MATÉRIA
DE CAPA
continuação
CARVOARIAS
Um desastre ambiental e humano
Texto e fotos: João Roberto Ripper
O
dia é escaldante no Vilarejo do Pacuí 2, na grande comunidade
Quilombola Gurutubana, norte de Minas Gerais. Ficar quieto e contemplativo
é uma forma de cumplicidade com a natureza, que parece chorar
o seu destino nesses lados do sertão mineiro.Tudo é silêncio,
às vezes não se escuta nem o vento. Logo, uma brisa teima em desafiar
o sol e romper o silêncio, e faz migrar consigo, num vôo sonoro,
uma ciranda de sorrisos, gritos e conversas animadas de crianças
que caminham carregando gravetos. Trazem nos braços finos galhinhos
raquíticos, restos mortais de desmatamentos adultos da reserva
de cerrado que as siderúrgicas compram, transformado em carvão.
Existem vários forninhos onde as crianças produzem carvão e esperam
o caminhão das empreiteiras passar para trocar pela garantia de
cadernos, lápis e borrachas para poderem estudar. São muitas crianças
que trabalham nos quintais de suas casas. Iranildo, Valdinéia,
Rosinete, Diane, Tatiane, Waldeir, rostos e mãos negros de carvão
e muitos sonhos nos corações. Todo o grupo que vem gingando, pulando
entre o real e o sonho, entre a infância e o adulto, tem entre
três e oito anos.
“Tem um tantão de saco de carvão pronto. Um tantão é muito. Você
sabe o que é muito? O último caminhão levou seis sacos de carvão”,
diz Valdir Farias, de seis anos.
O metro cúbico de carvão custa R$3,50. Todas as crianças trabalhando
conseguem, às vezes, produzir dois metros cúbicos. Marinete, Valdeir,
Dario, Simone, Maria estão entre os maiores, têm entre sete e
17 anos. Ainda guardam sonhos, corpos magros, já percebem a pobreza
de uma forma mais adulta, mas guardam a herança da resistência
negra; afinal, vivem numa comunidade quilombola.
“Aqui todas as crianças estudam. Quando nossos pais eram pequenos,
não existia escola. Agora tem”, explica Marinete Farias, de 10
anos, que é a mais adiantada das crianças, cursa a 4ª série. Entre
todas as crianças da região, apenas uma ganha R$15,00 de bolsa-escola.
A maioria das crianças é da família Garcia de Farias, cujo patriarca,
de 75 anos, é Juvenal José dos Santos. Muito magro e bem doente,
é tratado com carinho. Caminha em passos lentos, escondendo no
bolso do pijama o cigarrinho que, às vezes, pita, escondido, alimentando
sua tuberculose, quase tão antiga quanto a história que carrega
e conta, vez por outra, aos filhos e netos, que anotam e guardam
em alguns cadernos de histórias quilombolas.
Clemente Garcia de Farias tem 54 anos, é casado com Dominga Bispa
da Silva, de 55 anos. Agora é o chefe da casa. A família de Clemente
é uma das maiores e também mais pobres da região. Nove casas,
em três hectares de terra, abrigam 39 pessoas, 16 trabalhando
em fazendas da região. Clemente e Dominga tiveram 16 filhos, 14
vivos. Dois morreram do “mal dos sete dias”. O casal tem 20 netos,
sendo que três morreram. Dois do “mal de sete dias” e o outro
com menos de um ano de idade.
Clemente começou a trabalhar com 10 anos, e seus filhos trabalham
desde os seis. Nem ele, nem a mulher estudaram, e os filhos nunca
passaram da primeira série, à exceção de dois: Maria, de 17 anos,
e Romildo, de 16 anos, que estão estudando. Os demais são todos
analfabetos. Os netos estudam e trabalham, fazendo forno de carvão
com gravetos de cerrado.
“Tô quebrado, não tenho renda nenhuma. Tô nas mãos de Deus”. Clemente,
com seu corpo esguio e gestos calmos, guarda uma espontaneidade
no falar. Parece não existir revolta, mas sim uma aceitação que
não se acomoda nunca, sempre busca uma fresta, um caminho por
onde mudar.
O momento pelo qual toda a comunidade quilombola da região está
passando é extremamente difícil, e a esperança de Clemente balança
em alguns momentos da sua conversa. “Aqui tem mês que não ganho
um centavo. Sou um escravo da fome, e por isso tenho que aceitar
qualquer trabalho por qualquer valor, mesmo que não receba. Não
consigo pagar uma conta de R$30,00. Tô passando um aperto, devendo.
A gente é obrigado a viver dessa maneira por que não tem jeito.
A fome encosta, a fraqueza chega, e se chega uma febre a gente
pode morrer”.
Clemente não exagera no seu drama. Já passou fome e dividiu entre
filhos e netos a pouca comida que arranjou. Ainda assim ele acredita
na organização da comunidade e espera por dias melhores. “Tô lutando
junto com o pessoal para formar a Associação Quilombola, mas nem
dou conta. Tenho que andar com um e outro no colo. Seu homem,
o carinho espanta a fome da criança”.