MATÉRIA
DE CAPA
CARVOARIAS
Um desastre ambiental e humano
Texto e fotos: João Roberto Ripper
A destruição de matas nativas para alimentar carvoarias é um problema ambiental praticamente ignorado no país. Assim como as desumanas condições de vida dos carvoeiros - homens, mulheres e crianças aprisionados a um trabalho que os mantém na miséria e lhes rouba a saúde e a esperança de dias melhores
O céu é uma
moldura cinza e carregada de nuvens assustadas, censuradas, querendo
chover. Mas é o Sertão mineiro, e a chuva está proibida em Rio
Pardo de Minas, nesses meses de meado do ano. A terra, saudosa
de ter sido floresta de Cerrado, mas já sem esperança de água
boa, agoniza sob uma poeira cinza. Conformada, observa, com olhar
melancólico, o despertar do dia, com os primeiros raios de sol,
afoitos, correndo como crianças buscando alcançar as próprias
sombras e contornando, em silhueta, 80 fornos de carvão.
Ali,
os carvoeiros já trabalham desde a madrugada, ao som seco de tosses
repetidas. Enchem e esvaziam fornos, enchem sacos de carvão e
pulmões de fuligem. Como num deserto negro, sob vento de areia
preta, José dos Santos trabalha solitário e solidário com o parceiro
que, enfermo, não veio para a labuta. Trabalha dobrado para carregar
o caminhão com capacidade para 24 toneladas. Não reclama da vida,
não reclama das dores nas costas nem da tosse. Os olhos choram
às vezes, mas quase todos, algum dia, choram no carvão. Deve ser
a fuligem; se é algo do coração, todos disfarçam, ninguém sabe
não.

José dos Santos tem 27 anos e trabalha desde os 10. Há nove, transporta
sacos de carvão. Normalmente trabalha com mais três companheiros:
dois ensacando e um carregando nas costas sacos que chegam a 40
kg. Esse trabalhador sobe cerca de 450 vezes uma escada, com os
sacos nas costas, para encher um caminhão. Tem empreitas em que
sobe 600 vezes, quando o caminhão é grande. Como enche dois caminhões
por dia, pode chegar a subir e descer 1.200 vezes com 40 kg nas
costas.
Alguns dias há dois carregadores para subir no caminhão, e essa
tarefa é dividida. Recebem por produtividade, por carga executada.
Curiosamente, o salário não aumenta quando o caminhão comporta
600 sacos, mas baixa quando, por motivos alheios à vontade do
trabalhador, não tem caminhão para dois carregamentos.
Começam
a trabalhar às 2 horas da manhã. Eles vêm de longe, em bicicletas,
porque a firma, a empreiteira Carvoaria e Transporte Irmãos Santos
Ltda., apesar do nome, não fornece transporte para os carvoeiros.
Toda a produção vai para a Siderúrgica Gerdau S/A. Alguns trabalhadores
demoram duas horas de bicicleta para ir, duas pra voltar e trabalham
14 horas por dia. José, por exemplo, é um deles: “Perco quatro
horas do dia indo e vindo e me revolto calado todos os dias. Esse
serviço é muito ruim. Pego muito cedo porque o sol acaba com a
gente e, às vezes, só saio daqui às 4 da tarde. Só estudei até
a segunda série completa e mal sei assinar o nome. Meus filhos
estudam, e não quero que sejam carvoeiros.”
Na mesma equipe de
José dos Santos trabalha o ensacador Francisco Ramos Sales, de
43 anos, desde os oito na labuta. Nascido em Rio Pardo (MG), é
divorciado e está casado pela segunda vez. Tem seis filhos dos
dois casamentos. Os filhos estudam, mas ele só fez a primeira
série. “Quem faz esse trabalho é porque não tem outro. A gente
fica cativo da pobreza e da ignorância. Como tem gente assim...
O empreiteiro tem sempre trabalhador”.
José dos Santos está tentando romper uma corrente perversa que
alimenta uma cadeia de trabalho degradante nas carvoarias brasileiras,
assim como nos sisais, nas fazendas, nos canaviais, nas pedreiras
e em vários setores do segmento rural que produzem para as indústrias
urbanas. O trabalhador que vive de uma atividade degradante, ou
análoga ao trabalho escravo, é, na sua imensa maioria, analfabeto
e foi explorado como trabalhador infantil. Aconteceu assim com
seus pais e seus avós. O caminho normal é a história se repetir
com os filhos e netos.
Infelizmente, ainda não existe no Brasil
uma política social que faça a associação entre trabalho infantil
e trabalho degradante, análogo a escravo ou escravo, de forma
a romper esse círculo. A realidade é que o trabalhador escravo
de hoje foi o trabalhador infantil de ontem.
“A gente custa muito pra entender que nasceu pra ser peixe de
engordar gato que engorda rico e, em casa, a gente fabrica com
todo amor os próximos peixinhos. Pra fugir disso, botei todo mundo
pra estudar, mas sinto um aperto no peito porque sei que o ensino
é muito ruim. Filho de pobre, mesmo depois de estudar um, dois,
quatro anos, continua analfabeto”.
As palavras de José expressam de forma simples o drama desses
trabalhadores que recebem, em média, um salário mínimo, situação
vivida por milhões de brasileiros. Mas a realidade do trabalho
nas carvoarias brasileiras merece uma análise diferenciada. Muitas
vezes, o trabalho não é considerado trabalho escravo, outras vezes
sim. Porém, sempre é um trabalho extremamente pesado e, quase
sempre, mesmo em casos de carteira assinada, um trabalho degradante.
Acaba com a saúde do trabalhador. Olhar uma carvoaria em pleno
vapor é, do ponto de vista humanitário, algo inaceitável.
As fórmulas encontradas para explorar os carvoeiros e burlar a legislação trabalhista têm nuanças diferentes em alguns estados, como Minas Gerais, Maranhão e Mato Grosso do Sul, onde se concentram mais de 100 mil trabalha dores carvoeiros explorados por siderúrgicas e madeireiras. Contudo, existe sempre um fator comum. Quem mais lucra quase nunca contrata. As siderúrgicas não consideram a retirada do carvão um trabalho-fim, mas meio para a produção do ferro e do metal . Por isso, contratam as empreiteiras, terceirizam o trabalho e, dessa forma, como Pilatos, lavam as mãos da responsabilidade sobre o calvário do carvoeiro.