promoções,
mas dão sugestões e aproveitam para
registrar algumas reclamações de ordem
particular.
3. Formação de radialistas
“Ninguém educa ninguém, ninguém se
educa a si mesmo, os homens se educam
entre si, mediatizados pelo mundo.” (Paulo
Freire)30
Citar Paulo Freire significa trazer à
tona as idéias motivadoras do que se
pretende ao apontar a terceira vertente de
atuação do Programa de Educação Aberta
Via Radio: a formação dos radialistas.
A tônica desse trabalho, um processo em
curso desde 2003, nos remete à necessidade
de transferência à população das
ferramentas comunicacionais, na busca
pela democratização da comunicação e
pela leitura crítica dos meios. No caso
dos radialistas da rede de rádios Sintonia
Sesc-Senac, isso significa capacitá-los para
atuarem como comunicadores cidadãos
e agentes multiplicadores, “regionalizadores”
dos conteúdos dos programas
distribuídos.
Nesse sentido, após cinco anos de
veiculação da série Espaço Senac, de 1996
a 2000, e um ano e meio (2002-2003) do
Sintonia Sesc-Senac, por solicitação da
Diretoria de Formação Profissional do
Senac Nacional, foi realizado um seminário
com a finalidade de avaliar e refletir
sobre a programação da série, para subsidiar
a produção a partir de 2003. Embora
houvesse avaliações sistemáticas ao
fim de cada série, com a participação dos
componentes da rede de produção e uma
pesquisa respondida pelos radialistas,
esse seminário31 trazia a novidade de
contar com a reflexão de especialistas das
áreas de Educação e Comunicação convidados
a opinarem sobre a eficácia do
Sintonia Sesc-Senac como proposta radioeducativa.
Depois de ouvirem de forma
crítica os programas, os especialistas
prepararam um comentário escrito com
base no seguinte roteiro de análise:
Considerando os itens conteúdos,
formato, linguagem, estilo e locução/
apresentação:
1. O programa tem uma abrangência
que atende à diversidade cultural do
Brasil?
2. O programa possibilita que o ra-dialista atue de forma flexível, adequando-
o às necessidades e interesses de seu
público, de sua comunidade?
3. O programa desperta o interesse
e motiva a participação do ouvinte?
4. Tendo em vista o seu caráter educativo
e os padrões atuais da linguagem
radiofônica, o programa explora todo o
potencial da linguagem do meio?
5. Recomendações e sugestões.
O resultado dessa reflexão foi apresentado
no Seminário sobre Linguagem
Radiofônica, em 29 de maio de 200332,
na sede do Departamento Nacional do
Senac. Embora houvesse unanimidade
quanto à qualidade dos programas, dentre
as conclusões a que chegaram os especialistas,
em conjunto com a equipe de
produção do Sintonia Sesc-Senac, estavam
a necessidade de uma maior participação
dos ouvintes no programa e a de
flexibilizar a programação de modo a
garantir a inserção de mensagens, informações
e conhecimentos oriundos das
localidades alcançadas pela veiculação dos
programas. Enquanto a primeira, tinha
como argumento a defesa de uma proposta
educacional que reconhece os saberes
pragmáticos do público/ouvinte
como elemento primordial para a construção
do processo de educação a distância
via rádio, a segunda visava atender à
diversidade das diferentes comunidades
atingidas pelos programas.
A pertinência dessas observações influiu
na decisão de reestruturar a proposta
do projeto, na confiança de que a
experiência de incluir “saber e cultura
local” na programação da série Sintonia
Sesc-Senac poderia ampliar o caráter educativo
de um trabalho já reconhecido
nacionalmente. Em um dos relatórios
documentais do Seminário, esta certeza
é justificada da seguinte forma:
De acordo com uma pesquisa recente,
realizada com os radialistas que veiculam
a série, a maioria reconhece que o programa
é um sucesso, mas dentre as sugestões
mais mencionadas se encontra aquela que
aponta para a necessidade de “uma maior
regionalização do programa”.33
Como resultado do Seminário, constatou-
se a necessidade de traçar uma
estratégia de formação dos radialistas,
para trabalhar os conhecimentos técnicos
sobre o uso das ferramentas da comunicação
radiofônica para melhor “regionalizar”
os programas, disseminar e
compartilhar com os ouvintes os conteúdos
abordados em cada um deles,
além de estimulá-los a produzir uma
programação própria, compatível com a
voz local. (BIANCO,2000)34.
O Plano de Formação do Radialista35,
elaborado logo em seguida como
parte dessa estratégia, tratou, em primeiro
lugar, de propor a publicação de um
libreto com sugestões de regionalização
dos programas e de técnicas de radiojornalismo
que poderiam ser utilizadas para
tal intento. Dessa forma, foi criada a
Cartilha do Radialista36, que, em um
diálogo direto com o comunicador, privilegia
informações sobre o papel do
rádio na educação para a cidadania, troca
idéias sobre a importância de se fazer
uma programação de qualidade – nada
adianta tratar com excelência o conteúdo
do rádio educativo se a programação não
for suficientemente atrativa, capaz de
cativar a audiência –, além de resgatar
junto aos radialistas as técnicas adequadas
para explorar o Sintonia Sesc-Senac
localmente. Junto à Cartilha seguem dois
CDs: um de capacitação – as técnicas
radiofônicas propostas pela Cartilha seguem
também em áudio para facilitar a
exemplificação –, e outro CD com uma
campanha de combate à fome, com cinco
spots contendo mensagens sobre o desperdício
de alimentos, ofertado ao radialista
pelo projeto Sintonia.
A partir de 2004, ao aderirem à rede,
os comunicadores passaram a receber a
Cartilha do Radialista. O Plano de Formação
do Radialista prevê também a
criação de uma lista de discussão com a
participação dos radialistas da rede e dos
correspondentes dos Departamentos
Regionais do Sesc e do Senac; a promoção
de um encontro dos correspondentes
do rádio e a elaboração de um guia
dos correspondentes. Com o objetivo
de abrir um espaço para troca de idéias e
de experiências e tendo em vista a proposta
de regionalizar o programa de rádio,
está sendo construído um site interativo,
disponível, prioritariamente, para
todos envolvidos na produção e veiculação
do programa Sintonia Sesc-Senac. A
fim de estender os conteúdos do site aos
radialistas que não têm acesso à internet,
será elaborado um boletim bimensal
com as principais informações do site.
Nesse trabalho de formação de radialistas
procura-se, sobretudo, criar as
condições necessárias para a produção de
uma comunicação própria e construção
de novos conhecimentos que venham,
de maneira efetiva, contribuir positivamente
para a vida de todos.
NOTAS:
1 BELLONI, Maria Luiza. O que é mídia e
educação. Campinas, SP: Autores Associados,
2001.
2 AZEVEDO, Solange Coelho de; QUELHAS,
Osvaldo Luís Gonçalves. Uma visão panorâmica
da educação a distância no Brasil.
Revista Brasileira de Tecnologia da Educação,
Rio de Janeiro, v. 32, n.ºs 163/166,
2005. p.16.
3 Id. ibid., p. 15.
4 FÁVERO, Osmar. Prefácio. In: SCOCUGLIA,
Afonso Celso. Educação de jovens
e adultos: histórias e memórias de década
de 60. Brasília: Plano, 2003. p. 3.
5 SANTOS, Aparecida Ribeiro dos. A igreja
católica, a mídia e a educação de popular:
MEB: a utopia destruída. 2002. PCLA –
Revista Científica Digital, São Paulo,
Cátedra Unesco de Comunicação para o
Desenvolvimento Regional, v. 3 , n. 4, jul./
ago., 2002. Disponível em: <
www.2.metodista.br>.
6 AZEVEDO, Solange Coelho de; QUELHAS,
Osvaldo Luís Gonçalves. (2005).op. cit.
7 CARVALHO, Marcus Aurélio de. Radialistas
pensantes, comunicadores integrais.
Rio de Janeiro, [s. n.], 2003. Mimeo. Apostila
do Curso Comunicador Integral da ONG
UNIRR. p. 6.
8 Regidas pela Lei 9.612, de 19/02/1998, da
Radiodifusão Comunitária, essas rádios são
entidades coletivas sem fins lucrativos,
algumas atuantes no movimento de democratização
dos meios de comunicação,
devem ser totalmente livres de vínculos
com partidos políticos ou filosofias de
teor exclusivista. (N.A.)
9 DUARTE, Rosália. Panorama mundial dos
estudos em mídia-educação. [s. : l. : s. n.]
2005. Mimeo. p. 1-2.
10 Id. ibid.
11 Os chamados Estudos de Recepção se
disseminaram, no Brasil, através do trabalho
de pensadores latino-americanos como
Jésus Martin-Barbero, Nestor Garcia Canclini,
Mauro Wilton de Sousa e Guilhermo
Orozco.
12 Informações contidas no site da União
Cristão Brasileira de Comunicação:
www.ucbc.org.br.
13 Entre elas: OAB – Ordem dos Advogados
do Brasil; UCBC – União Cristã Brasileira
de Comunicação Social, Sindicato e Federação
de Jornalistas, de Radialistas; CUT-RJ
Central Única dos Trabalhadores, FITERT
– Federação Interestadual dos Trabalhadores
em Radiodifusão e Televisão, SINTEL
– Sindicato das Indústrias de Telecomunicações,
ONGs etc.)
14 Esse debate municiou a publicação do livro
Jornalistas pra quê? Os profissionais diante
da ética. Publicado pelo Sindicato dos
Jornalistas Profissionais do Município do
Rio de Janeiro, organizado pelos jornalistas
Chico Nelson, Nilton Santos, Solange
Noronha e Sylvia Moretzohn, 1989.
15 Criado informalmente em abril de 1991, o
FNDC foi oficialmente instituído como
pessoa jurídica em 20 de agosto de 1995,
por deliberação da VI Assembléia, que
contou com a participação de 49 delegados,
representantes de 17 entidades nacionais e
13 comitês regionais.
16 Informações disponíveis no site do Fórum
Nacional pela Democratização da Comunicação:
www.fndc.org.br.
17 MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos meios às
mediações : comunicação, cultura e hegemonia.
Ed. Rio de Janeiro: Ed. Uerj, 2001.
p. 263.
18 Spots, no jargão radiofônico, são produções
de curta duração (de 30 segundos a dois
minutos’), que se prestam à “propagandear”
campanhas educativas, de serviço e
publicitárias.
19 Entenda-se democratização da comunicação
como a possibilidade de transferência
de conhecimento técnico do uso das ferramentas
comunicacionais, para que a população
usufrua ela própria do direito de
fazer comunicação, além de ser receptora
critica e interferir na programação dos
meios de comunicação.
20 FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
21 Dados do último envio de CDs, em dezembro
de 2005.
22 José Ignácio Lopez Vigil, radialista, capacitador
popular no ensino das técnicas de
comunicação, ministrou cursos e oficinas,
em toda América Latina e Caribe, sobre
produção radiofônica, além de publicar
trabalhos sobre o tema.
23 VIGIL, Ignácio López. Manual urgente
para radialistas apasionados. 1ª ed.. Quito:
Amarc, 1997.
24 Efeitos sonoros ou nomeações de quadros
acompanhadas de música, que são usados
para separar os assuntos abordados durante
o programa e/ou a programação diária da
emissora.
25 Na produção jornalística, personagem é o
entrevistado (a) que ilustra exemplarmente
a reportagem.
26 Tema musical personalizado que abre, identificando,
uma série de programas.
27 KAPLÚN, Mário. El comunicador popular.
Quito: Ciespal, 1985. p.119.
28 VIGIL, Ignácio López. (1997). op. cit.,
p. 57-58.
29 Id. ibid., p. 59- 60.
30 FREIRE, Paulo. Ver site: http://
www.pucsp.br/paulofreire/principal.htm.
31 SEMINÁRIO SOBRE LINGUAGEM RADIOFÔNICA,
Rio de Janeiro, 19, maio, 2003.
Rio de Janeiro: Senac/Dn, 2003. Mimeo.
32 Id. ibid.
33 SENAC. DN. Anteprojeto de Formação de
Radialistas. Rio de Janeiro, Cead, 2003.
Mimeo.
34 BIANCO, Nélida R. Del. Radio a serviço
da comunidade. Comunicação e Educação,
São Paulo, v. 18, p. 22 -35, maio/
ago.2000. p. 34.
35 A formação deve ser entendida aqui como
um processo, um exercício de aquisição de
novos instrumentos de análise e planejamento
para fortalecimento de uma prática
social determinada. RIBEIRO, Eliane Andrade.
Plano de formação de radialistas.
[s.l.: s.n.]: .2003. Mimeo. p.10.
36 SENAC. DN. Cartilha do radialista / Rosângela
Fernandes; Valéria Mendonça. Rio
de Janeiro : Ed. Senac Nacional, 2003. 40 p.
Il. Inclui 2 CD-ROM.
RESUMEN
Valéria Márcia Mendonça. Programa
“Sintonía Sesc Senac”: una
experiencia radiofónica de educación
a través de los medios.
La educación popular, no formal, de
carácter abierto, mediada por la tecnología
de comunicación radiofónica, es
una de las posibilidades de Educación a
Distancia (EAD) cuando se buscan
nuevos caminos y soluciones para la
enseñanza y el aprendizaje permanente.
Este trabajo presenta la experiencia
de la educación abierta a través de la
radio realizada desde 1996 por el Centro
de Educación a Distancia (Cead)
del Senac Nacional y por la Gerencia de
Difusión y Promoción Institucional
del Departamento Nacional del Sesc.
En él se apuntan las referencias teórico-
metodológicas, la estructura educacional
y de comunicación, los procesos
de producción y la formación en red de
los radiodifusores de este proceso de
educación a través de los medios.
Palabras-clave: Educación; Medios;
Radio Educativa; Educación a Distancia;
Educación Popular; Comunicación
Popular; Democratización de la
Información; Ciudadanía; Producción
Radiofónica; Radiodifusión Comunitaria;
Red.