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Revista Senac e Educação Ambiental

Ano 12 Número 2 - Abril / Agosto 2003

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ENTREVISTA

Conhecido por suas posições contundentes, o deputado federal Fernando Gabeira se mostra cauteloso ao avaliar a atuação do Governo Federal, na área ambiental, mas não se furta a analisar criticamente temas como a liberação dos transgênicos e a importação de pneus usados
André Trigueiro


Fernando Gabeira traz na biografia a marca da autenticidade e, coisa rara nos políticos, defende idéias que muitas vezes não agradam à maioria dos colegas no Parlamento ou não são bem entendidas pelo eleitorado. Foi assim quando propôs a descriminalização da maconha, e tem sido assim ultimamente nas discussões para a regulamentação da profissão de prostituta. Mas a luta em favor do meio ambiente e da sustentabilidade o tornou um símbolo do movimento ambientalista e um dos pioneiros na defesa desses assuntos no Congresso. De fala mansa e olhar compassivo, esse mineiro de Juiz de Fora se transforma num leão quando descobre uma nova causa a ser defendida.

Jornalista, escritor e deputado federal pelo Partido dos Trabalhado Engenheiro civil res do Rio de Janeiro, Gabeira é capaz de denunciar publicamente o que considera errado no governo Lula quando o que estiver em jogo forem as suas convicções e princípios. E é assim que ele segue, sempre de bicicleta, na direção das coisas em que acredita, enfrentando tabus, preconceitos e outros obstáculos que demandam pedaladas firmes e, às vezes, surpreendentes.

S&EA – Quando o então presidente eleito Luis Inácio Lula da Silva anunciou em Washington o nome de Marina Silva para o Ministério do Meio Ambiente, imaginava-se que a questão ambiental seria tratada como prioridade pelo atual governo. Para parte expressiva dos ambientalistas, essa previsão não se confirmou. Que avaliação o senhor faz do governo Lula quando o assunto é meio ambiente?

Gabeira – É muito cedo para fazer avaliações definitivas. Quem acompanhar o processo, verá que tenho feito críticas pontuais. A primeira foi contra a decisão de importar pneus usados do Uruguai e Paraguai. As outras dizem respeito à lentidão na montagem do trabalho nacional sobre mudanças climáticas e à quebra do compromisso de fazer com que a taxa de água paga nas bacias seja aplicada nas próprias bacias. Como a decisão do governo de construir Angra 3 é ainda um pouco retórica, decidi encará-la um pouco mais à frente. A ministra Marina Silva é uma excelente criatura, dedicada ao meio ambiente e muito fiel ao governo. Mas o comportamento do PT diante da questão ambiental não é diferente do assumido pelos social-democratas. A mística do crescimento econômico e criação de novos empregos ainda é dominante e os problemas ambientais são considerados externalidades que devem ser superadas, com habilidade, mas superadas.

S&EA
– O que levou o governo Lula a autorizar a importação de pneus velhos? Por que razão essa medida foi autorizada?

Gabeira – Considero impossível precisar a causa que fez o governo aceitar essa importação. O próprio governo diz que fez isto para respeitar uma decisão arbitral do Mercosul. Na verdade, sua intenção, a julgar pelo que diz, é fortalecer este acordo e mostrar que respeita seus códigos. No entanto, países do Mercosul, como a Argentina, e não-membros, como a Venezuela, proíbem a importação de pneus usados. Além disso, foi fechada uma fábrica no Uruguai que empregava 500 operários e produzia pneus novos. Agora, os pneus serão importados da Europa e revendidos para o Brasil, ocupando apenas 22 pessoas. Em síntese, se isso é proteger o Mercosul, creio que o acordo está entregue às baratas.

S&EA – O senhor denunciou o bloqueio dos recursos provenientes da cobrança pela captação de água bruta nos Comitês de Bacias Hidrográficas pelo governo federal. Qual a posição do governo Lula em relação à Agência Nacional de Águas (ANA)? É verdade que se deseja tirar da ANA algumas das atribuições e poderes que a agência hoje dispõe?

Gabeira – A discussão sobre a amplitude do trabalho das agências não se limita à ANA. O governo começa a aceitar a importância da ANA não só pela grande qualidade técnica dos seus quadros mas porque percebeu a importância do tema. Os funcionários aprovados em concurso foram contratados por medida provisória. Acredito que mais do que em outros setores, ANA e governo vão convergir positivamente

S&EA
– O senhor criticou publicamente o fato de o Brasil ter perdido a posição de vanguarda nas negociações do clima. O que aconteceu?

Gabeira – No caso do clima, demonstrou-se o acerto da equipe que trabalhava no tema e foi a autora da proposta do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), incorporada como um instrumento do Protocolo de Kioto. Mas o ministro de Ciência e Tecnologia não deu importância ao tema porque supôs que interessasse apenas aos países ricos.
Precisamos formular as regras internas para a aplicação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, porque, em setembro, o Protocolo de Kioto entra em vigor, caso a Rússia, como se espera, o ratifique.


S&EA
– Parte expressiva dos parlamentares da bancada ruralista defende a liberação dos transgênicos no Brasil. Dentro do governo, trava-se uma disputa entre os ministérios da Agricultura (pró-transgênico) e do Meio Ambiente (contra, até que se prove que não há danos à saúde e ao meio ambiente). O que falta para o Brasil decidir, através de uma legislação específica, a questão dos transgênicos?


Gabeira – O que falta ao Brasil para decidir sobre os transgênicos é um conhecimento qualificado do problema. Muita gente diz que não deve permitir e outros dizem que se deve permitir, sem conhecer o problema. Pelo princípio de precaução, os que se colocam contrários são menos perigosos embora saibam tão pouco quanto os favoráveis.
Minha proposta é que se faça como fizeram os ingleses, visitando o Canadá e Estados Unidos, examinando a questão lá, onde os transgênicos são plantados. Uma boa pista são os inúmeros processos na justiça movidos por fazendeiros que tiveram suas plantações contaminadas.

S&EA
– O governo Lula determinou que os produtos que possuem ingredientes transgênicos tragam essa informação nas embalagens. Por que essa lei não é cumprida?


Gabeira – A rotulação é um projeto que apresentei na Câmara e foi absorvido também pelo governo Fernando Henrique. No entanto, a estrutura de fiscalização é muito precária. O governo aceita, mas não monta a estrutura necessária.


S&EA
– Um projeto de sua autoria prevê mudanças nas tributação dos produtos recicláveis. Quais os benefícios dessa medida?

Gabeira – Os reciclados pagam IPI quando novos e depois de reciclados. Portanto, pagam duas vezes. É preciso isentá-los. Existem ainda inúmeras emendas para a reforma tributária, visando a reforçar o princípio poluidor-pagador e estimulando o ICMS verde. São medidas que melhoram a distribuição de verbas para municípios que protegem mananciais e florestas.

S&EA
– Na gestão passada, o ex-deputado Emerson Kapaz não conseguiu aprovar o chamado Plano Nacional de Resíduos Sólidos, que regulamentava a destinação de todos os resíduos (matéria orgânica, lixo hospitalar, materiais tóxicos, perigosos, radioativos, etc.), responsabilizando as indústrias pelo ciclo de vida dos produtos, como acontece nos países ricos. O que aconteceu com esse projeto?

Gabeira – O Relatório Kapaz não chegou a ser votado. Precisamos rediscutir o tema e aprová-lo com rapidez. O núcleo de meio ambiente do PT o coloca como uma de suas prioridades. No momento, o Congresso só quer saber das reformas. Temos de esperar um pouco mais.

S&EA
– A ministra Marina Silva tem conseguido atrair outros ministérios para a solução de problemas que até então eram exclusivos da pasta dela. O programa de combate ao desmatamento e às queimadas foi discutido por onze ministérios, logo depois do anúncio dos novos números do desmatamento no Brasil (25 mil km² no ano passado, a segunda maior estatística desde o início das medições). Que avaliação o senhor faz desses esforços da ministra Marina na direção do que ela reiteradas vezes chama de transversalidade?

Gabeira – A ministra Marina Silva avançou na transversalidade e continua trabalhando para que outras pastas incorporem a variável ambiental. A grande incógnita é o Plano Plurianual. Até que ponto planejamento e variáveis ambientais estarão entrelaçados? Até que ponto vamos repetir os erros do programa Avança Brasil?

S&EA
– Muitos ambientalistas acusam o ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu de dar pouca importância à questão ambiental. Isso é verdade?

Gabeira – Eu o conheço pouco e sinto, à distância, que dá muito importância ao fato de estar no governo. Mas não saberia dizer se o ministro José Dirceu dá pouca importância ao meio ambiente.

S&EA
– Qual o prestígio dos assuntos ambientais hoje no Congresso Nacional?

Gabeira – No Congresso foi criada uma frente ambiental suprapartidária que congrega cerca de 50 deputados. Discutimos, divergimos e de vez em quando atuamos juntos. Posso dizer que o interesse pelo meio ambiente é crescente.

S&EA
– Quais são os maiores problemas ambientais do Brasil hoje?

Gabeira – Falta de saneamento básico, destruição dos rios, desmatamento e queimadas, poluição urbana... os problemas são os de sempre.

S&EA
– O senhor é o responsável pelo projeto que transforma as Ilhas Cagarras, no litoral do Rio de Janeiro, em Parque Nacional. Qual a importância desse ecossistema?

Gabeira – As Ilhas Cagarras são um monumento ecológico diante das praias do Rio. Servem aos pássaros (daí seu nome, pois eles fazem cocô na pedra), são área de mergulho, abrigam peixes raros. A Marinha ofereceu uma casa na Ilha Rasa para a administração, e poderíamos organizar melhor os mergulhos na área, ajudando a preservá-la.

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