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Revista Senac e Educação Ambiental

Ano 12 Número 2 - Abril / Agosto 2003

MATÉRIA DE CAPA
continuação

CARVOARIAS
Um desastre ambiental e humano

Texto e fotos: João Roberto Ripper

O dia é escaldante no Vilarejo do Pacuí 2, na grande comunidade Quilombola Gurutubana, norte de Minas Gerais. Ficar quieto e contemplativo é uma forma de cumplicidade com a natureza, que parece chorar o seu destino nesses lados do sertão mineiro.Tudo é silêncio, às vezes não se escuta nem o vento. Logo, uma brisa teima em desafiar o sol e romper o silêncio, e faz migrar consigo, num vôo sonoro, uma ciranda de sorrisos, gritos e conversas animadas de crianças que caminham carregando gravetos. Trazem nos braços finos galhinhos raquíticos, restos mortais de desmatamentos adultos da reserva de cerrado que as siderúrgicas compram, transformado em carvão.

Existem vários forninhos onde as crianças produzem carvão e esperam o caminhão das empreiteiras passar para trocar pela garantia de cadernos, lápis e borrachas para poderem estudar. São muitas crianças que trabalham nos quintais de suas casas. Iranildo, Valdinéia, Rosinete, Diane, Tatiane, Waldeir, rostos e mãos negros de carvão e muitos sonhos nos corações. Todo o grupo que vem gingando, pulando entre o real e o sonho, entre a infância e o adulto, tem entre três e oito anos.

“Tem um tantão de saco de carvão pronto. Um tantão é muito. Você sabe o que é muito? O último caminhão levou seis sacos de carvão”, diz Valdir Farias, de seis anos.

O metro cúbico de carvão custa R$3,50. Todas as crianças trabalhando conseguem, às vezes, produzir dois metros cúbicos. Marinete, Valdeir, Dario, Simone, Maria estão entre os maiores, têm entre sete e 17 anos. Ainda guardam sonhos, corpos magros, já percebem a pobreza de uma forma mais adulta, mas guardam a herança da resistência negra; afinal, vivem numa comunidade quilombola.

“Aqui todas as crianças estudam. Quando nossos pais eram pequenos, não existia escola. Agora tem”, explica Marinete Farias, de 10 anos, que é a mais adiantada das crianças, cursa a 4ª série. Entre todas as crianças da região, apenas uma ganha R$15,00 de bolsa-escola.

A maioria das crianças é da família Garcia de Farias, cujo patriarca, de 75 anos, é Juvenal José dos Santos. Muito magro e bem doente, é tratado com carinho. Caminha em passos lentos, escondendo no bolso do pijama o cigarrinho que, às vezes, pita, escondido, alimentando sua tuberculose, quase tão antiga quanto a história que carrega e conta, vez por outra, aos filhos e netos, que anotam e guardam em alguns cadernos de histórias quilombolas.

Clemente Garcia de Farias tem 54 anos, é casado com Dominga Bispa da Silva, de 55 anos. Agora é o chefe da casa. A família de Clemente é uma das maiores e também mais pobres da região. Nove casas, em três hectares de terra, abrigam 39 pessoas, 16 trabalhando em fazendas da região. Clemente e Dominga tiveram 16 filhos, 14 vivos. Dois morreram do “mal dos sete dias”. O casal tem 20 netos, sendo que três morreram. Dois do “mal de sete dias” e o outro com menos de um ano de idade.

Clemente começou a trabalhar com 10 anos, e seus filhos trabalham desde os seis. Nem ele, nem a mulher estudaram, e os filhos nunca passaram da primeira série, à exceção de dois: Maria, de 17 anos, e Romildo, de 16 anos, que estão estudando. Os demais são todos analfabetos. Os netos estudam e trabalham, fazendo forno de carvão com gravetos de cerrado.

“Tô quebrado, não tenho renda nenhuma. Tô nas mãos de Deus”. Clemente, com seu corpo esguio e gestos calmos, guarda uma espontaneidade no falar. Parece não existir revolta, mas sim uma aceitação que não se acomoda nunca, sempre busca uma fresta, um caminho por onde mudar.

O momento pelo qual toda a comunidade quilombola da região está passando é extremamente difícil, e a esperança de Clemente balança em alguns momentos da sua conversa. “Aqui tem mês que não ganho um centavo. Sou um escravo da fome, e por isso tenho que aceitar qualquer trabalho por qualquer valor, mesmo que não receba. Não consigo pagar uma conta de R$30,00. Tô passando um aperto, devendo. A gente é obrigado a viver dessa maneira por que não tem jeito. A fome encosta, a fraqueza chega, e se chega uma febre a gente pode morrer”.

Clemente não exagera no seu drama. Já passou fome e dividiu entre filhos e netos a pouca comida que arranjou. Ainda assim ele acredita na organização da comunidade e espera por dias melhores. “Tô lutando junto com o pessoal para formar a Associação Quilombola, mas nem dou conta. Tenho que andar com um e outro no colo. Seu homem, o carinho espanta a fome da criança”.



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